O começo de um novo tormento
Olá! Cheguei com um clichê necessário, porque todos precisávamos de um "fomos obrigadas a nos casar" protagonizado pelas jenlisa para adoçar essa quarentena.Um adendo importante: o sistema político da Tailândia não é o presidencialismo, mas tomei essa decisão pra fluidez da história, então não se preocupem quanto a essa questão.A história tem uns bons dez capítulos e mais longos do que sou acostumada a escrever. Atualizarei toda segunda (amo?) e espero que vocês se divirtam muito com ela!
O Grande Palácio era uma imponente mansão de traços asiáticos em Bangkok.
Longe da grande metrópole e dos gigantescos arranhas céus, numa parte privativa cheia de canteiros verdes, piscinas, campos de golfe e é claro, muitos seguranças.
No terceiro andar, depois do longo corredor que separava a área destinada ao trabalho do vice presidente, ficavam dois quartos, um de frente para o outro. O da direita, com vista para o jardim principal era de Ten e o que sobrou, de frente para os bosques, era o de Lisa, mas ela quase nunca abria as cortinas, então que se dane a vista.
O quarto dela se encontrava numa completa zona, com rastros intermináveis de roupas no chão, camisinhas usadas e comida vencida. A garota se encarregava de limpar o cômodo já que não gostava que desconhecidos mexessem nas suas coisas, o que explicava o fato de nunca estar arrumado.
Lisa se virou na cama, procurando o lado frio das cobertas para aplacar o calor que apossava o tronco seminu — coberto por um sutiã rendado —, pois a última coisa que queria era sair a procura do controle do ar condicionado. O mal estar era tanto que ficar de olhos abertos se tornava uma luta e mesmo que o sol já tenha dado suas caras, chegando até ela graças a uma fresta na cortina, a vontade de permanecer deitada sobrepunha ao medo da marquinha angulosa e traiçoeira ficar permanentemente em suas costas.
Murmurou um palavrão ao ouvir dois toques ritmados na porta, as bochechas amassadas pelo travesseiro enquanto soltava algo muito parecido com "Me deixa em paz" que saiu entendível apenas dentro da sua cabeça. Os toques foram presididos de um chute, que a abriu a porta com força.
E lá estava ele, Ten, em carne, osso e um sorriso arteiro no rosto. Os braços mal suportavam tantas revistas — que ele fez questão de comprar numa banca próxima — e então, correu para o quarto da irmã com todas, sentando-se na beirada da cama e despejando-as pelas cobertas. A maioria delas tinha o rosto de Lisa estampado em diferentes ângulos, com uma jaqueta de couro, os cabelos escuros na altura dos ombros, sempre de aspecto seboso como se não lavasse há alguns meses, mas era isso que trazia o ar de bad girl.
Em uma das edições um cigarro pendia dos lábios dela e abaixo o destaque: "Lisa fuma? Veja os tipos de cigarro que estão na moda entre os jovens!"
— Olha essa... — Ten mostrou uma das capas. — "Lisa é eleita a garota mais bonita segundo garotos de 12 a 14 anos...? Que precisam urgentemente de um óculos! — ela bufou, rolando os olhos para o irmão. — "Veja o tipo de garoto que Lisa gosta e saiba se você tem chances!"
— Isso é um desserviço ao feminismo... — riu, se ajeitando na cama com certa dificuldade. Lembrava-se vagamente da festa que participou ontem, provavelmente citada na nota de rodapé de algum jornal diário. O fato é que acabou exagerando nos drinks de vodka e caiu no chão da boate em cima do próprio vômito, e precisou que um dos seguranças a levasse de volta para casa, o que foi há... 20 minutos atrás.
— Não sou só eu que estou nas capas. — Encarou o irmão com um olhar sugestivo. — "Todos os adolescentes querem um pedaço dos vice-irmãos!" e "Ten dormiu com mais de 100 garotas em menos de 3 dias? Saiba mais!"
— Mas o que...? — Ele tomou a revista, a boca semi aberta em choque. — Estão apagando a minha bissexualidade!
Aquelas chamadas sensacionalistas eram um reflexo do que o povo falava nas ruas, pesquisava na internet e conversava na roda de amigos. Lisa e Ten receberam toda essa popularidade num conjunto de fatores: por serem filhos do vice presidente da Tailândia, bonitos, ricos e vez ou outra — lê-se todos os dias da semana — eram clicados com idols frequentando boates famosas. Apenas na semana passada a Dispatch divulgou que Lisa estaria namorando um membro do BTS, um ator famoso de dorama e o próprio guarda costa, — tudo ao mesmo tempo. Ten foi visto numa festa com alguns rappers em Nova York e ninguém falava de outra coisa a não ser isso.
Os gêmeos tinham um apelo visual surpreendente, andando com suas roupas pretas, cigarros acesos e a expressão constante em tom blasé, como se nada no mundo pudesse afetá-los, como se não tivessem problemas nas costas. As pessoas gostavam de acompanhar esse tipo de entretenimento, saber o que eles comiam, o que vestiam, com quem andavam e transavam.
— Eu estou sendo perseguida!? — Lisa colocou a mão no peito, teatral.
— Me dá isso aqui! — Ten tomou a revista das mãos da irmã, que tentou recuperá-la no mesmo tempo, acabaram rolando na cama numa luta cheia de soquinhos, petelecos, grunhidos e mordidas.
— Vou chamar o papai! Me devolve!
— Ô paaaaapai, olha o Lisa aqui! — Ten gritou primeiro, se contorcendo debaixo das garras da irmã.
— Eu estou vendo. — A voz do homem pairou sobre eles.
Os dois se levantaram, atônitos.
Sunan cruzou os braços, parado na porta o quarto. Ele era um senhor baixinho e carrancudo que, aliás, os gêmeos deveriam agradecer por não terem puxado nenhum traço dele. Lisa não se lembrava, nem quando pequena, de ver o pai com outra coisa a não ser terno ou roupas sociais num geral, e não era diferente ali.
Outro fator que pode ter passado despercebido mas precisa ser comentado é que, como Lisa e Ten tinham forte apelo popular, era proveitoso usá-los para os interesses do governo, ainda mais em época de eleição.
O pai deles sempre foi um político, o primeiro vereador eleito com 21 anos e, ao chegar na tenra idade de se candidatar ao senado, pensou que dois filhos, fofinhos e bem castos, poderiam ajudar na campanha. Que coração de pedra não se amoleceria vendo a luta de um pai para cuidar de dois bebês? Quem não votaria num homem que os criou sozinho?
Por isso os gêmeos nasceram sem saber ao menos qual mulher o pai pagou para servir de barriga de aluguel, foram planejados num laboratório de fertilidade com dois vidrinhos de óvulos escolhidos a dedo. Ele queria que fossem dois meninos, Lisa acabou estragando uma parte do plano, mas, se querem saber? Funcionou.
Dessa forma, tê-los nas capas das revistas levou o pai a ser eleito vice presidente do país.
— Preciso conversar com a sua irmã, nos dê um segundo a sós.
Lisa cruzou os braços, não permitindo que o garoto saísse.
— Pode conversar na frente dele.
— Ten, saia. — Não precisou dizer uma segunda vez. — E não precisa pegar as revistas, vou precisar delas.
Ten encarou a irmã por sobre os ombros antes de cruzar o quarto para ir embora. Os dois tinham isso, essa conexão estranha que não sabiam explicar, mas ela entendeu que ele mandava forças e pedia, gentilmente, que não brigassem de novo.
— Você acha bonito, não é? — O homem afrouxou a gravata assim que a porta se fechou. Apenas pai e filha no quarto. Sunan caminhou com uma cara de nojo ao perceber a bagunça do cômodo. — Todas essas manchetes mostrando o quão promíscua você é.
— Eu não sou promíscua! — se justificou. — Esses paparazzis infernais não nos deixam em paz! Ficam inventando coisas sobre minha vida e...
— Você dá motivos, Lisa! — O pai gritou, a voz impositiva fazendo a filha se calar, mas não antes sem murmurar um palavrão. — Estamos numa corrida presidencial e sabe o que as pessoas mais velhas pensam? As mesmas pessoas que os viram crescer durante meus mandatos? Pensam que você é um caso perdido!
— Okay, pegou pesado agora...
— Deixe-me terminar! — Ele levantou um dedo, chegando mais perto, em contrapartida, Lisa deu passos para trás. — Você ultrapassou todos os limites! Está trazendo votos negativos para minha chapa e se eu perder, Lisa.... se eu perder, tudo isso está acabado. Sem mesada, sem festas intermináveis, sem essa casa... você vai ter que começar a trabalhar e conseguir o seu próprio dinheiro.
— Pai, pelo amor de Deus! Que drama do caralh...
— Não é drama! É a porra de um fato!
Lisa arregalou os olhos. A situação era séria, o pai nunca usava palavrões e o pior: nunca a visitava. Deveria ter percebido isso no começo, sempre que Sunan queria mandar um recado para os filhos, alguém fazia por ele. Era um homem muito ocupado cuidando de um país, não tinha tempo para prestar atenção nos caprichos dos gêmeos, principalmente os de Lisa.
As pessoas começavam a falar, ainda mais a parte tradicionalista e direita — na qual Sunan era popular — que Lisa agia como um garoto, que nessa idade já deveria ter se casado, ter gerado filhos, pois se esperasse mais alguns anos a idade fértil já teria passado, seria uma mãe velha. Que toda essa "liberdade" e ter criado Lisa e Ten igualmente a fez pensar que poderia agir dessa maneira, já que, um garoto falar o que pensa e ficar com várias garotas era admissível e esperado de Ten, mas de Lisa? Era um ultraje!
— Você completou 24 anos, é uma mulher não uma criança, as pessoas não vão mais passar pano para as suas atitudes irresponsáveis. E falta menos de quatro meses para as eleições. — Ele abaixou o tom de voz, num gesto suplicante e ainda sim, severo. — E eu sei que passou as últimas semanas fazendo coisas muito importantes, como encher a cara de cachaça e viajar com alguma Kardashian para ter tempo de ler alguma matéria que não fosse sobre você.
— Falando assim me fez parecer narcisista...
Sunan levantou as sobrancelhas como se dissesse "Jura?" e caminhou até a cama da filha, pegando uma das revistas com a ponta dos dedos e jogando-a para que Lisa segurasse.
— Página 30: filha do presidente se casa em cerimônia no Japão e alavanca percentuais de próxima candidatura do pai...
Lisa folheou as páginas, as sobrancelhas franzidas.
— É claro que eu nunca leria isso, é política.
— Pois acho que deveria começar. — Ganhou outra bofetada de revista na cara. — Página 20: o índice de Hideki aumenta, o casamento da filha é o mais comentado na Ásia "Uma mulher de família, é isso que o país precisa" comentam internautas.
— Quem em sã consciência fala "internautas"? Estamos em 2020. — Se jogou na cama e encarou o rosto carrancudo do pai.
— O diploma que eu comprei pra você não valeu de nada?
— Provavelmente não.
— Então eu soletro. — O homem perdeu a paciência. — Você-vai-se-casar. — E então sorriu.
Os batimentos de Lisa se aceleraram e chegou a pensar que vomitaria toda a vodka que bebeu horas atrás. Se levantou rápido demais e sentiu a pressão cair junto com as pernas.
Bateu os joelhos no chão, na melhor pose de humilhação que podia fazer.
— Pai, você sabe que casar é um plano que eu pretendo cumprir em outra vida... além do mais, como eu arrumaria um cara disposto a se casar comigo em menos de 4 meses? — arfou, engolindo um vômito só de se imaginar-se numa igreja. — Casamento é coisa do passado, eu posso doar dinheiro para abrigos de animais, parceria com a Luiza Mel e o caralho... Amazônia! Eu vi os stories da Anitta esses dias sabia que lá tá pegando fogo?... Melhor! Posso ir com a ONU cuidar de refugiados, ein? Não parece ser uma boa?
Sunan observava tudo aquilo com uma sobrancelha arqueada em divertimento. Lisa sentiu um fio de suor descer pela testa e o pai se transformar em três, antes do jato de vodka e resquícios de canapés, romper pela boca. Ao menos teve tempo de impedir sujar os sapatos caríssimos e polidos dele.
Arregalou os olhos, continuando a fitar o chão sujo, qualquer coisa parecia ser mais fácil de encarar do que o olhar que queimava sua cabeça.
— Casamento não me parece tão ruim... — sussurrou.
— Te vejo 14h no meu gabinete. Uma estagiária vai levar alguns pretendentes. — Ele bateu os pés no chão e alguns respingos de vômito foram parar no rosto de Lisa. — Sem atrasos e... vê se não estraga tudo.
"Não estragar tudo" era algo como "Não vomite nos garotos, Lisa" ou "Não me faça perder as eleições, Lisa" a garota imitou exatamente essas falas enquanto o pai se afastava, batendo a porta do quarto.
Se levantou, com nojo do que fez, mas sem saber se poderia cumprir com o que o pai pediu.
Lisa era expert em "estragar as coisas."
(...)
Chegou ao gabinete do pai às 16h em ponto. As botas sujas de lama e as calças rasgadas até as coxas, mostrando as pele macia. Sorriu, levantando o óculos escuro que pendia no nariz e fez questão de aprumar o peito também, para que os escritos do seu cropped "Fuck me, please" em letras garrafais e um desenho de um dedo médio levantado pudesse ver visto por todos. Ao chegar à sala do vice presidente, com dois guarda costas a tiracolo, fez questão de pisar mais fundo, deixando um rastro de lama pelo corredor branco e polido.
Tudo ali deixava Lisa a um passo de surtar. Nunca gostou desse aspecto clean dos escritórios e odiava duplamente as pessoas que o compunham, certinhas e irritantes demais.
Lisa gostava de autenticidade, desafios e experiências de quase morte.
— Olá docinho, tenho uma reunião com o vice-manda-chuva agora. — Se inclinou na mesa com um sorriso de lado, o pirulito dançando pela boca ao piscar para a secretária.
Ela rolou os olhos, puxando o pirulito e o jogando no lixo.
— Você está atrasada.
— É 14h em algum lugar do mundo, Sorn! — Mandou um joinha para a mulher enquanto seguia o corredor para a sala do pai. Os guardas trocaram olhares aliviados ao permanecerem na sala de espera.
Lisa escancarou a porta sem bater antes, porque estava fazendo o possível e impossível para irritar o pai. Já que iria se casar precisava gastar toda a cota de rebeldia antes de ceder a um bom e fiel garoto, sorrir para fotos e ter bebês.
Sunan semicerrou os olhos, um vinco mais profundo entre as sobrancelhas, encarou a filha de soslaio e mostrou o relógio de pulso.
— Antes tarde do que nunca.
Lisa sorriu, acabando de entrar na sala e fechar a porta.
— É bom te ver também, vice-pai.
— Por que está... assim? — O homem apontou com desdém para as roupas que vestia.
— Estou de luto pela minha dignidade. Achei que tivesse entendido o conceito. — Deu uma voltinha, antes de voltar a encarar o pai.
Sunan suspirou, fez uma prece rápida antes de voltar ao comum estado: neutro.
— Essa é Jennie Kim, ela está encarregada de ajudá-la a escolher um noivo.
Lisa reparou na garota pela primeira vez. Nunca poderia ter feito esse esforço antes já que Jennie era igual a todos os funcionários daquele gabinete, blusa social em tons pastéis, saia abaixo dos joelhos bem passada e sapatilha.
Na moral, sapatilha?
O aspecto "limpo" também irritou Lisa, como se a garota ainda morasse com a avó.
Jennie Kim também pareceu não ter gostado do que viu, mesmo que tenha dado um sorriso gentil em resposta o nariz deu uma leve franzida ao encará-la de cima a baixo — ou pode ser porque Lisa não havia tomado banho e fedia a vômito e vodka.
Não contem para ninguém, mas fazia parte do plano para irritar o pai e espantar os pretendentes.
— Agora... vão, vão. — Sunan dispensou as duas com um bater de mãos. — Não temos muito tempo.
— Me acompanhe por aqui, senhorita. — Jennie mostrou o corredor amplo e bem iluminado que teriam que seguir, assim que saíram do escritório. O sotaque dela era bem fofo e de alguma forma bizarra, tudo nela parecia macio.
— Não precisa me chamar de senhorita, temos a mesma idade. Acho.
Jennie tinha pernas ágeis e se encolhia para parecer menor ainda, como um gnomo de escritório.
— São normas do vice-presidente.
— O digníssimo vice-pai não sabe de nada! — Correu para alcançá-la.
— Ele é o vice-presidente, senhorita. Acho que sabe de muita coisa. — Jennie não a encarou em nenhum momento, até a postura dela era ereta.
— Você é um robô ou algo do tipo?
— Engraçadinha. — A Kim rolou os olhos, debochada, e Lisa sorriu largo em resposta.
— É sério, meu pai deve te pagar uma fortuna para falar bem dele, nem eu que sou a filha falo.
Nenhuma reação, era como estar conversando com algum atendente online, vibes Magalu do Magazine Luiza.
— Minha vida é uma merda mesmo... — murmurou.
— Olha aqui, senhorita... — Jennie parou no meio do corredor, a expressão neutra de antes deu lugar a bochechas infladas e olhos franzidos em ódio. — Eu acabei de me formar em Direito e Constituição Civil pela Yale, consegui esse trabalho como estagiária no gabinete do vice-presidente para servir cafezinho e ser babá da filha irresponsável dele, moro com um fedelho porque não tenho dinheiro nem para morrer, então acho melhor rever os seus conceitos porque se eu tivesse a grana que você tem e frequentasse as Ilhas Maldivas com um membro do Twice todo final de semana a última coisa que eu falaria era sobre a minha "vida de merda".
— Espera... — Repousou a mão em um dos ombros dela. — Você lê sobre mim? Essa notícia saiu tem uns três dias...
— Arh! Me solta sua... sua... — Jennie parecia fazer esforço para pensar num xingamento decente, as bochechas coradas e os lábios num bico inclinado, quase fez com que Lisa sentisse um pouco de empatia pela estagiária pois se estava perto de surtar minutos antes, Jennie já era a Britney Spears em 2007. — Boboca! — Soltou por fim. — E não comece a rir!
— Eu não comecei, juro! — Levantou as mãos em rendição, mesmo que sim, estivesse rindo.
— Anda! Os seus noivos te esperam — Jennie bufou, desabotoando uma casa da camisa antes de abrir uma das portas.
Lisa sentiu como se estivesse em uma sala de vestibular, nas poucas vezes que viu uma sala de vestibular na televisão, já que nunca precisou fazer um.
Os caras estavam sentados em fileiras, todas perfeitos e abrumados, como um catálogo de modelos ou um grupo de idols que acabou de debutar graças a um reality show.
— Olá, desculpe a demora! — a estagiária disse essa última frase olhando torto para Lisa. — Esse é a Lisa mas acho que vocês já sabem.
Não era como estar num vestibular, era como ser uma carne no açougue. A forma como eles a encaravam, com os olhos em puro êxtase e segurando-se na cadeira para não pular em cima, a fez se sentir feliz por não ter tomado banho.
— Agora, você senta aqui... vou chama-los por ordem de inscrição. — Jennie a empurrou para uma cadeira no meio da sala. — Candidato número um!
O menino compartilhou gritos com os outros participantes, correndo para se sentar na frente de Lisa, que só conseguia imaginar o que Ten faria se estivesse ali. Provavelmente seria zoada pelo resto da vida, ele tiraria fotos e montaria um cartaz de colagens com todas as suas caretas, lançaria um álbum de figurinhas no WhatsApp com os memes, pagaria para a notícia passar no jornal das 8h...
— Oi, meu nome é Chenle e eu tenho 17 anos...
Lisa arregalou os olhos, encarando a estagiária ao lado, com uma prancheta em mãos.
— Ele me disse que tinha 18 — ela se justificou. — PRÓXIMO!
O candidato número dois se levantou, tropeçou nos próprios pés e se sentou na ponta da cadeira, as mãos tremiam.
Lisa se inclinou, sussurrando.
— Querido, fale a verdade, você quer estar aqui?
Ele balançou a cabeça em negação, os olhos cheios d'água.
— Então... PRÓXIMO!
Jennie bateu os pés, birrenta, mas continuou ao seu lado, escondendo um bico nos lábios.
— Meu nome é Jackson.
— Olá, Jackson. — Lisa passou os olhos pela folha de inscrição. — Chinês, legal.
— É. Tô um pouquinho longe de casa, sorte a sua, anja. — Ele piscou um olho.
Lisa sorriu de lado, se interessava por cantadas baratas e garotos cretinos, então, se inclinou na mesa.
— Ah é, por quê?
— Preciso me casar, meu passaporte é ilegal... tô sendo procurado por umas coisas aí... nada muito grave, juro.
— Amado? — dessa vez foi Jennie que disse, a cara espantada. — Isso é crime! PRÓXIMO!
Lisa coçou a cabeça, soltando um suspiro frustrado, talvez precisasse lavar os cabelos, mas o problema ali era que sua bunda começava a doer, quadrada pelo tempo que ficou sentada. Ao menos podia remexer a procura de uma posição confortável pois já ficou em todas as posições confortáveis existentes, agora era só o sedentarismo e os resquícios da ressaca que compunham o seu ser.
Levantou os óculos escuros e soltou um bocejo.
— Candidato número 40! — A partir do momento que a sala foi ficando vazia a voz de Jennie parecia mais alta, doía a cabeça.
O garoto selecionado deu um chute na cadeira, assustando Lisa, e com gestos rápidos se sentou.
— Você é o...?
— Não precisa saber meu nome, vamos ao que interessa. — Ele tinha olhos pequenos e um rosto anguloso, dando-o um ar meio sexy. Lisa sorriu depois de 40 candidatos desinteressantes, certinhos e sem sal demais.
— Okay... — falou de forma lenta e pausada.
Jennie tossiu (ou fingiu que tossiu), mas Lisa não reparou em nada que não fosse os olhos maldosos daquele garoto.
— Então Lisa, como anda seus órgãos?
— Que elogio exótico. — Deu de ombros. — Acho que todos bem, menos o fígado.
Ele pareceu gostar do que ouviu.
— O fígado não é tão importante, mas os rins? Bebe muita água? Já pensou em vender?
— Espera... o quê?
— PRÓXIMO! — Jennie cuspiu uns respingos de água ao voltar o líquido da garrafinha que bebia, largando a prancheta no colo de Lisa e escoltando o garoto para fora da sala.
— Por que fez isso? — Se levantou, seguindo-os.
— Você é burra ou fez Senai? — ela sussurrou raivosa. — Ele queria te matar!
— Eu morreria feliz, você viu o tamanho do...
— Morra em outro momento, eu não ligo, mas não agora. — As mãos dela foram parar na gola da blusa de Lisa, aproximando-as. — Esqueceu o que eu disse? Sou sua babá e infelizmente, tanto para mim quanto para você, preciso arrumar um noivo antes que seu pai me demita!
— Babá, não sei se você percebeu, mas isso não está funcionando! E pra vocês meninos! Vão arrumar fama em outro lugar porque eu não tô afim de dar a minha pra vocês! — Voltou-se para Jennie. — Vê se me erra, falou?
Deu um tapa nas mãos dela, arrumando a gola amassada e partindo para fora.
Lisa tirou os óculos escuros e esmagou com o pé.
Havia achado um espaço pequeno e particular atrás do prédio do gabinete, junto à bitucas de cigarro e cadeiras quebradas. Sentou-se em uma delas, rezando para não se espatifar no chão e acendeu um cigarro também, aliviada quando inspirou a fumaça.
Nunca conseguia momentos como aquele. Se estivesse fora de casa precisava andar com dois guarda-costas a todo momento, eles estavam presentes em todas as festas, visitas a cafeteria e até nas idas aos banheiros públicos. Era o preço a se pagar por ser a vice-filha.
E ironicamente, gostava de dizer isso em voz alta. Colocar o sufixo "vice" em qualquer coisa relacionada ao governo e a si mesmo, fazendo-a parecer inalcançável.
Tragou uma última vez antes de jogar a bituca junto às diversas outras no chão.
— Fumando escondido? — Jennie a pegou de surpresa, umas das mãos firmes na parede descascada no beco. Atrás dela vários estagiários passavam apressados, mas nenhum pareceu notar a Kim entrando naquele espaço minúsculo com um pequeno franzir de nariz.
— Só não vou te oferecer porque você não tem cara que fuma.
— Não sabia que julgava as pessoas pela aparência, senhorita. — Ela tomou a cartela de cigarros e acendeu um com o isqueiro que tirou do próprio bolso.
Lisa arqueou as sobrancelhas, mas depois riu.
— Você também me julgou, acha que não notei? — Pegou o cigarro dela para mais uma tragada. — Quando me viu pela primeira vez lá na sala do vice-senhor-pai, fez uma cara meio assim... — Tentou imitá-la com o nariz franzido e um sorriso falso no rosto.
— Você fede, o que esperava? E também se parece muito com as meninas que faziam bullying comigo no colégio.
— O quê!? Eu nunca faria bullying com alguém, mas você... — Devolveu o cigarro, apontando um dedo no peito dela. — Me lembra muito aquelas puxa saco da professora, que anotavam o meu nome só por respirar alto.
Jennie riu, riu de verdade, a gargalhada alta e contagiante, mas interrompeu a visão de Lisa quando tampou a boca com as mãos.
— Eu amava ser ajudante a professora!
— Sabia! E eu amava tirar do sério a professora.
O sorriso que compartilharam pareceu íntimo demais, então se afastaram alguns palmos e o momento de silêncio que se seguiu foi relaxante.
Não precisavam dizer nada para preencher espaço pois as duas ali, dividindo o cigarro ao redor de cadeiras quebradas, era um conforto estranhamente necessário. O braço de Jennie resvalava no seu e o cheiro dela era gostoso, um perfume doce de cereja. Os cabelos castanhos pareciam macios e limpos demais — bom citar.
A fumaça do cigarro se tornou escassa e o restinho dele queimou seu dedo na última tragada. Um sinal implícito que deveriam ir embora, mas ficou tentada a oferecê-la outro só para os minutos de silêncio confortável e cheirinho de cereja durassem mais.
— Desculpa por... dizer que minha vida era uma merda, eu não sabia...
— Não tinha como você saber. — Jennie deu de ombros, suspirando. — Todo mundo passa por perrengues, não deve parar de reclamar só porque há pessoas numa situação pior. Eu fui a insensível, não deve ser fácil pra você casar por obrigação. — O olhar triste no semblante dela trazia uma nova versão da estagiária robô, diferente da estagiária irritada e a melhor na opinião de Lisa: a estagiária cheirosa.
— Deixa eu adivinhar? Sonha em ter quantos filhos? 5? Me pareceu gostar do candidato número 20. — Mexeu os ombros para acertá-la.
— Para de falar merda. Seria impossível eu gostar de qualquer candidato masculino.
— Ouvi "merda"? — arfou. — Bem melhor que o "boboca" de mais cedo!
— Não me envergonho do que falei mais cedo, você é uma boboca, senhorita. — Jennie semicerrou os olhos, mas um sorriso pequeno não largava os lábios. Empurrou a vice-filha, caminhando para sair do beco.
Lisa mordeu os lábios, acompanhando a estagiária tranquilamente, agora que já sabia o ritmo das pernas dela.
— Repete, vice-estagiária!
— Boboca!
— Que gracinha, Jen!
— Vai a merda!
As duas riram, num empurra empurra proposital enquanto seguiam novamente ao gabinete.
(...)
Outros 32 candidatos voltaram para a casa em desalento após receberem um "não" de Lisa, que, ao final do dia, constatou que precisava comer algo antes que desmaiasse de exaustão. O sanduíche de carne na máquina do escritório era insosso igual a todo mundo que trabalhava ali, e não queria dizer em voz alta, mas encarar a estagiária com as sobrancelhas juntas, os pés ansiosos e o colo cheio de papeladas enquanto tomava um expresso ruim, a deixava preocupada.
Não queria que o pai demitisse Jennie, ela conseguiu arrumar 72 garotos corajosos o suficiente para casar com a versão que viam de Lisa na revista Capricho, catalogou e os deixou quietos numa sala por quase quatro horas — se tratando de homens era um milagre. Se aquilo não era competência, não sabia o que mais seria.
— O vice presidente quer vê-las no escritório.
Não tinha como saber se a expressão "deu ruim" se encaixaria nesse caso, porque Sorn, a secretária, era uma alma sem emoções aparentes. No entanto, o som de Jennie engolindo em seco preencheu a sala de espera.
Elas se levantaram ao mesmo tempo. Lisa limpava os resquícios de pão de forma na calça e Jennie organizava os papéis como um gangster embaralha cartas.
— Não se preocupe, você não vai ser demitida. — A impediu de abrir a porta do escritório no último segundo, a fim de lançá-la um sorriso sincero.
A estagiária não pareceu acreditar, mas maneou a cabeça num "sim" apressado antes de romper pela sala.
E o que as esperavam no escritório nunca, repito: nunquinha, poderia ser imaginado por nenhuma das duas.
Lisa se embolou nos próprio pés e pelo visto, a Kim também, pois elas se trombaram.
Se lembrou do pai a avisando para não "estragar tudo" horas mais cedo, porém, deveria ter feito algo muito pior do que recusar pretendentes para um falso casório, já que era recepcionada pelo vice presidente, a presidenta e por último e não menos importante, Ten.
— Mas que... porra...? — Obrigou seus pés a caminharem até a senhora e a reverenciou muitas vezes, sentindo suas costas estalarem. — Digo, olá presidenta, Elane.
Elane era uma mulher que parecia ser bem mais nova do que realmente era, e se tornava visível porque havia se tornado uma presidente tão popular. O sorriso amável e materno encantava a todos e, mesmo que Lisa nunca tenha tido algo parecido na vida, em seus sonhos distópicos imaginava uma mãe com o rosto dela.
— Como está grande essa menina! — Se abaixou e com isso, ganhou um beijo da senhora no meio da testa. — E essa é a estagiária, certo?
— Eu... eu? Eu sou o que a senhora quiser, senhora. — Jennie correu rápido para o lado de Lisa, quase se agachando para reverenciar a presidenta.
— Não precisa dessas formalidades, querida. Acho que ainda não sabem porque estamos aqui.
— Mas vão saber agora. — Sunan abriu os braços, sentado atrás de mesa como um rei encarando seu banquete. — Ten, faça as honras!
As duas garotas ainda estampavam uma expressão confusa, mas Lisa encarou o irmão, suplicante. Ele parecia desconfortável, alisou a calça couro e cruzou a sala, entregando o celular nas mãos de Lisa.
Jennie se aproximou, como o pescoço parecido com de uma girafa para bisbilhotar. A primeira coisa que apareceu quando a tela se iluminou foram os nomes delas nos "Trends Top" o Twitter.
Lisa bufou, desdenhosa. Não era de se estranhar, até porque sempre que saia com um garoto diferente ou mudava a cor de cabelo seu nome ia para o topo rapidamente, mas o que o nome da estagiária fazia junto com o seu era novidade e, com os dedos trêmulos, clicou na tag, dando de cara com várias fotos de ambas no beco, dividindo o cigarro, rindo, ombro a ombro.
Havia uma que se parecia muito com uma inclinação a beijo, mas era só o ângulo que não favorecia.
O problema maior era que aquelas fotos pareciam íntimas, como se as duas se conhecessem há muito tempo. E a maneira que Lisa foi clicada encarando Jennie, como se fossem cúmplices ou confidentes, sorrindo tão perto uma da outra num beco estreito, partilhando um momento que se entendia como secreto, fez seu estômago revirar.
O surto do país transparecia em tempo real no Twitter, vários comentários, fanarts e gifs se multiplicavam ao passo que descia a timeline do aplicativo.
@Lisaeffetc "Nunca me enganou. Sempre soube que ela gostava de um velcro"
@bunnyteaser "Gostei das duas juntas, tão namoradinhas, alguém já fez fanfic?"
@yuri_vida "O melhor casal que esse país já teve #shippo #jenlisa"
@LisaUppdates "Vamos apoiá-las pessoal! Nada de comentários homofóbicos ein? Pelo que parece, Jennie é corea..."
— Pai... eu posso explicar... — buscou Jennie com os olhos, mas a estagiária encarava a tela do celular com os olhos arregalados, quase saindo das órbitas, o rosto vermelho como um pimentão.
— Não precisa explicar nada. Não percebe, filha? — Sunan sorriu e Elane completou:
— Apesar da chapa tradicionalista do seu pai, nosso governo teve muitos méritos e um deles foi a luta pelas minorias, conseguimos sancionar leis contra feminicídio e acabamos de aprovar o direito de casamento para pessoas do mesmo sexo. Incluindo o fato que o nosso país tem o maior turismo LGBT da Ásia, qual a melhor propaganda para nós do que vocês duas? Um casal gay seria difícil de vender, mas duas garotas lindas?
— Isso é... loucura! — Jennie engasgou.
Lisa mordeu os lábios, contendo um palavrão, sentia o coração bater forte, chegava aos ouvidos. Primeiro que não havia entendido nada daquela falatório todo, a ficha só caiu quando Ten a encarou, desolado, e algo nos olhos dele explicou que sim, era isso mesmo.
Estava ferrada.
— Isso é loucura! — imitou a estagiária.
— Não é loucura, é visionário e está decidido! — Sunan se levantou, como se batesse o martelo imaginário para findar aquela discussão. — Você e Jennie vão se casar!
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