Dia 1
D - S - T - Q - Q - S - S
A primeira vez que eu vi Kim Seokjin, foi em uma quarta feira.
E aquele encontro provavelmente foi um dos mais aleatórios que poderia me acontecer. Quem — com discernimento e consciência do que era uma ressaca — iria encher a cara em uma quarta-feira, com raiva do chefe ser um idiota, tendo estágio das 9h às 16h e aula no turno da noite, no dia seguinte?
Bem, eu. Kim Namjoon.
E pelo jeito, Jin também. Pelo menos foi o que eu achei quando o vi sentado naquela barraquinha de comida de rua, apesar daquele sobretudo bonito e cinza e da postura que nem se eu fizesse pilates por 20 anos, iria conseguir imitar por mais de 2 minutos.
Seu nome era Kim Seokjin, mas eu decidi que poderia me referir a ele apenas como Jin. Era cansativo, apesar de sexy, falar seu nome completo todas as vezes que nos encontrávamos. Eu gostava de o chamar apenas de Jin, mas a primeira vez que eu o chamei daquele jeito, Jin reclamou e juntou as sobrancelhas. "Eu acho encantador quando você diz meu nome completo e suas covinhas aparecem duas vezes, mas quando você diz só Jin, aparece apenas uma vez e isso parte meu coração" disse. De quebra ainda colocou o dedo na minha bochecha na altura dos buraquinhos que apareciam ali e eu só consegui me ver confuso sem saber se ele só odiava aquele apelido ou se estava dando em cima de mim. Ou nenhuma das duas opções, que era a que fazia mais sentido.
Não satisfeito, Jin bagunçou meu cabelo com uma de suas mãos.
Caralho, Jin. Digo, Seokjin.
Aquilo me deixou sem graça o suficiente para não conseguir o encarar nos olhos o resto da noite.
Mas voltando ao que eu dizia: quando entrei naquela pojangmacha, naquele final de inverno e início de primavera, lá estava ele. Sentado com, pasmem, não uma garrafa verdinha de soju, mas uma transparente de água, porque Jin era daquele tipo de cara que mesmo querendo encher a cara até desmaiar, se preocupava com bem estar da família e com o fato de que precisavam dele sóbrio.
E eu era só o tipo de cara que queria beber uma cerveja e conseguir acordar no dia seguinte na hora certa para não receber outra advertência do chefe baixinho e que não ia com a minha cara. Eu era o tipo de cara que quando voltasse para casa, correria até o próprio quarto e torceria para que a mãe não sentisse o cheiro de álcool do quarto dela e aparecesse atrás de mim para gritar por alguns minutos que eu só lhe daria ouvidos quando tivesse com alguma doença no fígado. Apenas porque mães têm o dom de saber quando os filhos não querem ser descobertos e fazem questão de deixar claro que não adianta você esconder que elas vão descobrir.
A minha descobriu na manhã seguinte pela cara de peixe morto que eu estava.
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Por que eu não consigo manter um raciocínio lógico quando estou falando sobre algum assunto?
Yoongi tinha razão: eu tentando explicar alguma coisa era a personificação de uma barata que foge de uma vassoura.
Quando eu tomei um gole da cerveja, já me sentindo culpado por ser tão irresponsável, eu notei que um cara mais velho conversava com Jin e que estava visivelmente bêbado. Eu até pensei em me aproximar e perguntar se estava tudo bem, mas Jin o olhava com um olhar de empatia tão grande que eu achei que eram amigos.
Depois eu descobriria que Jin sequer o conhecia ou sabia seu nome.
Mas assim é como o Jin é: agradável e extremamente sociável. Kim Seokjin às vezes era tão agradável que me irritava em níveis extremos e conseguia destruir até minha paciência, que era considerada por meus amigos como "nível guru".
Mentira, eles nunca falaram isso, eu acabei de inventar.
Eu e Jin éramos tipo aquela música dos Beatles que Taehyung vivia cantando: "You say yes, I say no. You say stop but I say go, go, go", conhece? Jin era herdeiro do sol e eu filho da lua — pausa para imaginar aquela risada de limpador de vidros que ele daria ao me ouvir falando isso —, e por mais que nada cogitasse para que a lua encontrasse o sol, nós acabamos nos encontrando naquela noite.
Que merda foi essa que eu falei?
Kim Seokjin tinha o dom de me deixar agindo feito um trouxa apaixonado.
Nós éramos diferentes e tínhamos noção, já que Jin era sempre muito simpático, falante e positivo, enquanto eu era o cara solitário, quieto e que pensava, não uma, nem duas, mas três vezes antes de falar qualquer coisa. Quando depois de tanto engolir as porradas da vida, eu quis gritar porque não queria ficar longe do que éramos juntos, mas não poderia continuar ao lado dele por forças externas a nós dois, ele manteve um sorriso calmo no rosto dizendo "Calma, Nam, a gente pode dar um jeito nisso".
Só que não, a gente não podia.
Eu não podia. Pelo menos não daquela vez.
Eu, Kim Namjoon não poderia me achar no direito de adentrar na vida de Kim Seokjin naquele momento tão conturbado em que ele estava vivendo.
Eu era um belo de um fodido que nunca se interessava por ninguém, mas quando tinha qualquer possibilidade de me interessar, parecia que o Universo colocava as mãos na cintura e falava: "Nananinanão. Não vai ser dessa vez, senta lá, Namjoon".
Quando uma mulher entrou na barraca e arrastou o homem bêbado para fora gritando que ele era seu marido e que tinha a deixado com três crianças sozinha em casa e saiu para encher a cara, Jin a olhou sem saber o que falar e ficou lá sentado sozinho.
Se eu tivesse um pouquinho mais de coragem, teria levantado da minha mesa e pedido para me sentar com ele, mas o álcool ainda não tinha atingido meu cérebro daquela forma.
Infelizmente. Ou felizmente, vai saber.
Mas alguma coisa indicava que dessa vez o Universo decidiu dar uma forcinha, além de me mandar sentar no cantinho e esperar. Um grupo de amigos entrou no ambiente e não tinham mais mesas vazias — com isso eu reparei que não era o único sem noção que bebia nas quartas-feiras —, e Jin, o agradável, se ofereceu para que eles pegassem a mesa dele.
Então ele me pegou o encarando e perguntou se eu me importava dele dividir a mesa comigo, e eu disse: "Fica à vontade" e ele sorriu.
E porra, por que ele sorriu?
Aquele sorriso de Jin era meio triste, mas era lindo. Assim como ele. E apesar de não termos trocado mais nenhuma palavra naquela noite, eu não consegui tirar aquele sorriso triste da minha mente por no mínimo duas semanas.
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