Adivinha quem vem para o almoço?
Lisa via o centro da cidade passar rapidamente pela janela do carro, o começo da manhã atingia Bangkok com um raio de calor sufocante e úmido. Mas naquela manhã em específico, resolveu acordar disposta, tomar um banho e se arrumar mais do que faria em um dia comum.
Ao ver Jennie se esforçar para animá-la, aguentando seu falatório interminável e dormindo no colchão ao lado da sua cama, Lisa se viu na obrigação de devolver toda essa onda de solidariedade que recebia da chefe de campanha.
Isso quase a fez se lembrar como era bom ter uma melhor amiga, saber que sempre a teria por perto nas piores e melhores ocasiões. Por isso, ao acordar e ver que Jennie havia voltado para casa, resolveu enfim botar o plano em prática.
— Armário, pode passar na padaria antes? — O guarda costas maneou positivamente, fazendo Lisa sorrir. — Compre um bolo de morango com cobertura de limão, por favor. Tem que ser morango e cobertura de limão, se tiver morango com cobertura de coco não compre, ou chocolate com cobertura de limão também não, especificamente...
— Entendi, entendi. — Armário murmurou rapidamente.
Lisa se afundou no assento. Suas mãos estavam inquietas, os pés batiam incessantemente no banco do carro e quando chegaram ao bairro de Jennie, tirou o celular da bolsa, trêmula, discando o número que decorou recentemente.
— Lisa?
— Não, é o Tiririca, quem mais seria?
Jennie gargalhou do outro lado da linha e ruído de papéis fizeram interferência na ligação.
— Não, é que... é realmente chocante te ver acordada tão cedo.
— Quis te fazer uma surpresa. — Sorriu, com o coração apertado. — Mesmo sabendo que você odeia surpresas, Harry Potter, domingos a tarde e eu juro, nunca vou te perdoar por preferir Toddy a Nescau.
— Você...?
— Li sua ficha inteira? Pois é, pode-se considerar sortuda. — Fingiu descaso, mesmo que sua voz fosse risonha. — Percebi que se eu fosse fazer uma ficha sobre você demoraria tempo demais, Jisoo já fez todo o trabalho e deixou na minha mão. Aliás, eu estava certa sobre a maioria das coisas, outras você me disse e o resto foi uma completa surpresa. Você ouve Justin Bieber escondido?
Jennie engoliu em seco.
— Como Jisoo descobriu isso?
— A pergunta é: como Jisoo não descobriria? Já fiz nosso mapa astral. Áries combina muito com Capricórnio, apesar desse seu jeito temperamental ser culpa da lua em Marte. Eu não consegui descobrir onde você puxou toda essa síndrome de boa filha, apesar que capricornianos são bastante persistentes, persistência tem a ver com você acordar duas horas antes de sair pra trabalhar? Você toma banho de manhã? Quem toma banho de manhã...? Melhor, quem toma banho? Quer dizer, quem acorda 6 horas?
O carro começou a andar mais devagar ao atravessar a rua de Jennie.
— Você sabe chinês? Fico me perguntando quando pensou que seria uma boa ideia aprender chinês, cabe tanto idioma assim dentro da sua cabeça? Você pensa em coreano ou em tailandês? — arfou, continuando: — Jisoo fez anotações pertinentes sobre você, ela também fez sobre mim? Hmm... bolo de morango com cobertura de limão é o seu café da manhã predileto, filósofo de referência do seu TCC foi um tal de Platão. Música favorita... não acha Lana Del Rey conceitual demais? Eu amo É o Tchan. Você não gosta de ganhar presentes, puff... — Lisa encarou o buquê de flores no assento ao lado.
Abriu a janela do carro e o jogou para fora.
— E também...
— Lisa! Respira! — Jennie pediu, parecia mais afobada que a própria tailandesa. — Você tomou quantos copos de café para ficar assim?
— Eu não... tudo bem, 8 — suspirou. — É que eu queria estar bem acordada.
O carro parou por cima da calçada do prédio, Lisa suava frio. Não tinha uma super surpresa em mente, só apareceria na porta dela com um bolo de morango com cobertura de limão e um buquê de flores... o buquê que jogou pela janela segundos atrás. Encarou o assento vazio com um bico nos lábios.
A surpresa estava em alugar Jennie por um dia inteiro para que elas pudessem ser garotas ingênuas, bobas e burras, falando sobre subcelebridades, assistindo séries e não se importando com política.
