Capítulo 4
Nara Shikamaru tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente para o teto do corredor silencioso da Torre dos Vingadores. Para um homem cuja mente operava duzentos passos à frente de qualquer adversário, as complexidades das relações humanas eram, em uma palavra, enfadonhas.
Era um desperdício de energia cognitiva.
Há anos, ele assistia de camarote ao teatro silencioso e torturante protagonizado por Sasuke e Gaara. As duas circulavam Naruto como satélites presos em órbita, seus olhares carregados de um desejo denso e uma saudade melancólica que qualquer idiota conseguiria ver.
Qualquer idiota, exceto Naruto.
Para o loiro, elas eram irmãs de armas. Companheiras unidas pelo sangue e pelo chakra. Ele as amava, sim, mas de uma forma puramente platônica e frustrantemente leal. E, claro, a culpa não era apenas da densidade lendária dos protagonistas de romances ruins.
Havia feridas antigas ali.
Shikamaru suspirou, lembrando-se do gosto amargo que o nome "Hinata" ainda deixava na boca de todos do círculo íntimo. Naruto não era cego por escolha; ele fora condicionado pela traição. Ele confiou, uma única vez, entregando o coração àquela que dizia amá-lo desde a infância. Mas a realidade cruel era que Hinata amava a ideia de Naruto — o herói, o filho do Hokage, o ídolo inatingível. Quando a fantasia colidiu com a realidade do homem — com seus defeitos, seus medos e suas cicatrizes — o pedestal rachou.
Ela não queria o homem; ela queria o mito. E quando o mito se mostrou humano, ela buscou conforto na simplicidade de Kiba. A traição romântica, a fuga dela com o Inuzuka, não apenas partiu o coração de Naruto; quebrou fundamentalmente sua capacidade de perceber que alguém poderia desejá-lo pelo que ele realmente era.
Desde então, Naruto assumiu que qualquer afeto dirigido a ele era camaradagem. Era mais seguro assim.
E agora, Shikamaru era obrigado a assistir a um novo ato dessa peça trágica, estrelado por Anthonella Stark.
Estava ficando doloroso ver a mulher mais inteligente do hemisfério ocidental se humilhar com flertes que passavam voando quilômetros acima da cabeça de Naruto. Era como ver alguém tentar derrubar uma muralha jogando plumas. Stark se insinuava, jogava charme, praticamente desenhava um mapa para o quarto dela, e Naruto apenas sorria, achando que aquela era apenas a maneira "excêntrica e amigável" dos americanos agirem.
Era constrangedor. E, acima de tudo, era problemático.
Shikamaru apagou o cigarro no cinzeiro portátil e tomou uma decisão. Alguém precisava intervir antes que a situação se tornasse insustentável.
Ele deslizou para dentro do laboratório como uma sombra. Toni estava sozinha, murmurando algo para um holograma, uma taça de vinho intocada ao lado.
— Stark.
Ela pulou levemente, girando na cadeira com a mão no peito, surpresa por não ter ouvido a porta abrir. Antes que ela pudesse soltar alguma piadinha sarcástica sobre ninjas silenciosos, Shikamaru levantou a mão, interrompendo-a. Ele não estava ali para jogar conversa fora.
— Vou ser breve, porque isso tudo já está me dando dor de cabeça. — ele começou, a voz arrastada, mas os olhos afiados como kunais. — Estou vendo o que você está tentando fazer com o Naruto. E, francamente, está sendo patético assistir.
Toni abriu a boca, ofendida, mas ele continuou, implacável.
— Você está jogando indiretas para um homem que foi condicionado a acreditar que ninguém o vê romanticamente. Você pode dançar nua na frente dele, e ele vai achar que é algum costume cultural estranho deste país.
Ele deu dois passos à frente, saindo das sombras, sua postura relaxada desaparecendo para dar lugar à aura de um estrategista perigoso.
— Se você quer o Naruto, pare com os jogos. Ele não entende "sutil". Você tem que ser direta. Brutalmente direta. Use todas as palavras. Diga o que quer, como quer e quando quer. É a única língua que ele vai processar agora.
Toni o encarava, atordoada pela franqueza, processando a informação. Mas Shikamaru ainda não tinha terminado. O tom de sua voz caiu, tornando-se frio e pesado.
— Mas escute bem, Stark. Tenha certeza absoluta do que está fazendo.
Ele a fixou com um olhar que prometia consequências terríveis.
— Naruto não é um brinquedo para o seu entretenimento. Ele não é uma distração para você esquecer o Capitão ou para aliviar o tédio entre missões. Ele é o nosso pilar. Se você estiver apenas brincando... se você o machucar, ou fizer ele se sentir insuficiente de novo...
Shikamaru deixou a ameaça pairar, tangível no ar condicionado do laboratório.
— Sasuke e Gaara serão o menor dos seus problemas. As duas podem tentar te matar, mas eu? Eu sou o cara que garante que ninguém nunca encontre os corpos.
