Capítulo 2
Toni observava, hipnotizada, uma cena que seu cérebro lógico lutava para processar. Naruto havia se debruçado sobre a mesa de vidro, ignorando a tecnologia de ponta ao redor, e começou a deslizar o pincel sobre os pergaminhos.
O movimento era fluido, quase uma dança. Para um homem construído como um tanque de guerra, com mãos grandes o suficiente para esmagar um crânio com facilidade, a delicadeza que ele exibia agora era desconcertante. O pincel dançava no papel, deixando para trás símbolos negros, complexos e elegantes.
A caligrafia era sofisticada, uma arte antiga que Toni, com sua letra de médico apressado e mente digital, teve a humildade de admitir que jamais conseguiria replicar. Era um contraste brutal e fascinante: a besta e o artista habitando o mesmo corpo.
Ela não era a única cativa. O silêncio na sala era absoluto; Fury, Steve, Bruce... todos observavam a tinta secar, presos na gravidade daquele momento.
Quando terminou o último traço, Naruto ergueu o olhar. Seus olhos azuis encontraram os de Toni e, com um gesto sutil de cabeça, ele a chamou.
- Venha aqui.
Toni obedeceu. Não houve hesitação, nem o sarcasmo habitual. Suas pernas se moveram por vontade própria, puxadas por um magnetismo que ela não conseguia - e, francamente, não queria - combater.
Quando ela parou diante da mesa, Naruto se moveu para trás dela.
O ar mudou. De repente, o mundo de Toni se reduziu ao calor absurdo que irradiava do corpo dele, a meros milímetros das costas dela. Ele era uma fornalha viva. Sem pedir permissão, ele estendeu o braço, envolvendo-a, e pousou a mão grande e quente sobre a dela, a guiando para descansar no papel agora.
O toque foi elétrico. A pele dele era áspera, marcada por calos de batalha, mas o aperto era firme e controlado. Toni prendeu a respiração, o coração batendo violentamente contra as costelas, torcendo para que ele não pudesse ouvir o ritmo traidor.
- Concentre-se no seu idioma. - a voz dele ditou perto do ouvido dela, o hálito quente enviando arrepios por toda a espinha dorsal de Toni. - Visualize as palavras.
Concentrar. Certo. Como diabos ela deveria se concentrar em sintaxe e gramática quando tinha um deus grego - ou ninja - pressionado contra suas costas? O cheiro dele a invadiu: tabaco, sândalo e algo puramente masculino que fez a boca dela secar.
Com um esforço titânico, ela fechou os olhos e forçou a mente a focar no inglês. No momento em que o fez, sentiu uma energia estranha, vibrante e desconhecida, fluir do peito dele, descer pelo braço, passar para a mão dela e penetrar no papel.
Não era tecnologia. Era algo cru.
Ela abriu os olhos e engasgou. A tinta preta parecia ganhar vida, contorcendo-se como fumaça presa, e diante de seus olhos, os desenhos complexos se reorganizaram. Onde antes havia símbolos indecifráveis, agora havia inglês perfeito. Frases técnicas, descrições biológicas, tudo claro como cristal.
- Mais uma vez. - ele comandou suavemente, movendo a mão dela para o próximo pergaminho.
Ele a guiou pelo processo, pergaminho após pergaminho. A cada novo toque, a cada vez que o peito dele roçava nas costas dela, Toni sentia a temperatura do corpo subir. Era uma tortura deliciosa.
Então, tão rápido quanto começou, acabou.
Naruto se afastou. A perda do contato foi física, deixando um frio fantasma nas costas e na mão de Toni. Ela se sentiu subitamente exposta e vazia.
Lutando para recuperar a compostura e a máscara de gênio inabalável, ela pigarreou, virando-se para ele enquanto tentava ignorar o calor em suas bochechas.
- É assim que vocês estão falando inglês? - ela perguntou, a curiosidade científica servindo como um escudo precário. - Algum tipo de tradutor universal?
Agora que ela mencionou, os outros Vingadores pareceram acordar do transe, a compreensão amanhecendo em seus rostos.
