Segundas primeiras impressões
Lisa encarou os ocupantes da sala como se tivesse acabado de sair do dentista e a anestesia ainda fizesse efeito, deixando-a meio zonza e lerda. Sentia a boca seca, havia engolido todos os argumentos lógicos existentes e só sobrou a última e mais irracional opção possível: gritar, rolar no chão, pedir "por favorzinho" com as mãos em preces e no seu mais horrível e odiável aegyo.
— Não, não, absolutamente não! — Bateu os pés no chão, os braços sacolejando como uma criança mimada. — Você não pode me obrigar a casar com uma garota!
— Mas Lalis...
— Mas nada, pai! — Apertou a cabeça com as mãos — Eu não sou lésbica!
— Ninguém aqui está falando que você é. — Elane continuava usando um tom baixo e passivo, quase como se estivesse entediada. — Jennie também não é, certo?
A estagiária molhou os lábios com a língua, as bochechas vermelhas e a expressão envergonhada.
— Bem, quanto a isso...
— Jennie!?
— Lisa!? Eu não saio contando sobre minha vida pessoal para qualquer pessoa que conheci em menos de um dia!
— Nada disso importa! — Sunan se levantou de supetão, a cadeira caiu, causando um barulho alto precedido por um silêncio sufocante. — Vocês podem se separar alguns meses depois que eu ganhar... quer dizer, Elane ganhar as eleições — ele sorriu atencioso para a mulher, prosseguindo: — Não estamos pedindo que durma juntas, que se beijem ou algo do tipo, apenas ajam como um casal, está bem? Aposto que andar de mãos dadas não irá quebrar a mão de nenhuma das duas.
— Mas eu tenho uma reputação a zelar! — ditou impaciente, passando as mãos pelos cabelos para tirá-los do rosto numa forma de se recompor. — Já a Jennie... ela é só uma estagiária, não está na lista de pessoas do meu ciclo social, o senhor me entende?
— O povo gosta de histórias onde nos apaixonamos pela ralé. Vai vender. — Elane sorriu.
— Acho que deveriam ser mais respeitosos. — Ten, com um olhar duro fitou a irmã e apontou para Jennie.
Esqueceu-se que ela ainda estava na sala e ao encará-la, Jennie tentava esconder uma expressão ressentida, mas era um ato falho já que suas mãos tremiam e os olhos acumulavam lágrimas pelas beiradas.
— Não se preocupe, presidenta, a "ralé" aceita a proposta.
— Ei, Jennie...espera, não foi isso que eu...
— Agora, se me derem licença.
Tentou puxá-la pelo braço, porém a menina foi esquiva e rapidamente se desvencilhou do aperto. Antes de sair reverenciou a todos presentes, mas a cordialidade durou até fechar a porta com brusquidão.
Sunan gargalhou, quebrando o silêncio que poderia ter se tornado constrangedor. Os olhos espremidos em felicidade pelas bochechas ao caminhar para abraçar a filha. Era como se o fato de Jennie ter saído transtornada daquela sala não tivesse atingido o humor do vice presidente, ele abraçou o filho também, desdenhoso ao dizer.
— A reeleição já é nossa, que comece os preparativos!
(...)
A escadaria que levava ao terceiro andar do imponente Grande Palácio parecia muito um joguinho que Lisa amava quando criança. A escada era a fase mais difícil, já que durante o percurso precisava evitar buracos, cobras venenosas e armadilhas nos corrimões.
Era como se estivesse dentro desse jogo. Os degraus eram tantos que não pareciam ter fim, multiplicando-se a cada segundo, transformando o topo num objetivo difícil demais para ser alcançado.
Semicerrou os olhos, batendo o pé repetidas vezes no chão assim que a cobra apareceu para puxá-la, mas no fim era apenas o cadarço desamarrado do tênis.
— Maldição! — Subiu mais um lance, mas teve que se escorar no corrimão ao sentir o estômago revirar. — Nada de vomitar em cima das cobrinhas — arrotou, enfadonha. — Eita... acho que bebi demais.
Subiu quatro lances de uma só vez, abrindo um espacate no meio da escada. Porém, a calça era apertada demais e o barulho da pouca elasticidade do jeans, a fez temer uma rasgo nada agradável nas partes baixas.
E o medo de tirar as pernas e acabar caindo? Machucar o rostinho avaliado em milhares de dólares?
— Criança, precisa de ajuda aí?
