Capítulo 9
A porta da sala de reuniões mal tinha acabado de se fechar atrás da comitiva de Shinobis quando o silêncio constrangedor foi quebrado pela voz fria e cortante de Natasha Romanoff.
— Isso foi absolutamente ridículo. E completamente desnecessário.
Steve, ainda com o peito arfando de indignação e as mãos apoiadas na mesa, soltou um suspiro de alívio, interpretando erroneamente o comentário. Ele olhou para a Viúva Negra, buscando a validação que estava acostumado a receber.
— Exatamente, Nat. — disse ele, balançando a cabeça. — A arrogância deles é um risco operacional. Eles não têm disciplina, não respeitam a hierarquia...
— Eu não estou falando deles, Steve. — a voz de Natasha chicoteou de volta, fazendo o Capitão parar no meio da frase. Ela se recostou na cadeira, cruzando os braços, o olhar verde perfurando-o sem piedade. — Estou falando de você.
Toni, que agora observava a cena com um copo de água na mão, sentiu os lábios se curvarem em um sorriso divertido. Interessante.
Clint Barton, sempre o pacificador, tentou intervir, sentindo a tensão escalar.
— Nat, pega leve. O Cap só estava tentando evitar acidentes. Aqueles caras são armas vivas que não conhecemos, tentar estabelecer um perímetro de segurança é o padrão...
— Clint, pare. — Natasha o cortou, a voz gotejando exaustão. — Pare de tentar encontrar desculpas para o que acabou de acontecer. Não teve nada a ver com segurança ou perímetros.
Ela se levantou, caminhando lentamente até a ponta da mesa, e apontou um dedo acusador para Steve.
— Foi antiprofissional, foi infantil e foi patético. Você agiu como um macho alfa inseguro cujo ego foi ferido. Você quase implodiu uma aliança que o Departamento de Estado está tentando forjar há anos, e por quê? — Ela fez uma pausa dramática, seus olhos deslizando significativamente para as marcas no pescoço de Toni e voltando para Steve. — Porque você não consegue aceitar que a Toni seguiu em frente e está dormindo com alguém que não é você.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Steve parecia ter levado um tapa na cara. Ele abriu a boca para negar, mas nenhum som saiu.
Toni sentiu uma onda inesperada de calor no peito. Antes da Sibéria, ela e Natasha tinham uma dinâmica complicada. Depois da traição, houve frieza. Mas agora? Ver a espiã desmantelar a hipocrisia de Steve com tanta precisão cirúrgica era quase tão satisfatório quanto o sexo da noite anterior. Parecia um pedido de desculpas silencioso, uma oferta de paz embrulhada em verdades brutais.
Toni lançou um sorriso afiado e cúmplice para a ruiva, que retribuiu com um piscar de olhos quase imperceptível.
Foi então que Sam Wilson, leal até a falha, decidiu entrar no campo minado.
— Olha, ninguém está dizendo que o Steve é perfeito. — começou Sam, cruzando os braços e olhando diretamente para Toni com um julgamento moralista que fez o sangue dela ferver. — Mas vamos ser honestos sobre a ética aqui. Dormir com aliados desconhecidos? Voláteis? Isso compromete o julgamento. Você está trazendo para a cama uma variável perigosa, Toni. Isso afeta a equipe.
Toni soltou uma risada curta e incrédula.
— Ah, cale a boca, Wilson. — ela disparou, cortando-o antes que ele pudesse continuar seu discurso moralista. — Não venha mascarar o ciúme do seu amigo com palavras bonitas como ética ou estratégia.
Ela se levantou da cadeira, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se na direção deles, dominando o espaço.
— Isso não tem nada a ver com quem eu durmo. Eu poderia estar transando com Naruto, com Thor, ou com o entregador de pizza da esquina. O resultado seria o mesmo: Steve agindo como uma criança mimada que teve seu brinquedo favorito roubado por outra criança no parquinho.
