• sweet night • III
Museu do Amanhã - RJ/Brasil (Fotografia: @thestarvante)
SOL
III
Mais uma vez comigo, você amanhecerá?
Aliás, você, o meu Sol, amanhã será?
Estar com você me faz pensar em "amanhãs".
Porque que o Sol amanheceria lá em cima, eu tinha certeza, mas e você, Taehyung? Continuaria amanhecendo junto comigo? Continuaria me aquecendo dentro do seu abraço do jeitinho que estava fazendo todos aqueles dias?
Desde que você chegou, tudo se tornava incertezas quando eu pensava no dia seguinte.
Eu nunca fui insegura quando envolvia estar em qualquer relacionamento. Normalmente eu era sempre quem tomava a primeira decisão, mesmo que na última, eu nunca agisse da forma esperada pelos outros para alguém considerada tão exagerada como eu. Pelo menos não na frente dos envolvidos.
Todas as vezes em que terminaram qualquer coisa comigo —, sim, porque nunca era eu a tomar aquela decisão e fica aí um parágrafo meu que eu precise dar um pouco mais de atenção —, tudo o que a pessoas receberam em resposta foram "Ok", "Você quem sabe" e "A vida é sua". E mesmo que depois eu fosse chorar sozinha até soluçar trancada no meu quarto, na frente dos outros, quando o assunto era relacionamentos amorosos, eu era o lado frio do fim da história.
Estranhamente todos os relacionamentos em que eu estive, de alguma forma eu já sabia que eles iriam acontecer uma hora ou outra. Colegas da época da escola, conhecidos da família, o primo de um amigo meu. Todas eram pessoas que de alguma forma orbitavam a minha vida.
Mas com você não foi daquele jeito.
A verdade era que te olhando dormindo ao meu lado na cama, eu morria de medo de um dia você simplesmente sair pela porta do nosso apartamento e não voltar mais. Porque eu morria de medo de um dia você entender que talvez não fizesse parte daquele sistema de astros em que eu pertencia e decidir que era melhor voltar para sua casa.
Lá do outro lado do Universo, lá em outra galáxia, bem longe da minha.
E o pior disso tudo era que eu tinha plena consciência de que a tua vida, diferente da minha, não era apenas sua e que a nossa história poderia receber um ponto final a qualquer momento vindo de um lápis segurado por outra mão que não a minha ou a sua.
Deveria ser por isso que você dizia que eu era algo entre razão a emoção, Tae. Porque ali estava eu novamente sendo hospedeira para mais uma batalha entre meu cérebro e meu coração, sem saber qual dos dois tinha argumentos o suficiente para ser levado em conta.
Você se mexeu, aconchegando melhor seu sono no travesseiro, sendo tranquilo e respeitando seu próprio momento de descanso. Aquilo me fez pensar que se continuasse com aqueles pensamentos doidos e doídos, não importava como seria o amanhã, se antes que ele pudesse chegar, eu já estaria paralisada ao ponto de não conseguir viver o hoje e o agora.
E no hoje eu tinha certeza de que você estava ali comigo, diferente do que ainda estava por vir e que eu sequer tinha como controlar.
Um dia de cada vez, Nina, você diria se estivesse acordado.
Tomei coragem e me desfiz daqueles pensamentos e do teu calor. Peguei a primeira camisa que encontrei próxima ao pé da cama e por sorte minha, ela era a sua. Caminhei delicadamente na ponta dos pés, e tentando não fazer muito barulho, fui até meu guarda-roupas para pegar roupas íntimas. Quando fechei a gaveta você resmungou alguma coisa e se mexeu entrando mais ainda entre os lençóis. Sorri achando bonitinho, sabendo que se fosse eu no seu lugar, já teria acordado e me virado assustada para saber o que era o som.
Me dá um pouquinho dessa tua calma, Taehyung?
Segui até o banheiro e depois de despir as únicas duas peças que eu vestia, me enfiei embaixo do chuveiro. Apesar do tempo quente, acabei tremendo um pouco quando a água bateu gelada contra minha pele.
Por mais que você tivesse me falado que era a Lua quem comandava as águas do mar, ali parecia ser ao contrário, já que era a água que parecia levar com ela todos os pensamentos e resquícios de dúvidas que estavam sobre mim.
Graças ao tempo em que eu ficava ali, sozinha com meus argumentos que em boa parte pareciam não ter pé nem cabeça, era que eu me permitia deixar comigo apenas o necessário para seguir.
Era ali, quando eu sentia a energia voltar a circular por meu corpo, que as coisas voltavam a fazer sentido.
É Taehyung, talvez você tenha razão e tenha um rio correndo por minhas veias.
Ou talvez seja só um afluente mesmo.