Lisa respirava entrecortado para poupar energia, e virou o rosto milímetros para o lado, avistando pelo canto do olho um dos guarda costas.
— Armário... — sua voz tremulou, baixinha. — Me tira daqui, por favor.
Se o homem riu não demonstrou ou talvez Lisa estivesse bêbada demais para notar, mas com um puxão de cintura, Armário a tirou daquela enrascada, colocando-a sob os ombros.
Lisa tapou a boca com as mãos, suando. A mudança de gravidade nunca era uma das suas opções, mas não conseguia andar, muito menos subir escadas e quando isso acontecia as chances de se machucar eram altas. Os seus guardas costas serviam basicamente para isso, salvá-la de noites de bebedeira como se os ombros deles fossem medidos para caber o corpo semi consciente de Lisa.
— Pode me deixar na porta do quarto do meu irmão, por favor. — Seguiram toda a sala de... não sabia para quê aquela sala servia. Eram tantas salas no palácio com nada mais que sofás com estampas orientais e mesas que ninguém nunca usava e que magicamente sempre estavam limpas.
Armário foi suave ao tirá-la das costas, esperando segundos para ver se Lisa estava bem o suficiente para ficar sozinha. Mesmo que seu quarto fosse na porta do outro lado do corredor, na visão da bêbada parecia se alongar como um campo de futebol infinito.
Observou o segurança caminhar para longe até virar um pontinho e sumir de vista, com isso, se virou, pequena demais em vista da porta do quarto do irmão.
Ten sempre deixou o quarto destrancado. Era uma mania que adquiriu quando criança pelas noites onde Lisa tinha terror noturno e acordava assustada, partindo para a cama dele com nada mais que um cobertor de estrelinhas e uma boneca Barbie.
Ele nasceu cinco minutos antes dela, e talvez minutos não determine nada sobre ser responsável ou não, mas Ten os converteu até soar vantajoso dizer ser o irmão mais velho, e realmente encarnava o papel.
Lisa tirou os sapatos sujos e os deixou na porta, caminhando de meias pelo assoalho de madeira do quarto bem arrumado. O ressonar fraquinho da respiração dele preenchia o cômodo. As paredes não se mexiam mais, o que já era uma grande vitória.
Como a vista do quarto de Ten era a frente do palácio, as luzes dos postes decorativos iluminava o quarto que sempre permanecia claro mesmo com a decoração em tons escuros. Lisa não sabia muito bem porque estava ali, mas se sentia acuada e com medo, como se os terrores noturnos fossem o menor dos seus problemas.
Respirou fundo, caminhando para ver a pilha de revistas na mesa do irmão, lendo por alto as capas. Muitas eram sobre a situação do atual governo e outras mais antigas. Não precisou ler a data — até porque as letrinhas eram pequenas e nunca conseguiria ter certeza sem acender a luz — para saber que eram de um ano atrás.
A maioria estampava fotos de Ten em momentos constrangedores, brigando com paparazzis, sendo carregado por Lisa para longe dos holofotes e da vez que, numa crise, abaixou a calça e mostrou a bunda para a massa de fotógrafos que cercavam a boate.
Chamadas sensacionalistas como "O ex queridinho da Tailândia e seu imperdoável escândalo" e "Ten é internado à força em clínica de reabilitação após surto" era recorrente. Uma em especial fez Lisa quase vomitar: "Petição para o suicídio de Ten chega a 20 mil assinaturas".
— O que faz aqui?
Rodou os calcanhares, vendo-o sentado no meio das cobertas, coçando um olho enquanto bocejava.
— Por que guarda essas coisas? — Levantou uma das revistas, jogando-a no lixo.
Ele riu, como se não fosse nada demais.
— Quando eu era um bom garoto, indo as campanhas do papai e pedindo para votarem nele, eles gostavam das minhas bochechas, lembra? Viviam apertando até doer. Prometeram fazer tudo por nós, os vice-filhos da nação.
Lisa sorriu, nostálgica, passando a mão nas próprias bochechas.
— Quando eu precisei de ajuda essas mesmas pessoas me abandonaram. Eu não era mais o garoto fofo de bochechas vermelhas, eu não era mais o vice-filho. Virei o drogado imundo — ele riu. — Era o vagabundo que gastava dinheiro público com cocaína.
Lágrimas enchiam os olhos de Lisa e cambaleou para subir na cama do irmão, lutando contra os lençóis para se deitar ao lado dele. Ten tinha os olhos altivos na penumbra, preso numa memória dolorosa.
