Girlfriend
— Não cobiçarás a mulher do teu próximo. — O pastor, que pregava sobre os dez mandamentos pela segunda semana consecutiva, disse alto demais para quem estava usando um microfone.
Acabei me tornando incapaz de prestar atenção em todo o resto, porque o meu pensamento foi completamente tomado pela garota de cabelos longos da escola. Ora, como poderia não estar apaixonada por Ha Sooyoung? Somente se fosse maluca não iria notar a beleza dela. A prova disso era seu namorado, que fazia questão de sempre beijá-la no meio do pátio só para deixar claro quem estava a namorando, era desnecessário e muitas vezes pensei em como eu gostaria de socá-lo por isso.
Comecei a brincar com o esmalte preto da unha, pensando em como arranjar uma desculpa para sair dali por estar desconfortável com meus pensamentos que, embora fossem muito aceitos por mim, estar na igreja fazia toda essa aceitação ir para os ares. Acabei indo ao banheiro sem ao menos avisar minha mãe, que estava de pé na porta para o caso de alguém precisar sair ou quisesse entrar, de lá subi até onde ficava a parte infantil e saí pela porta que dava para o estacionamento de um pequeno shopping.
Era domingo e o lugar estava deserto, ótimo para sentar em um dos bancos e chorar sem que ninguém ficasse me olhando enquanto se perguntavam o que tinham feito com a garota de vestido branco, por isso, claramente me assustei quando uma voz feminina chamou meu nome e uma mão gelada tocou meu braço. Sequei as lágrimas rápido, mas tinha certeza que meus olhos estavam avermelhados. Da segunda vez que chamou meu nome, eu finalmente olhei para o lado e vi Haseul, uma das meninas que ficava com as crianças.
— Oh, irmã Haseul. — Passei a mão pela bochecha novamente, somente para me certificar que não estava mais molhada. — Minha mãe está me chamando? Eu já estava quase voltando, só vim respirar um ar fresco.
— Não, minha querida, pode ficar tranquila. — Disse sorrindo de um jeito quase maternal. De repente, fiquei imaginando o quão boa mãe ela seria quando tivesse um filho. — Vi você saindo e perguntei à sra. Son se poderia sair por alguns minutos, já que estamos com poucas crianças. Agora me fala, por que está chorando?
— Não é nada demais, não precisa se preocupar. — Respondi tentando não voltar a chorar e me levantei, mas antes de poder dizer alguma coisa, Haseul segurou minha mão.
— Ela namora, sabe disso, não sabe?
— Eu não sei de quem você está falando. — Era errado mentir estando a alguns metros de uma igreja?
— Ha Sooyoung. Continua sem saber de quem eu estou falando?
Fiquei em silêncio, ainda de pé e olhando para a garota na minha frente pouco iluminada pelas luzes fracas dos postes em uma noite de lua nova. Quando voltei a me sentar, pude ouvir o louvor que estava sendo cantado e observei Haseul sorrir, logo passando a olhar para frente, onde não podíamos ver nada mais do que as laterais do shopping.
— Dava pra ver como vocês se olhavam. Quem estava de fora e tinha pelo menos um pouco de noção, era notório que vocês não faziam o tipo de melhores amigas, vocês faziam o tipo de namoradas. Nunca se perguntou o motivo para os professores olharem para as duas de cara feia quando passavam de mãos dadas pelo pátio?
Suspirei e ela também, parando de falar. Algumas vezes lembro de ter visto sra. Son enquanto vendia seus doces para os professores, conversando com eles enquanto nos encarava com um ar de reprovação. Lembrei também das vezes que minha mãe ameaçou me bater, sempre depois do culto e de longas conversas com a cuidadora das crianças, perdendo a paciência e se trancando no banheiro. Eu sabia que a desobediência de continuar conversando com a Ha era o pior, sabia que ela pensava que tínhamos algo e por isso insistia em me levar todos os domingos para o que chamava todas as vezes, quase que obrigatoriamente, de "a casa de Deus" ao invés de igreja.
— Ela continua te ignorando? — Fiz que sim. — Pensei que depois de alguns meses ela pararia com essa bobeira.
Isso doía mais do que qualquer outra coisa: lembrar de como éramos próximas e agora até mesmo no ônibus Sooyoung me ignorava, não tirando os olhos do livro mesmo quando me sentava ao seu lado. Era como se em todos os momentos eu estivesse tentando chamar sua atenção com maçãs verdes e agora sua preferida ser a vermelha.
O som vindo da música terminou. Olhei para a igreja e de novo para Haseul, que conferia as horas em seu relógio de pulso. Ela levantou e acenou para mim, saindo correndo até o outro lado da rua e entrando. Também voltei, mas quando cheguei senti o celular vibrar na pequena bolsa que trazia comigo, o ignorei e abri a porta, entrando e vendo que Haseul e a sra. Son tinham, cada uma, duas crianças em cada mão e outras duas maiores atrás. Desci junto enquanto as últimas palavras da oração eram ditas e, assim que me sentei no meu lugar novamente, o "amém" foi dito pelo pastor e seguido por um grande outro que foi feito pelos fiéis.
As pessoas começaram a se levantar, algumas parando para conversar e outras saindo direto para a rua. Podia ver minha mãe sorrindo para os que saíam e sendo legal com seus filhos, desejei ter sentido ao menos uma vez esse amor todo. Precisando esperar até todos saírem para ir embora, puxei o celular da bolsa e, ao desbloquear a tela, uma mensagem de Sooyoung estava na barra de notificações e meu coração acelerou de uma forma incomum.
Sooyoung:
Hey, Chuu! Você deve
estar na igreja, certo?
Não sei se reparou, mas
há alguns dias eu não vou
para a escola, mudei de casa
e finalmente ele terminou
comigo
Eu queria me desculpar com
você e me explicar por ter
sido tão babaca contigo, é só
falar com Haseul que ela tem
meu endereço
Por favor, venha :)
Minha mão tremia e eu não acreditava no que estava lendo. Ela realmente achava que, depois de tanto tempo, iria fazer todos os dias me ignorando serem apagados? Digitei uma resposta e apaguei, repetindo assim milhares de vezes até ver que ela estava online outra vez. Olhei para a porta e vi que o movimento estava cada vez menor, então, respirei fundo e escrevi:
Eu:
É bom ter uma ótima
desculpa pra todo esse
sofrimento que você
me fez passar
Que horas?
Sooyoung:
Não foi somente você
que sofreu, Kim Jiwoo
Qualquer hora do dia
Suspirei e comecei a ouvir passos de salto alto andando em minha direção, então guardei meu celular e fingi procurar por algo na bolsa. Balinhas, talvez?
— Vamos, Jiwoo! — Minha mãe disse sorrindo e com tom amável que me fez ter vontade de franzir as sobrancelhas, mas me levantei e comecei a andar até a saída.
Observei o céu nublado de dezembro e acreditei na previsão de neve para amanhã. O clima de Natal finalmente dava as caras em algumas das casas, na minha somente um curto pisca-pisca enfeitava a janela da frente, brilhava alternadamente entre um rosa quase tom de pêssego e um vermelho escuro. Sorri e olhei para minha mãe, que também observava o céu. Com esperança, acalmei meu coração: torcendo para que amanhã possa descobrir o que afastou tanto Sooyoung e melhorar tudo.
♡
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