Capítulo 12
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Já passa das onze da noite. O frio lá fora, é intenso e congelante, mas dentro de casa, mais precisamente, na pequena sala, os dois amigos fazem companhia um ao outro. O ambiente é quente e aconchegante, Dênis, caminha com calma, trazendo em uma das mãos, o boletim do mais novo:
- Desculpe dizer isso dessa forma, Damien, mas suas notas estão péssimas! - exclama o mais velho, erguendo uma das sobrancelhas em direção do loiro, com jeito preocupado.
Entretanto, o mais novo, parece não se importar tanto com isso. Ele ergue os olhos atentos, na direção de seu amigo de quarto, e se pergunta como ele consegue ver alguma coisa por baixo de tantos cachos dourados.
- Está tão ruim assim? - pergunta Damien, resolvendo colocar seu celular ao lado do sofá e focar realmente no assunto nesse momento.
- Bom, seus pais esperam que você se forme em medicina, porém se continuar nesse compasso, de fato, vai bombar em quatro matérias - explica Dênis, com os olhos atentos ainda sobre o boletim.
- Ai, droga! - exclama Damien, com olhar preocupado, passando seus dedos por entre suas mechas douradas e parecendo perdido. - Quer saber? - Se levanta com olhar decidido e incomodado. - Eu não vou conseguir! Não quero mais estudar uma coisa que sei que não tenho vocação. Meu sonho sempre foi Artes. E já estou cansado de tentar disfarçar isso para meus pais e até para mim mesmo!
- Bom, se sente que está decidido, então já sabe o que deve fazer, certo? - pergunta Dênis, colocando o boletim sobre a mesinha de centro e pousando um dos braços sobre o encosto do pequeno sofá, marrom claro. - Nas próximas férias, converse de uma vez com seus pais e explique toda a situação. Só acho que essa decisão vai impacta-los, quando souberem também do seu amoro com a Eliza.
- Sim, Dênis. Eu tenho ciência disso. Por isso, preciso ir com calma - termina ele, com olhar cabisbaixo.
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Finalmente mais uma aula na faculdade, chega ao fim. Eliza caminha apressada em meio os estudantes em direção de sua casa, carregando sua mochila, está exausta devido ao trabalho e aos estudos e não vê a hora de chegar em casa e poder descansar.
Mas assim que abre a porta, sente que pisa em algo no chão. E ao abaixar a cabeça, se depara com suas contas que tinham sido colocadas por baixo da porta, pelo carteiro. Seu corpo trava, ao notar que são muitas. Seu semblante muda rápido, como da água para o vinho, se abaixando devagar e as colhendo do chão, com olhar cabisbaixo.
Logo ergue seus olhos tristes e cansados, de forma pensativa. Respira fundo ao sentir que precisa aceitar sua realidade. Parece que os únicos momentos bons, são quando estão com Damien, ou com seus amigos, porquê seu sonho de se formar na cidade de Paris, já lhe parece algo totalmente distante ultimamente.
Porquê contando com todo o resto, está tudo parecendo um terrível pesadelo, seria praticamente impossível ela conseguir colocar todas essas contas em ordem com o dinheiro que ganha. Sente-se sufocada e decide que já não consegue mais, então infelizmente, acaba tomando sua difícil decisão.
Chega. Já é hora de voltar.
Precisa voltar para o Brasil, colocar suas coisas no lugar, e principalmente ter um importante encontro com seu pai. Vai colocar os "pingos nos is" Essas atitudes dele, já passaram do limite e já a prejudicou demais.
Ela tentou trabalhar e se sustentar, mas sente que falhou miseravelmente. Sente que foi derrotada mais uma vez. E o pior é que ela já imaginava que isso iria acontecer, se por um acaso, se envolvesse com um gringo.
- Você venceu pai! - diz ela, com voz baixa, olhar profundamente magoado e distante. - Eu estou voltando pra casa. Mas prometo que dessa vez vai ser tudo diferente.
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- Eu já não sei mais o que faço!
Eliza está sentada em seu sofá, de frente para seus amigos, enquanto tem os olhos presos sobre as contas em sua mesa:
- Na minha mesa tem tantas contas, mais do que eu poderia imaginar. Sinto que já não consigo mais! - exclama, de forma desanimada.
- Você já falou com seus pais?... - pergunta Oliver, com voz triste.
- Não, Oliver. Mas vou fazer isso ainda hoje... - Ela suspira, passando as mãos nos cabelos e fechando os olhos. - Eu não queria ter que fazer isso, seria mais fácil ter o apoio de meu pai e ter Damien comigo. E o pior... vai ser me despedir dele! - Ela olha pensativa e sente lágrimas se juntarem em seus olhos.
- Isso é uma tremenda injustiça! - reclama Louise, se levantando apressada, trazendo um olhar inconformado. - Quem o seu pai pensa que é?!... - Ela se vira na direção de Eliza, com olhar firme.
- Calma, Louise!
Oliver se levanta e coloca as mãos sobre o ombro de sua amiga no intuito de vê-la se acalmar. Ele sabe que Louise está incomodada, porque agora, Eliza está sendo prejudicada de verdade. Mas sabe que assuntos familiares são realmente complicados.
