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E o governo não faz nada!


O dia amanheceu lindo, maravilhoso, céu sem nuvens, clima perfeito. Lisa abriu os braços e se sentiu o Cristo Redentor, prometeu nunca fazer nada de errado, nunca mais, daria esmola para mendigos, ajudaria velhinhas a atravessar a rua, tudo isso para agradecer pela criação do sexo.

Seu sorriso estava tão grande que era visível o que havia feito. Os sintomas estavam à mostra: cabelos molhados, riso bobo, como se estivesse se lembrando de algo íntimo demais para ser contado, o bom humor repentino que a fez desejar um "maravilhoso dia" para o repórter do jornal matinal.

Descobriu aquela manhã que Jennie ficava linda completamente nua no meio das cobertas. A forma como suas curvas ressaltavam nos lençóis, a pele levemente bronzeada sendo atingida pelo sol preguiçoso, que achou uma brecha entre as cortinas e tomava forma pelo corpo sereno, iluminando e despertando-o aos poucos.

Jennie mexeu os pés e abriu os olhos sonolentos, sorrindo ao encarar Lisa ao lado, na cama, com nada mais que uma blusa e uma calcinha vergonhosa — "Xuxa só para baixinhos" — que, felizmente, não foi percebida ontem a noite.

— Fiz café da manhã. — Deu um beijinho na testa de Jennie, que a encarou desconfiada, esperando o tempo necessário para Lisa dizer: — Tudo bem, comprei na padaria do outro lado da rua. Tem bolo de morango com cobertura de limão. — Sorriu amarelo.

Jennie se espreguiçou, se inclinando a fim de dar um selinho em Lisa, que se afastou rápido.

— Amada? Tá achando que isso aqui é fanfic onde todo mundo acorda sem bafo?

— Olha quem fala! Esqueceu que Lucas já precisou te arrastar para que você tomasse um banho!? — exclamou. — Ele até colocou isso no currículo!

Lisa levantou o indicador e fingiu arrumar um óculos que não existia.

— Para a sua informação, eu estava de luto, okay?

— Tá, e as outras vezes?

Abriu a boca, depois fechou e percebeu que havia perdido aquela mini batalha, fez um biquinho ressentido pronta para sair da cama, mas não conseguiu porque foi puxada pelos braços de Jennie e recebeu um selinho querendo ou não — precisava admitir, não tinha um bafo tão horrível assim. E elas permaneceram se encarando, como duas boiolas — desculpe o linguajar — apaixonadas.

— Sinto muito, minha Cascãozinha. — Jennie sorriu breve, e ainda nua, montou em cima de Lisa.

— Você me chamou de que...? Arh, deixa pra lá.

Foi automático agarrar a cintura dela, suas mãos se encaixavam perfeitamente ali. Jennie sem maquiagem pela manhã era a forma mais crua e bela que já havia visto, os cabelos que antes permaneciam presos agora moldavam o rosto inchado pelo sono, e um leve chupão no seio direito fez Lisa sorrir ao se lembrar da noite passada.

— Quantas garotas você já...? — Se viu perguntando, fixando os olhos nos dela.

Dois segundos de puro pânico se instaurou por pensar que Jennie ficaria fula, já que não tinha direito de perguntar nada desse tipo quando, há menos de dois dias, estava aos beijos com Chaeyoung.

Mas Jennie apenas se remexeu, causando um atrito gostoso no quadril de Lisa.

— Por que quer saber, hm?

— Nada, só... fiquei curiosa, você é tão boa... nisso. — Apontou para todo o monumento que Jennie era em cima de si.

Ela riu, e por um segundo o sol que atravessava a janela refletiu no seu rosto, fazendo Lisa suspirar, dolorosamente apaixonada. Sem receios, trouxe a face de Jennie para perto da sua.

A frase, aquela mesmo que vocês estão pensando, dançou pelos lábios de Lisa, mas no fim apenas o "Eu" saiu. Não conseguiu pronunciar o resto.

