7 - Profundezas Da Inconsciência (B)
Breanne Lookword
Donovan Batchelor parecia sincero em suas palavras. Talvez ele de fato não soubesse o que estava acontecendo do outro lado da muralha. Mas poderia descobrir se quisesse, o que fazia dele nossa melhor alternativa.
Mas uma parte de mim, desejou não ir atrás dele quando fugiu. Bem no fundo, desejei deixá-lo perdido à própria sorte no Vale da Escuridão. Ele não duraria uma noite.
Porque eu sabia que a partir do momento que o trouxesse de volta, precisaria encarar aqueles olhos. Os mesmos olhos de sua mãe, o mesmo tom das abotoaduras do pai.
Em um momento de silêncio ao redor da fogueira, me peguei observando o rosto de Donovan, em busca de sinais. No entanto, em vez de ver crueldade, encontrei apenas curiosidade e uma camada irritante de inocência.
Não havíamos trocado nenhuma palavra depois que retornamos à cidade abandonada. Kurt e Iron tinham começado a erguer acampamento enquanto Trevor e Thalia riam de alguma coisa que Blayde falava, Donovan os observava atentamente amarrado à poucos metros de distância.
Os outros Apagões que havíamos reunido, cercavam os entornos da floresta, captando qualquer sinal de invasão. De certa forma, esperávamos que alguém viesse em resgate.
- E eu pude jurar que vi um peixe gigante! Do meu tamanho! - Blayde dizia animado.
Donovan com seu irritante sorriso condescendente resolveu participar da conversa.
- Poderia ser uma baleia! - E com isso chamou a atenção de todos. - Sabe a quantos séculos não são vistas? - Sua animação era notável e Blayde pareceu contente por alguém finalmente prestar atenção no que dizia.
Iron lançou ao "amigo" um olhar ríspido que não passou despercebido por Batchelor.
- Isso por acaso é algum tipo de código? - Perguntou a eles. - Tipo, "não brinque com o jantar".
- O que quer dizer com isso? Acha que vamos comer você? É tão estúpido! - Sua risada era alta e aguda.
- Uma ofensa a nossa dieta. - Walter alfinetou.
Donovan Batchelor não acreditava naquilo. Deixou bem claro durante nossa caminhada que minha tentativa de intimidação falhara. Ele estava tentando mesmo ser engraçadinho? Oras, será que não percebia que tínhamos praticamente sequestrado ele?
- Quem foi que lhe aterrorizou com isso, pobrezinho? - Thalia provocou novamente, embora ele estivesse ocupado me observando com um canto dos lábios esticados para cima.
Hematomas coloriram seu pescoço onde Walter apertara, devia estar dolorido, no entanto ele não havia reclamado.
- Ninguém. - Respondeu à Thalia, após tirar os olhos de mim. - Ninguém me disse.
Evitei encará-lo. Ao invés disso inspecionei Walter minuciosamente. Não sabia se o tinha machucado. Aparentemente sim, porém nada com o que tivesse que me preocupar.
Notando que eu o observava, tratou de se levantar e entrar pra dentro de sua tenda. Era um convite.
Não estava com cabeça para as nossas tão corriqueiras e inevitáveis discussões, por isso não mexi nem um músculo em sua direção.
Iron pigarreou se colocando de frente para Donovan.
Qualquer um ali poderia admitir que Iron de fato era intimidador. Era o tipo de cara que as pessoas respeitavam.
Ele era grande e largo. E parecia tão duro quanto... ferro.
Se agachou até ficar na altura em que Donovan estava sentado.
- Até agora você foi tratado a leite-com-pêra. - Lançou a Thalia um olhar que a desafiava a fazer alguma piada, após alguns segundos se voltou novamente para o homem a sua frente. - Lamento informar que seus momentos de glória acabaram.
Pela primeira vez desde que chegara, Donovan parecia sentir raiva. Seus lábios estavam cerrados e a testa encrespada. Não sabia ao certo se aquilo significava que ele queria chorar ou se a máscara começava a ceder.
- Estou apenas tentando resolver o problema que vocês provocaram. - Sua voz saiu um tanto estrangulada.
Iron balançou a cabeça negativamente como se não entendesse aquela língua.
- Ele acha que nós sabotamos "O Sistema" sem falha deles. - Expliquei.
Uma risada sem humor algum escapou dos pulmões da rocha humana.
Visualizei Walter sair de sua tenda carregando um cantil e se juntar a nós novamente para o espetáculo.
- Pois bem, você vai nos ajudar. - Donovan engoliu em seco.
Piscou algumas vezes. Várias na verdade.
- Receio dizer que não... - Falar aquilo foi um grande erro.
