ℂ𝕒𝕡𝕚𝕥𝕦𝕝𝕠 𝟘𝟛
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- 𝕺 𝖊𝖓𝖈𝖔𝖓𝖙𝖗𝖔 -
Pela manhã, o sol está radiante. Heloísa toma seu café com seus pais, na mesa redonda próximo ao jardim, lugar onde sempre se reúnem em épocas de primavera. Os raios do sol alegram o ambiente, junto ao cenário das flores. Heloísa sente-se animada, Irene está ao lado da mesa como sempre e apenas observa;
- Que bom filha... - Clara sorri animada, depois de bebericar um gole do café na pequenina xícara branca, de desenhos florais. - Fico feliz em saber que está interessada em voltar para às aulas de piano por conta própria.
Heloísa apenas consente com a cabeça, e sorriso desconfiado, mas procura parecer natural, olhando para Irene de vez em quando.
- Falarei com Madame Lorraine, pessoalmente, para que ela venha dar-lhe aulas. - Alcides trás um ar satisfeito no rosto, ao mesmo tempo em que também leva a xícara de café até seus lábios.
- Não!... - Heloísa se apressa em responder. - Ha-hã... - Depois limpa a garganta, com jeito sério. - Quero dizer. - Ela coloca os olhos em Irene. - Eu já combinei com Irene, nós iremos até lá. Afinal, já completei 17 primaveras e sei me virar! O que me dizem, eu tenho permissão? - pergunta ansiosa.
- Acho que... Tudo bem - Sua mãe abre um pequeno sorriso satisfeito.
- Mas como? - Alcides estranha - A obrigação de Madame Lorraine é vir aqui, como de costume, pois ela já ganhará o suficiente para tal.
- Mas papai, não pretendo ficar presa nesta mansão imensa dia após dia! O trato é para que eu possa ao menos uma vez na semana, ir até a cidade tomar aulas e me distrair um pouco.
- Está dito. Ela virá, ou não terá aulas de piano! - rebate depressa.
- Mas papai!
- NÃO!
- Mamãe, diga a ele? - Os olhos da garota se viram em direção de sua mãe com rapidez.
- Por favor Alcides, Heloísa já está mais crescida, quando vai começar a permitir que ela nos passe a confiança de uma futura esposa e Dona de casa? - Clara pergunta.
- Pelo único motivo de eu não confiar nas duas! - O chefe da família é rápido na resposta, alternando olhares entre Heloísa e Irene.
Ao ouvir isso, o sorriso de Heloísa se desfaz num gesto incomodado, como da água para o vinho.
- Eu nem quero me casar agora, mamãe! Não pretendo ficar apenas em casa ocupando minha mente com coisas banais. Quero estudar piano, viajar, aprender a pintar e... quero estudar!... - Termina com olhar pensativo, porém animado.
- Oras! Onde já se viu uma Dama pensando em estudar? - Alcides a olha com desaprovação.
- Por favor, meu pai! - Seus olhos brilham. - Deixe-nos ir até lá, eu insisto!
- Deixe que ela vá e veja como se comporta, querido? - opina Clara.
- A culpa é sempre sua, Clarissa! Toda a vez. Por isso ela está do jeito que está! - Alcides a acusa.
- Oh, céus! Agora é comigo! - Resmunga Clara em voz baixa, limpando os lábios com o lenço, junto a um olhar incomodado, mas como sempre, ela nunca perde sua classe.
Alcides lança um olhar desconfiado para dentro dos grandes olhos, cor de mel da garota. Ela devolve o olhar, sentido suas mãos suarem e seu coração acelerar. E para a alegria de Heloísa, depois de pensar a respeito, pela primeira vez, ele aceita.
- Está bem.
- Ah! Obrigada, meu pai! - Heloísa abre um enorme sorriso em comemoração. Sorriso animado até demais! Ficando séria logo em seguida para não levantar suspeitas. - Tomaremos cuidado, eu prometo. - Os assegura, com olhar sério.
- E quando começam?
- Hoje mesmo - Ela responde rápido.
Alcides engole o café fazendo um barulho alto.
- Ainda hoje?
- É que... Estou muito animada. O senhor mesmo vive dizendo que uma boa filha precisa saber de tudo como; Boas maneiras, francês... E piano é o mais importante!
Os olhos grandes e dissimulados estão brilhando por trás da xícara de chá, enquanto a segura, mantendo seu dedo mindinho levantado.
- Creio que já saiba que essa será a primeira vez que deixo. Se me desapontar, nunca mais terá minha confiança - termina dando sua sentença.
Heloísa abre um sorriso vitorioso, porém seu coração acelera ao saber que não pode falhar. Mas ainda assim, já sente a ansiedade a tomar, mal podendo esperar pelo encontro com Ângelo.