— Me desculpe, por... antes. — Mudou de ideia no último momento. — Foi a forma que pensei para fechar todas as questões que tinha com Chaeyoung, mas eu deveria saber não é? Que havia soluções melhores que um beijo e que você ficaria magoada se soubesse, e eu planejava te contar, de qualquer forma.

Lalisa se culpou silenciosamente quando o resquício de sorriso sumiu do semblante de Jennie e ela se jogou na cama, ao seu lado, as pernas ainda em cima das suas naquela mistura íntima e confortável.

— Chaeyoung é o tipo de pessoa que você olha em fotos e pensa: ela é muito bonita, e quando a vê pessoalmente percebe que é mais bonita que em fotos. Vocês tem um passado, se conhecem há anos e eu acabei me sentindo deslocada, entende? Engolida por toda a beleza dela, a chiquereza dela e... — Jennie maneou a cabeça, confusa. — Qual a tara dela por Paris?

Lisa gargalhou, posicionando seu corpo para ficar mais perto de Jennie. Observava o piscar que fazia os cílios dela moverem devagar, a bochecha amassada pelo travesseiro que formava um biquinho involuntário nos lábios e os olhinhos como dois risquinhos felinos que enchiam o quarto com um sentimento doce. Como o sol anunciando o começo do dia, Jennie anunciava a Lisa todos os sentimentos que nunca sentiu, que achou que sentia, e que nunca imaginava sentir.

— Mas ela não é você — disse simplista, tirando uma mecha de cabelo do rosto de Jennie. — Eu sabia que Chaeyoung me amava, sabia que ela queria ser mais que minha amiga e, ao invés de sentar e conversar, contar a ela que eu não queria, porque não estava pronta para me aceitar e que eu não a amava na mesma intensidade, eu só... torcia para ela deixar a porta aberta, a noite. — Lisa suspirou. — Quando fui aquela boate e encontrei pessoas que eu e Ten costumávamos sair, percebi o quanto elas não me representavam mais, senti nojo delas. Me arrependo da maioria das coisas que a mídia expôs sobre mim, mas não me arrependo de ter socado Bambam. Ele tá até agora reclamando do nariz quebrado no Instagram.

Jennie a puxou para um abraço desengonçado, mesmo que estivessem deitadas, e Lisa acabou com o rosto bem no meio dos peitos dela.

— Não era bem isso que eu planejei...

— Não, não, pode ficar assim! — Lisa respondeu, sapeca.

Elas riram, bobas, como se nada fora daquele quarto pudesse atacá-las.

— Também tenho uma pergunta pra você. — Jennie recomeçou.

— Hm.

— Vai me contar qualquer coisa?

— Qualquer coisa.

— Qualquer mesmo?

Semicerrou os olhos.

— Depende.

— Você disse "qualquer coisa." Já era.

— Não, Jennie... — suspirou — eu não fiquei com Harry Styles, juro.

— Espera... O quê?

— Não era isso que você ia perguntar?

Lisa não fez questão de sair de onde estava, até porque podia sentir o coração de Jennie — dessa vez o coração mesmo — batendo ritmadamente, numa melodia gostosa, então fechou os olhos, abraçando-a pela cintura.

Ainda de olhos fechados, prosseguiu:

— Mas já que entramos nesse assunto, quero esclarecer umas coisas. Ele tava tentando esquecer aquele tal de Louis e nos encontramos numa festa, então me perguntou se eu topava fazer umas fotos provocantes pra ele postar no Instagram e eu pensei: porque não? — Deu de ombros. — Aquele boato que ele escreveu uma música sobre mim no novo álbum era só boato. E teve aquela vez que fui cancelada porque puxei o aplique da Ariana, mas ninguém conta como estávamos bêbadas e ela surtou do nada. Já o tal do Jungkook, ele tava dando em cima da Chaeyoung, que garoto chato! E... o lance da Taylor Swift, eu nem sei porque ela entrou na justiça contra mim, mas tenho certeza ter a ver com o lance das Kardashians.

— Meu deus, onde eu fui amarrar meu jegue? — Jennie disse, baixinho.

Lisa se sentou, encarando-a deitada.

— Eu sou mais cancelada que a Anitta, cada respirada é um cancelamento diferente.