— Nem o papai foi me visitar na reabilitação, você foi a única, Lisa. Você estava lá todos os dias.
Ele se deitou também, dando um beijinho na testa da irmã.
— E onde mais eu estaria? — sorriu em resposta.
Os gêmeos não se pareciam em personalidade e nem em aparência, mas gostavam de muitas coisas, entre elas sair, beber, conhecer gente nova. Foram criados para isso, chamar atenção, serem requisitados.
Eram ótimos oradores, ótimos em causar boas primeiras impressões, com apenas 7 anos discursavam para um estágio lotado na época das campanhas eleitorais. Mas, a chegada da maioridade trouxe um novo mundo e é nesse aspecto que a personalidade deles se destoa: Lisa fazia colegas, não amigos. Ela sabia que nenhuma das pessoas do seu ciclo social se importava minimamente se algo ruim acontecesse consigo, mas Ten era intenso, tentado a dizer "sim" e acreditar em todos até que se diga o contrário. De certo modo, era um dos motivos que a cocaína foi de um lazer repentino a um vício iminente.
E era por esse motivo também que a maioria das capas atuais só estampavam o rosto de Lisa, porque segundo a contenção de crises do Grande Palácio, Ten não servia mais para trazer popularidade ao governo, era um peso morto. Por isso, casar Lisa era a única ideia viável, porque naquele momento ela era a única vice-filha que a nação se importava.
— O que você acha que vai acontecer agora?
— Eu não sei — ele respondeu simplista. — Queria ter uma resposta para te dar, mas a única certeza que eu tenho é que hoje foi a sua última noite de festança.
Os dois riram.
— Acho que aproveitei o suficiente — sussurrou. — Nos demos bem, digo... eu e ela, na medida do possível.
— Garota? Acorda. — Ele deu um peteleco na testa de Lisa. — Jennie saiu da sala magoada por tudo que aconteceu, se isso é "se dar bem" acho melhor repensar esse conceito.
— Arh, me esqueci disso. — Socou o cobertor. — O que eu vou fazer?
— Pode ligar para ela, marcar um encontro para se desculpar...
— Ou posso ir na casa dela pela madrugada e tentar a sorte.
Ten arregalou os olhos.
— Tipo agora?
— Quando mais seria?
— Lisa, nós nem sabemos o endereço dela...
— Isso é mole. — Sentou-se, puxando o celular do irmão do carregador. — Vamos ligar pra Sorn.
— Use o seu celular! — Ele tomou o aparelho.
— Ten, não complica! Ela nunca vai me atender, mas você sim.
— Ah, agora eu que não devo complicar? É você que quer aparecer de surpresa na casa da menina às três da manhã!
— Três da manhã é a nova onze horas da noite, tá todo mundo acordado, quer ver? — Pegou o celular do irmão novamente, puxando o dedão dele para desbloqueá-lo antes de procurar o número da secretária do pai na agenda.
O toque da chamada encheu o quarto mesmo que não estivesse no viva voz, e na quarta chamada, ela atendeu.
Ten arfou, tapando a boca com as duas mãos e Lisa estalou os dedos, engrossando a voz para dizer:
— Oi Sorn! Eu sou o Ten, bissexual, estiloso e militante, tudo bem aí?
Ten cruzou os braços ao ouvir isso, indignado com a falsa imitação, mas não precisou dizer, Lisa captou pelo olhar mortal que recebeu.
— Oi, Lisa, essa é uma péssima imitação do seu irmão.
— AHÁ! Obrigada, Sorn!
— Papai acredita quando eu faço isso... — encarou o telefone, desolada.
— Seu pai é meio surdo do ouvido direito, Lisa. — A voz de Sorn soava tediosa pelo telefone.
— Desde quando?
— Desde quando serviu o exército e o quartel dele foi atacado por um míssil Norte Coreano. Tá na página dele no Amino. — Ten deu de ombros.
— O que mais me assusta nesse história toda é nosso pai ter uma página no Amino.
— Vocês me telefonaram pra passar trote? É isso mesmo?
— Não, não! — Os dois berraram em uníssono.
— Queríamos o endereço da Jennie... qual o sobrenome dela mesmo? — Acariciou o queixo, pensativa. — Lembrei! Kim, isso, Jennie Kim.
— Ela não é a sua namorada? Deveria saber.