Walter bufou ao meu lado atraindo minha atenção. Nossos olhos se encontraram por um milésimo de segundo antes que ele desviasse.
- Permita que eu explique, então. - Iron levantou Donovan pelo colarinho jogando-o contra uma das paredes. Continuou com a mão espalmada em seu peito enquanto dizia. - Vamos entrar naquele raio de lugar. Descobrir que porra eles estão aprontando e aí...
- Desmascaramos o Sistema e todos aqueles que compactuam com ele para assim libertar Dawn Village. - Completou Kurt monótono.
Ele não parecia concordar com a violência gratuita. Bom, eu também não...
Iron acenou com a cabeça em um claro agradecimento pela intromissão.
Kurt contava que seus pais o amavam mais do que a qualquer outra coisa no mundo, mas no momento em que ele se rebelou contra os Líderes, estes fizeram questão de ter uma conversa em particular com os guardiões do garoto. Kurt não sabe o que aconteceu naquela sala... O que ele sabe é que daquele dia em diante os pais se transformaram em uma espécie de zumbis. Seus corpos ainda estavam lá, no entanto, Kurt sabia... Eles haviam partido antes mesmo que ele fosse deixado para morrer às beiras da floresta. E foi por isso que não pensou duas vezes antes de criar cartazes e panfletos anunciando a queda do sistema.
Voltando a realidade do momento, Donovan ainda não proferira uma só palavra.
- Precisamos nos misturar... Acha que consegue uns braceletes desativados pra gente? - Thalia perguntou dando um passo a frente. - E nem pense em tentar uma gracinha. Vamos saber se estiverem ativados.
- Ou pelo menos eu saberei. - Trevor disse.
Blayde aparentemente fazia alguma piada mental que resolveu guardar apenas pra si mesmo. Ora, não é de ver que ele estava aprendendo a se controlar?
- Não se esqueça, Trev... Estou a mais tempo do que você estudando os Essenciais. - Kurt fez questão de lembrar.
Trevor juntou as sobrancelha dando de ombro.
- Entretanto não descobriu como inutilizá-los.
Pelo que eu já tinha percebido em poucas horas, Trevor odiava ficar para trás no quesito inteligência. Então qualquer luta que pudesse aumentar seu ego era uma briga que ele com certeza compraria.
- Não vou ajudá-los a ferir pessoas inocentes. - Donovan disse finalmente.
- Nunca pedimos que fizesse isso. - Falei. - Se prejudicamos alguém vai ser porque mereceu. Tem nossa garantia.
Walter soltou uma de suas risadas amargas.
- Não a minha. - Disse entredentes de uma forma que fez até com que eu me arrepiasse. Sabia que ele se referia especialmente a Donovan.
Iron lançou um olhar cortante. Obviamente Walter não estava ajudando.
Coloquei a mão em seu ombro dando um aperto de leve, senti um tremor sob minha palma... e logo cessou.
- Não vou ajudá-los com nada. Minha intenção era conversar com vocês, como pessoas descentes fazem. Mas se querem agir como anima... - Em um momento a voz trêmula de Donovan preenchia o ar pesado do verão e no momento seguinte não passava de um gemido doloroso.
Ele se dobrou ao meio procurando por ar quando o punho de Iron atingiu seu estômago. Cambaleou até cair de quatro no chão, onde ficou por algum tempo inspirando com dificuldade.
A muralha de pele que era Iron se ajoelhou ao lado do homem nocauteado.
- Espero que isso seja o bastante para fazê-lo mudar de ideia.
Donovan não respondeu. Tentou se levantar algumas vezes, sempre voltando para o chão, o que tirou alguma gargalhadas de Blayde.
Estavam agindo exatamente como pensavam que agiamos. Como os vilões.
Quando finalmente conseguiu se colocar de pé, o iluminado inflou o peito fitando Iron.
- Não. Vou. Ajudar. Vocês. - As pausas eram enfáticas e carregadas de uma calma incomum.
Afinal, talvez Donovan não fosse tão covarde assim mas definitivamente era tolo se achava que poderia ganhar qualquer tipo de confronto contra Iron.
Eu sabia que ele havia cometido um erro assim que percebi que negaria. E por mais que algo dentro de mim me dissesse que Donovan era um grande manipulador, não queria ficar ali assistindo enquanto ele apanhava como um animal indefeso.
Não sentia pena dele. Realmente não sentia, só não era o tipo de entretenimento que me deixava animada.
Deixando Donovan Batchelor dobrado no chão levando chutes me dirigi à tenda. Walter caminhava logo atrás.
- Se veio choramingar sobre o que aconteceu mais cedo, esteja ciente de que não me arrependi. - Girei nos calcanhares para deixar isso bem claro.