— Posso saber porque tudo isso?
Lisa se animou, subindo as escadas com afobação. Aproveitou o momento que uma moradora saiu com o cachorro e entrou sem precisar tocar o interfone.
— Você vai saber agora! Espera... ainda não... — Faltava alguns lances de escada. — Agora! — Colocou o celular entre o ouvido e o ombro e respirou fundo. Uma mão repousava no joelho, a outra segurava o bolo de morango com cobertura de limão levemente estragado pelos dedos gulosos de Armário, antes de, finalmente, bater na porta do apartamento de Jennie. — Atende.
— ... Tem um problema. — Jennie murmurou, culposa. Lisa juntou as sobrancelhas, mas a Kim ao menos precisou completar a frase, depois de alguns segundos, a porta se abriu. — Eu não estou em casa.
— Isso é bem autoexplicativo agora — respondeu, encarando Lucas de pijamas.
— É que eu precisei vir mais cedo pro gabinete. Podemos nos encontrar mais tarde?
Lisa respirou fundo. Mas o que poderia fazer? Jennie precisava trabalhar e mesmo que nunca tenha feito isso na sua vida — e nem as pessoas ao seu redor também. — podia presumir que esses era um dos males do proletariado: não ter muito tempo para diversão.
— Tudo bem, te encontro daqui a pouco. — Desligou o telefone, ainda encarando Lucas. — Então... vai um café da manhã aí? — Levantou o bolo.
Lucas tinha um sorrisão que chegava nas costas, e olhando-o comer o bolo com tanta dedicação quase podia enxergá-lo criança — o que não devia ter sido a tanto tempo assim — recebendo os cuidados de Jennie, quando a ex-estagiária-babá era só... babá.
— Hm, você ia querer também? — Ele olhou para o bolo, ou o que sobrou do bolo.
— Na verdade não, não costumo comer muito pela manhã.
— Eu sou completamente o contrário.
O balcão da cozinha cabia somente os dois. Lisa balançava os pés suspensos, um pouco nervosa por nenhum motivo aparente. Lucas se levantou, abriu a geladeira e os serviu com leite e Toddy. Não era só Jennie que lhe daria esse desgosto.
Eles passaram alguns minutos assim, com ele mexendo a mistura para tirar as bolinhas de chocolate e Lisa encarando o leite sem colocar o achocolatado. Pensou em ir embora, porque, convenhamos, o que fazia ali sem Jennie?
— Fiquei surpreso em te ver aqui outra hora que não fosse de madrugada. — Lucas lambeu os resquícios de chocolate na colher.
— Meus horários são inusitados, você não entenderia. — Sorriu minimamente.
— Os meus também são. — Agora ele tinha um bigode de leite, e o sol que atravessava a janela da cozinha começava a chegar nos dois.
— O que faz acordado de madrugada? — Lisa semicerrou os olhos, desconfiada. — Pornô? Anime? Anime pornográfico... Lol?
Lucas negou os três primeiros e fez careta na última opção.
— Tenho cara de quem joga Lol?
— Pior, tem cara que gasta dinheiro com Lol.
Os dois riram.
— Senhorita, mais respeito, por favor. — Ele levantou o dedo indicador, o que poderia soar adulto se Lucas não estivesse sujo de achocolatado, com os cabelos despontados e um pijama do Thanos. — Sou jornalista, trabalho em um jornal sul-coreano e o fuso acaba bagunçando minha cabeça.
Lisa teve dois choques, o primeiro era saber que Lucas era maior de idade e pior: tinha uma graduação de verdade, diferente de certas pessoas cof cof, a própria. Segundo, era porque estava ali, tomando um pseudo café da manhã com um inimigo.
Era assim que chamava os paparazzis, psicólogos e toda ou qualquer profissão que tinha o propósito de intrometer-se na vida dos outros. Jornalistas eram uma avó fofoqueira elevado ao nível profissional.
— Você não escreve sobre mim, né? Ou sobre... Jennie?
— Quer saber se eu vazei informações confidenciais de como a vice-filha visita o apê da noiva em plena madrugada, a sua recente briga com Ten ou... como tive que te arrastar para o chuveiro uns dias atrás?
— Eu estava de luto! — Bateu as mãos na bancada, indignada. — Espera, como sabe que briguei com Ten!?