- Calma?! - pergunta Louise, olhando para Oliver, com jeito inconformado. - Oliver... Eles se amam! E além disso, ela não vai poder terminar a faculdade! O pai dela deveria ao menos ter um pouco de consciência! E porque não dar uma chance para os sentimentos da única filha que ele tem? Ele é um sem coração! - Ela termina cruzando os braços com braveza.
- Mas é o pai dela, Louise! É um assunto muito delicado. Vamos ter calma... Pela Eliza. - Oliver olha para a pequena, ainda com jeito desanimado.
- Só estou dando minha opinião e ela sempre soube disso desde o começo. - Louise desabafa. - Ah, me desculpa, Liza... - Louise suspira, tentando se recompor. - Eu gosto tanto de você! Só quero te ver feliz. Eu sei que assuntos familiares são complicados. Mas ainda acho injusto - teima a loira, em voz baixa, erguendo uma sobrancelha com jeito incomodado.
- Não se preocupe, Oliver, Louise tem razão. Isso não está certo. Eu não posso simplesmente fingir que nada está acontecendo na minha família. Uma hora eu teria que voltar e enfrenta-lo, só não esperava que meu pai forçaria tanto assim as coisas. Nada mais parece ser como antes entre eu e meu pai.
Eliza olha decidida e suspira, antes de continuar:
- Mas eu vou fazer questão de deixar as coisas claras para o meu pai. Estou decidida a ficar pouco tempo no Brasil e terminar a faculdade lá mesmo. E assim, ter um bom emprego e ser independente. E logo irei voltarei para essa cidade. Par o meu Damien... Isso vocês podem apostar - avisa Eliza.
Oliver se aproxima olhando com tristeza:
- Mas lembre-se que existem oportunidades que não batem na nossa porta duas vezes...
Eliza fica pensativa com as palavras de Oliver, mas ela não está conseguindo mais raciocinar direito, só pensa em suas contas e da rejeição de seu pai. São tantas coisas que passam em sua cabeça, e lhe dói, ainda mais ao saber que foi mais uma vez derrotada e manipulada por seu próprio pai.
- Eu vou sentir tanto a falta de vocês - avisa Eliza, se aproximando deles, para um abraço apertado.
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Passam-se cinco dias, a garota tirou um tempo para ajeitar os últimos retoques antes da viajem. Durante esses dias, ela pediu suas contas no trabalho e trancou a matrícula da faculdade, sem comunicar nada com Damien, ainda.
Agora é noite, ela está sentada na cafeteria, com olhar pensativo, enquanto saboreia um delicioso chocolate quente. - Talvez o último - E sua memória viaja no tempo, relembrando todas as cenas lindas, vividas nessa cidade.
Mas logo sai de seus pensamentos ao vêr Damien atravessar a porta de vidro a procura dela, com olhar ansioso. E como está lindo! Seu coração chega a apertar no peito, ao vê-lo com seus tipicos moletons grandes. Ele veio da faculdade direto para encontrar com ela.
- Olá, Liza! - ele se aproxima lhe dando um selar rápido em sua boca.
A garota se embriaga com seu perfume delicioso, e sofre por antecipação ao saber que não vai sentir isso por muito tempo.
- Quer comer alguma coisa? - pergunta ele, tirando a mochila dos ombros e a ajeitando na cadeira.
- Estou sem fome - responde a garota, em voz baixa.
- Liza, você não atendeu minhas ligações durante cinco dias. Eu fiquei realmente preocupado, sabia? - O olhar de Damien muda completamente e sua voz sai num tom de reprovação.
- Me desculpe por isso. - Eliza olha pra ele sem jeito. - Eu precisei de uns dias para resolver minha vida. E hoje eu te chamei aqui para uma conversa, mas nem faço ideia por onde começar. - Dessa vez, ela desvia os olhos dele, abaixando a cabeça.
- Vamos lá, Liza, não me esconda nada... - Ele a encoraja, com olhar ainda mais sério.
- Eu... - Ela engole em seco, sentindo sua garganta travar - Eu... P-preciso, voltar. - Com muito custo, finalmente ela consegue dizer.
Damien apenas olha surpreso, piscando vago algumas vezes, logo seu olhar vai se desfazendo aos poucos, ficando pensativo, dá para perceber a tristeza envolvendo sua face em instantes. Parece não acreditar no que acaba de ouvir.
É como se tudo o que ele temia, estivesse realmente acontecendo. Ele abaixa os olhos para seus dedos cruzados sobre a mesa de madeira escura, ainda sem reação, então Eliza quebra o silêncio.
- Eu... Juro que tentei. - Ela sente sua respiração ficando irregular e seu coração acelera. - Mas você já deve ter percebido que eu não estou mais conseguindo! - Dá para ver o incomodo em seus olhos. - E você já deve saber meus motivos.
- São suas condições, Liza? - ele levanta os olhos, rápido. Cravando dentro dos dela, com seriedade. - Porque se for isso, eu já disse que daremos um jeito... - Ele tenta reverter a situação, mas Eliza sacode a cabeça em negativo, ao mesmo tempo em que sente seus olhos embarcarem pelas lágrimas.