— Sorn, deu pra fazer piadas agora é? — Ten indagou e Lisa riu falso, com a boca direto na entrada de som do celular.
— Fico bem humorada quando Lisa se ferra. Agora, anota aí o endereço da sua noivinha.
A casa de Jennie ficava no subúrbio, não chegava a ser um bairro de aspecto perigoso, mas o carro oficial da presidência destoava completamente dos outros carros populares parados na calçada. Os prédios tinham poucos andares, três, quatro, não passavam disso, e todos precisavam de uma demão de tinta. O prédio de Jennie não era diferente.
O carro parou bem em cima da calçada, ordens presidenciais para que os gêmeos não pisassem no asfalto da rua ou corressem o risco de machucar ao subir para o passeio.
Lisa saiu do automóvel com os olhinhos brilhando. Aquela seria a sua nova Disney.
As únicas vezes que precisou ir a subúrbios foram nos comícios do pai ou acompanhada da Anitta na época que visitou o Brasil, nunca por escolha própria.
— O que vamos fazer? — Ten estava envolto em um robe preto e calçando pantufas, por pura preguiça de trocar o pijama para acompanhar Lisa, que se arrependia novamente por não ter tomado banho, pois era a segunda vez que veria Jennie fedendo a vômito e vodka.
— Tenho uma ideia. — Voltou ao carro, pedindo ao motorista que estacionasse do outro lado da rua. Estavam ali escondidos, se o vice-presidente sonhasse que os gêmeos saíram de casa sem os respectivos guarda-costas, cabeças iriam rolar.
Lisa estendeu a palma, lendo novamente o endereço que anotou para ter certeza ser o lugar correto e em seguida apertou o interfone do apartamento 304.
— Lisa, ninguém vai atender a essa ho...
— Quem é?
— ....Mas o quê? — Ten empurrou a irmã, como se não acreditasse no que ouviu.
— Alô? Já disse que ninguém pediu pizza aqui.
— Não! É mais gostoso que pizza, é a Lisa, que seria eu... no caso. Não me olha com essa cara, Ten! — Empurrou a irmão. — Eu me desespero sob pressão!
— Eu nunca me prestaria a esse papel... — ele segurou um riso.
— Lisa, quê? Como assim? O que tá fazendo aí embaixo?
— Só me deixa entrar. Explico tudo, prometo.
— Você faz ideia que são três horas da manhã?
— Vagamente. — Maneou a cabeça. — Mas deixar os vice-filhos na rua é crime, eu posso te prender por desonrar a pátria. Tá no artigo quinto: Desonra pra tu, desonra pra tua vaca...
— É uma fala de Mulan? Olha, isso nem existe, eu sei a constituição de cor.
— Por que você soou tão sexy?
— Lalisa Manoban!
— Abra a porta Mariquinha! — gritou, ecoou pela rua inteira.
— Que vergonha você me faz passar, puta merda! — Ten deu um tapa no braço de Lisa, tomando a fala para si — Jennie... aqui é o Ten, eu tô meio bêbado... — fingiu um arroto. — Tô passando mal acho que vou morrer... aquilo é uma luz? Devo seguir?
— Oh, querido irmão! Aguente firme! — Lisa tampou a boca para o grito sair abafado. — Essa benevolente estagiária irá nos deixar entrar!
Dois segundos depois o barulho do portão destrancado os fez gritar em comemoração.
O elevador estava quebrado, então tiveram que subir as três escadas até o apartamento de Jennie. A porta já estava aberta e a estagiária com cara de poucos amigos os esperando, os olhinhos como dois risquinhos sonolentos e a bochecha esquerda amassada. Os cabelos pareciam um ninho de passarinhos e o pijama era um conjuntinho do Capitão América, advindo provavelmente da sessão infantil.
Estranhamente a estagiária possuía um corpo nas devidas proporções de quem substitui as refeições por miojo.
— Wow, vai ser assim na nossa noite de núpcias, docinho? — Lisa apontou para o pijamas e ganhou um tapa bem dado de Jennie.
— O que quer aqui e porque trouxe seu irmão? — Jennie os puxou para dentro com um bico emburrado.
— As pessoas tendem a nos achar fofinhos juntos. Ótima tática para um pedido de desculpas. — Levantou as mãos como se dissesse "o que eu posso fazer?".
Ten rondava o pouco espaço da sala como se estivesse num museu, tocando o sofá de dois lugares para saber a textura e encarando a televisão antiga de caixa como se fosse o próprio E.T Bilu dançando no meio o cômodo.