— Ele me contou. Mas a resposta é não, pra tudo, não saio por aí contando sobre as coisas que acontecem aqui em casa. Além de ser antiético é uma filhadaputagem, tá me achando com cara de dedo duro? — bufou, ressentido. — Sem contar que acabaria com qualquer chance de Jennie na política.
— Como assim? Jennie e política? — Se inclinou na mesa e ele também, como se estivessem segregando algo, e talvez seja esse o caso, de todo modo.
— Não sabia? — Os olhos enormes e analiticos de Lucas pareciam queimar Lisa. — Não acha que esse espírito comunitário de Jennie ficaria preso se ela continuasse nos bastidores? E nunca pensou que, com o diploma que ela tem poderia muito bem trabalhar em outras áreas? E que ela é inteligente o suficiente para saber que se quiser mudar alguma coisa vai ter que colocar a cara a tapa, mas, só consegue se candidatar a cargos políticos se tiver cidadania tailandesa e se consegue cidadania tailandesa se casando com uma... tailandesa?
Lisa era um borrão confuso, como o meme da Nazaré e os cálculos. Se achava bastante observadora e esperta, andando por aí pensando que poderia decifrar todos a sua volta, mas Lucas a fez imaginar-se estar no primário enquanto Jennie terminava o doutorado.
Se remexeu na cadeira, desconfortável, descansando os braços na bancada. Precisou desviar os olhos dos enormes e intuitivos de Lucas, mas acabou encarando o raio de sol que tomava o horizonte pela janela, e quando voltou a encará-lo, era como se ele esperasse uma conclusão vinda dela.
— Então meio que ela está... me usando?
— E você não está fazendo a mesma coisa? — Lucas maneou a cabeça, confuso. — Achei que fosse claro para ambas.
— Você usa colocações bastante inteligentes, dá pra me deixar pensar? Ou só... agir como um adolescente, não consigo acompanhar seu rosto com a sua voz. — Massageou as pálpebras. — Jennie te contou... que nós duas... a gente meio que... sabe? — Fez um bico de pato com as mãos e depois juntou.
— Isso era pra ser um beijo?
Lisa se sentia uma criança elevado ao quadrado.
— Ela contou?
O garoto acabou com o achocolatado e quando viu que Lisa ao menos havia misturado o dela, o pegou para si.
— Ela me contou. — O barulho da colher batendo no copo encheu a cozinha com um som torturante. Lucas fez um bico nos lábios, respirou fundo, voltou a misturar o achocolatado, depois percebeu que Lisa ainda estava ali. — Oh, você quer saber o que ela disse?
— Por favor!
Outra pausa.
— Lisa, vou ser sincero com você. — Para Lucas ter largado o achocolatado, o assunto era sério. — Eu não entendo o que você deseja com isso tudo, sei que está com Jennie por obrigação, e também sei que se enjoa bem fácil das pessoas.
Piscou algumas vezes, desnorteada.
— E sabe disso como? Graças às matérias que escreve sobre mim?
— Elas são tiradas de algum lugar, certo? E eu, como ninguém, sei que há bastante sensacionalismo como também há um fundo de verdade. Jennie batalhou a vida toda para conseguir alcançar seus objetivos, ela é do tipo de pessoa que não desiste fácil e por isso acha que tem um coração duro, mas é muito pelo contrário. — O ar em volta deles parecia raro, Lisa queria poder respirar fundo e por mais que tentasse, não conseguia. — Porém, se tudo der errado nesse teatrinho, você será a última pessoa a ser responsabilizada, ela vai ser a primeira. Porque a vice-filha não foi obrigada a assinar um termo de confidencialidade que acabaria com sua carreira caso abrisse o bico ou "agisse de forma romântica e leviana fora do script" foi a estagiária. — Ele riu, amargo. — Então, acho que deveria agir conforme o acordo. Não estrague as coisas para Jennie.
O estômago da tailandesa roncou, soou alto pela cozinha. Normalmente teria uma resposta petulante para dar, até mesmo ácida e um tanto desrespeitosa, mas dessa vez não conseguiu pensar em nenhuma, todas as suas forças estavam concentradas em não chorar.
Se levantou, um tanto desorientada, dando passadas tortas até a saída da cozinha.
— Você tá certo. — Tentou sorrir, mas acabou parecendo uma careta.
— Lisa... olha, sobre o seu irmão... acho que vocês precisam fazer as pazes. Ele precisa de você.
Dessa vez bufou, um sorriso incrédulo no rosto.
— Você já se intrometeu demais, Lucas. Fica na sua.
(...)