Mas acho que não importa o tanto de água que sou ou que há em mim, desde que você esteja interessado em mergulhar nas águas de Catarina para as compreender. Te adianto que talvez não seja tão fácil assim, às vezes eu mesma me deixo levar por minha própria correnteza só para não ter que nadar contra ela. Mas torço para que você lá de cima com seu calor e com todos seus tons de amarelos e vermelhos, consiga me aquecer aqui embaixo.
De fora, para dentro.
Depois de me secar e vestir as peças escolhidas junto com sua camisa, saí do banheiro lutando com os botões pequeninos dela. Desisti no terceiro. Te avistei na varanda, as costas nuas encostando em uma das paredes, e pela porta aberta, ouvi que você estava acompanhado de música. Não somente música, mas nosso MPB, nosso Djavan.
Djavan era poesia, era cultura popular brasileira, era força da natureza.
Oceano.
Foi o que você me respondeu quando te perguntei como você o descobriu. Meu coração bateu emocionado ao ouvir sua voz me explicar que havia encontrado em uma das minhas playlists. Em meio a toda aquela bagunça de ritmos e sons que eu ouvia, você descobriu aquela enxurrada de palavras bonitas vindas do nosso brasileirinho.
Me sentei próxima a você, abracei minhas pernas e encarei lá do outro lado do guarda corpos de vidro, lá no ponto que respondia por horizonte, o azul do céu se encontrando com o azul do mar, entre eles os tons quentes de laranjas que tomavam toda a areia da praia e os prédios ao nosso redor.
Minha cabeça parecia dar um nó com todas aquelas associações a cores e elementos da natureza, mas mesmo que eu tenha começado isso aqui te chamando de Sépia, eu entendi que você é grandioso demais para ser resumido apenas por uma cor. Havia uma infinidade de coisas dentro de ti que eu gostaria de ter a oportunidade de conhecer e eu entendi que além de ter sua própria paleta, você era também o seu próprio Universo, Taehyung.
Assim como eu, Catarina, também era um aglomerado de sentimentos e planetas ainda a serem descobertos e compreendidos.
E talvez eu nunca tenha me interessado tanto por Astronomia quanto agora.
É por isso que dentro de toda essa confusão que é a minha forma de enxergar o mundo, digo que você é céu, você é Sol, e também Sépia. E você parecia entender esse meu jeitinho e me via como azul, como mar, e como a Lua.
— Eu acho que nunca vou me acostumar com o tanto de calor que faz aqui — você reclamou e eu me virei para o olhar. Os cabelos escuros e lisos, o sorriso arteiro em seu rosto — que deixava bem claro que você estava tentando me provocar —, o torso nu e a calça vinho que combinava com o tom da sua pele. Todos envoltos pela iluminação castanha daquele final de tarde.
— Não estava tão calor aqui até você chegar — respondi de volta, com o mesmo tom de provocação que usou. Você continuou com o sorriso e arqueou a sobrancelha como brinde, talvez tentando encontrar significado na resposta ambígua que lhe dei. — E o que você entende de calor, hein? Isso aqui faz mais de 50 graus em fevereiro. — completei exagerando.
— Ok... disse a garota que com 18 graus sai de casa de casaco — retrucou. — Você não entende nada de frio também, não ia aguentar um dia de neve, Nina — abri a boca surpresa e você riu.
— Que absurdo — lhe dei as costas enquanto fingia estar magoada. Voltei a abraçar minhas pernas e ouvi sua risada gostosa atrás de mim. Senti você se aproximar, contornar meu corpo com suas pernas e colocar meu cabelo delicadamente sobre um dos ombros.
— Eu prefiro a Lua ao Sol — sussurrou, deixando um beijinho quente na minha nuca.
E mesmo que eu tenha achado que ia desmaiar ali mesmo com todo o arrepio que correu por meu corpo, mantive minha pose de que estava tudo sob controle.
— Nah — o respondi —, o Sol é o eixo disso tudo aqui, tudo gira ao redor dele. Sem ele nem teria vida aqui na Terra. A Lua só, blé, fica parada lá em cima. — fiz careta tentando argumentar alguma coisa que fazia sentido.
— Não acredito que o Sol seja isso tudo, Nina — respondeu — Sei lá, não acho que adianta ser tão quente e brilhar tanto, e no final, se alguém olhar diretamente para ele, poder ficar cego. — você expirou, parecendo cansado de alguma coisa.
— Mas a gente não precisa olhar diretamente para ele para entender o quanto ele é importante, Tae. Ele aquece e toda criatura viva aqui depende dele. Se o tempo fica nublado por muitos dias, por mais que você não goste de calor, logo você sente falta. Falta do seu brilho, da sua luz, das suas cores. E da vitamina D, sabe? — tentei brincar, mas algo me dizia que não tinha dado muito certo.
