Tonight
[PLAY NO VIDEO ANTES DE COMEÇAR A LER]
Estava entediada. Sabia que isso aconteceria desde o instante em que começou a se entupir do café caro servido na empresa. Sem a agenda agitada de Anja com concertos e apresentações pela Rússia, o que lhe restava? Apenas assistir o trabalho dela com os meninos. Não previra que a falta de uma agenda pública fosse deixa-la sem quase nada para fazer.
Estava com fones de ouvido grandes, sentada na terceira poltrona da quinta fileira do auditório privado da Big Hit, ouvindo Mono no último volume. Sempre que ficava entediada e, consequentemente, deprimida por não poder trabalhar ela ouvia o album de Namjoon. A voz rouca e o rap lento fazia com que ela se imaginasse dentro de um clipe qualquer, numa história que não fosse sua apenas por estar. Involuntariamente imaginou Anja dançando balé ao som de BTS. Não seria exatamente balé, seria uma mistura do clássico com o contemporâneo, usando roupas mais confortáveis do que o tradicional combo collant + saia de tule.
Fechou os olhos e imaginou uma apresentação ao som de um piano. Se ela fosse a diretora, montaria um espetáculo simples com os solos e as músicas mais melódicas do grupo, como Serendipity, Epiphany, Euphoria ou até mesmo Fake Love. Anja não precisaria de mais nada além do piano e de si mesma, confiava assim no trabalho da amiga. Mas ela não era diretora. O máximo que fazia era tocar piano.
Abriu os olhos e encarou o palco deserto. Estava sozinha há horas e nenhuma alma havia aparecido para tocar o piano deixado no canto. Era um piano de cauda, branco, coberto por um plástico transparente. Provavelmente era o mesmo piano que Jin tocava nos shows. Devagar, ao som de Young Forever, ela se endireitou e olhou a sua volta. Continuava sozinha e muito provavelmente ficaria assim até o fim do expediente de Anja.
Não teria problemas se esticasse os dedos naquele piano, teria? Fazia meses que não tocava, mas de repente sentiu aquela necessidade absurda de pelo menos sentir aquelas teclas com as próprias mãos. Sentiu um frio na barriga, se questionando se Jin realmente tocava aquele piano ou estava ali apenas para ensaios. Seu lado army dizia que deveria se arriscar, então ela tirou os fones de ouvido e subiu no palco. Tinha certeza absoluta que aquele auditório era todo isolado acusticamente, não seria ouvida do lado de fora, mesmo assim sentiu medo ao se sentar na banqueta.
Descansou os fones no pescoço, lançando mais um olhar a volta antes de puxar o plástico que protegia o piano. Bem pequeno no suporte para partitura, viu o portão que agora era símbolo do BTS. Sentiu aquela onda de prazer que só uma fã saberia explicar e olhou de novo a volta. Levantou a tampa do piano e foi como se o mundo ganhasse aquela cor magica que só o BTS conseguia dar, e nem tinha começado a tocar.
Tirou o celular do bolso da jaqueta que usava e fechou o aplicativo de música, abrindo um com partituras e colocando-o no suporte. Respirou fundo, hesitante, mas alongou os dedos assim mesmo, enquanto olhava por cima do ombro uma ultima vez.
– Mal não vai fazer... – murmurou esticando as mãos sobre as teclas. Tocou a primeira nota e...
– Eu não faria isso se fosse você.
A voz fez com que se assustasse de tal forma que a tampa do piano fechou em uma de suas mãos na tentativa de se levantar, machucando o dedinho e o anelar, fazendo-a ver estrelas.
– Puta que pariu! – xingou em russo, enfiando a mão na boca e se afastando do instrumento.
– Eu disse para não fazer. – Jin apareceu pela lateral do palco, saindo por detrás de uma cortina pesada, as mãos nos bolsos da calça social que usava. Claramente não estava ensaiando como ela havia imaginado. Ele se aproximou dela com calma e puxou a mão machucada. Aly ainda tentou puxar a mão, mas ele a segurou com firmeza, puxando-a para um ponto de luz para poder ver melhor. Esticou delicada e gentilmente os dedos vermelhos e lentamente fez um carinho neles, enquanto verificava se haviam quebrado. – Está tudo bem... não quebrou. – murmurou dando um sorriso de lado e soltando a mão dela.
– Não quer dizer que não estejam doendo! – reclamou ela, segurando a mão com a outra e avaliando por si mesma o estrago causado pela própria burrice.
– Considere um castigo por ter usado meu piano sem permissão. – falou.
– Você sente prazer em me irritar?
– Sinto prazer em te lembrar que fica pegando as coisas sem permissão. – falou indo até o piano e passando a mão delicadamente no tampo dele. – Meu piano, meu salgadinho... – continuou, passando um dedo pelas teclas e deixando o som preencher todo o auditório. – ...meus lábios.