•••
Em frente a praça, bem no centro da Cidade, a carruagem vai parando devagar. O cocheiro desce primeiro e logo em seguida ajuda as mulheres a descerem.
- Muito agradecida, Sr João.
Heloísa desce da carruagem, já iniciando uma caminhada apressada e animada.
- Se apresse, Irene! - Pede enquanto uma mão, segura a barra de seu vestido em tons claros e repleto de babados.
A ansiedade estampada em seu rosto deixa evidente o quão nova é essa experiência. O dia está bem quente e agradável, naquela tarde de primavera.
- Espere! A Srta está andando rápido demais, sou magra mas já não tenho mais 17 anos, se ainda não notou! - Irene está ofegante, tentando a acompanhar, mas sem sucesso.
- Chegamos!
A garota fecha seu guarda-sol rendado, levando os olhos no final da rua, e para a sua surpresa, o rapaz já aponta na esquina.
- É ele Irene! - Ela põe a mão no peito sentindo seu coração acelerar. - O que eu faço com as mãos? Eu caminho ou fico parada!? Ah, só de imaginar que logo estarei de frente com aquele ser tão belo novamente, seu corpo já treme.
- Oras! Acalme-se, Srta! - Finalmente Irene consegue fazer a garota se aquietar e olha-la nos olhos.
- Está certo. - Ela respira fundo, fechando os olhos.
- Lembre-se, não podemos demorar - avisa a mais velha, em tom sério.
- Boa tarde, Srtas! - Ângelo para de frente as duas, tirando seu chapéu ao inclinar o corpo. - Srta Heloísa. - Ele lhe estende a mão com os olhos presos nela.
- Boa tarde, Ângelo. - Heloísa sente mais uma vez os lábios macios tocarem delicadamente nas dobras de seus dedos e sorri animada, enquanto seu coração pula no peito.
Irene percebeu logo de início que Heloísa não chamou o nome dele formalmente e isso a incomodou. Ele usa um simples paletó, Heloísa tem consciência de sua classe social, por isso não se importa e já imagina que seja um dos melhores trajes que tenha. Mas mesmo com roupas simples, sua beleza é ainda mais encantadora do que na noite do baile.
- Como sente-se hoje? - O rapaz lhe sorri adoravelmente, fazendo Heloísa derreter-se, pois só conseguia rever esse sorriso de novo em suas lembranças.
- Vou muito bem, obrigada. - responde sem jeito.
- Eu tenho um convite a fazê-las. - Seu olhar é sugestivo - Quero levá-las a conhecer o outro lado da cidade, lugar onde os mais simples moram, meu Tio Francisco, o chaveiro da cidade mora lá.
Ângelo declara orgulhoso, com a posição mais elevada de seu tio, já que os que tinham algum tipo de comércio, mesmo que pequeno na cidade, já eram vistos de forma mais receptiva.
- Penso ser uma ótima sugestão! Eu sempre quis conhecer o outro lado da cidade, mas papai nunca permitiu. - Heloísa olha para Irene com animação.
- Não creio que seja uma boa sugestão - Irene tem os olhos preocupados - O Sr não sabe o quão difícil foi conseguir trazer a Srta Heloísa hoje. Sabe que eu não me importo, pois eu vim de lá, mas prezo pela segurança dela. - Seu olhar é sério.
- Lhe dou minha palavra que serei cuidadoso. - Insiste Ângelo e Irene percebe que este rapaz é tão convincente quando Heloísa, quando quer alguma coisa.
- Por favor Irene, me deixe conhecer? - Heloísa insiste.
- Vejo que de nada adianta minha companhia se a Srta não me obedece, pois sabe o quanto me preocupo - reluta a mais velha, já que não se perdoaria se algo acontecesse a essa garota, que cuidou tão bem desde quando era criança.
- Prometo não demorar - assegura Heloísa.
E mais uma vez, os dois vencem Irene.
...
- Deveríamos ter vindo de carruagem! - Resmunga Irene preocupada, enquanto caminham pelas ruas de terra. - Seu pai pode estranhar seu vestido tão sujo de terra.
Já Heloísa nem prestou atenção nas palavras de Irene, o que importa no momento é aproveitar a companhia de Ângelo, com quem está de braços dados. Estar na companhia dele a faz sentir feliz, como há muito tempo não sentia.
Aos poucos o bairro vai ganhando vida aos olhos dela. A garota se surpreende com o lugar, ruas movimentadas, chão de terra, casas e pessoas simples. Ela fica admirada como tudo é tão distinto de sua vida, lá do outro lado da cidade.