Tentava dizer isso como brincadeira, até porque se fosse levar a sério o que diziam sobre ela choraria o dia inteiro, mas não poderia mentir que estava com medo daquele cancelamento em específico, — e em como poderiam contornar ele tão perto das eleições e do casamento.

Jennie parecia pensar na mesma coisa e de repente, os problemas conseguiram vencer a bolha que haviam criado. O sol não parecia tão quente, a lembrança da noite passada era sobreposta pela pergunta silenciosa de "o que faremos agora?"

— Lisa, você confia em mim?

Sem pensar duas vezes, respondeu:

— Sim.

— Então vamos. — Jennie se levantou, determinada. — Vou te levar a um lugar especial.



(...)


Pediram um táxi, já que fugiam dos paparazzis como o diabo foge da cruz. Eles não eram vistos com câmeras em haste e má educação na ponta da língua, mas pareciam estar a espreita como o ar que respiravam. Lisa sentia sua pele pinicar a cada olhar mais longo que recebia, quando o carro parava em um sinal vermelho ou cruzamento.

Sabia que poderia não ser nada demais, e o pânico que subia à garganta era uma fobia social que se impregnava como um fio invisível, mas não deixava de pensar, mais constantemente agora, no quanto daria para ser apenas uma garota comum.

Sentiu as mãos de Jennie nas suas. A janela do lado dela estava aberta e os cabelos soltos, voando. O sorriso que recebeu foi gengival e todos os seus temores se dissiparam naquele curto período de tempo, onde entrelaçou os dedos com os dela e sentiu o calor da sua palma.

Até o táxi parar em frente a um abrigo para crianças.


(...)



A casa tinha dois andares e ficava na beira de uma rodovia, onde carros passavam zunindo a todo momento, levantando poeira avermelhada e trazendo um barulho oscilante entre horrível e insuportável.

Não havia nada demais, tanto na fachada como no interior. Parecia uma casa abandonada para quem não visse os pequenos detalhes: o mural com desenhos colado nas paredes descascadas, a horta bem cuidada, um irrigador improvisado de uma mangueira furada jorrando água como um arco íris de cores quando o sol batia nas gotinhas.

O barulho de vozes finas em diferentes tons tomava conta das paredes, e o cheiro bom de comida se sobrepunha ao fedor de pneu queimado.

Esperava uma surpresa diferente, algo romântico. Mas quando Jennie puxou sua mão e sorriu ainda mais, Lisa se sentiu culpada, porque percebeu pelo sorriso dela que aquele lugar era importante.

— É aqui que veio todos os sábados — disse ela. — Quando posso — corrigiu com um suspiro.

Assim que entraram na sala, um coro de vozes encheu o cômodo e todas as cinco meninas que dividiam um espaço apertado no sofá puído correram para abraçar Jennie. Lisa precisou se afastar, dando espaço para que as crianças rodeassem Jennie e a enchesse de beijinhos.

A informação pareceu atravessar as paredes finas e logo chegaram mais meninas, as mais velhas pareciam ter 10, as menores 3, ainda se sustentando com as perninhas roliças.

— Jennie! Que bom te ver! — Uma mulher apareceu da sala adjacente, disputando espaço com as crianças. — Sentimos tanto a sua falta!

A mulher tinha um rosto anguloso e olhos pequenos. A pele era dourada como se fosse mel e o sorriso grande deixou Lisa estática, mas assim que ela a viu o sorriso deu lugar a uma careta.

— Hoje terei o dia todo para brincar com vocês, sim? — Jennie tentava dizer. — Karin, que boneca linda! Você fez com os panos que eu trouxe? Essa flor é pra mim? Eu falei que ficaria legal se você pintasse com papel crepom, Nancy. Okay, vão para a sala de TV, sim, sim prometo... — Jennie se levantou com um suspiro feliz, enfim dando atenção a mulher que encarava Lisa com os olhos semicerrados.

— Essa é a minha noiva, Lalisa. — Jennie sorriu grande. — Mas você já conhece, claro.