— Por que não podemos nos encontrar mais? — Jennie falou. Um tom chateado sobressaiu na voz do outro lado da linha. Lisa repousou a cabeça no assento do carro, grata por Armário não perguntar o motivo da sua careta. — Meu horário de almoço é daqui a pouco.
— Acabei de ver no Instagram que Chaeyoung chegou em Bangkok ontem, acho que te contei que não estamos conversando mais e queria marcar um encontro. Tentar dar a outra face.
Não estava mentindo quanto a esse fato, só omitiu que não foi "sem querer" que o encontro foi marcado. Lisa precisava se reconectar com o seu passado.
— Desde quando é cristã?
— Desde sempre, aleluia arrepiei. — Riu. — Armário? Não passe por essa avenida, corte caminho por...
— Lisa?
— Desculpe, onde estávamos? Ah sim, ela respondeu, vamos almoçar, acho.
Um segundo que mais pareceu horas se passou até Jennie voltar a falar. O gabinete estava uma zona só pela interferência de som que ouvia sobrepondo a voz da Kim.
— Podemos almoçar nós três, o que acha? — ela sugeriu.
Lisa fechou os olhos com força. Era difícil deixar Jennie em paz e seguir o que Lucas pediu, daquela forma passivo-agressivo, quando não conseguia dizer "não" a nenhum pedido que vinha dela.
— Acho que vai ser legal — mentiu.
Chaeyoung era inconfundivelmente alguém que você olha e sabe que não é uma pessoa comum. Era muito mais do que roupas caras e cabelos loiros. Era a forma de se portar, desde sentar e falar, a simplesmente levantar o queixo num movimento sutil.
Desde criança e até pouco tempo atrás, Lisa pensava que o fato da realeza estar no sangue da Park era algo que não interferia na relação das duas ou na maneira que a via. O som da gargalhada de Chaeyoung continuaria o mesmo, o jeito de mexer os cabelos e rolar os olhos quando não gostava de algo, até a forma ereta de sentar, como se carregasse uma coroa invisível na cabeça.
Talvez a maturidade ou o tempo que permaneceram longe fizeram Lisa mudar esse pensamento. Julgava ser a segunda opção, já que maturidade estava em falta, ainda mais para pedir desculpas.
Jennie tinha fios de cabelo fora do lugar no coque e camisa social amassada pelo corpo, band aids nos dedos porque se cortava com papéis o tempo inteiro, além das mãos cheias de marcas de caneta azul e vermelha. O sorriso no rosto era capaz de cegar como um raio de sol, radiante e sincero, ninguém que o visse poderia imaginar que ela estava em uma rinha de políticos há poucos minutos.
Já Lisa, bem, Lisa se encontrava no meio das duas, calças jeans largas e um top mais usado que o da garota do BBB.
Elas eram uma mistura inusitada. Seria mais engraçado se Jisoo estivesse presente, com uma cara de poucos amigos e terninho riscado.
A mesa redonda coube perfeitamente Chaeyoung e sua elegância, Jennie e seu sorriso e Lisa com seu top preto. Apesar das ressalvas de antes se encontrava animada com o encontro, pensando no quão bom seria se elas virassem uma nova versão das Três Espiãs Demais ou Meninas Super Poderosas, com um grupo no Whatsapp e fotinhas para o Instagram.
Não quiseram ir muito longe, havia um café aconchegante perto do gabinete e foi lá mesmo que marcaram o almoço. Era uma cafeteria acolhedora, as mesas pequenas foram postam em uma distância segura. Garçons com uniformes impecáveis passavam por elas e biscoitinhos que mais pareciam de boneca enfeitavam a mesa, junto a um arranjo de flores naturais. Era um bom lugar para se passar a tarde escrevendo, conversando ou apenas olhando o movimento da rua, que parecia não atravessar as paredes de vidro.
— Então, dia tá quente, né? — Sorriu amarelo, querendo que as duas saíssem do celular para que começassem a conversar, já devidamente instaladas.
— O dia tá sempre quente aqui. — Chaeyoung colocou uma mecha do cabelo para trás.
— Hm... — Jennie bebeu um gole d'água da garrafinha infantil dos Vingadores que tirou da bolsa. — Isso é verdade.
Lisa sorriu esperta, estavam começando bem. Jennie continuou:
— O bom é que meus cactos amam. Lucas te mostrou?