Sem esperar por uma resposta, defesa ou confirmação, Shikamaru girou nos calcanhares. Ele já tinha gastado palavras demais.
— Mendokuse... — ele murmurou para si mesmo enquanto a porta se fechava atrás dele, deixando uma Toni estática no laboratório.
Agora, sua prioridade era encontrar Temari. Ele precisava urgentemente reclamar com a esposa sobre como era infinitamente problemático ter que bancar o cupido para salvar a dignidade alheia.
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Toni permaneceu estática por um momento, o som da porta do laboratório se fechando ainda ecoando no silêncio estéril. A audácia de Nara Shikamaru era algo que ela precisava de um segundo para processar.
Ameaçada.
Ela tinha acabado de ser ameaçada em sua própria torre, por um homem que parecia ter preguiça até de respirar. E o pior? Ela acreditou em cada palavra dele. Não houve teatro, não houve aumento de voz. Apenas a promessa fria e calculada de um estrategista que sabia exatamente como fazer alguém desaparecer.
“Eu sou o cara que garante que ninguém nunca encontre os corpos.”
Um calafrio involuntário percorreu sua espinha, mas logo foi substituído por algo muito mais familiar a Anthonella Stark: adrenalina.
Ela soltou o ar que prendia, um sorriso incrédulo e perigoso curvando seus lábios pintados de vermelho. Shikamaru não havia apenas lhe dado um ultimato; ele havia lhe dado o manual de instruções.
Seja direta.
A ficha caiu com o peso de uma armadura. Todo o charme, os olhares de canto, as insinuações de duplo sentido que fariam qualquer homem ocidental tropeçar nos próprios pés... tudo isso tinha sido inútil. Ela estava jogando xadrez com alguém que nem sabia que o tabuleiro existia. Naruto não a estava rejeitando; ele simplesmente não falava a língua da sutileza. O trauma e a cultura dele haviam criado uma cegueira seletiva, e ela estava tentando usar sinais de fumaça quando precisava soltar um foguete sinalizador.
Toni girou a cadeira, servindo-se finalmente daquele vinho.
Quanto à ameaça de "brincar" com ele... Ela girou o líquido carmesim na taça, pensativa. Ela não era um monstro. Ela não tinha a intenção de atraí-lo para uma armadilha emocional e depois descartá-lo como um protótipo falho.
Mas "relacionamento"? A palavra tinha um gosto de cinzas em sua boca.
Sua mente vagou brevemente para Steve. Quase dois anos haviam se passado desde a Sibéria, desde o frio, o escudo no peito e a mentira que estilhaçou seu mundo. A confiança era um luxo que ela não podia mais pagar. Seu coração tinha muros de titânio agora, e ela não estava pronta para baixar a ponte levadiça para ninguém, muito menos para um homem cuja vida estava do outro lado do mundo, em um continente isolacionista.
Naruto partiria. Era inevitável. Quando os Nukenins fossem neutralizados, ele voltaria para os seus deveres, para os seu Clã, para as suas mulheres-guarda-costas assustadoras. Eles eram de mundos diferentes, literalmente e metaforicamente. Prometer amor eterno ou um futuro juntos seria a verdadeira mentira.
Mas isso não significava que eles não pudessem ter o agora.
Toni bebeu o vinho de um gole só, a decisão solidificando-se em sua mente como concreto. Ela não queria enganá-lo. Ela queria desejá-lo. Ela queria a pele dele contra a dela, o calor daquele chakra estranho misturado com suor e atrito. Ela queria explorar aquele corpo escultural e ver se o fôlego dele era tão infinito quanto a energia que ele comandava.
Ela queria sexo. Sexo incrível, visceral, alucinante.
E se Shikamaru dizia que ela precisava soletrar isso para conseguir, então ela escreveria em letras neon.
Levantando-se com uma determinação renovada, Toni caminhou em direção ao elevador privativo.
— FRIDAY, prepare a suíte da cobertura. Iluminação baixa, temperatura ambiente em 22 graus. E certifique-se de que minha coleção de lingerie de seda esteja acessível.
— Sim, Chefe. — respondeu a IA. — Devo cancelar suas reuniões virtuais da noite?
— Cancele tudo. — Toni ordenou, entrando no elevador. As portas se fecharam, e ela observou seu reflexo no metal polido. Seus olhos brilhavam com uma fome predatória que ela não sentia há muito tempo.
Ela tinha um plano. Não haveria mais jogos, nem meias palavras.
Esta noite, Naruto Uzumaki descobriria exatamente o que Anthonella Stark queria. E se tudo corresse como ela planejava, eles não sairiam daquela cobertura até o amanhecer. Cama, banheiro, o sofá de couro italiano de cinquenta mil dólares, ou até mesmo o tapete da sala... o local era irrelevante.
A única coisa que importava era a imagem que queimava em sua mente: o corpo dourado dele entre as pernas dela, e os sons que ela arrancaria daquela garganta rouca quando finalmente o levasse ao limite.
O jogo tinha mudado. E Toni estava pronta para dar o xeque-mate.
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