Algo em Lisa sabia que Jennie só queria ter a oportunidade de dizer "minha noiva" em voz alta, o que causou um ofurô dentro si.

— Quem não conhece a vice-filha, não é? — A moça tentou sorrir, mas não deu certo. — Hwasa, prazer. Diretora da casa de acolhimento. — E fez uma reverência longa demais. — Não costumamos ter visitantes tão importantes, ainda mais do governo então... seja bem vinda.

Jennie estava risonha demais para notar o clima sufocante no ar, apertou a mão de Lisa e a trouxe para perto.

— Hwasa e eu fazemos campanhas mensais para arrecadação de suprimentos e brinquedos, é sempre bom ter voluntárias para brincar com as meninas também — explicou.

— Viemos brincar com elas? — ponderou. — Legal... Acho.

— Você pode conhecê-las por conta própria, enquanto isso vou conversar rapidamente com Hwasa, prometo que vai ser breve, ok? — E deu um beijinho nos lábios de Lisa, desaparecendo com a diretora por um dos cômodos.

Lisa ainda tinha a boca aberta numa despedida, mas Jennie sumiu tão rápido que ao menos teve tempo. Um sentimento parecido com "perder a mãe no mercado" apossou seu corpo, colocou as mãos no bolso do jeans, desconfortável. Ainda observava a sala simples do abrigo, as manchas de mofo nas paredes, a tevê de caixa, o sofá desgastado e a garotinha atrás dele. Ela era pequena e magricela e estava escondida, ou achava que estava escondida, os olhinhos sustentando a atenção em Lisa.

— Ãn... oi? — cumprimentou.

Ela se escondeu completamente atrás do sofá, segundos depois retornou, voltando a olhar Lisa.

— E aí? — Tentou de novo, dessa vez fazendo um joinha. Era uma péssima abordagem para se ter com crianças.

— Você é mesmo ela? — A voz da menina saiu baixinha e aguda. 5? 6? 7 anos? Lalisa era péssima com idade de crianças.

— Ela quem? — Olhou para os lados, mas só tinha as duas na sala.

— A vice-filha — ela respondeu e devagar, saiu do seu esconderijo, apertando a barra do vestido de babados.

— Sou eu, acho... quer dizer, sou eu, Lalisa, é. — Trocou o peso dos pés, sem saber para onde olhar senão para a garotinha, que agora a encarava como se estivesse vendo uma princesa da Disney.

— É você mesmo! — Dessa vez ela gritou, atravessando o espaço da sala e jogando seu corpinho em cima de Lisa.

Ficou segundos estática, sem saber como proceder, já que nunca brincou com crianças antes ou ao menos precisou estar no mesmo ambiente que elas. Mas, delicadamente, deu batidinhas nas costas da menina que ainda apertava suas pernas.

— Eu sou muito sua fã desde que era pequena e eu amo muito você e tem um monte de revista sua na banca de jornal você passou na tevê sabia? — Ela falava tão rápido que atropelava as palavras. — Eu pedi a tia Hwasa pra cortar meu cabelo igual o seu ficou igualzinho olha. — Ela sorriu, e estava banguela, mas queria que Lisa visse a franjinha.

— Ficou igual mesmo! — Passou as mãos nas próprias franjas. — Mas em você ficou muito mais bonito.

A menina quase desmaiou.

— Meu nome é Hwaaang Yeeeeeji. — Ela falou as vogais espaçadamente.

— E o meu nome é Laaaalisa Manobaaan. — Imitou, fazendo a menina levar a cabeça para trás, gargalhando.

— Você é muito engraçada! — piscou, encantada. — Quer que eu te mostre a minha casa e minhas irmãs e onde eu guardo meus brinquedos também!?

Lisa demorou um pouco para entender, mas maneou a cabeça positivamente e estendeu a mão para que Yeji pegasse.




Lalisa tinha mechas de cabelos cor de rosa pintadas por papel crepom e presos em uma maria chiquinha, outras mechas trançadas e os olhos cheios de glitter, também rosa. Estava sentada no chão e algumas garotas pintavam sua boca com gloss e passavam blush da paleta de maquiagem da Barbie.