Nota que mesmo com essa vida simples, eles parecem felizes. Pelo menos não vão ter o destino como o dela por exemplo, que quando se casar, seu pai já irá trazer o pretendente certo. Só de pensar nisso, já sente um arrepio lhe subir a espinha.
Mas procura não pensar nisso agora, só quer aproveitar os momentos ao lado de Irene e Ângelo. Hora ou outra, Irene ajuda com a barra de seu vestido para não sujar tanto e seu pai perceber. Irene se dá conta de que Heloísa está se divertindo com o passeio tão diferente, para ela. E fica mais calma ao vê-la sorrir tão animada na companhia desse rapaz.
- A impressão que tenho é de estar em outra cidade - Heloísa se admira.
- É o que eu também senti quando cheguei com meus pais, impressionante que é a mesma cidade, o que muda é a classe social das pessoas e isso é sempre triste - Ângelo olha com jeito melancólico. - Perdoe-me Srta Heloísa, eu não queria que ouvisse isso, dessa forma. - Ele abaixa os olhos com jeito embaraçado.
- Que bom que veio a esta cidade para trabalhar e ajudar sua família, só assim pude te conhecer, vejo que é um bom rapaz, só não escolheu nascer com condições simples. - Heloísa conclui.
- Nós não temos economias, juntamos bem pouco apenas para o dia a dia, preciso ser franco com a Srta.
- Pois eu gosto disso - Ela olha firme pra ele - De sua sinceridade, sabia?
- Logo acabará meu descanso e voltarei para o serviço Militar. Mas pretendo seguir carreira lá dentro e ganhar muito dinheiro.
- Mas irá voltar para cá em breve, não é? - Ela olha curiosa.
- Sim. Não sei se suportaria tanto tempo sem vê-la - Ângelo sorri, olhando nos olhos de Heloísa e ela lhe devolve o mesmo sorriso desviando o olhar dele.
- Vai arrumar um bom trabalho logo. - Ela o anima.
- Como podes ser tão doce, Srta!? - Pergunta estranhando que ela pareceu não se chatear com nada do que viu e ouviu.
- Veja! - A garota olha atenta para as brancas ao ar livre do outro lado da rua. Nela tem alguns artesanatos, então eles se aproximam.
- Boa tarde, Srta! - o Bom senhor a cumprimenta. - Foi eu mesmo quem fiz.
- Heloísa encontra um pequeno cavalinho de balanço feito em madeira, então ela o pega para observar melhor.
- Veja querida, é o mesmo que a senhorita tinha, quando pequena. - Irene sorri ao lembrar. - Na verdade nem era seu, era de seu priminho, que a senhorita conseguiu convencer seus pais a trazerem. - As duas riem.
- Pois foi justamente o que me lembrou quando vi.
- Pois bem, espero que não se importe se eu lhe presentear com algo de valor tão baixo. - Ele tira do bolso uma moeda e entrega para o bom senhor, que agradece inclinando a cabeça.
- Na verdade, isso é tão distinto perto de minhas bonecas de rosto de porcelana e vestidos rendados. - Ela olha fundo nos olhos de Ângelo que por um momento parece não entender onde ela queria chegar. - Eu amei! - Um enorme sorriso aparece em seus lábios rosados, fazendo Ângelo sorrir mais aliviado e ainda mais encantado.
Eles seguem o passeio vagarosamente, parando perto de uma árvore enorme. Ângelo se aproxima dela, está perigosamente muito perto, enquanto trocam olhares. Parecem hipnotizados um no outro, aquele olhar é único, de um jeito que Heloísa desconhece.
Mal sabe ela, que o olhar de Ângelo é de quem está ansioso para se perder nos lábios rosados dela. Ângelo deseja se aproximar mais, porém sabe que por estarem em público isso seria ruim para a reputação dela, ainda mais vendo Irene ali. Mas ele não vai conseguir resistir.
- Srta Irene? - Ele se vira com olhar de quem está aprontando. - Poderia fazer-me um favor?
- Sim? - Irene se aproxima.
- Me compraria caramelos ali na venda? - Ele tira do bolso uma moeda.
Irene olha para eles desconfiada, ela sabe bem o que ele pretende fazer , então ela decide ajudar.
- Tudo bem. - Ela pega o dinheiro suspirando e caminha. Depois para e vira rápido - Mas volto num piscar de olhos - Ela levanta o indicador em prévio aviso, apertando os olhos.
Ao sair, os dois riem.
- Sabe o que seria mais doce do que mil caramelos? - Ele se aproxima com voz baixa e num tom diferente.
Os olhos de Heloísa estão apreensivos, sem saber direito o que dizer enquanto ele corta qualquer espaço entre eles. Heloísa se dá conta de que Ângelo de perto, é tão lindo como um sonho. Seus lábios carnudos e rosados, seus cabelos negros como a noite, sua pele tão suave.