- Não é só isso... - Eliza vê Damien, olhar incrédulo - Isso é um dos maiores motivos, mas eu preciso me resolver com meu pai, Damien. Por tudo o que aconteceu conosco e por tudo o que ele está fazendo comigo! Você sabe que eu não posso mais ficar assim, isso está me matando! - Ela passa as mãos sobre os cabelos de forma apressada.
- Nós sabemos bem que ele praticamente está te obrigando a partir, Liza! - Rebate Damien, com jeito inconformado e Eliza para por um momento, levantando a cabeça de forma surpresa - Eu tenho medo do que vai acontecer lá... E eu não vou poder estar presente. Vamos tentar mais uma vez! Espere mais um pouco?
Ele a encoraja:
- Eu vou com você nas férias e vamos falar com seu pai, juntos. Peça para ele, Liza! E se ele não te aceitar... Eu te aceito. Vem comigo pra casa dos meus pais?! Eu vou te levar ...
- O-o que está dizendo, Damien! Não! Eu... Não posso ir embora com você!.... - Ela o interrompe, parecendo não acreditar no que está ouvindo.
- Eu já imaginava que um dia isso poderia acontecer, por isso, até pensei nessa hipótese.
- Isso é loucura! - Eliza o interrompe, sem acreditar nas palavras dele. - Eu não posso simplesmente fugir assim da minha casa. - Ela tenta se recompor agora - Eu queria poder ficar, sei que podemos dar um jeito, mas o assunto e bem mais complexo. Eu preciso terminar a faculdade, no Brasil com as condições que tenho lá, me organizar e então eu vou voltar!
- Você não viria comigo?
- Eu também preciso... me resolver com meu pai. Eu não queria ter o desprezo dele. Mas também não queria te deixar. Porém, infelizmente, preciso tomar uma decisão. Espero que me entenda. - Ela abaixa a cabeça, com jeito triste.
- Então você já está fazendo suas escolhas! - deduz ele, abaixando os olhos, totalmente incomodado, de cenho franzido.
- Não! Eu estou indo em busca da minha liberdade. Só consigo estudar com as condições necessárias no Brasil, também não quero que meu pai me odeie! - Ela se mostra perdida e triste - Assim que eu estiver formada no Brasil, eu serei independente, então quando eu estiver pronta, nós vamos ficar juntos, eu prometo. - Ela sente sua garganta travar ao dizer.
- Desculpe, Liza! - Ele se levanta, impaciente, sua face é séria, como Eliza nunca vou antes. - Mas eu acho que você está tomado a decisão errada dessa vez! Você sabe que não pode sempre esperar a aprovação de seu pai para todas as suas decisões. E quanto a nós?! - Ele lhe cobra, deixando Eliza ainda mais surpresa, os olhos dele estão profundos dentro dos dela - Você só fala em não decepcionar seu pai! Eu esperava um pouco mais de resistência da sua parte, mais otimismo, queria que você lutasse como me prometeu uma vez! Mas me parece que você só está pensando em você mesma, assim como o seu pai faz!
Eliza nunca viu Damien se comportar assim, mas o medo de perder Eliza o fez agir assim. As lágrimas do loiro caem, passando direto por suas bochechas. Parece não se importar que Eliza o veja daquele jeito.
- Não! Eu não sou assim. Você sim, está se preocupando apenas com você! - Eliza o acusa.
- Reflita você mesma! Até quando vai deixar isso ir mais longe? Agindo assim, seu pai vai continuar sempre te manipulando. Mas sei que você já fez sua escolha. Você escolheu ele e com certeza, não vai mais voltar para mim!
- Aonde vai?! - Eliza olha confusa, ao ver Damien se virando e pegando sua mochila na cadeira.
- Vi que não vai adiantar eu insistir, você já se decidiu. - Ele para, virando a cabeça em direção dela e seu rosto magoado parece partir o coração dela.
- Eu juro que tentei, mas assim, eu estaria incompleta... Você não sabe como está sendo realmente frustante, eu estou passando por um momento tão difícil, me sinto pressionada em todos os sentidos.
- Pode ser que eu esteja tomando a decisão errada, mas por enquanto... É isso que vou fazer. Eu preciso voltar, Damien. Espero que entenda que a última coisa que eu queria, era te magoar, mas eu também prometo voltar pra você!
- Desculpe Eliza, mas você não vai voltar, você não se importa realmente.
- Me perdoe, Damien. Achei que iria me entender. Me desculpe se talvez eu esteja mesmo sendo injusta.
Eliza se aproxima dele olhando fundo em seus olhos vermelhos. Ela acaricia seu rosto com carinho, limpando suas lágrimas.
- E você. Prometa que vai me esperar? - ela segura o rosto dele, entre suas mãos.
Damien ergue seus olhos azuis, por um momento, depois tira as mãos dela, devagar de seu rosto, com jeito triste, se vira e vai embora.
A garota apenas, deixa suas lágrimas caírem, sem acreditar que infelizmente, esse foi o seu adeus.
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