— Meninas, acho que rosa combinou muuuito comigo. — Analisou seu rosto refletido no espelho de mão.

— Você vai arrasar na festa, amiga. — Yeji fazia mais trancinhas nas mechas rosa do cabelo de Lalisa. Não tinha festa nenhuma, mas como resposta maneou a cabeça positivamente.

— E o Ten? Ficou bonito? — Chaeryeong, uma garotinha de no máximo 5 anos que pareciam 3, mostrou um boneco Ken todo pintado.

— Lindo! Vou até tirar uma foto pra mostrar pra ele. — Pediu o celular, que estava nas mãos de outra menina que jogava um joguinho de carros, para tirar foto do boneco e mostrar ao irmão mais tarde.

As garotas, seis pelas contas de Lisa, se juntaram ao redor do boneco para que batesse a foto. Podia entender porque Jennie ia lá todos os finais de semanas, em nenhum momento naquelas duas horas pensou no que a esperava do lado de fora ou o que falavam sobre ela na internet. Ali, se preocupava apenas em fazer roupas para a Barbie, trancinhas nos cabelos e pintá-las com papel crepom.

Se assustou ao ver Jennie na porta do cômodo como uma mãe orgulhosa. Havia tantos brinquedos espalhados pela sala, somado ao barulho das vozes das meninas e da televisão — passando algum episódio de LadyBug — que Lisa nem sequer notou que estavam sendo filmadas.

Jennie se aproximou e sentou no chão, ao seu lado. As meninas naturalmente deram espaço para as duas conversarem, como se estivesse intrínseco que adultos juntos culminaria em conversas chatas.

— Gostei do novo look. — Jennie pegou uma das marias chiquinhas de Lisa e balançou.

— O que estava filmando? — Tentou bisbilhotar, se inclinando para ver o que ela fazia no celular, mas Jennie bloqueou a tela.

— Foi um pouco difícil convencer Hwasa, mas você vai entender tudo depois. Prometo.

— Espera, o que tem a ver...? Chaeryeong, deixa na LadyBug! — A menininha voltou os canais para onde Lisa pediu. — Onde estávamos? Ah sim, eu percebi que ela não foi muito com a minha cara, desde que chegamos.

— É difícil julgá-lá. Esse abrigo é mantido pelo governo, e não sei se notou, está caindo aos pedaços. — Jennie respirou fundo, resignada. — Há atrasos nos pagamentos dos funcionários, não há verba para brinquedos ou para reformas, então as pessoas que cuidam daqui fazem o que podem, dependendo quase inteiramente da ajuda de voluntários.

Lalisa olhou a sala em que estavam, precisava de uma boa pintura, móveis novos, espaço para as meninas brincarem, roupas de cama, mais camas, eram tantas coisas que uma lista mental já preenchia sua cabeça.

— Mas então, ano passado, o pior aconteceu. Foi na época em que seu pai foi afastado do cargo.

— Que ele encobriu com o vício de Ten. — Lisa continuou. — Sei muito bem.

Jennie maneou a cabeça positivamente.

— O motivo principal que levou o afastamento dele foi porque... secretamente... foi vazado do próprio gabinete do vice-presidente que ele desviava a verba dos abrigos.

Lisa juntou as sobrancelhas, confusa.

— A informação saiu do gabinete do meu pai? Que loucura...

Jennie a encarou por segundos longos demais.

— Foi um momento difícil, tivemos que pedir cestas básicas, Hwasa deu o próprio salário para que as meninas não passassem fome. Mas os outros abrigos também estavam assim e eles não tiveram tanta sorte como nós.

— Meu pai sabia que era verba para a comida? — perguntou, os lábios trêmulos. — Ele pode ter achado que... sei lá... — A frase morreu na garganta, não podia defendê-lo, não quando estava ao redor de meninas carentes que não recebiam o mínimo do que deveriam receber, abandonadas por todas as esferas sociais possíveis, até pelos próprios pais, que na teoria, deveriam ser os primeiros a assegurar-lhes proteção.

— O dinheiro foi investido em ações. Então sim, ele sabia.

— A presidenta sabia?

