7. Slow dive
Sentia como se estivesse a alguns passos de um precipício inevitável. Ainda que resistisse contra as forças que me empurravam em direção ao meu abismo, nunca seria o suficiente para fazê-las pararem.
— Bo-na? Está bem?
Respirei com relutância, contendo a ansiedade que se alastrava por minhas veias.
— São só dores estomacais. — murmurei percebendo seu olhar sobre meus braços envoltos de minha barriga.
— Estou indo embora, precisa de carona? — Ten parecia querer perguntar mais a respeito de minhas dores, mas escolheu respeitar meu silêncio, aparecendo em seguida com a chave de sua moto entre os dedos.
— Não precisa, tenho que passar em um lugar antes. — agradeci pegando meu celular, dispensando sua carona para outra entrevista de emprego.
Depois que tinha sido despedida de meu último emprego após descobrirem quem eram meus pais, lidava com esse pequeno detalhe em tentar esconder minha origem para conseguir viver normalmente como se meus progenitores não pudessem controlar cada um de meus passos; mesmo aqueles que não tocam nenhuma superfície.
— Qualquer coisa pode me ligar, estarei pela região. — acenei positivamente estampando um sorriso em despedida, suspirando ao ouvir a porta ser trancada.
Passamos a noite conversando sobre qualquer coisa que não incluisse nossos problemas reais, e agora no dia seguinte, percebia como minha pele queimava e meus olhos ardiam com a turbulência impregnada em minha mente. Era estranha a maneira como meus pensamentos sempre me levavam ao meu lugar obscuro, como um vício doentio.
Por mais que negasse os sinais em meu corpo, poderia perder minha própria luta em qualquer momento, em qualquer lugar, sem esperar exatamente por algo decente.
Após tomar banho, trocar de roupa e comer um café da manhã que conseguisse me alimentar um dia inteiro, decidi que apenas voltaria para meu apartamento quando conseguisse cumprir meus objetivos para aquela manhã ensolarada, um pouco acolhedora aos que se aventuraram a caminhar pelas ruas desertas sem buscar verdadeiramente por repostas em suas próprias vidas, contentando-se com suas rotinas e destinos incertos.
Aquilo me incomodava; sentia-me
enjoada.
Infinitas razões rondavam minha mente, mas nenhuma se encaixava de maneira lógica. Eram apenas peças de quebra-cabeças sem combinações. Estava uma completa zona.
Encarei os letreiros de um prédio na rua abaixo, perguntando-me se era mesmo aquilo que queria fazer.
Provavelmente não, mas como poderia esquecer minha promessa? Tinha que deixar minha raiva se sobressair para evitar entrar em melancolias fortes demais para serem rompidas com apenas um piscar. Essas correntes insistem em me machucar, por mais que as quebre múltiplas vezes.
Fui descendo em passos lentos as rampas das passarelas de pedestres, agradecendo por não serem degraus. Minha cabeça latejava como se estivesse a explodir uma sirene; luzes e sons começaram a se distorcer, aumentando as sensações desconfortáveis de mais cedo.
Minha respiração queimava meus pulmões, meu coração batia descontroladamente inconstante, tomborilando como se estivesse rasgando cada pedaço de mim com suas batidas inquietantes. Não sabia como pedir ajuda, ninguém me escutaria.
Balancei meu corpo tentando afastar aquilo. Tentei me apoiar nas paredes, mas essas pareciam distantes demais de onde estava, ou sequer existiam. Pisquei várias vezes tentando reconhecer o borrão branco que vinha em minha direção se aproximando gradativamente de mim, mas não tive tempo o suficiente para clarear minha visão.
Nem sequer pude controlar meu próprio corpo; nada me pertencia.
Estava com meus joelhos dobrados, deslizando de encontro ao chão áspero, rolando algumas vezes antes de meus olhos pesarem e a escuridão preencher minha visão, deixando-me completamente inconsciente de qualquer perturbação, por pelo menos alguns minutos.
Era aterrorizante pensar que poderia nunca mais sair dessa escuridão; minha própria tormenta.
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