Alyona arregalou os olhos. Ainda era sobre isso? Soltou um riso sarcástico, parada no mesmo lugar ainda segurando a mão no peito, com dor.
– Nunca pensei que meu beijo fosse impactar tanto alguém assim. Não vai deixar passar em branco, não é?
– Agora sim, vou sim. – respondeu ele, levantando os olhos para ela e tocando algumas notas no piano.
– O que...?
– Eu só precisava que admitisse que foi um beijo... – respondeu ele, baixando o olhar e tocando inconscientemente a introdução de Tonight. – Se me lembro bem, e eu tenho uma memória perfeita, você disse que não tinha sido um beijo. – levantou os olhos para ela.
Alyona sentiu que havia perdido ali, naquele olhar. Abraçou a mão com mais força, para esconder que estava tremendo, de raiva e de alguma outra coisa que não sabia definir. Talvez soubesse, só não queria admitir. "Droga! Por que ele tem que ser assim?" – pensou com raiva de si mesma. O silêncio se instalou entre eles, pesando naquela distância como se o mundo tivesse parado. E então Jin sorriu abertamente para Alyona, batendo a mão de leve na banqueta onde ele estava sentado, num convite silencioso para que ela o acompanhasse. Só então ela percebeu que estava segurando a respiração.
– Eu quero ver o que sabe tocar. – falou gentil.
"Eu vou virar as costas e ir embora. Simples assim. É só se virar e sair do auditório, Aly." – pensou. Mas seus pés a traíram e ela se viu indo devagar e obedientemente até o piano, sentando-se ao lado do rapaz.
– O que ia tocar? – ele perguntou. A garganta de Alyona ficava cada vez mais seca ao perceber como ela olhava fundo dentro de seus olhos. "Por que ele tem que ser assim?" – pensou de novo, sem dizer nada. Apontou para o celular, ainda posicionado no suporte para partitura.
Jin desviou o olhar do dela e de novo ela sentiu que estava se libertando de alguma espécie de transe. Aproveitou aquele intervalo entre o olhar dele e sua mente delirante para se ajeitar na banqueta e ficar de frente para as teclas do piano. Olhou novamente para o símbolo do BTS gravado no piano, como que buscando coragem. Ia tocar piano com um dos meninos! Isso por si só já era motivo para ficar ansiosa, mas o fato de ser alguém que a desestruturava daquele jeito, fez com que as mãos dela suassem.
Voltou ao transe ao ouvir a risada rasgada de Jin ao perceber que ela tinha escolhido uma de suas músicas. Não conseguia olhar para nada além do perfil dele olhando para seu celular. Quando ele a encarou ela engoliu seco.
– Era isso que ia tocar?
– Era. – conseguiu murmurar.
– É difícil essa... demorei muito tempo para conseguir no violão, imagine no piano. – falou com sinceridade, voltando a encarar a partitura na tela do celular.
– Eu já a toquei uma vez... – ouviu a si mesma dizer.
– É mesmo? Desde quando toca piano? – a pergunta ajudou a moça a sair do torpor que ele lhe provocava mesmo que a contragosto. Lembrou-se de como havia conhecido Anja e Alex na escola comunitária do bairro. De como havia sido forçada a tocar o piano para os alunos do balé porque era a única aluna de piano e da amizade que criara com os dois dali em diante. Isso fez com que sorrisse e finalmente conseguisse colocar os dedos sobre as teclas do piano, tocando uma ou duas notas para acalmar o próprio coração.
– Desde quando Anja aprendeu a dançar...
Sem dizer mais nada, ela começou a tocar a música de Jin. De fato, já havia tentado aquela partitura antes, por isso havia encontrado ela tão fácil no aplicativo. Poderia ter tentado qualquer uma das musicas do álbum de Namjoon, tinha tentado todas, mas se sentia segura com Tonight, só não sabia bem o porquê. Quando chegou ao refrão, percebeu que Jin cantava baixinho ao seu lado.
Olhou para ele entre surpresa e o chocada. A voz dele fazia com que a pele dela se arrepiasse toda. Jin percebeu, mas continuou cantando, assim como ela continuou tocando. Ele fechou os olhos, entregue à música e fazendo-a desviar o olhar de volta para as teclas do piano e a partitura. Quando a música chegou na parte em que ele apenas a sussurrava, Alyona sentiu o ar quente no pescoço e quando ela olhou naquela direção, sentiu os lábios dele no vão entre o ombro e o maxilar. Parou de tocar, fechando os olhos e inclinando, sem perceber, a cabeça, abrindo caminho para que Jin a beijasse ali.
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