— Elane não sabia... mas quando soube também não faz nada. — Jennie tinha o maxilar trincado. — Não adianta não ser corrupta e se fingir de cega para o vice corrupto, adianta?

Lalisa não sabia o que responder, porque aquela era uma crítica que serviu muito bem em si mesma. Apenas se encolheu abraçando os próprias pernas, e chamando Yeji para continuar as trancinhas que fazia no seu cabelo.


(...)



[@LalisaUpdates]: Para limpar a timeline de tanto ódio vai aí um vídeo da Lalisa brincando com criancinhas órfãs! Ela não é o melhor ser humano que existe? 🥰

[@redgirl em resposta a @LalisaUpdates]: Assim é fácil, faz a merda que for, mete chifre na noiva, e depois vem pagar de santa.

[@mariathirlwards em resposta a @LalisaUpdates]: desculpa gente, Lisa é muito fofa e Jennie parece estar super de boa! Não consigo ficar com raiva. #mejulguem #jenlisa.

[@princessChae]: Chaeyoung não se pronunciou até agora, certeza que foi coagida, já que todo mundo sabe que ela tava de rolo com aquela menina do Twice.

[@GIRLOVE]: Jenlisa continua firme e forte e vocês aí metendo o pau na Lisa enquanto ela faz caridade!!! 

[@Fofocalizando]: Vocês viram? A @lalalalisa_m pede desculpas à nação e a sua noiva @jennierubyjane pelos erros cometidos em um vídeo super fofo em um abrigo para meninas! Quem não perdoaria gente??? Segue o vídeo pra quem não viu, e vamos dar muito amor as vice-noivas! ❤️❤️❤️


Lalisa bloqueou a tela do celular, jogando-o no assento entre ela e Jennie. As luzes passavam por elas rapidamente, uma mistura de amarelo, vermelho e verde, e a noite adentrava a cabine do carro tornando tudo uma massa sufocante e silenciosa.

A ideia do vídeo foi uma boa jogada, estava fazendo sucesso, e a cada segundo um comentário de hate era substituído por gifs, fotos e fanarts, recortados do fatídico vídeo.

Jennie não se mexeu desde que entrou no automóvel, nem tirou os olhos do lado de fora da janela. O assento vazio no meio do carro parecia uma distância de metros, e o que passaram pela manhã poderia ter acontecido há séculos atrás.

Armário também não disse nada durante todo o caminho, não que ele fosse muito falante, mas nem ao menos um "boa noite", quando as pegou no abrigo.

Jisoo estava a mais falante dos quatro — o que por si só já era uma informação esquisita — alegre demais pela pouca memória das pessoas e pelo perdão fácil que Lisa ganhava sem fazer muito esforço.

— Toma, sua cara tá um carnaval. — Ela jogou uma caixa de lenço umedecido para a vice-filha, que começou a tirar vagarosamente a maquiagem.

Se reproduzisse o vídeo no mesmo momento em que o parou estaria estampado um sorriso enorme. Yeji e as meninas a abraçavam pelo ombro, todas se divertindo, felizes por estar sendo filmadas, por ter Lalisa, tão bonita e tão importante, passando o dia inteirinho com elas.

O momento parecia genuíno. Lisa se assemelhava a uma garota comum sem toda aquela pose, as roupas de marca deram lugar a vestimentas simples de dia-a-dia, porque eram roupas emprestadas de Jennie, e seu rosto estava lotado de glitter e maquiagem borrada. Sentadas vendo desenhos, dançando alguma música de Girl Group, brincando com as Barbies, recebendo beijinhos na bochecha, tudo sendo mostrado na tela do aparelho.

Um embrulho no estômago a fez segurar o vômito.

— Tadeu Smith está louco por uma entrevista sua, no Fantástico... — Jisoo teclava rapidamente no celular. — Já disse que não, mas ele tá insistindo, tá afim?... Lisa?

— Hm? — Encarou a assessora, confusa.

— Fantástico. — Ela repetiu.