- Não quis defender o iluminado dessa vez? - Perguntou sarcasticamente bloqueando a entrada da tenda. Passei por baixo de seus braços.
- Acho que você deveria aprender a controlar mais esse seu gênio explosivo. Ainda vai colocar tudo a perder, e podia muito bem controlar o seu cão de guarda. - Falei, me referindo à Iron. Walter atravessou a tenda até ficar perto o bastante para o bico de nossas botas se tocarem.
- Por quê se importa com a forma a qual me dirijo a Donovan Batchelor?
Não me intimidei com sua postura. A muito tempo já era imune a ela. Dizem que cão que ladra não morde. E essa era a diferença entre Walter e Iron.
- Preciso dele vivo.
Continuou me olhando como se não entendesse o que aquilo significava.
Bufei com impaciência. Não queria falar sobre aquilo... Não queria contar o motivo que me fez gelar quando Trevor anunciou - ainda quando estávamos na casa flutuante - que o morador se chamava Donovan Batchelor.
Por isso, apenas balancei a cabeça.
- Precisamos dele vivo. - Corrigi. - Tenho certeza de que ele é uma peça importante.
Rodeei seu corpo pegando trajes limpos e um pano de algodão que usaria como toalha, precisava sair dali antes que ele confrontasse minha mentira.
Walter continuou a me observar, dessa vez com um pouco mais de intensidade.
Senti minha pele esquentar sob sua inspeção, havia um animal selvagem em seu olhar, eu podia notar isso na forma como as íris queimavam e os lábios se esticavam em um micro sorriso de aprovação.
Antes que pudesse me render aos instintos saí da tenda em direção ao riacho.
Não costumava tomar banho todo dia, não era uma questão de desleixo, a verdade é que nem sempre tínhamos acesso a um rio. Portanto naquele momento, eu me sentia privilegiada.
Me despi rapidamente ansiando para que a água gelada me alfinetasse como agulhas de gelo. Queria sentí-la em minha pele o mais rápido possível. Havia sido um longo dia.
Molhei meus pés na beirada, a temperatura era tão gelada quanto tinha imaginado. Indo mais adiante, afundei até a cintura e durante alguns minutos fiquei apenas observando as estrelas refletidas na água. Parecia uma pintura abstrata.
Brinquei com as pequenas ondas que se formavam conforme me movia. Mergulhei a cabeça indo cada vez mais fundo, abrindocaminho para baixo com os braços a superfície já parecia um passado distante. Senti que meus pulmões já começavam a procurar por oxigênio mas sabia que poderiam aguentar mais um pouquinho. Queria testar meus limites, saber até onde conseguiria ir.
Tudo não passava de escuridão tenebrosa e fria. Assim como todos os dias por ali ultimamente. Até a água parecia ter notado.
Me impulsionei para voltar a superfície mas algo me impedia. Havia prendido meu tornozelo em algum galho. Meus pulmões agora já queimavam. Tinham passado da fase de procurar por ar e agora eles o queriam a todo custo.
Puxei o pé mais vezes do que consegui contar. Não devia entrar em desespero mas ali estava eu, batendo os braços e querendo voltar a superfície. Implorando por ar.
Sabia que uma hora iria cansar de me debater, sentiria tudo mais leve, meu corpo liberaria ar aos meus pulmões, uma pequena faísca de ar... E aí finalmente ela se apagaria. Se apagaria como as luzes da cidade em um blecaute. Se apagaria como o sol de Dawn Village e então não sobraria nada além do fim eminente.
Você precisa nadar, Breen. Sua hora ainda não chegou - uma voz parecia me dizer.
Vamos! Lute! Nade! Por seu povo, por sua terra, nade!
Quis seguir a voz, era aconchegante e quente como um abraço materno, pelo menos era assim que eu imaginava um abraço de mãe, no entanto, meu corpo se recusava a sair do lugar. Minha visão começava a ficar fraca, mas pude jurar que vislumbrei uma figura feminina e etérea ao meu lado, vestida em um manto branco, a mulher de cabelos vermelhos me encarava com afeição.
A missão não acaba aqui, Breen.
Me senti mais leve, tão mole que não conseguiria erguer um só músculo, senti que subia e subia, talvez estivesse boiando. Talvez ainda restasse um fio de consciência me impedindo de desligar por completo, mas então eu o vi.
Os cabelos ainda mais cumpridos por estarem molhados, o vinco na testa denunciava preocupação. Ele gritava comigo. Não, eu não tinha culpa. Me sacudia e parecia tremer. Via a boca de Walter se mexendo e não podia ouvir uma só palavra.
E então não o vi mais.
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