Capítulo 8
Assim que as portas de vidro da sala de reuniões deslizaram abertas, o efeito foi instantâneo. O zumbido de conversas paralelas morreu como se alguém tivesse cortado o cabo de áudio do mundo. O silêncio que se instalou não era respeitoso; era pesado, carregado de estática e tensão.
Toni entrou, o clique rítmico de seus saltos soando como tiros de advertência no piso polido. Ela sentia os olhares de todos grudarem nela como velcro, escaneando, julgando.
A primeira a notar foi, previsivelmente, a espiã.
Natasha Romanoff estava recostada em sua cadeira, girando uma caneta entre os dedos. Seus olhos verdes, treinados para notar detalhes que escapariam a um microscópio, fixaram-se imediatamente no pescoço de Toni. O olhar dela desceu pelas marcas violáceas, subiu para o rosto ligeiramente corado de Toni e depois deslizou para Naruto.
Um sorriso lento, felino e cheio de malícia curvou os lábios da Viúva Negra. Ela ergueu uma única sobrancelha em direção a Toni, uma comunicação silenciosa e divertida que dizia claramente: "Vejo que a noite foi satisfatória."
Toni segurou o sorriso triunfante, desviando o olhar para o outro lado da mesa, onde a temperatura parecia ter caído abaixo de zero.
Se olhares pudessem matar, Toni teria sido desintegrada a nível molecular ali mesmo. Sasuke e Gaara a encaravam com uma intensidade assassina. A mão de Sasuke tremia levemente sobre a mesa, próxima demais da espada, e os olhos de Gaara eram fendas escuras de promessas violentas. O ciúme e o ódio irradiavam delas em ondas palpáveis.
Ao lado delas, Shikamaru soltou um suspiro longo e profundo, esfregando as têmporas como se carregasse o peso de todos os problemas do universo. Ele parecia um homem que sabia exatamente o que tinha acontecido e já estava exausto só de pensar nas consequências diplomáticas e emocionais. Temari, por sua vez, ignorou Toni e olhava diretamente para a irmã.
E lá estava ele.
Naruto estava sentado com uma postura relaxada, as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Quando ele olhou para Toni, seu rosto exibia aquele mesmo sorriso de sempre: composto, radiante e exalando uma gentileza inofensiva.
Toni sentiu um curto-circuito mental.
Aquele homem, que agora parecia a própria imagem da serenidade e do autocontrole, não tinha absolutamente nada a ver com a força da natureza que a prensou contra a parede do elevador horas antes. Não havia traço do animal que rosnou no ouvido dela, nem do amante insaciável que arrancou orgasmo após orgasmo de seu corpo trêmulo até que ela não soubesse mais o próprio nome.
Ela não sabia se ficava impressionada com a capacidade dele de compartimentalizar ou irritada por ele parecer tão... intocado. Enquanto ela sentia cada músculo doer deliciosamente a cada movimento, ele parecia fresco como uma manhã de primavera.
O desconforto se espalhava pelo resto da sala. Clint, Bruce e Sam mexiam em papéis ou olhavam para o teto, evitando fazer contato visual com qualquer um, como crianças que sabem que os pais estão prestes a brigar. Eles lançavam olhares furtivos e nervosos para a cabeceira da mesa.
Para Steve Rogers.
E, ah... o Capitão era uma visão de caos contido.
Apesar de toda a sua postura de líder estóico, a máscara de Steve estava rachando. Ele estava rígido como uma barra de ferro, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a borda da mesa. Seus olhos azuis não estavam no rosto de Toni; estavam fixos, com uma precisão laser, nas marcas roxas que adornavam o pescoço dela.
Toni viu a mandíbula dele trincar. Viu a respiração dele ficar pesada. O olhar dele saltou das marcas para Naruto, carregado de um ódio puro e venenoso, como se quisesse atravessar a mesa e estrangular o ninja ali mesmo. Naruto, para seu crédito - ou talvez por pura provocação - nem piscou, mantendo o sorriso amigável.
