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• sweet night • II

Museu da Lua - Museu Itinerante


LUA


II

Antes de tentar te compreender, preciso dar atenção às minhas fases e ao o que eu tenho influência com essa minha órbita.

Hoje a Lua levantou antes do Sol.


Você nunca demonstrava intenção de se desatar dentre os nossos nós quando acordava antes de mim e sempre que eu abria meus olhos, já encontrava os seus observando a bagunça que deixávamos ao nosso redor.

Daquela vez foi diferente, porque fui eu quem acordei primeiro.


Te observar ali, quietinho e de olhos fechados, sendo tocado por um raio de sol amarelinho que entrava pela janela, me aqueceu. Não sei se você tinha noção disso, mas a sua calma me abraçou antes mesmo que seus braços o fizessem.

E Taehyung, tu sabia que a minha intensidade me incomodava às vezes, mas você me fez acreditar que era ela que tornava todas as minhas fases tão únicas e minhas.

Então eu aceitei que era tu a tranquilidade que eu precisava.


Não posso negar que me surpreendi quando você veio e despontou no horizonte dos meus dias, me brilhou repetidas vezes e disse que o mar tinha seus dias de vendavais e também os de calmaria, e as nossas curvas juntas eram a prova de que aquelas oscilações eram também poesia e não só resultados de estudos científicos.

Você me disse ainda, que apesar do Sol brilhar lá de cima e esquentar a água com seus raios quentes, ele, o mar, só se movia daquela forma, graças ao poder que todas as fases da Lua exerciam sobre ele. Que o Sol lá de cima, devia ser apenas um telespectador de olhar encantado pela influência que a Lua tinha aos mares.


Em algumas das minhas fases era onde ocorriam nossos momentos de Sizígia.

Porque o dicionário dizia que Sizígia era quando três astros se encontravam enfileirados e se somavam em intensidade. Mas eu digo que além de quando o Sol, a Lua e a Terra se encontravam, a altura das marés subiam também graças ao impacto que acontecia com nossos corpos juntos.

E você era Sol e eu era Lua, Taehyung. E eu queria acreditar que nós, na nossa cama, na nossa casa, na nossa Terra, éramos Sizígia.


Não sei se como no Eclipse, se algum dia eu teria explicação para o fenômeno que acontecia quando nossas forças se encontravam em posição de atração e movimentação. Mas eu sabia que nós também éramos Sizígia, porque era quando estávamos um sobre o outro, sendo mútuos, que nossa maré atingia o máximo de sua amplitude.

E depois que atingíamos o nosso ponto mais alto, vinham as minhas outras fases lunares, e da mesma forma em que essa nossa maré subia, ela voltava a abaixar. Nós nos desfazíamos e você dizia que somente ali era a sua chance de me observar serena e tranquila. Era ali, no momento em que minhas pálpebras fechavam e meu corpo voltava a ser somente meu, que você via que eu, Catarina, mesmo sendo intensa em boa parte do tempo, podia ter minhas águas tranquilas depois da arrebentação.


E eu não sei quanto tempo ficamos ali, talvez minutos ou horas, mas antes que eu pudesse fazer menção de me levantar, você se mexeu, meio dormindo, meio acordado, e se aproximou até que não houvesse mais espaço entre nós, passando um dos braços ao meu redor. Você deitou a cabeça em meu ombro e senti sua respiração quente ali contra a minha pele.

— Eu já sei porque tem tanto azul aqui — você trouxe a tona de novo aquele assunto, a voz arrastada ainda de cansaço. Eu ri pela sua insistência, o som sendo abafado por seu cabelo que era onde eu estava apoiando o rosto. Você deu um beijinho atrás da minha orelha e eu senti minha pele arrepiar. Era um pouquinho vergonhoso imaginar que eu ainda estava sensível daquele jeito.

— Ah é? E por que é, então? — perguntei, apertando mais ainda meu corpo contra o seu e você pareceu ter a mesma ideia, já que ajudou.

— Quem tá aí? É a Nina, ou o Newton? — você perguntou, a voz ainda vacilando, e eu me segurei para não rir com aquela pergunta.

— Tenho certeza que a Nina — respondi ainda achando graça, mas foi você quem gargalhou.