O embrulho no estômago virou um bolo em sua garganta, crescente e desesperador. Encarou Jennie, ainda alheia a tudo, as mãos em punhos em cima do colo, o celular no meio delas, o vídeo, o maldito vídeo, se o desbloquear o vídeo ainda estará lá e...

Não conseguiu mais respirar.

— Para o... carro!

— O quê...? — Jisoo encarou Lalisa com um olhar suspeito, Armário intercalava entre confusão e desespero e, finalmente, a atenção de Jennie foi para si.

— Eu já disse para parar... — ofegou, sentindo o coração bater rápido, a iminência da falta de ar fazendo seus dedos tremerem. — Essa... merda de carro!

Armário levou o automóvel para o acostamento, o frear de pneus foi alto e todos no carro sentiram o impacto desconfortável. Lisa ao menos esperou parar devidamente antes de abrir a porta, cambaleando para fora.

O som do trânsito surgiu, alto, entrando pelos ouvidos de Lisa e ecoando pela sua cabeça. As lágrimas começaram a descer sem aviso prévio, o que prejudicou sua visão, pois só conseguia ver as luzes rápidas passando na rodovia a frente.

Se curvou, vomitando o pouco que comeu durante o dia, e quando conseguiu olhar para cima Jennie já estava lá, as mãos macias e fortes tentando segurá-la.

— Era isso? — perguntou, a voz embargada pelo choro. — Era isso que eu precisava fazer? Usar... usar aquelas meninas para encobrir...? — Se desvecilhou do aperto dela, limpando a boca com a mão. — Pelo menos sei que meu pai está orgulhoso de mim, não está? O vice-presidente... deve estar tão feliz... vendo a filha seguir o mesmo caminho que o dele...

Jennie e Jisoo não responderam, algo naquele silêncio mútuo fez Lisa ter certeza que toda a situação foi arquitetada por elas em algum momento do dia anterior. Jennie já tinha em mente o que fazer pela manhã quando perguntou sobre confiança e quando sumiu com Hwasa assim que chegaram ao abrigo. O que ela perguntaria afinal?

Era como se um manto sujo cobrisse o seu corpo, como mãos impregnadas em sua pele. Se sentia suja, desesperada por um banho para que pudesse passar uma bucha repetidas vezes até ficar vermelha, reprisando as palavras que disse, as "desculpas para a nação," no mesmo jogo sujo que seu pai usou contra Ten.

Encarando Jennie, que tentava se aproximar, Lisa sentiu um ímpeto de gritar e perguntá-la até onde os fins justificam os meios e o método justificam os homens. Expor o contraponto engraçado que ela, a que mais acumulava motivos para fazer a chapa de Sunan perder, era a que trabalhava com afinco para extinguir qualquer boato que atrapalhasse o governo. Perguntar a Jisoo, a mesma Jisoo que disse que pessoas boas fazer coisa ruins, qual era o limite que ela supunha dividir essas duas esferas.

Mas não houve gritos e perguntas, sua cabeça doía, e a única coisa que fez foi aceitar de bom grado o abraço de Jennie. O corpo dela era familiar, o cheiro e até a forma como os dedos se afundavam contra seu quadril. Jennie aceitou as lágrimas de Lisa e toda a culpa iniciante que atingia seu coração.

— Vai ficar tudo bem — ela sussurrou em seu ouvido. — Você fez o que tinha que fazer, Lisa.

Chorou mais alto, e Jennie a abraçou mais forte.

— Lucas me contou tudo. — Respirou fundo, saindo do abraço para encarar os olhos dela. Jennie por um momento se mostrou vacilante, o desespero solapando suas pupilas, e Lalisa continuou: — Ele contou sobre o acordo que você precisou assinar, o acordo para nos casarmos, e por tudo o que aconteceu hoje... — pigarreou na tentativa de soar decidida. — Eu preciso saber o que você tá disposta a abrir mão pra ganhar.

Os lábios de Jennie eram uma linha tênue, ela apertou às mãos de Lisa para firmemente dizer:

— Eu não estou disposta a perder você.

A vice-filha suspirou, e ingenuamente acreditou nas palavras que ouviu, permitindo enfim, ser escoltada por Jisoo para dentro do carro.

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