Então, os olhos de Steve voltaram para Toni. E foi aí que a paciência dela, tão arduamente restaurada pelo sexo da noite anterior, começou a evaporar.
Havia traição no olhar dele. Uma mágoa profunda, acusatória, como se ela tivesse acabado de enfiar uma faca nas costas dele na frente de todos.
Sério? Toni pensou, sentindo a bile da irritação subir. Quanto tempo mais vamos ter que encenar essa ópera, Rogers?
A audácia daquele olhar era insultante. Ele agia como o marido traído, ignorando convenientemente o fato de que ele quebrou a confiança deles, ele a deixou para trás, e ele escolheu Bucky. Esse barco não tinha apenas zarpado; ele já tinha cruzado o oceano e atracado em outro porto muito mais interessante.
Toni sustentou o olhar dele com frieza, recusando-se a ajustar a gola da blusa ou demonstrar qualquer vergonha. Ela esperava sinceramente que o motivo dessa reunião fosse de vida ou morte, ou que Steve tivesse uma estratégia brilhante para apresentar. Porque se ele a tivesse arrastado da cama apenas para fazer uma cena de ciúmes disfarçada de briefing, nem todo o bom humor e relaxamento que Naruto lhe proporcionou seriam suficientes para impedir que ela explodisse aquela sala.
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Toni teve que dar o braço a torcer: Steve Rogers tinha um autocontrole invejável.
Ele engoliu a bile, empurrou o ciúme assassino para algum lugar fundo em seu estômago e, embora o olhar de "marido traído e mártir" ainda estivesse lá, queimando nas bordas de suas retinas, ele conseguiu iniciar a reunião com a voz firme de um soldado.
- Recebemos inteligência via satélite e reconhecimento local. - começou Steve, ativando o mapa holográfico no centro da mesa. - Temos dois alvos confirmados em uma cidade costeira ao norte do Chile.
As imagens surgiram, granuladas, mas inconfundíveis.
- Deidara. - identificou Shikamaru, apontando para o loiro.
- E Sasori - completou, indicando a figura corcunda ao lado.
Toni estreitou os olhos para os hologramas.
- Ótimo. O esquisito com bocas nas mãos e a falsificação barata da boneca Annabelle. Que dupla encantadora.
A sala começou a zumbir com estratégias. Natasha e Clint discutiam rotas de extração, enquanto Sam analisava o terreno aéreo. Tudo parecia estar correndo bem, uma máquina bem lubrificada de heróis planejando salvar o dia.
Mas então, Steve decidiu que era hora de marcar território.
Não foi sutil. Foi uma manobra de poder clássica, uma tentativa transparente de reafirmar quem era o macho alfa da matilha, motivada puramente pela visão das marcas roxas no pescoço de Toni e pelo homem que as colocou lá.
- O plano de ataque será dividido em dois flancos. - disse Steve, virando-se para os Shinobis com uma autoridade que não deixava espaço para discussão. - Vingadores assumem a linha de frente para contenção de danos. Uzumaki, sua equipe ficará na retaguarda. Quero que vocês façam o perímetro e garantam que civis não entrem na zona de combate. Sigam minhas coordenadas e não se engajem sem minha ordem direta.
O silêncio que caiu na sala foi instantâneo e gelado.
Todos perceberam. Natasha parou de girar a caneta. Bruce olhou para baixo, desconfortável. Era um insulto tático. Steve estava relegando a elite de uma nação guerreira a guardas de trânsito, tratando o líder de uma força estrangeira como um cadete recruta.
Toni cruzou os braços, observando com fascínio. Ela sabia exatamente o que Steve estava fazendo: Eu mando aqui. Você pode ter dormido com ela, mas no campo, você obedece a mim.
Naruto, que estava recostado na cadeira, não se moveu. O sorriso gentil que ele carregava desde que entrou na sala não vacilou nem por um milímetro. Mas a temperatura ao redor dele despencou.
Foi uma mudança física na atmosfera. O ar ficou pesado, denso, carregado de uma pressão invisível que fez os pelos da nuca de Toni se eriçarem. Não era a agressividade quente da noite anterior; era um frio absoluto. Um abismo.