— Digamos que... nossa conversa foi intensa demais, não tive tempo de ver — respondeu, guardando o impulso de se aproximar um pouco mais de Jennie, talvez encostar os ombros nos dela.
Chaeyoung prosseguiu a conversa, animada.
— Lisa, se lembra quando viajamos para aquele deserto no Egito, andar de quadriciclo, e você caiu em cima de um monte de cactos?
— Acho que eles sugaram a minha bunda, ela nunca mais cresceu. — Se remexeu na cadeira estofada.
Chaeyoung riu, tapando com a mão de forma educada.
— Você ficou choramingando até Seul, mal aproveitou a viagem.
— Claro! Não foi você que foi atacada por aqueles espinhos malditos!
As duas riram, Lisa se apoiou em Chaeyoung, limpando as lágrimas dos olhos.
— Deve ter sido divertido. — A voz de Jennie surgiu, baixinha.
— Jennie, sério. Lisa sempre se metia em enrascadas quando viajávamos juntas, em Paris então, nem te conto, tem bares lá que não aceitam a vice-filha até hoje. — O sotaque de Chaeyoung em tailandês era tão mínimo que quase não se revelava, a voz dela era sempre ouvida, como uma princesa deveria soar, hipnotizante.
Lisa quase tinha se esquecido de como era boa a sensação de ouvi-la falar sua língua. Se inclinou para mais perto da princesa.
— Não fala isso, Chae, vai manchar a minha reputação.
— Que reputação, darling? O que eu estava dizendo? Ah sim, sabe o Campo de Marte? Saindo de lá, ainda seguindo o caminho da Torre Eiffel, tem um...
— Eu... eu não sei onde fica. — Jennie se encolheu na cadeira, as bochechas rubras.
Chaeyoung abanou a mão, sorrindo.
— Como não? Aquela...
— É que eu nunca fui a Paris.
A mesa ficou alguns segundos em silêncio, Lisa encarando fixamente os biscoitinhos e Chaeyoung piscando algumas vezes, mecanicamente.
— Oh, nunca foi a Paris? Por que?
O embaraço de Jennie deu lugar a uma consternação tão grande que chegava a irradiar, ela fez uma careta, choque misturado a incredulidade.
— Para ir a Paris precisa-se de uma coisa muito importante, não sabia? Dinheiro.
— Olha, o almoço chegou! — Lisa bateu palmas, trazendo a atenção delas para a comida. Respirou fundo em seguida, torcendo para que todo aquele mal entendido fosse apenas estômago vazio.
Chaeyoung olhou a torta recheada e suspirou.
— Isso não é um almoço, é um Thé de l'après-midi, quando me chamou para almoçar pensei que seria um almoço de verdade. Imagino que Jennie também esteja com fome, já que trabalha tanto.
O barulho do garfo de Jennie caindo sobre o prato soou mais alto do que deveria.
— Nem todo mundo teve a sorte de nascer herdeira, então...
— Gente, tá calor aqui que tal se nós fossemos embora? — Engoliu a torta a seco, enxergando um garçom a milhas de distância e balançando as mãos para chamá-lo. — Ei, você! Amigão! Pode embrulhar pra viagem?
— Não se preocupe, meu horário de almoço acabou. — O sorriso que Jennie estampava quando chegou não existia mais, somente seus olhinhos, agora menores em raiva, e os lábios ríspidos.
Lisa estava frustrada e culpada por ter deixado tudo chegar onde chegou. O horário de almoço dela estava longe de acabar, mas era melhor dar um basta ali. Seu plano de transformá-las na nova versão das Três Espiãs Demais teria que ser deixado para depois.
— Jennie, por que você não conversa com o tio? — Chaeyoung se referia ao vice-presidente. — Uma chefe de campanha não tem tempo para um brunch?
Jennie se levantou de vez e Lisa, num menear tímido, informou a princesa que a acompanharia até a porta.
Inusitadamente, as duas respiraram fundo ao sair, como se o ar dentro da cafeteria fosse rarefeito. Elas estavam próximas a porta da Cafeteria, disputando espaço com alguns camelôs na calçada. Mesmo com o movimento da rua, era como se ninguém estivesse prestando atenção nelas, todos focados em seus próprios problemas e na tela do celular.
— Se você quiser posso ficar com você... quero dizer, no gabinete.
Jennie tirou os fios de cabelo rebeldes do rosto e toda a sua atenção estava em procurar algo dentro da bolsa, por fim, tirou um maço de cigarros e acendeu.
— E o que você faria lá?