— Que bom, então eu posso falar de arte e de ciência, ao mesmo tempo. — você tamborilou os dedos de leve, subindo e descendo a linha da minha coluna.

— Então eu sou como alguma coisa entre razão e emoção? — perguntei e você assentiu.

— Uhum. Ó, presta atenção no que eu pensei aqui — você se ajeitou frente a mim e me encarou. O cotovelo na cama, o rosto apoiado na mão fechada.  — Seu quarto é a Terra e você é a Lua. A Lua é satélite da Terra. Tá me acompanhando, Nina? — você perguntou e eu ri concordando — E as marés dependem da força trocada entre vocês duas... Ai, calma. Já me perdi todo. — você fez careta e sacudiu a cabeça — Terra é chamada de planeta azul, não é? E só pode ser porque tem água... — sorriu arteiro e eu já sabia que era você teimando de novo no assunto do mar ser azul.

— Hm... — resmunguei te abraçando novamente, tentando entender sobre o que você falava, mas sem sucesso, porque a bagunça que você fez em mim parecia não ser apenas física.

Que belo momento para se discutir sobre cor de paredes, Taehyung.

— É sério que depois de toda essa análise artística e científica que eu fiz, tudo o que você tem a dizer é "hm"? — Você me questionou se afastando, voltando ao estado inicial de criança irritada. Expirei pesadamente ao sentir seu corpo se afastar do meu, sentindo falta do seu calor — Por isso que eu prefiro dizer logo que é azul por causa do mar, mas não, o mar não é azul, Taehyung, é consequência de substâncias, bla, bla, bla — você resmungou me imitando e apertando os lábios depois, me fazendo rir mais uma vez — Ah que grande baboseira isso de substâncias, Nina. O céu, a Terra, o mar: é tudo azul sim.

— Você deu uma volta inteira para falar de azul de novo, Taehyung. Você quem está sendo chato agora — falei rindo e você continuou ali, de braços cruzados, olhando para o teto e sendo irritantemente bonito, agora com um sorriso no rosto.

— Eu voltei a falar de azul, porque gosto de falar sobre você, Nina — respondeu, voltando a me olhar.

Ah, lá vem meu coração bater descontrolado de novo graças a você, Taehyung.

Te observei de volta, ali onde só havia eu e você, e sorri junto contigo.

Naquele momento eu entendi que, se eu tinha liberdade para te chamar de Sépia, você também poderia escolher qual tom eu era para você.

Newton já teve a sua chance de apresentar a sua própria teoria das cores.

Mas agora é a sua vez de apresentar a sua, Taehyung, e você pode sim começar pelo azul.


🔹



Como o que eu mais gosto nessa vida é contar histórias, aqui fica mais um pouquinho de uma:

Essa parte da Sweet Night nasceu agorinha, mas a vontade de falar sobre Sizígia, vem lá do meu ensino médio, em uma aula de Geografia, que é um assunto que eu amo muito, então sim, Sweet Night tem muitos elementos da natureza graças a esse encanto todo que eu tenho por Gaia 💚.

A ideia veio depois de uma aula em que falamos sobre a influência das fases da Lua no mar e eu só conseguia pensar em como isso tudo daria uma bela de uma história. Naquela época eu deixei passar porque eu estava completamente preocupada com vestibular e tudo mais e achei que era muita viagem minha pensar em uma coisa dessas naquele momento.

E eu demorei muito para gostar desse meu lado, mas acabei aceitando que não tem nada de errado em ver histórias onde não é muito comum se ver. Foi assim que nasceu Lua, esse trechinho de Sweet Night. A quem se interessar mais um pouquinho por esse assunto, na Wikipedia tem um resumão bem tranquilo sobre como funciona Sizígia e Quadratura e todo o fenômeno que é isso.

Sobre uma das fotos lá do comecinho: procurem por #MuseumofTheMoon e se apaixonem junto comigo por essa obra magnífica. Ainda vai ter muita coisa desse Universo incrível que a gente vive, por aqui em Sépia.


Assim como a Lua tem o espacinho dela lá em cima, agradeço vocês por permitirem que Sépia ocupe um espacinho no céu de vocês também.

Obrigada por viverem isso aqui comigo, ok?

Abraços, Polly

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