Ela olhou para Steve, que agora evitava o olhar dela, o rosto vermelho de vergonha e raiva contida.
— O problema de vocês — continuou Toni, sua voz fria e final. — é que vocês simplesmente não conseguem enfiar na cabeça que acabou. Não existe mais nós. Não existe mais esperança. A única coisa que sinto por você, Rogers, é uma indiferença exaustiva.
Ela ajeitou a gola da blusa, sem se preocupar em esconder o chupão roxo que se destacava contra sua pele pálida.
— Eu preferiria me mudar para o Tibete, raspar a cabeça e fazer um voto de celibato eterno em um mosteiro silencioso a voltar a ter qualquer tipo de relacionamento romântico com você. Entendeu agora ou precisarei desenhar em um quadro branco?
Ninguém respondeu. Clint e Sam pareciam cervos paralisados pelos faróis de um caminhão em alta velocidade. Steve parecia quebrado.
— Ótimo. — disse Toni, pegando seus óculos escuros. — Se ninguém tem nada relevante ou inteligente para acrescentar sobre a missão real, eu tenho mais o que fazer. Tenho trajes para calibrar e, francamente, a companhia de vocês me entedia.
Ela girou nos calcanhares e caminhou em direção à porta com passos firmes, o som de seus saltos ecoando como marteladas no caixão da antiga equipe.
Para sua surpresa e deleite, ouviu o som de passos leves logo atrás dela. Natasha a seguiu, deixando os homens para trás, estupefatos e sozinhos em sua própria bagunça emocional.
Enquanto as portas do elevador se fechavam, deixando a visão dos integrantes masculinos dos Vingadores parecendo patéticos em seu silêncio, Toni olhou para Natasha.
— Mosteiro no Tibete? — Nat perguntou, um sorriso divertido nos lábios.
— Era uma hipérbole. — Toni piscou. — Eu gosto demais de sexo e sapatos caros para ser monje.
E pela primeira vez em muito tempo, as duas riram divertidas juntas.
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Assim que as portas da oficina se fecharam, isolando-as do resto da Torre e do ego ferido dos Vingadores, o silêncio caiu entre elas.
Natasha não disse nada inicialmente. Ela caminhou pelo espaço com a graça silenciosa de um gato, seus olhos verdes varrendo o ambiente com uma precisão analítica que fez o estômago de Toni dar um leve nó. A espiã parou perto de uma bancada — a mesma bancada que, menos de doze horas antes, havia sido palco de uma das cenas mais depravadas da vida de Toni.
Toni prendeu a respiração por um segundo, perguntando-se se a Viúva Negra tinha algum tipo de visão de raio-x para fluidos corporais ou se o cheiro de sexo e feromônios ainda pairava no ar, invisível para humanos normais, mas óbvio para superespiãs.
Natasha tocou a borda da mesa, um sorriso enigmático brincando nos lábios, como se tivesse reconstruído toda a cena do crime apenas observando a desordem sutil das ferramentas.
Mas ela não comentou sobre isso. Em vez disso, ela se virou, a expressão tornando-se séria.
— Você sabe que eles não vão desistir simplesmente, não sabe? — A voz de Natasha era suave, mas carregava o peso de uma certeza cansada. — Steve, Sam, Clint... eles são como cães com um osso.
Toni soltou um suspiro frustrado, o ar saindo de seus pulmões como se ela tivesse carregado o mundo nas costas durante aquela reunião. Ela se jogou em um dos banquinhos giratórios, girando levemente de um lado para o outro.
— Infelizmente, eu sei. A capacidade deles de negar a realidade deveria ser estudada como um superpoder.
Natasha encostou-se em uma mesa próxima, cruzando os braços. Por um momento, ela pareceu hesitar, algo raro para alguém tão composta.
— Toni... — ela começou, olhando para o chão antes de encontrar os olhos de Toni novamente. — Eu sinto muito. Por tudo. Pelo que aconteceu antes da Sibéria, pelo que aconteceu depois. Eu demorei para ver o seu lado das coisas, e sinto muito por ter deixado você sozinha nessa.