Naruto sorriu, aquele sorriso de canto que prometia problemas, e puxou levemente a manga do uniforme. No pulso, um pequeno e intrincado selo estava tatuado na pele. Seus companheiros fizeram o mesmo.
- Basicamente. - explicou ele. - O selo conecta a intenção à vocalização. Eu falo no meu idioma, mas vocês ouvem no de vocês. E vice-versa. É prático.
Bruce se inclinou para a frente, os olhos brilhando com a perspectiva de uma nova ciência, e Toni abriu a boca, pronta para bombardear Naruto com perguntas sobre a mecânica daquela estranha energia - e talvez usar isso como desculpa para examinar o pulso dele, ou qualquer outra parte do corpo, mais de perto.
- Isso é fascinante, mas teremos tempo para a ciência depois. - a voz de Natasha cortou o clima, afiada e profissional. A Viúva Negra já estava na porta. - Vocês devem estar exaustos. Vou levá-los aos seus aposentos.
Naruto assentiu e seguiu Natasha, levando o calor da sala com ele.
Toni ficou parada, sozinha com os pergaminhos traduzidos. Seus dedos traçaram o papel onde a mão dele esteve momentos antes. Mas sua mente não estava na tradução.
A imagem invadiu sua cabeça com a força de uma represa estourada. Ela, debruçada sobre essa mesma mesa. Naruto atrás dela, exatamente como antes. Mas na fantasia, não haveria roupas. Não haveria pergaminhos sobre terroristas.
Haveria apenas a pele dele contra a dela, o peso daquele corpo musculoso prensando-a contra o vidro frio.
Ela imaginou a voz rouca dele não ditando traduções, mas sussurrando coisas sujas e depravadas em seu ouvido. Ela imaginou aquelas mãos grandes, capazes de tanta delicadeza e tanta violência, guiando-a não para escrever, mas para o prazer, explorando cada centímetro dela com uma possessividade que a faria esquecer o próprio nome.
Toni mordeu o lábio inferior, sentindo uma pontada aguda de desejo que fez seus joelhos fraquejarem.
Dane-se a diplomacia. Dane-se o tratado de paz. A única missão que importava agora era transformar aquela fantasia em realidade. Ela ia ter aquele homem em sua cama, e ela ia descobrir exatamente que outros "truques" mágicos ele sabia fazer no escuro.
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A voz de Steve Rogers rompeu a bolha de luxúria de Toni como um balde de água gelada.
- Toni?
Ela piscou, e a imagem nítida das mãos de Naruto em sua pele se dissipou contra a vontade, substituída pela realidade estéril da sala de reuniões.
Toni olhou ao redor, percebendo com um atraso irritante que a sala estava vazia. Fury, Natasha, os outros... todos tinham ido. Apenas ela e o Capitão América restavam, e o ar entre eles pesava toneladas, uma pressão atmosférica sufocante que se tornou o "novo normal" desde que o governo concedeu o perdão a ele e aos outros fugitivos.
Com um suspiro audível, Toni começou a recolher os pergaminhos traduzidos, seus movimentos secos e eficientes. Ela não tinha tempo para isso. Não tinha paciência.
- Toni, por favor. - insistiu Steve, dando um passo à frente. - Podemos conversar?
Ela travou o maxilar, enfiando os papéis em sua pasta de couro com um pouco mais de força do que o necessário. Ela conhecia aquele tom. Era o tom de "Capitão América Nobre", o tom de "vamos consertar as coisas porque somos heróis". Era o som da hipocrisia.
Toni girou nos calcanhares, pronta para marchar em direção à porta, mas Steve bloqueou seu caminho. Ele estava parado ali, com aquela postura rígida de sentinela, os olhos azuis - agora tão sem vida comparados aos oceanos elétricos de Naruto - implorando por uma absolvição que ela não tinha intenção de dar.
- Saia da minha frente, Rogers. - ela disse, a voz fria e seca. - Não temos nada para conversar.