- Seus labios... - Sussurra Ângelo, fitando os olhos em direção da boca dela. - Sonho com eles, noite após noite, devem ser mais doces que qualquer coisa - Heloísa fica em transe. - Penso que seja mais doce até mesmo que esses olhos na cor do mais puro mel!
Ângelo encosta uma mão na árvore, aproximando ainda mais o rosto dela enquanto se olham. O coração de Heloísa está prestes a sair pela boca ao ver aquele homem tão perto assim de seu rosto, e sua respiração tocar na face dela com suavidade, é tudo tão novo.
A outra mão vai até sua bochecha e acaricia com calma a pele macia, deslizando seus dedos até seu pequeno queixo, com suavidade, fazendo a garota sentir um arrepio por todo o corpo apenas com tal toque, enquanto respira rápido. Ela sabe que não deveria, mas a sensação que a toma lhe dá coragem de continuar.
Ele fica sério, fica fascinado ao sentir o cheiro dela tão perto. É um cheiro de flores do campo. Ele sorri mais uma vez, antes de juntar seus lábios gentilmente, se demorando ali. Heloísa se surpreene com tal sensação, sentindo um arrepio bom descer por toda a sua espinha, os lábios fartos são quentes e mais macios que pétalas de rosas.
Logo ele se afasta, sorrindo discreto apenas por observar sua reação. E ao ver que ela sorri ainda que embaraçada, ele se aproxima de novo e dessa vez vira o pescoço de lado, encaixando seus lábios mais fundo nos dela e dessa vez sua língua vem acompanhada, mesmo que de leve.
Heloísa experimenta seu primeiro beijo com alguém que realmente queria, mesmo percebendo tamanha ousadia da parte dele ao usar sua língua. Ela sente a umidade e o calor de sua boca, depois a textura de sua língua. E logo em seguida se afasta sentido seu corpo todo estremecer. Mas não pode descrever tamanha satisfação. Sempre pensou que seu primeiro beijo, seria com seu futuro esposo.
Irene não demorou, mas ao se aproximar percebe que eles estão de mãos dadas, trocando sorrisos tímidos. Neste momento Irene cai na realidade. Será que fez a coisa certa em ajudá-los? Onde isso iria chegar? O primeiro amor é tao intenso, como ela reagiria, caso não desse certo?
A caminho de volta, enquanto Heloísa fala sem parar, Irene segue quieta. Está com medo do que acontecerá, ela conhece bem Heloísa, sabe que ela lutará por isso, pois era corajosa.
•••
Os dias seguem, Heloísa ia para as aulas de mentira, só pra ver Ângelo sempre no mesmo horário. Eles passeavam sempre com Irene do lado, trocavam sorrisos. Ele lhe roubava selares doces sempre que Irene se distraía. Heloísa não podia estar mais feliz.
- Queria tanto que conhecesse minha familia, seria um sonho. - Ângelo pega nas mãos dela ao se encostar numa árvore. - Ainda mais agora que já nos beijamos. - Ele olha preocupado - Não quero arruinar sua reputação depois disso. - E minha família verá que eu tenho a rosa mais linda de todas! - Sorri orgulhoso.
- Pena eu não poder dizer o mesmo de meus pais - diz desanimada. - Principalmente meu pai. Acha que deveríamos tentar? - Pergunta erguendo os olhos.
- Pelo que penso, seria impossível. - Ângelo responde sem jeito.
- Mas... É com você que eu quero ficar! - ela é decidida - Às vezes me pergunto se vou ficar sempre assim lhe encontrando as escondidas, a cada dia que passa está mais dificil convencer Irene de me trazer, ela sempre diz que é muito arriscado - Heloísa abaixa a cabeça. - Queria ao menos que meu pai deixasse-nos comprometidos até você arranjar um bom trabalho no serviço militar.
- E acredita que ele deixaria? - Ele olha curioso.
- Eu... Acredito que não. - Heloísa desvia o olhar confusa.
- Seria muito dificil eu falar com ele? - Seus olhos negros tentam animar Heloísa.
- Não custa tentar! - Por um momento, Heloísa gosta da idéia.
- Desejo tanto que sejas minha noiva, mas eu sou um moço se classe baixa! - Diz incomodado.
- Mas se meu pai permitir que fiquemos comprometidos, eu esperarei até que consiga um bom trabalho! - Diz sem pensar duas vezes. - Assim ele não me arrumará ninguém. Se tentar falarmos com ele, quem sabe o convencemos? - Heloísa o encoraja.
Ângelo pensa um pouco e depois decide.
- Está certo, Heloísa. Eu irei com meu tio Francisco, ele é bem conhecido na cidade. - Ângelo se anima.
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