cicatriz
Claire apareceu do nada, saindo das sombras como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mas nada naquela cena era normal. Seus olhos brilhavam com um tom esverdeado e pulsante, a voz carregada de um tom possessivo que me fez estremecer.
— Por que você não responde minhas mensagens, Caitlyn? – Claire perguntou, inclinando a cabeça de maneira quase inumana. — Eu não gosto de ser ignorada.
Dei um passo para trás, tentando processar o que estava acontecendo. A Claire que eu conhecia era intensa, mas isso... isso era algo completamente diferente.
— Não é assim que você conquista alguém, Claire. Tá parecendo desespero – Vi interrompeu com uma risada curta, recostando-se casualmente na parede como se estivesse assistindo a uma comédia.
Claire virou o olhar para Vi, e o brilho em seus olhos intensificou-se. Ela rosnou, literalmente.
— Você. Sempre você. – Claire deu um passo em direção a Vi, mas seus olhos voltaram rapidamente para mim. — Caitlyn, ela está te manipulando. Ela não é boa pra você.
Vi ergueu uma sobrancelha, agora claramente se divertindo. — Ah, olha só. Parece que temos um triângulo amoroso. Sabe, Caitlyn, se você quisesse me ver com ciúmes, podia ter feito de um jeito menos teatral.
— Vi, isso não é hora! – gritei, mas minha voz falhou um pouco.
Claire deu mais alguns passos à frente, os movimentos erráticos, como se algo dentro dela estivesse prestes a explodir.
— Você não deveria ter saído comigo pra depois me ignorar, Caitlyn – ela continuou, a voz agora mais grave, quase distorcida. — Não é justo.
Antes que pudesse reagir, Claire avançou, rápida demais para ser humana. Mas Vi a interceptou com um movimento casual, colocando-se entre nós.
— Tá bom, chega de drama. Caitlyn, eu poderia acabar com isso agora, mas... onde está a graça nisso, não é?
Vi segurou Claire pelo braço e a jogou contra a parede como se ela não pesasse nada.
— Vamos sair daqui antes que ela fique ainda mais irritada – Vi disse, segurando minha mão e me puxando.
— O quê? Você vai deixá-la viva? – perguntei, incrédula, enquanto corríamos pelo beco.
— Por enquanto. – Vi olhou para mim por cima do ombro, um sorriso provocador nos lábios. — Relaxa, detetive. Eu só quero que você veja o que acontece quando não me escuta.
Correndo pelas ruas escuras, minha mente estava a mil. Não sabia o que era pior: o fato de Claire não ser mais humana, ou a forma despreocupada com que Vi lidava com tudo isso.
Quando finalmente paramos em um prédio abandonado, Vi se virou para mim, ainda segurando meu braço.
— Tá vendo, Caitlyn? Essas coisas estão atrás de você. E, se eu não estivesse por perto, você já estaria morta.
— Não preciso de você pra me proteger, Vi! – retruquei, tentando recuperar o fôlego.
— Claro que não. Você só precisava correr como uma louca até aqui – ela respondeu, o sarcasmo pingando em cada palavra.
Antes que pudesse retrucar, Claire nos encontrou. Sua figura desfigurada agora parecia ainda mais monstruosa, como se a raiva tivesse acelerado sua transformação.
Vi suspirou, rolando os olhos. — Ok, fim do jogo.
Sem aviso, ela se lançou contra Claire, os movimentos rápidos demais para que eu pudesse acompanhar. Em questão de segundos, Claire não era mais um problema. Vi limpou as mãos, como se tivesse acabado de resolver algo trivial.
— Pronto. Agora podemos voltar a discutir sua teimosia – ela disse, sorrindo de forma travessa.
Eu fiquei ali, sem palavras. Mas algo me dizia que essa era apenas a ponta do iceberg.
Vi terminou de limpar a sujeira – ou seja, os resquícios grotescos de Claire – e virou-se para mim com aquele olhar que alternava entre seriedade e provocação. Desta vez, no entanto, o sarcasmo habitual estava ausente, substituído por algo mais sombrio.
— Tá bom, Caitlyn. Acho que já é hora de pararmos de fingir que você não sabe o que está acontecendo.
Cruzei os braços, tentando me manter firme. — Eu realmente não sei, Vi. E, honestamente, você só piora as coisas.
Vi deu uma risada curta, balançando a cabeça. — Ah, não precisa fingir, detetive. Ou deveria dizer... ex-detetive?
Engoli em seco. Ela sabia. Claro que ela sabia. Antes que pudesse perguntar como, Vi continuou, aproximando-se até estar bem diante de mim.
— Me diga, Caitlyn. Já olhou bem para essa cicatriz? – ela perguntou, apontando para o lado esquerdo do meu abdômen, onde o tecido da camisa encobria a marca que eu sempre evitava pensar.
De repente, a memória veio à tona como um raio. Aquela noite. O porão. O cheiro metálico de sangue e podridão. Os símbolos macabros nas paredes, pintados com o que parecia ser sangue. O grupo de corpos inertes espalhados pelo chão. E aquela coisa. O ataque brutal que quase me matou.
Automaticamente, minha mão pousou sobre a cicatriz, mesmo que estivesse escondida sob a roupa.
— Essa marca não é só uma cicatriz – Vi disse, a voz baixa, mas carregada de uma intensidade que fez meu corpo inteiro ficar tenso. — É uma assinatura.
— Assinatura? – Minha voz saiu mais alta do que pretendia. — O que você quer dizer com isso?
Vi suspirou, os olhos acinzentados brilhando com algo entre paciência e exasperação.
— Quem ou o que te atacou naquela noite não estava brincando, Caitlyn. Ele deixou um pedaço de si em você. Essa cicatriz... é como um farol. Está chamando ele de volta.
Eu me afastei, sentindo um nó se formar no estômago. — Não... isso não faz sentido. Isso foi há anos. Eu...
Vi interrompeu, aproximando-se mais uma vez, os olhos fixos nos meus. — Faz todo o sentido. Acha mesmo que foi coincidência eu aparecer na sua vida agora? Não é só você que está sendo caçada, Caitlyn. Agora estamos nesse jogo juntas.
Senti a cabeça girar enquanto as memórias daquela noite voltavam como uma avalanche. O som da minha respiração ofegante. O rugido daquela coisa enquanto avançava. E o momento exato em que sua garra cortou meu lado, deixando a marca que, até agora, eu achava ser apenas uma cicatriz física.
— E agora? – perguntei, tentando manter a voz firme. — O que eu faço com essa... assinatura?
Vi sorriu, mas era um sorriso sem humor. — Agora você escolhe. Ou luta... ou corre.
Eu a encarei, tentando decifrar se ela estava falando sério ou se ainda estava jogando comigo. Mas, no fundo, eu sabia. Não havia para onde correr. E, pela primeira vez, talvez eu precisasse de Vi mais do que estava disposta a admitir.
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