Toni piscou, surpresa pela sinceridade crua. Ela assentiu, aceitando a oferta de paz.
— Águas passadas, Romanoff. Estamos aqui agora.
— Eu tenho tentado, sabe? — continuou Natasha, a frustração vazando em sua voz. — Desde que percebi que você realmente tinha fechado a porta para Steve, eu tenho tentado colocar juízo na cabeça dele e dos outros. Tenho dito para deixarem você em paz, para respeitarem sua decisão.
— E deixe-me adivinhar... — Toni interrompeu, um sorriso amargo curvando seus lábios. — Eles acham que eu estou apenas sendo emocional. Que estou chateada, fazendo birra, e que se eles esperarem o tempo suficiente, a mulherzinha difícil vai se acalmar e voltar correndo para os braços do Capitão América.
Natasha fez uma careta, confirmando a teoria.
— Basicamente. Para eles, a sua raiva não é uma resposta válida a uma traição. É apenas... histeria. Eles acham que é uma fase. Que logo tudo voltará ao normal, com você no seu lugar designado ao lado dele.
Toni revirou os olhos com tanta força que doeu.
— É lógico. — ela bufou, gesticulando com as mãos. — Porque Deus me livre de uma mulher decidir que a existência dela não gira em torno da aprovação de um homem. Na cabeça deles, eu sou apenas uma coadjuvante na história de Rogers. Eu deveria perdoar a tentativa de homicídio, a mentira sobre meus pais e o abandono, e voltar a ser a bonequinha obediente, feliz por ser escolhida. É patético. E insultante.
As duas trocaram um olhar de entendimento profundo. Era aquele olhar compartilhado entre mulheres que, apesar de todo o poder e competência que possuíam, ainda tinham que lidar com o paternalismo sufocante de homens que se achavam os heróis da história. Eles podiam ser Vingadores, mas, no fundo, eram antiquados e machistas quando contrariados.
O silêncio que se seguiu foi de solidariedade, não de tensão.
Então, Natasha decidiu que já tinham gastado energia demais com homens idiotas. Ela puxou um banquinho com o pé, sentando-se de frente para Toni. A postura rígida de espiã desapareceu, substituída por uma cumplicidade relaxada.
Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma malícia divertida enquanto focavam, mais uma vez, nas marcas roxas no pescoço de Toni.
— Bem... — disse Natasha, o tom mudando para algo insinuante e leve. — Considerando o tamanho dessas marcas e o sorriso que você estava tentando esconder durante a reunião... pelo menos a noite foi boa.
O mau humor de Toni evaporou instantaneamente. Um sorriso largo, genuíno e cheio de presunção iluminou seu rosto.
— Boa é uma ofensa, Romanoff. — Toni riu, jogando o cabelo para trás. — Você nem imagina. Boa não cobre nem os primeiros cinco minutos.
Natasha se inclinou para frente, apoiando o queixo na mão, como uma amiga pronta para a fofoca mais quente do ano.
— Então compartilhe. — incentivou a ruiva. — Deus sabe que eu preciso ouvir algo que não envolva táticas de guerra ou o ego frágil do Steve. Eu quero detalhes. O ninja é tudo isso mesmo?
Toni soltou uma gargalhada, sentindo-se mais leve do que se sentia em meses.
— Ah, querida, pegue um café, porque a lista é longa. — começou Toni, seus olhos brilhando ao relembrar. — Digamos apenas que a resistência deles não é lenda urbana. E ele tem uma criatividade para usar mobília que faria você corar...
E ali, no santuário de sua oficina, entre risadas e confissões sussurradas, a amizade delas começou a ser cimentada novamente, não por batalhas ou missões, mas pela alegria simples e rebelde de duas mulheres livres compartilhando segredos longe dos ouvidos dos homens que tentavam controlá-las.
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