Lisa parou um segundo para pensar que a mesma garota que tomava água na garrafinha infantil de super-heróis tragava um cigarro logo depois. Balançou a cabeça, respondendo:
— Você poderia me dar uma folha em branco e me deixar desenhar com suas canetas bic, como uma mãe levando a filha para aula.
Se aproximou dela, obrigando-a a levantar a cabeça para encará-la. Um mínimo sorriso dançava nos lábios de Lisa, seu interior parecia queimar. Jennie Kim causava isso, esse turbilhão de sensações que não sabia nomear corretamente.
Talvez seja apenas o sol ou o poder secreto de Jennie, na mistura fofa e sexy, no cheiro de cereja e na predileção por heróis esquisitos, como o homem formiga — o que Lisa descobriu essa manhã ser o favorito dela. Ou na facilidade que adquiriu em admitir o que nunca antes teve coragem, que queria beijá-lá independente se estavam sozinhas ou não, vistas ou não, que o sentimento que era errado não se aplicava a Jennie.
— É em coreano — ela cochichou, fazendo Lisa piscar algumas vezes, confusa.
— O quê?
— A resposta para a sua pergunta de mais cedo, eu penso em coreano. Mas sonho em tailandês, às vezes.
Se afastou, tomando o cigarro das mãos de Jennie para tragá-lo também.
— Ah é? E tem sonhado com o quê, senhorita Kim?
— Com você — ela respondeu entre a fumaça, olhando para os próprios pés.
Era nítido o clima de flerte entre as duas, palpável, com Lisa encostada no muro da cafeteria, Jennie com os braços cruzados porque tinha medo do que faria se os deixasse livres, naquela proximidade curta demais para melhores amigas.
Lisa cochichou um palavrão, jogando o cigarro no chão e olhando para o céu.
— Lucas, me perdoe.
— O quê...?
Findou o espaço entre as duas, puxando Jennie pela nuca. Sentiu quando ela se retesou, os corpos colados e a respiração ansiosa da Kim mesclando com a sua.
Seria corajosa agora, faria o que seu coração mandasse e nada de se remoer pelo que não fez, Lisa repetiu essas palavras em sua cabeça, como um mantra.
Faltando segundos para enfim botar fogo no parquinho e ceder aos encantos sobrenaturais de Jennie, houve um "toc toc" na parede de vidro atrás, elas recuaram, assustadas.
Chaeyoung tinha uma expressão indignada e deu a volta para sair da cafeteria.
— Lisa? Achei que tivesse ido embora.
— Ah, eu vi um camelô que vende aquelas coisinhas para pregar atrás do celular, você sabe que sem isso eu não consigo segurar na hora de tirar foto, meus dedos são longos e tampam a câmera e... olha só, uma joaninha no cabelo de Jennie, por isso nós... nós estávamos muito próximas, loucura, né? Sabia que as joaninhas estão em extinção? Vermelhinhas e... — Lisa respirou fundo, sentindo-se atravessada pelo olhar tanto de Jennie como de Chaeyoung. — Foi mal.
— Vou pedir o garçom pra esquentar a nossa torta. — Chaeyoung encarava Lisa e Jennie alternadamente.
— Tudo bem eu... preciso ir embora.
— Você precisava ir há dez minutos atrás, Jennie. — Chaeyoung falou alto demais para ser um sussurro, mesmo que fingisse ser.
Lisa queria ter mantido a proposta anterior, poderia encher um pouco o saco de Sorn, talvez o de Jennie também. Comer sanduíche industrializado da máquina do escritório e dar um "oi" ao vice que planejava o assassinato dos filhos. Quem sabe não encontraria Jisoo no meio do caminho e enfim descobriria o nome da esposa dela, para depois passar o resto da tarde procurando-a no Facebook a fim chantagear a assessora com fotos vergonhosas delas num lugar paradisíaco qualquer. Até passou pela sua cabeça que, no final do expediente poderia voltar para casa com Jennie. Poderia voltar para casa com ela todos os dias.
Balançou a cabeça, assustada com esse último pensamento.
Chaeyoung estava lá.
Jennie estaria disponível depois.
— Chae tem razão, acho que você vai chegar atrasada.
Jennie abriu a boca, depois a fechou, até manear a cabeça repetidas vezes.
— Se divirtam. — Ela sorriu e então, franziu o nariz. Deixando Lisa e a princesa para trás.
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Se gostou do capítulo favorite, e até segunda :)
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