Intro: Ringwanderung
A sala de dança estava escura e vazia àquela hora. Mais um ensaio madrugada adentro com o intuito de diminuir a necessidade de Andrey no espetáculo. Anja soltou a bolsa com suas coisas ao pé da porta e ligou a luz. Uma a uma as lâmpadas foram se acendendo até chegar à lâmpada acima do piano, revelando a presença do diretor. Ele mal piscou, apenas sorriu com o choque que provocou na bailarina.
– Te assustei? – perguntou sarcástico.
Anja levou a mão ao coração, de susto. Não contava seus horários a ninguém para que não fosse perturbada enquanto ensaiava. Sempre foi assim, desde quando entrou para a companhia de dança do ex.
– Precisamos conversar.
– Não, não precisamos.Qualquer coisa que queira me dizer, pode dizer a Alyona e ela me dirá. – respondeu já pegando a bolsa do chão. Não ia ensaiar com ele ali.
– Vou te contar uma historinha e vamos ver se vai se lembrar do que houve. Era uma vez uma bailarina alta e esguia, talentosa e rica, que tinha tudo para roubar o lugar de bailarina do ano de uma outra moça, gorda, baixinha e comum. Um belo dia essa bailarina alta e bonita apareceu doente. Na semana seguinte ela foi internada às pressas pois vomitava sangue. Pouco depois ela anuncia sua aposentadoria precoce e aquela bailarina baixinha e gorda ganha mais uma vez como bailarina do ano.... Lembra-se desse prêmio?
Anja lembrava. Assim como também se lembrava de Frederika, a bailarina em ascensão daquele ano. Ficou horrorizada com a descoberta de uma doença rara e a aposentadoria repentina da moça. Chegou mesmo a enviar flores e presentes para Frederika no hospital, sem entender o motivo de ter recebido tudo de volta no dia seguinte. Andrey podia ouvir as engrenagens trabalhando a todo vapor e somando as informações. A bolsa voltou a cair ao chão com um estrondo.
Andrey sorria quando se levantou do piano e foi até a bailarina. Adorava o efeito que provocava nela desde o dia em que se conheceram. Podia se lembrar perfeitamente do choque ao ver aquela bailarina gorda entrando no palco para o teste. Quando leu na ficha que ela estava ali pelo papel principal, achou tudo muito engraçado e ao mesmo tempo corajoso, mas não tentou impedir sua equipe de sair. Afinal de contas, ninguém podia imaginar que ela dançava como dançava. E depois o jeito como ela se tremia toda na presença dele, como se qualquer migalha de atenção fosse capaz de acender o maior dos incêndios dentro dela. Gostava desse efeito.
Era algo parecido com o que via nela agora, furiosa com a possibilidade dele machucar seu novo mascote. Os olhos verdes dela ardiam de ódio e, estranhamente, isso o deixava excitado. Podia sentir o aperto da calça e da cueca com requintes de crueldade, mas também gostava desse efeito novo que aquela mulher lhe provocava. Fazia com que a vontade de a ter de volta fosse ainda maior.
– Você não seria capaz! – murmurou levando a mão à boca, em choque.
– Não? Tem certeza? Não seria coincidência demais se o pobre James, ou sei lá que nome esquisito aquela criança tem, apresentasse os mesmos sintomas? Há quanto tempo ele não canta? Será que ele vai conseguir sorrir para as câmeras até chegar aos eventos de premiações? Soube que você e ele ensaiaram uma coreografia bonita com lenços e balé contemporâneo... seria uma pena se ele tivesse que canc...
O tapa o acertou em cheio, mas ele não saiu do lugar. Levou a mão ao rosto e encarou Anja em silêncio por um longo tempo.
– Cuidado. Posso me apaixonar de verdade dessa vez. – sussurrou.
– O que você quer? – perguntou ela entredentes.
– Você sabe muito bem... – passou as costas da mão pelo ombro dela, descendo até que segurasse a mão gordinha e pequena. – Você é meu anjo da guarda, não lembra. É, e sempre vai ser, minha.
Anja levantou o braço novamente e ganhou impulso para o segundo tapa, apenas para ser parada antes de alcançar o rosto de Andrey de novo. Ele apertou o pulso dela com força e a puxou para perto, encarando-a. A porta da sala de dança voltou a abrir, mas antes que Anja olhasse para ver quem era, o diretor a puxou para um beijo forçado.
Aquele beijo provocou uma gama nova de coisas nos dois. Em Anja, foi como beijar uma parede particularmente suja. Para Andrey, foi como provar sua sobremesa favorita depois de anos em jejum. Mal podia esperar para descobrir qual seria a sensação nova de tê-la em seu colo. A bailarina sentiu a língua dele contra a sua e a única coisa que conseguiu pensar foi em uma serpente maligna tentando se infiltrar em sua vida.
Os dois se separaram logo em seguida, a bailarina com nojo e Andrey com a boca ensanguentada, com um esgar no lugar do sorriso e um brilho perigoso nos olhos azuis.
– Nunca. Mais. Encoste. Em. Mim. – pontuou a ruiva cuspindo no chão e se virando para a porta, mas já não havia ninguém.
– AINDA NÃO TERMINAMOS, ANJINHO! AINDA TEM MUITA COISA PARA VOCÊ SABER. – ouviu Andrey gritar de dentro da sala de dança.
Não deu ouvidos, apenas correu. Um pressentimento ruim lhe dizia que tinha pouco tempo com Jimin. Sabia do que Andrey era capaz e com quem ele tinha conseguido os "presentes" da bailarina em Moscou e dos meninos ali. Sentiu medo por si mesma, por Jimin, por Alex. Jogou a bolsa no caminho e tentou correr mais rápido, mas as lágrimas deixavam sua visão turva. Tinha que resolver isso logo, sem que ninguém se machucasse. Mas como?
– Anja! – gritou Alyona quando a amiga passou por ela correndo, quase derramando o sexto café dela no processo.
Assim como Anja, a empresária agora passava a maioria das madrugadas dentro da Big Hit tentando intermediar as discussões entre a bailarina, Andrey e a empresa. E como ela passava a maior parte das noites dançando, era mais útil ficando ali para o caso de terem algum problema, do que em casa esperando alguma ligação. Mas pelo visto o problema tinha chegado antes dela.
Ficou dividida entre ir atrás da amiga ou ir até a sala de dança conferir se estava tudo em ordem. Mas sua intuição dizia que não deveria fazer nem um, nem outro, deveria procurar Jimin.
***************************************************************************************
Nota da autora: eu escrevi três versões diferentes desse capítulo. Começamos o início do fim nessa trama e está sendo um pouquinho difícil começar a me desapegar, por isso ele ficou mais curto do que o normal. Espero que gostem. <3
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro