Entre corserlets e depoimentos nem tão secretos
O sol ao menos tinha nascido no horizonte, mas o calor ameaçava ficar insuportável em pouco tempo. O parque estava quase isolado, algumas pessoas caminhando, levando o cachorro para passear, sentadas nos bancos de madeira lendo o jornal diário e, em uma parte mais remota, onde as árvores se abriam no canteiro florido com vista para a grande e movimentada Bangkok, uma equipe de filmagem foi montada.
Lisa chutou a porta do trailer, as anáguas do vestido a impediam de passar e por isso, precisou de ajuda para sair. Era como se estivesse entalada, mal conseguia andar, então, andando de pouquinho a pouquinho como uma tartaruga com a casca apertada, chegou a uma Jennie confiante, sentada em um dos banquinhos do parque.
— Eu não consigo respirar — conseguiu dizer.
Jennie parecia levar tudo aquilo com uma maestria invejada, os cabelos estavam soltos e pequenas pétalas de flores brancas artificiais foram presas pelos fios castanhos, a maquiagem brilhava. O vestido de noiva rendado e na forma de uma saia-lápis não parecia incomodá-la, na verdade, poderia ter sido costurado ali mesmo, com ela dentro.
Lisa não poderia dizer o mesmo sobre si, o photoshop seria o único capaz de tirar a oleosidade do seu rosto graças a maquiagem pesada. Colocaram tanto aplique nos seus cabelos que sentia a cabeça pesar e o vestido mais parecia um bolo. Estava pronta para debutar em uma festa de 15 anos. Quando achou que não poderia piorar, vieram duas garotas de sorrisos bonitos, com uma coisa nos braços que pensou ser arreios para colocar em cavalos, mas a rodearam e apertaram aquilo em volta da sua barriga.
Jennie gargalhou da desgraça de Lisa.
— Nunca vestiu um corselet antes?
— Então esse é o nome dessa coisa? — rugiu, enfadonha. — Essas fotos vão sair horríveis, Jennie. E ainda vão fazer banners, posters, vão pregar por aí.... fotos com a minha cara desse jeito. — Apontou para o próprio rosto.
— Não se preocupe, quando você se casar de verdade vai ser do seu jeitinho. Nada de corselet e fotos ao ar livre. — Ela se aproximou, tirando um fio de cabelo que grudava no rosto de Lisa pela quantidade de laquê.
Um aperto no peito quase fez a vice-filha implorar ar novamente, e acabou culpando o corselet. Jennie fazia questão de lembrar sobre o acordo todos os dias, como se quisesse se ver livre logo. E não a culpava por isso, só culpava a si mesma pelos devaneios incessantes, pensando que talvez fosse divertido se escolhessem vestidos parecidos com a suas personalidades, flores e cores, passando horas sentadas no chão do apartamento dela com um monte de revistas sobre bolos e uma taça de vinho pela metade.
Jennie estaria vestindo um blusão de Lisa, deitada no tapete entre o sofá e a televisão; a luz da sala estaria apagada e apenas um abajur seria posto no chão próximo a elas, a luz vermelha sobrepondo a semi escuridão do cômodo. Jennie e os lábios manchados de vinho, sorrindo debilmente quando o álcool fizesse efeito, e a conversa sobre o casamento se dispersaria facilmente e...
Lisa balançou a cabeça, atordoada, e obrigou-se a pensar no presente.
— Seja sincera, eu tô muito feia? — Se aproximou um pouco mais de Jennie, que riu, apertando as bochechas lotadas de maquiagem. — Você tá toda linda... e... e eu pareço prestes a adornar um bolo de chantilly.
Jennie piscou algumas vezes, desconcertada antes de voltar a falar.
— Você está... exótica.
— Arh! Eu sabia!
— Pensa pelo lado bom, essas mangas eram moda nos anos 90!
— ALGUÉM TIRA ESSA JOÇA DO MEU CORPO. — Se sacudiu, o corselet ao menos se mexia e a agitação fez um novo fio de suor escorrer pela testa.
Naquela época, na Tailândia, o calor era tanto que chegava a ser uma amostra grátis do inferno. Lisa não sabia quem havia tido a brilhante ideia de fazer aquele ensaio fotográfico no parque, que na teoria deveria ser refrescante mas só era sufocante, e imaginava-se descobrindo quem era e mandando Jisoo fazer-lhe uma visitinha a noite.
Outro pensamento sorrateiro, com a assessora na sala do pai naquele começo de manhã perturbado ameaçou estragar seu dia, e Jisoo, como se lesse mentes, apareceu entre a equipe de filmagem. O único pontinho preto no meio deles.
Uma pequena mudança na roupa preta de sempre, devido ao calor, fez aparecer diversas cicatrizes pelo braço pálido, cobertas apenas pela manga fina da blusa. Jisoo se aproximou vagarosamente com um meio sorriso no rosto, observando tudo com os olhinhos brilhantes. Ela quase parecia uma garota normal, que a gente encontra em uma cafeteria, no corredor da faculdade, cheia de livros, pensando no que comer no jantar.
Não sabia se a assessora parecia tão feliz porque também a achava uma pateta naquele vestido de noiva, ou se ver aquilo a fazia se lembrar do próprio casamento.
No entanto, Lisa foi pega de surpresa por uma explosão de pó na cara e tossiu como uma condenada, o maquiador responsável pela tentativa de assassinato só riu, tirando um batom do bolso para aplicar em Jennie.
— Jisoo, mate ele! — engasgou, apontando para a poc maquiadora.
— Lisa... — ela ponderou. — Você está bem... exótica, nesse corselet.
Jennie segurou o riso.
— Você não sabe o que eu estou passando aqui dentro. — Lisa fez uma cara de choro.
Jisoo examinou o vestido com atenção, naturalmente os diversos maquiadores e pessoas da equipe se afastaram gentilmente, porque era assim, todos tinham um medo velado da assessora.
— Isso parece com um dispositivo que colocaram em mim uma vez.
— Dispositivo? — Jennie levantou uma sobrancelha.
— De tortura — Jisoo acrescentou. — Quando fui pega por espionagem no Vietnã.
Lisa arregalou os olhos, compartilhando a expressão de choque que Jennie lhe devolvia.
— ... E eu devo me preocupar?
— Depende, perdi duas costelas. — Ela saiu atrás de Lisa, e reparando no desespero pelas pupilas da tailandesa, adicionou: — Não se preocupe, você vive bem sem elas.
Piorou ainda mais.
(...)
Lisa tinha plena consciência que pôs a si mesma e Jennie naquela enrascada. Passou os quatro primeiros dias da semana que se mudou para a casa da chefe de campanha deitada no colchão que ela lhe deu, no chão do quarto dela, com o cobertor de algum herói da Marvel que não sabia o nome enterrado até a cabeça e saindo para ocasiões bastante específicas, como comer e ir ao banheiro. Nessas horas de tristeza o banho poderia ser deixado para depois, certo?
Esperou ansiosa que os problemas esquecessem da sua existência, mas no quinto dia, quando Jennie chegou do trabalho e a viu da mesma forma, resolveu fazer uma intervenção.
Pediu Lucas ajuda para arrastar Lisa até o chuveiro.
Na cabeça da tailandesa, Jennie não havia entendido que aquilo era um protesto mudo, o único que poderia fazer — e tinha forças para tal — na atual condição em que estava. A Kim só a permitiu sair depois de abrir uma fresta da porta, vendo Lisa tremular debaixo do roupão que a entregou segundo antes.
Jennie secou os cabelos de Lisa, trançou e contou uma história de ninar. E depois, como que para trazê-la de volta a realidade, mostrou todos os compromissos que foram adiados pelo repentino sumiço da vice-filha.
Era por isso que, de manhã fizeram o ensaio de fotos para o casamento, fingiram ser pegas por paparazzis no almoço e depois, para fechar com chave de ouro, teriam que aguentar aquele apresentador gordinho que fala demais no domingo a noite.
Lisa e Jennie estavam competindo em um jogo de perguntas e respostas com outro casal, hetero, mais falso que nota de 3 que atuava em uma novela adolescente. Lisa cruzou os braços, orgulhosa, não tinha espaço para outro casal falso a não ser elas.
— Você é competitiva? — Jennie quis saber minutos antes do programa começar.
A plateia era menor do que parecia na TV e o palco onde estava era lotado de gente indo e vindo. O segundo casal sorriu amistoso do outro lado, apenas uma mesinha com um botão vermelho no centro foi deixado para eles, para apertarem quando os jogos começassem. Eles tiveram a mesma ideia de vir com moletons combinando. Jennie parecia duas vezes menor e triplamente fofa, então automaticamente já haviam vencido aquela mini batalha.
— Eu? Sou muito humilde. — Deu de ombros. — O próprio Neymar me disse isso.
— Se ele disse... — Jennie semicerrou os olhos em desconfiança, levantando a mão para cumprimentar o casal, mas Lisa interrompeu o gesto.
— Tá doida? Eles vão pensar que estão em vantagem! Você tem que olhar meio assim... — Ergueu o queixo, maneando a cabeça levemente. — Pra mostrar quem é que manda.
Jennie piscou mecanicamente, ficando na ponta dos pés para sussurrar:
— Acho que o Neymar mentiu pra você.
Lisa abriu a boca para refutar, mas a claquete soou alto e o apresentador falante já estava no meio do palco. A luz quase as cegava se olhassem por muito tempo e, diferente do que pensou que faria, Jennie se encolheu um pouquinho atrás de si.
Falar em público? Okay, cuidar da filha irresponsável do vice-presidente? Okay também, mas Jennie aparentemente não conseguia ser espontânea na frente de câmeras, suas bochechas estavam rubras de timidez.
O outro casal se apresentou primeiro, Minnie inflou as bochechas e Kun, o namorado, tocou a ponta do indicador no nariz dela.
Aquilo foi um ultraje! Eles acham que sabem fingir? Lisa também sabia.
Olhou para Jennie, as mãos apertando a barra do moletom com certo nervosismo, e imitando a cena que viu anteriormente levou o indicador até a ponta do nariz dela, rezando para que o câmera também filmasse, mas o que recebeu foi um olhar confuso.
— O que você tá fazendo...?
— Ah, deixa pra lá... — Escondeu as mãos no bolso do moletom.
— E para competir com eles, temos a vice-filha, Lisa Manoban e a sua noiva, Jennie Kim! Como acham que vão se sair, ein? Conta pro povo. — O apresentador levou o microfone até Jennie.
— Ah... oi, nó-
— Maravilha! Grande Jennie! — E tirou o microfone na mesma rapidez.
Lisa fez uma careta, chocada e com raiva, e Jisoo automaticamente já alertava com o rosto ameaçador atrás das câmeras. Foi o mesmo rosto de advertência que recebeu antes de fazer piada com o nariz do Luciano Hulk, mas Lisa nunca a obedecia, nem quando a assessora fez um gesto que cortaria o seu pescoço.
Lisa puxou o microfone do apresentador.
— Estamos muito confiantes, vamos vencer esse jogo já que claramente somos um casal de verdade, né amor? — Abraçou Jennie de lado. — Sem marketing e nada do tipo, como outros precisam apelar, só amor e... paixão.
Jennie a cutucou por baixo da mesa.
— A competição tá a mil! Ô louco! — O apresentador sorriu. — Já que estão tão confiante, vamos começar por vocês, pode ser?
— Acho melhor n-
— Pode ser! — Cortou fala de Jennie.
O homem foi até o centro do palco, mexendo nos cartõezinhos enquanto no telão atrás a abertura do "Disputa de casais" rodava.
— O que você pensa que tá fazendo? — A estagiária fofa e irritada voltou a aparecer.
— Confia em mim. — Piscou de volta.
— Primeira pergunta! Está preparada, Lisa?
— Muitíssimo!
— Qual foi a primeira namorada da Jennie? Valendo dez pontos!
Todas as câmeras se viraram para filmá-las e Jennie se remexeu inquieta. Naqueles milésimos de segundo Lisa se lembrou que, para saber sobre o passado da falsa namorada teria que ler o que Jisoo mandou, as folhas daquela pasta que provavelmente estavam jogadas em algum canto do seu quarto.
— Essa é fácil. Ela nunca teve namorada.
O segredo era se manter confiante.
— Errrrooou! — Um jingle alto soou e a mesa delas ficou vermelha. — Bae Joohyun! Primeira namorada aos 16 anos.
O queixo de Lisa caiu e encarou Jennie, tentando não demonstrar nada ao indagar:
— Que? Como assim? Que história é essa? Espera, e a menina do Red Velvet?
— Achei que soubesse de tudo, vice-filha. — Jennie deu um sorrisinho de lado, presunçosa.
— Como o primeiro casal errou, a pergunta passa automaticamente para o segundo casal. Vamos lá, Minnie, primeira namorada do Kun?
A atriz, com aquelas bochechas fofas e as franjinhas fofinhas também, pulou de alegria.
— Heejin, do Loona! Aliás, um abração para ela! — E fez um coração com o polegar e o indicador.
— Acertooou! — A mesa deles ficou verde.
Foi só o primeiro Round, Lisa apostou que nos próximos ganhariam de lavada.
Só que não.
O problema nem era Jennie, ela acertava todas as perguntas, mas com a bagunça que foram os dias de Lisa acabou esquecendo de ler a ficha que Jisoo deu, claro que, poderia ter perguntado diretamente a Jennie sobre assuntos banais, como comida preferida, cor favorita, qual girl group mais gosta e que lado da coxinha começava a comer, mas havia se esquecido completamente desses detalhes também.
— 70 pontos a 100, a última pergunta vale 30 pontos. Preparada, Lisa?
Neste momento não estava mais tãão preparada assim, só maneou a cabeça, querendo que o programa acabe logo e que as pessoas não estivessem falando mal dela na internet, depois do fiasco daquele jogo.
— Qual a saga de livros preferida da Jennie?
Tapou a boca com as mãos e encarou a ex estagiária com surpresa, como se não pudesse acreditar que o jogo tivesse virado nos 45 do segundo tempo. As mãos tremiam, tanto que quando se inclinou para falar a voz saiu falha.
— Percy Jackson?
Segundos que duraram horas até o apresentador confirmar nos cartõezinhos e respirar fundo. Uma música de suspense soou.
— Acertoou!
— AAAAA CHUPA MINNIE E KUN! — Lisa apertou Jennie contra si e a levantou no ar. Lágrimas de felicidades enchiam o rosto e a Kim precisou dar tapinhas para que lembrasse de largá-lá. Se voltou a primeira câmera apontada para elas, ainda emocionada. — Quero agradecer primeiramente a Deus, segundamente aos meus fãs que torceram por nós aí de casa... a partida foi acirrada, mas graças a Deus...
— Foi um empate, Lisa, um empate — Jennie dizia com a boca sem se mexer, como um ventríloquo.
O apresentador as interrompeu, a plateia ainda comemorava e o casal perdedor — na cabeça de Lisa — ainda tinha um sorriso solidário no rosto, mandando beijos e abraços.
O dia cheio de tarefas já dava suas caras, causando um cansaço repentino nas duas garotas. Lisa respirou fundo, pensando que finalmente poderia voltar para a casa de Jennie, se deitar no colchãozinho de molas macias e dormir até o dia seguinte. No entanto, em um jingle alto que encheu o estúdio, a plateia se calou e o apresentador saltou para o meio do palco.
— Depois do intervalo... — Ele e virou e apontou para a vice-filha. — Lisa Manoban, você está no Arquivo Confidencial!
— Porra...? — murmurou baixinho.
O intervalo foi rápido, retocaram a maquiagem de Jennie e Lisa, e a segunda, com muito calor, preferiu tirar o moletom de casal.
— Ei, não precisa ficar assim. Você sabe como funciona, algumas pessoas aparecem, contam uma história sobre você, aí você finge chorar um pouquinho... esquece a parte do choro, não finge choro.
Lisa fez um biquinho ressentido, querendo que Jennie tivesse pena o suficiente para abraçá-la, mas ela só deu espaço para que a assessora aparecesse no meio delas.
— Quando pensou em me contar? — Lisa cruzou os braços.
— Não cheguei a pensar em te contar, eu nunca te contaria. — Jisoo sorriu por um segundo antes de voltar a pose de antes.
— Eu tenho péssimos amigos — suspirou, recebendo um afago rápido de Jennie e, logo em seguida, ficou surpresa quando Jisoo não a corrigiu.
Lisa sorria de orelha a orelha quando o programa começou, talvez porque Jennie resolveu entrelaçar a mão na sua e tudo pareceu mais fácil. Ficou tão focada em sorrir que ao menos entendia o que o apresentador perguntava a Kim, só meneava a cabeça para cima e para baixo igual as dançarinas atrás delas.
Seu coração parecia prestes a pular quando o telão mudou de foco e quem apareceu foi Kendall Jenner. Pela primeira vez, se perguntou quem seriam as pessoas entrevistadas, já que nunca mantinha uma amizade tempo o suficiente.
A modelo era um desses casos, a viu algumas vezes, viajaram juntas, mas ao menos conversaram por mais de dez minutos.
Quando Kendall começou a falar sobre a maquiagem da irmã colocaram uma legenda em tailandês porca na parte inferior da tela, e entendeu porque ela tinha aceitado.
— Quanto a Lisa, bem, se eu soubesse que ela era sapatão, não teria trocado de roupa na frente dela...
— Mas o quê? — Jennie arfou, indignada.
— Não liga pra isso — respondeu baixinho, mais para si mesma do que para Jennie.
Apareceu diversas pessoas como a modelo, teve um rapper que Lisa ao menos se lembrava de ter visto antes. As pessoas mais "íntimas' surgiram depois de um tempinho. Seu pai, atrás da mesa do gabinete com a bandeira da Tailândia atrás e maquiagem demais na cara, contou uma história emocionante sobre Lisa, uma criança bonitinha, que aprendeu inglês vendo um desenho infantil.
Seria bonito se ele não tivesse confundido Ten e Lisa. A menina odiava o desenho citado e aprendeu inglês na base do ódio anos depois.
Logo depois, quando as coisas pareciam ir de mal a pior, Jungkook apareceu na tela, com tédio e um tanto quanto irritado.
— Lalisa socou minha cara duas vezes — ele disse, simplista. — Uma foi no camarim do show do meu grupo em Bangkok e outra foi quando nos esbarramos em Nova York. Conseguem ver esse roxo aqui...? Ela tamb-
— Por que fez isso? — Jennie cochichou baixinho.
— Longa história... — suspirou. — Longa história.
Lisa já estava conformada que seu nome estaria nos tópicos do Twitter depois que saísse daquele programa. A onda de hate a levaria a trancar os comentários no Instagram, provavelmente estariam citando como ela não sabia nada sobre a própria namorada e como tinha amizades bastante duvidosas, além claro, de bater em algumas pessoas, vomitar em outras e não ter ninguém que realmente tivesse uma história ou um elogio legal para citar sobre ela.
Por um segundo de distração, imaginou que Chaeyoung poderia aparecer, contar da vez em que fizeram cabaninha no quarto da rainha, alugaram um conversível para passear em Busan ou até mesmo quando ela não pode ir ao aniversário de Lisa e mandou um helicóptero jogar balões vermelhos pelo palácio.
Mas Chaeyoung não apareceria, era um fato, e essa constatação não deixou de transparecer pelo rosto da tailandesa.
Quando o vídeo se apagou e acendeu de novo, arfou de surpresa ao ver Armário na tela. Pelos machucados no rosto, poderia ser um pouco depois do atentado, ele parecia nervoso.
— Eu fui contratado para cuidar de Lisa assim que ela nasceu, era uma criança esperta e muito bonitinha, olhem só. — Ele mostrou para câmera uma foto dele carregando uma criança. — Foi no aniversário de cinco anos dela.
Lisa perdeu o ritmo da respiração e se não fosse o aperto de Jennie poderia ter começado a chorar, seus olhos estavam cheios d'água e tentou segurar bravamente.
— Os gêmeos eram uns pestinhas, nenhuma babá conseguia ficar muito tempo com eles. Depois, Ten me contou que Lisa havia arquitetado esse plano, para que ficassem os fins de semana sem supervisão e assim, eu pudesse levá-los para casa comigo. — Armário abriu um sorriso nostálgico. — Eu tinha acabado de casar, minha casa mal tinha móveis, mas eles amavam ficar lá, me pediam para contar histórias na hora que dormissem e que minha esposa fizesse bolo de chocolate.
Os câmeras deveriam estar satisfeitos por finalmente conseguir uma história emocionante o suficiente para fazer Lisa chorar. Armário foi o mais próximo que os gêmeos tiveram de cuidado paterno. O vice-presidente estava sempre ocupado e delegava o cuidado dos filhos para terceiros, alguns cuidavam bem, como Armário e Jisoo, outros nem tanto.
Jennie a olhava com um semblante preocupado, e para Lisa, se lembrar daquela noite foi automático, do gosto dos lábios dela e no que disse depois, que havia sido um erro. Tentava se convencer disso, porque perdeu Chaeyoung e não queria perder Jennie também.
Estava prestes a desmoronar como um castelo de cartas, e teve essa constatação ao ver Ten na tela.
— Acho que somos como dedo e unha, unha e unha... como se fala? — Ele riu, jogando os cabelos para trás. — Lisa e eu, de certa forma, tivemos que aprender sobre tudo muito cedo, nós crescemos expostos ao mundo e tudo o que poderiam nos dizer. É estranho pensar nisso... que estivemos em salas de governantes internacionais e em comícios com milhares de pessoas aos 7 anos. Talvez nunca tenhamos sido "crianças normais" talvez não tenha sobrado muito tempo para amizades sinceras ou a para brincar com a nossa vizinhança.
— Por favor... tira isso — cochichou, ao invés de apertar a mão de Jennie apertou braço dela, tinha certeza que deixaria marcas vermelhas pela pressão.
— Sei o que todo mundo pensa sobre ela, que é rebelde, que é irresponsável e maluca, mas é pouco divulgado o quanto minha irmã é amorosa, preocupada e engajada em tudo pode ajudar. E sei que dinheiro, às vezes, não conta como termômetro social nenhum, mas Lisa é maior que isso. Ela merece o mundo e merece que as pessoas deem uma segunda chance, que percebem que ela é muito mais que um rostinho bonito e notícias sensacionalistas. Ela é o tipo de pessoa intensa que todo mundo deveria conhecer um dia. Quanto a nossa relação? Bom, Lisa é minha irmã, minha melhor amiga, nunca desistiria de mim. Brigamos como loucos, mas...
— TIREM ISSO AGORA!
Tudo ficou silencioso, quando Lisa abriu os olhos, milhares de pares a encaravam.
(...)
Seu quarto demorou a tomar forma pelos olhos doloridos, a bagunça de sempre foi arrumada, de modo que não parecia o mesmo de antes. Coçou os olhos, um pouco aturdida, imaginando que a levaram de volta graças aos rumores sobre estar no apartamento de Jennie antes do casamento, que se tornaram mais fortes nos últimos dias.
Se esparramou na cama de lençóis cheirosos. Alguém foi o responsável por tirar sua calça jeans apertada, e agora a calcinha vergonhosa da Hello Kitty e o moletom que combinava com o de Jennie eram as únicas coisas que cobriam o corpo de Lisa.
Ainda deitada, tentou alongar o braço para chegar a cabeceira da cama, a fim de pegar o celular para checar as horas, mas tudo que conseguiu foi derrubar o abajur.
Lisa se sentou, alarmada, sentindo algo aos pés da cama. E, vendo-a também sentada com o celular em haste, os cabelos castanhos livres pelas costas, pensou ser Jennie.
Mas Jisoo mantinha uma pose inalterada, as costas bem arqueadas como um robozinho. Ela poderia estar lá por diversos motivos, porém, algo dizia que o maior deles era se assegurar que a vice-filha estivesse segura dentro da própria casa.
— É melhor ficar longe disso aqui por um tempo. — Ela repousou o celular ao lado, permanecendo de costas para Lisa.
— É tão ruim assim? — Se sustentou pelos cotovelos.
— Estamos cuidando disso, por enquanto, sem programas de variedades.
Lisa respirou fundo, temerosa.
— O que o vice-presidente falou?
Os minutos se passaram e Jisoo estava tão silenciosa que Lisa se perguntou se ela não era um devaneio da sua cabeça.
— E Ten? Sabe onde ele está?— Mais silêncio. Dessa vez, se agarrava a esperteza do irmão e também a inteligência do governo, que não deixaria outro escândalo como o primeiro vazar em vésperas de eleição. Respirou fundo, tentando uma última vez. — Jennie?
Jisoo inclinou a cabeça para o lado e Lisa seguiu o comando, vendo Jennie deitada no chão ao lado da cama, em um colchão. A chefe de campanha estava toda encolhida, os cabelos castanhos bagunçados em uma cascata pelo acolchoado, as mãozinhas juntas e bochechas maiores que o normal. A respiração dela saía tão baixinha que poderia ser o fator para Lisa não tê-la percebido antes.
— Ela não quis te deixar sozinha, mas achou que seria demais dividirem a mesma cama. — Jisoo tinha uma voz divertida, era sua forma de achar hilária a situação.
Foi a vez de Lisa não dizer nada, voltou a se deitar na cama, encarando o teto com certa consternação. Queria perguntar se ela e Jisoo eram amigas agora, porque pareciam.
Quer dizer, invadir o quarto de alguém pela madrugada e permanecer sentada durante horas no escuro era íntimo o suficiente. O último caso que viu de alguém assim foi Edward Cullen e todos sabemos o que aconteceu depois.
— Quando você soube? — Passou a língua pelos lábios secos, falando pausadamente as palavras. — Que era hora de parar de trabalhar para o serviço secreto e...
— E virar babá da filha do vice-presidente e da noiva falsa dela?
— Basicamente? Sim.
Jisoo respirou fundo, com esse ato quase pareceu humana de novo.
— Quando você passa a trabalhar para o governo automaticamente vê o lado feio de todo mundo. O quanto as pessoas são egoístas e o quão longe elas vão dispostas a conseguir poder, independente de quem vai sofrer no processo. Eu sempre achei estranho que mesmo nascendo no meio disso tudo você ainda consegue ver o lado simples das coisas, como se fosse a única fruta boa do pé. Ela tem isso também.
— Sua esposa?
— É.
— Posso perguntar o nome, hm? Nem o sobrenome? Qual é? Chuta uma letra só pra eu testar um negócio.
— Não, não, nem sonhando e não de novo.
Lisa riu, se espreguiçando. Seria mais uma curiosidade sobre a vida de Jisoo que não seria saciada.
— Pra ela todo dia merece ser vivido, todas as pessoas tem salvação e nada que um bom violão e um copo de café não resolva. Acho que eu precisava disso para equilibrar as coisas, precisava dessa simplicidade. — Uma pausa se estendeu. — Onde eu nasci era impossível existir algo assim, duas mulheres juntas. Inimaginável. Até o amor era algo difícil de achar.
— Na Coreia do Sul? Mas todo mundo shippa aquelas integrantes do Girls Generation...
— Norte, Lisa. — Jisoo disse baixinho. — Ela me ensinou muitas coisas, me ensinou que a verdade, por mais dolorosa que seja precisa ser dita e que às vezes, pessoas boas fazem coisas ruins e pessoas ruins fingem ser boas.
Se sentou, atordoada.
— Por que está me dizendo isso...?
— Você costuma ver o mundo sobre dois pólos, Lisa. É muito mais que isso. Somos tão difíceis e complicados para ser descritos como "bons" ou "maus" e você precisa estar mais atenta a isso, porque inocência, no mundo onde você nasceu, só tem um fim. E não é um fim bom.
— Ten já viu não é? O lado feio, por isso...
— Ele sempre foi mais esperto do que você.
Respirava com dificuldade. Jisoo dizia tudo por enigmas, como um mestres dos magos bons em quebrar pescoços. Ela queria que Lisa formasse as peças do quebra cabeça.
Jisoo se levantou, silenciosa como sempre. O rosto dela estava coberto pela escuridão do quarto, uma pitada de preocupação nos olhos amendoados. Ela não se despediu, apenas parou, abrindo a porta e trazendo luz ao cômodo.
— Quanto ao seu irmão, as vezes... as pessoas só querem morrer.
— Está me dizendo para deixar Ten morrer?
— Estou dizendo que ele não pode ser salvo se não quiser. Agora, durma... isso é pra você também, Jennie. Escutar conversa dos outros enquanto finge dormir é feio.
☆✼★━━━━━━━━━━━━★✼Olá! Eu percebi que os favoritos dos capítulos estão baixos em comparação as views, então se você gostou do capítulo favorite, me ajuda bastante :)
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