- Capitão. - a voz de Naruto soou leve, quase alegre, o que tornava o contraste com sua aura opressora ainda mais aterrorizante. - Acredito que houve um mal-entendido na tradução.
Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
- Nós não recebemos ordens de você.
Steve travou a mandíbula, os olhos faiscando.
- Isso é uma operação conjunta, soldado. Precisamos de uma cadeia de comando clara...
- Cooperação. - corrigiu Naruto suavemente, cortando-o. - A palavra é cooperação, não subordinação. Meus homens e eu não somos seus recrutas da SHIELD. Nós somos aliados de uma nação soberana.
Toni mordeu o lábio inferior, sentindo uma onda de calor percorrer seu ventre que nada tinha a ver com medo. Ver Naruto assim - educado, sorridente, mas exalando uma autoridade letal que fazia o Capitão América parecer um menino birrento - era absurdamente excitante. O homem que gemia e rosnava em sua cama era uma delícia, mas esse homem? Esse líder que impunha respeito sem levantar a voz? Esse homem era perigoso.
- Vocês podem conduzir o ataque como acharem melhor. - continuou Naruto, o sorriso não alcançando os olhos, que agora eram duas pedras de gelo azul. - Mas eu sou o líder dos meus Shinobis. Nós faremos as coisas como sempre fizemos: com eficiência. Nós não ficaremos na retaguarda enquanto vocês brincam de heróis.
Steve deu um passo à frente, tentando usar sua altura e presença física para intimidar, jogando sua última carta.
- Enquanto estiverem em solo ocidental, sob a jurisdição dos Vingadores, vocês seguem as minhas regras. Se não conseguem seguir ordens, então são um risco para a missão.
Antes que Naruto precisasse responder, uma voz arrastada e entediada veio do outro lado da mesa.
- Que saco... - murmurou Shikamaru.
O estrategista nem se deu ao trabalho de olhar para Steve; ele encarava o teto, como se a estupidez humana fosse cansativa demais para ser observada diretamente.
- Só para deixar claro... - disse Shikamaru, baixando o olhar para Steve com um desprezo intelectual afiado. - Nós podemos ir embora agora mesmo. Podemos pegar nossas coisas, voltar para o nosso continente e deixar vocês lidarem com a Akatsuki sozinhos. Tenho certeza que vocês se sairiam muito bem.
Ele fez uma pausa dramática.
- A única dúvida que tenho é como você explicaria isso ao seu Presidente. "Desculpe, Senhor Presidente, perdemos a chance de aliança e a ajuda contra os terroristas globais porque eu precisava medir meu ego contra o líder deles". Tenho certeza que a Casa Branca adoraria esse relatório.
Steve ficou branco, depois vermelho. Ele abriu a boca, mas fechou-a novamente, o maxilar trincado com tanta força que Toni ouviu o estalo dos dentes. Ele estava encurralado. Shikamaru tinha arrancado o tapete debaixo dele, expondo a mesquinhez de suas ordens para todos na sala.
Naruto se levantou. O movimento foi fluido, silencioso.
- Acho que terminamos por aqui. - disse o loiro, o sorriso voltando a ser aquela máscara de gentileza impenetrável. - Vamos nos preparar. Nos vemos na hora de partir, Vingadores.
Sem esperar por uma dispensa, ele virou as costas. Em um movimento sincronizado que beirava o sobrenatural, Sasuke, Gaara, Temari e Shikamaru se levantaram e o seguiram, formando uma falange protetora ao redor de seu líder. Eles não olharam para trás.
A porta se fechou, deixando um silêncio humilhante na sala. Toni olhou para Steve, que parecia prestes a explodir, e teve que usar toda a sua força de vontade para não aplaudir a saída triunfal do ninja.
Rogers tentou jogar damas, mas Naruto e sua equipe estavam jogando xadrez 4D. E Toni? Ela mal podia esperar para ver o que aquele líder faria no campo de batalha.
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