— Pedir desculpas pelo quê? — Jennie cruzou os braços, suspirando.
— Você sabe, por tudo que eu disse ontem, dando a entender que ser vista como lésbica mancharia a minha imagem e também pelo que a Presidenta falou, não foi nada legal e você não precisa aceitar, se não quiser.
As duas se encaravam, pensativas. O teto baixo fazia com que Jennie parecesse menor do que já era e o pijama não ajudava em nada. Lisa queria encurtar aquela espaço, apertar as bochechas dela e se desculpar caso as coisas ficassem estranhas depois.
— O que eu posso fazer? Aceitar esse acordo é a melhor forma de mudar o mundo.
— Qual é, mudar o mundo? Não estamos na porra de um filme infantil.
— É fácil pra você falar — Jennie gesticulou, intensa. — Sempre cresceu recebendo o melhor, Lisa, nunca precisou contar moedas, nunca precisou pegar um metrô ou estudar. A presidenta, seu pai e toda a campanha deles enchem a boca para dizer que trabalharam pelas minorias, como fizeram isso? Sentados nos seus palácios? Aparecendo aqui vez ou outra para apertar a mão dos pobres e comer pastel? Então sim, é minha melhor chance de mudar o meu mundo... E Ten, não toca nisso, senão Lucas vai te matar. — O tailandês prendeu a respiração, colocando o bonequinho do Harry Potter novamente na estante. — Onde eu estava? Ah sim, se eu receber um quinto da sua popularidade com essa história toda, vou usá-la para coisas mais significativas do que sair com idols.
— Você age como se eu fosse uma idiota fútil não, é?... Ten, meu Deus! Jennie já disse para você largar esse troço! ... Ah, lembrei! Já é a segunda vez que joga isso na minha cara!
— O que eu devo pensar? É o que sai todos os dias sobre você, é...
— É tudo que eu não sou! — exclamou. — Se vamos prosseguir com isso, quero que faça um esforço para ver a Lisa que passou o dia todo com você ontem. Minha vida é uma fachada, a sua também vai passar a ser, então ou você se acostuma com isso ou não conseguirá mudar nada.
— Ten não rouba o boneco! — as duas gritaram em uníssono.
— Mas eu gosto tanto do Harry Potter! — ele se justificou, tirando o figure action do bolso do robe para colocá-lo de novo na estante.
— Pode ficar com ele.
Os três se viraram para o corredor que interligava a sala. O garoto que saiu da penumbra de um dos quartos parecia ter acabado de acordar, o blusão todo amarrotado pelo corpo e os pés cobertos por uma meia de algum herói da Marvel. Ele teve que se abaixar para passar pelo portal do corredor.
Aparentemente Jennie e o colega de apartamento eram nerds.
Por céus, se casaria com uma Nerd???
— Ah... esse é o Lucas, meu melhor amigo. — Jennie de repente parecia envergonhada pela confusão.
— É impossível dormir com essa gritaria, aí quando eu chego pra participar, vocês param? — Um meio sorriso debochado estampava o rosto dele.
— Sabe, problemas de... contou pra ele? — Lisa coçou a cabeça, fitando Jennie.
— Claro.
— Problemas de... vice-noivas? — Era muito estranho dizer isso com todas as letras, parecia estar sendo irônica quando na verdade, ainda não achou o tom certo para dizer que sim, estava se casando com uma mulher. — É melhor irmos né, Ten? Tá tarde.
Ten negou veementemente com a cabeça.
— Por que? Quatro horas da manhã é a nova meia noite. Ficou tão interessante aqui...
Arregalou os olhos para a irmão, suplicante, e se virou para sorrir para Lucas.
— Ele é muito piadista nem sei quem inventou isso.
— Meu nome é Ten, seu tailandês é ótimo! T-e-n... — dizia enquanto era empurrado por Lisa para a saída. — Prazer e obrigado pelo Harry Potter!
Romperam porta afora com a estagiária os acompanhando até o batente, o rosto corado pela discussão acalorada ou pela constatação de que houve uma discussão acalorada.
— Lisa, antes de ir...
Era impossível ouvir esse pedido e ignorá-lo. Aquela versão de Jennie seria guardada por Lisa na longa lista de versões da estagiária-nem-tão-robô: a estagiária tímida.
— Me espera lá embaixo, Ten. — Ele não pareceu feliz em cumprir com pedido da irmã, abraçou o bonequinho do Harry Potter como um filho e começou a descer os lances de escada.
