Capítulo 01
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O carro preto, segue firme pelo caminho de terra avermelhada e infindável. Os olhos de Valentina estão firmes através do vidro e com jeito distante. Por um momento, ela observa a relva verde, que se perde de vista. Ao subir o olhar pelo imenso azul do céu, se depara com o sol quente e todo o seu esplendor, porém solitário. Não tem uma nuvem para o acompanhar.
Um ar quente toma conta do carro, fazendo uma camada fina de suor se formar em sua testa, enquanto observa a poeira sendo deixada para atrás.
A paisagem é sem dúvida de tirar o fôlego, mas nesse momento, não é algo que combine muito com o humor da garota:
- O moço... Dá pra ir mais devagar? O carro está balançando demais! - pede Valentina, agarrada a mochila em seu colo e olhar incomodado, enquanto o carro a sacode com força.
- Tô tentando, moça, mas nessas ruas de terra é quase impossível.
- Já estamos chegando? Faz tempo que saímos da rodoviária!
- Sim. Não se preocupe, conheço essas terras como a palma da minha mão - responde o motorista, esbanjando um olhar orgulhoso através do retrovisor. - Nasci e cresci por aqui, moça.
- Que sorte! - rebate Valentina, com ironia, erguendo as sobrancelhas e desviando os olhos dele, impaciente. - Daqui a pouco, aparece uma placa escrito "Fim do mundo" e nós não chegamos na fazenda!
Após ouvir as palavras da garota, o motorista lhe lança um olhar "seco" pelo retrovisor, por causa do comentário dela. Mais seco do que aqueles dias sem chuvas que eles vêm enfrentando na fazenda.
- O que foi?! - pergunta ela, como se não tivesse dito nada de mais.
...
- Chegamos. - Ele para o carro.
A garota ergue a cabeça e passa os olhos admirando a fachada da enorme e bem feita, casa de fazenda. Assim que sai, já avista sua tia Márcia, vindo ao seu encontro embaixo do sol escaldante.
Agarrada à sua mochila, Valentina se encosta no carro, erguendo uma sobrancelha e parece se divertir, ao observar o balanço dos quadris largos de sua tia, através da saia preta, apertada.
- Valentina! - exclama sua tia, sorrindo e a puxando para um abraço apertado. - Olha só pra você! Já está uma moça. - Se afasta a olhando animada.
- Olá, tia Márcia - cumprimenta sem jeito, pois fazia tempo que a garota não aparecia por aquelas bandas. Já nem se lembrava muito da aparência de sua tia. - Onde está o Tio Jorge? - pergunta a garota, enquanto pega uma mala.
- Está viajando à trabalho, mas volta logo. Venha, eu te ajudo.
Sua tia também pega uma mala. E depois de se despedir do motorista, ela chama a garota para dentro.
- Se Taehyung estivesse por aqui, ele nos ajudaria com isso, mas o pobrezinho anda tão ocupado com os afazeres da fazenda depois que seu Tio foi viajar.
Enquanto Márcia conversa, Valentina observa os desenhos feitos nas pedrinhas embaixo de seus pés e que levam até a frente da casa de aparência rústica.
Ela avista a entrada enfeitada de forma convidativa por flores diversas, deixando um ar animado e perfumado. Elas sobem três degraus, e logo que entram, a garota caminha devagar, passando os olhos por todo o lugar. O ambiente é convidativo aos olhos, janelas e portas coloridas, o cheiro das madeiras do piso, do teto e dos móveis, lhe entregam uma sensação de nostalgia e aconchego. É agradável e levemente adocicado.
- Você se lembra de Taehyung, não lembra? - pergunta Márcia, enquanto coloca as coisas sobre o sofá.
...
É... A casa até que é bonita! Mas não tem ninguém lá fora e nem nas redondezas. Acho que a única diversão deles aqui, é caçarem vagalumes à noite!
- Valentina?!
- Hum! - A garota se vira, saindo de seus pensamentos.
- Perguntei se você lembra de Taehyung? - insiste Márcia, na pergunta, mas logo vê a garota fazer uma cara de paisagem. - É... pelo visto, não. Vocês ainda eram muito pequenos quando veio passar aquele último Natal aqui.