— Acho que talvez o Sol esteja cansado de ser reconhecido só pelo o que ele faz, e não pelo o que ele realmente é. — você sussurrou, encostando o queixo no meu ombro — Acho que ele é grato demais a Lua por ela refletir um pouquinho da luz dele, só o necessário para olhar lá para cima sem correr o risco de não enxergar mais nada depois. Tudo o que é demais, faz mal.
— Nós estamos falando de estrelas e satélites ainda? — perguntei em um sorriso meio tristonho, e ouvi você rir fraquinho, dar um beijo no meu ombro e passar os braços por minha cintura me puxando mais para perto de você. Te senti encostar a testa onde poucos segundos antes encostou seus lábios e respirar quietinho por um tempo.
Eu sabia que não se tratava apenas da estrela lá de cima.
— Nina — você chamou se afastando um pouquinho, lhe respondi com um "hm" — Olha para mim? — correspondi seu pedido, e ficamos longos segundos nos observando.
— O que foi? — perguntei, depois de sorrir um tempinho lhe fitando.
— Eu gosto desse sorriso que você dá quando 'tá me olhando. — falou e eu sorri afetada com sua voz mais uma vez.
— A Lua reflete a luz do Sol, não é? — levei a mão até sua bochecha deixando um carinho ali.
— Nós estamos falando de estrelas e satélites ainda? — você me imitou e sorriu.
Com o sol descendo no horizonte e com o seu sorriso, tanto o mar quanto o céu ganhavam outras tonalidades e por conseguinte, os sentimentos dentro de mim também.
Seria aquela cena, outra personificação da natureza inspirada em nós dois, Taehyung?
Porque tudo ao nosso redor parecia ganhar um tom amarelado e bonito e para mim aquilo só poderia ter um nome. Consegue adivinhar qual é, Tae?
A chegada da tua cor, assim como a do pôr do sol, me fez pensar que cada coisa tinha a sua hora e lugar, então eu não deveria pensar tanto no futuro se você estava ali comigo naquele instante, vivendo o presente e o agora.
Nós viveríamos alguns dos nossos instantes como cores e outros como forças da natureza quando eles estivessem destinados a acontecer. E não adiantava eu me preocupar tanto com o futuro, se a noite ainda nem tinha aberto a porta e entrado em nosso apartamento.
O amanhã podia esperar, porque a estrela do dia tinha todo o direito de descansar um pouquinho também. Aquela era a hora da Lua ser a protagonista e mesmo que para isso ela precisasse um pouquinho da ajuda do Sol, ela pretendia dar o seu melhor naquelas próximas 12 horas que estavam por vir.
A noite estava só começando, Taehyung.
🔹
Oi ♥
Hoje não tem muitas notas científicas por aqui, porque esse capítulo nasceu de um jeitinho mais subjetivo, sabe? Esses dias eu tenho pensando muito na nossa relação como seres humanos.
E conversando com uma amiga que faz Psicologia, e trazendo aqui um pouquinho o assunto para a "linguagem" da Sépia, nós duas nos perguntamos porque dedicamos tanto do nosso tempo a tentar compreender aos outros "Sóis" e "Luas" aí desse mundão e esquecemos de apreciar a beleza e complexidade do nosso próprio Universo primeiro. Se nos entender já é tão complicado, porque a gente fica tanto tempo tentando entender as ações e pensamentos das outras pessoas?
Apesar do momento não ser nada bom e nós estarmos muito preocupados com o amanhã, tenho tentado "apreciar" um pouquinho a mim mesma no hoje ao invés de ficar a todo momento tentando procurar razão para tudo o que tem acontecido no mundo. Queria passar isso aqui na Sépia, porque vai que aquece o coração de outra pessoa também, não é?
Esse não será o último capítulo da Sweet Night, porque eu acho que esse conto merece mais um pouquinho de atenção ♥
Eu sempre me surpreendo que vocês leem até as notas aqui embaixo, apesar delas serem meio grandes e tudo mais, e acho que não vou parar de me surpreender nunca com isso haha. Mas é que a ideia da Sépia é ser meio diferente de tudo o que eu já fiz, então acabo me empolgando e falando bastante.
Tenham em mente que a vida e a presença de vocês é importante demais nesse mundo, ok? Assim como o Sol é tão importante para a Terra, vocês também são.
"Peço" licença poética ao OTM para usar essa frase do jeitinho que eu a entendo na letra de Um Filme, mas é ela quem tem me aquecido quando tudo fica muito confuso por aqui.
"(...), é que no fundo somos todos sós",
Porque no fundo somos todos "Sóis"
Se cuidem,
Polly ♥
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