— Então, eu quero deixar claro... sei que falei ontem, mas é bom frisar antes que ache que de alguma forma eu estou me aproveitando de você, mas, eu sou lésbica. E talvez por você ser hétero... sei lá, fiquei um pouco receosa com tudo isso.
Lisa tinha um bico nos lábios ao manear a cabeça em entendimento. Ouvir a palavra da boca dela era esclarecedor.
— Eu não ligo. Quanto aos flertes... era só pra descontrair, se você não gostar... eu paro. — De repente um rubor subiu por suas bochechas.
— Não me importo, é divertido. — Ela sorriu, sincera. — Mas não vai me ouvir dizer isso de novo.
(...)
— Você se lembra como as bochechas dela ficaram vermelhinhas? — Sorveu uma boa quantidade de iogurte, encarando o irmão do outro lado da mesa. — E o pijama? Será que ela tem gibis do Capitão América? Ela tem cara que lê gibis...
A colher voou da mão de Ten e bateu em cheio no meio da testa de Lisa. Ela soltou um palavrão, massageando a cabeça. Ele comemorou a vitória e logo uma das empregadas apareceu com uma nova colher.
— Você parece um papagaio falando dela o dia todo.
— Nós somos amigas agora, você sabe que eu não tenho muitas amigas.
— E a princesa?
— Nem comece a falar sobre Chaeyoung — suspirou, enchendo a boca com uma grande quantidade de iogurte.
— Jennie é só uma amiga? — desconfiado, Ten semicerrou os olhos.
— Mas é claro, o que mais seria? — respondeu de boca cheia. — Vai ser legal se passarmos por tudo isso como duas bff's.
Uma das empregadas correu para encher uma caneca enorme de Nescau assim que Lisa acabou de comer o iogurte. A mesa do café da manhã era enorme e cada centímetro lotado de comida que não iriam comer.
Há alguns metros de distância uma fileira de empregadas permaneciam paradas, encostadas na parede, esperando para servir.
Ten rolou os olhos.
— Você vai visitar a sua bff hoje? Quer dizer... vocês discutiram ontem.
— Mas fizemos as pazes depois.
— Será? Vi que Jennie te olhou meio magoada.... sei não ein.
Lisa encarou as próprias mãos, será que pisou na bola? Foi rude demais? No entanto, ao voltar a fitar o irmão, todas essas questões caíram por terra.
— Entendi qual é a tua, pilantrinha... — sorriu maliciosa, no mesmo segundo que as portas foram abertas e o vice presidente rompeu pela sala.
Ele vestia um terno impecável ao passo que os filhos se arrastaram para a mesa do café da manhã com pijamas e cabelos desgrenhados. Sunan mantinha um sorriso no rosto que era difícil de tirar, todo pomposo, como se tivesse o rei na barriga.
— Bom dias meus queridos e amáveis filhos — os saudou, sentando na ponta da mesa como era de costume.
Os irmãos se encararam, desconfiados, antes de cumprimentarem o pai com um curvar sutil.
— Pai, estava pensando... — Lisa começou, aproveitando os raros momentos de bom humor do quase-presidente. — Ia cair mal esse negócio de me casar com um estagiária, não acha?
— Não comece....
— Não! Pai, não é isso. — Molhou os lábios secos com um gole de achocolatado. — Eu iria pedir para o senhor dar o cargo de Chefe de Campanha para Jennie, ela tem um currículo excelente, estudou em Yale, é poliglota e sabe das reais necessidades das pessoas. Acredito que nessa reeleição precisamos de todo apoio popular que estiver ao nosso alcance.
Um silêncio preencheu a mesa e uma troca de olhares apreensivos segui-se. Sentiu um fio de suor descer pela testa e engoliu em seco.
Sunan fez uma expressão pensante e por fim, deu de ombros.
— Boa ideia. — Não fez muita questão. — Quer dar a notícia a ela pessoalmente?
— CLARO, VAMOS SIM! Aliás, vamos agora! — Ten gritou, animado, correndo para as escadas. — Tome banho dessa vez, Lisa, sua porcaaaa!
— Ten, eu te odeiooo! — bateu os pés numa birra antes de sair atrás do irmão.
E não tinha explicação lógica para o sorriso largo que encheu sua face. Mal podia esperar para contar a Jennie essa notícia só para vê-la sorrir de novo.
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