...
- É aqui que você vai ficar - avisa, Márcia, assim que entram no quarto.
A garota observa que, assim como toda a casa, o quarto também é todo em madeira, as colchas e cortinas tem cores alegres. Através da janela alta, ela nota uma imensa paisagem verde que se perde de vista.
- Se quiser, tome banho e descanse.
- Não estou muito cansada. Talvez eu vá dar uma volta por aí. Ver se acho gente! - Seu sarcasmo é perceptível, enquanto tira sua toalha da mala.
Márcia respira fundo com o que ouve.
- E Ana Júlia? - pergunta a garota.
- Logo ela chega. Depois que noivou, quase não aparece em casa. E você, como está depois que terminou os estudos? Pretende fazer faculdade?
- Eu ainda não sei... - responde sem mostrar interesse.
- Valentina...
Sua tia se aproxima devagar. Sua expressão muda por um instante, procurando ter cautela antes de iniciar suas próximas palavras:
- Eu já sei de tudo. Sua mãe disse que seu comportamento nos últimos tempos não tem sido nada bom.
Márcia balança a cabeça de um lado para o outro vagarosamente e um olhar sereno toma sua face, enquanto Valentina continua calada, mexendo na mala.
- Mas não se preocupe, não vamos comentar sobre isso por enquanto se não quiser. Espero que esse tempo aqui na fazenda te ajude a aliviar a tensão daquele lugar tão agitado...
- Você sabe bem que eu não queria vir! - Valentina interrompe sua tia, erguendo a cabeça e parando de mexer na mala. Depois fecha os olhos e suspira se mostrando magoada. - Eu queria estar com meus amigos e fazer faculdade na minha cidade! - Seu olhar fica distante ao se lembrar de casa.
- Aqui também tem faculdades ótimas, a Ana Júlia já vai se formar...
- Vocês não entendem!... - A garota a interrompe mais uma vez - Eu também queria estar com o Robson... - declara ela enfim, desviando o olhar vagarosamente, deixando suas palavras carregadas de certa tristeza.
- Também fiquei sabendo a respeito desse tal Robson e... Querida... - Márcia se aproxima olhando preocupada - ele não estava te fazendo bem!
Valentina solta a toalha rápido sobre a cama, parecendo impaciente com a conversa e caminha até a janela. Encosta os braços sobre a mesma, com olhar firme para a única coisa que aparece em todo o seu campo de visão, a relva infinita do outro lado do vidro.
- É claro que te entendo, Valentina, mas tanto eu, quanto seus pais, não podemos mais tolerar o que aquele rapaz vem fazendo com você. Espero que entenda que sua mãe ficou muito magoada por ter tomado a decisão de te mandar pra cá... E eu sinto muito que tenha vindo contra a sua vontade.
- Você acha que só vocês estão magoadas? - A garota se vira rápido em sua direção. - Acha que vai ser fácil pra mim esquecer ela dizendo que eu sou sua decepção?!
Sua expressão firme vai se desmanchando, sua garganta trava e seu coração fica apertado ao lembrar. Ela engole em seco ao deduzir que sua relação com seus pais vai de mal a pior e seus olhos vão ficando marejados por não saber como reverter isso.
- Eu não sabia que...
- O Robson sempre me dizia que era o único que estava comigo nesses momentos. Sempre disse que ninguém iria me entender, só ele, por isso ele pedia que eu o apoiasse também. Por isso eu sou grata a ele e não poderia ter o deixado dessa forma.
- Tudo bem. - Márcia suspira decidida a dar um fim nesse assunto pelo menos por enquanto. - Vou te deixar descansar e depois falaremos sobre isso.
Ela sai do quarto vagarosamente, deixando Valentina só. A garota se debruça ainda mais sobre a janela e seus pensamentos vão longe.
Toda essa solidão lá fora faz seu coração apertar. Ela não gosta desse lugar, sente falta de sua cidade. Sente magoa por seus pais terem a mandado para essa fazenda contra sua vontade.
Lembra-se que Robson era a única coisa que ela tinha, parece que seus pais não a entendem, parece que ninguém a entende.