- Temos tudo para conversar. - ele retrucou, a voz embargada por uma urgência desesperada. - Você tem me evitado há meses. Desde que voltamos... Toni, eu preciso que você me escute. Eu quero consertar isso. Nós...
Toni riu, um som curto e sem humor.
- Não existe "nós", Steve. O "nós" morreu na Sibéria. Você garantiu isso quando enfiou aquele escudo no meu peito e me deixou lá para congelar.
Ela viu a dor cruzar o rosto dele como uma sombra física. Ele parecia um cachorro chutado, ferido e confuso. Os outros Vingadores - Sam, Clint, até Natasha - ainda pisavam em ovos, tentando decifrar se o gelo de Toni era uma fachada para um coração partido que ainda batia por ele.
Mal sabiam eles.
Não havia amor ferido. Não havia saudade. Havia apenas uma cicatriz feia e a certeza absoluta de que ela nunca, jamais, confiaria sua vida ou seu coração a aquele homem novamente.
O amor que ela sentia por ele não tinha apenas acabado; ele tinha sido assassinado, violentamente, junto com a confiança dela.
Steve engoliu em seco, a mágoa evidente, mas então seus olhos se estreitaram. A tristeza deu lugar a algo mais feio, mais possessivo.
- Você está com pressa para quê, Toni? - a voz dele endureceu sutilmente. - Está correndo para os seus laboratórios ou está ocupada pensando em como levar aquele estrangeiro para a cama?
Toni parou. A audácia dele era quase impressionante.
- O quê? - ela sibilou, perigosamente calma.
- Eu vi como você olhou para ele. - Steve acusou, o ciúme vazando em cada sílaba, misturado com uma indignação moralista que fez o estômago de Toni revirar. - Aquele tal de Naruto. Você mal conseguia tirar os olhos dele. Você estava praticamente despindo ele com os olhos no meio da reunião.
Toni ergueu uma sobrancelha, encarando-o com um desprezo que teria feito homens menores recuarem.
- E se eu estivesse? - ela desafiou, dando um passo em direção a ele, invadindo o espaço pessoal dele com agressividade. - O que eu penso, quem eu olho, ou quem eu decido foder não é da sua conta, Rogers.
- É da minha conta se colocar a equipe em risco! - Steve argumentou, agarrando-se à desculpa profissional como um náufrago. - Ele é uma variável desconhecida. É perigoso misturar...
- Não ouse. - Toni o cortou, a voz subindo uma oitava, afiada como uma lâmina. - Não ouse vir falar comigo sobre "riscos" e "emoções comprometendo missões". Você destruiu os Vingadores por causa dos seus sentimentos pelo Barnes. Você iniciou uma guerra por causa de uma obsessão pessoal.
Ela viu o golpe atingir o alvo. Steve recuou fisicamente, pego na própria hipocrisia.
- Eu sou uma mulher adulta, solteira e livre. - continuou Toni, implacável. - Eu não devo fidelidade a você. Eu não devo explicações a você. Se eu quiser aquele deus loiro na minha cama, gemendo o meu nome, eu vou fazer isso acontecer. E não vai ser você, nem sua moralidade de 1940, nem seu ciúme patético que vai me impedir.
Ela ajeitou a bolsa no ombro, olhando para Steve uma última vez. Não havia ódio em seus olhos agora, apenas uma indiferença exaustiva. Ele era um fantasma que se recusava a aceitar que estava morto.
- Saia do meu caminho, Rogers. Tenho coisas melhores para fazer do que lidar com o seu arrependimento.
Steve se moveu, derrotado, mas ela podia sentir os olhos dele queimando em suas costas enquanto caminhava para a porta. Ele ficou para trás, parado no silêncio da sala vazia, com a expressão de um homem que percebeu tarde demais que algumas coisas não podem ser consertadas com um pedido de desculpas e um sorriso honesto.
Toni saiu, com o som de seus saltos ecoando no corredor, sua mente já deixando o Capitão para trás e voltando avidamente para o plano muito mais interessante de conquistar o Ninja.
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