- Ele não fazia aquelas coisas por mal!... Fazia?! - Ela se afunda em toda a sua confusão enquanto tem o olhar perdido.
Lembra dos dias em que passava na companhia dele e suas amigas. Lembra dos dias incontáveis em que chegava em casa embriagada e drogada. Às vezes, nem mesmo se lembrava dos motivos pela qual discutia tanto com Robson que por algumas vezes ele chegou a agredi-la.
- Mas ele pediu perdão! Disse que não iria se repetir e que me amava mais que tudo!
Ela tenta se convencer disso.
°°°
Depois do banho, Valentina, caminha pelas redondezas, viu a grandeza das plantações. O dia vai escurecendo rápido e o sol vai se pondo no horizonte, deixando nuvens pintadas de rosa como despedida.
Mas isso não lhe pareceu interessante em nada. E para distrair, ela aproveita a curiosidade para entrar no estábulo. Logo que atravessa as enormes portas de madeira desgastada, encontra os cavalos presos e muito feno ao redor. Leva a mão ao nariz assim que percebe o cheiro desagradável.
- Olá, cavalinho! - diz se aproximando. - É ruim estar preso, não é? É assim que eu me sinto nesse lugar.
Ela passa os olhos ao redor com desprezo, mas para por um momento e seu jeito muda, ficando pensativa. Parece querer aprontar algo.
- Eu não posso sair daqui por enquanto, mas posso ajudar vocês!
E um sorriso malicioso aparece em seus lábios, enquanto leva as mãos até as trancas para abrir as cercas, mas inesperadamente é interrompida por alguém:
- Eu não faria isso se fosse você! - Uma voz grossa ecoa no silêncio, do nada, junto a passos lentos sobre o feno, então um jovem aparece.
A garota se vira apressada e seu olhar cai apreensivo sobre o rapaz. Sua expressão fica preocupada ao notar que ele viu o que ela pretendia fazer com os cavalos.
- Quem é você? - pergunta ela, o medindo com olhar confuso.
- Sou Kim Taehyung. - Ele para de caminhar bem próximo dela, com jeito sério e seus olhares se cruzam fixamente.
Valentina percebe o quão grave é o seu tom de voz. Observa que ele usa camisa de mangas compridas, jeans e botas. Seus cabelos negros e lisos, caem sobre sua testa, cobrindo uma pequena parte de seus olhos puxados, dando-lhe uma aparência fofa, porém marcante.
Ele segue sério por causa da atitude dela, enquanto Valentina não consegue entender o porque de uma pele tão bem cuidada, mesmo com os trabalhos que ele deve fazer embaixo do sol escaldante que tem nesse lugar.
- O que pretendia fazer? - pergunta ele, com olhar desconfiado.
- Nada! - Valentina encosta-se na grade de madeira, ainda com os olhos presos nele.
- Nada? - Ele bufa incomodado. - Confessa! Você ia soltar os cavalos. Onde estava com a cabeça? Não sabe o trabalho que me daria para ir atrás deles! - Seu olhar é de reprovação.
- Ah! Então você é o filho da cozinheira - afirma, num tom ácido em suas palavras.
- E você deve ser, Valentina, a sobrinha da tia, Márcia. - Ele a encara ainda com jeito incomodado.
- Sua, Tia, Márcia?... - repete a garota, erguendo as sobrancelhas sem acreditar no que ouve.
- Sim. É assim que eu a chamo - O rapaz se vira e começa a guardar as coisas. - Não sabe como o dia foi corrido pra mim. Estou fazendo todas as tarefas sozinho ultimamente. E mesmo terminando mais tarde, ainda não consigo dar conta de tudo.
- Mas o que você queria? Já mora aqui! Pelo menos paga com trabalho. - Ela se diverte com seu próprio comentário ofensivo.
Taehyung para e se vira, a encarando por alguns segundos, incrédulo no que ouve. Seus olhos a fuzilam demoradamente antes de se virar e sair apressado, a deixando sozinha.
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Olá amores ✨🙂
Deixem uma estrelinha pra mim❤️
Agradeço a todos e beijinhos de Luh
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