• scenery •
#864f18
Museu Nacional de Belas Artes - RJ/Brasil
"De acordo com o sistema de cores RGB, você era mais vermelho do que verde e bem mais que azul. De acordo com o meu sistema, você era os tons capazes de me aquecer independentemente de qualquer distância que existisse entre nós."
Foi dessa forma como o enxerguei pela primeira vez entre todos aqueles quadros e estátuas gregas.
Eu não sabia seu nome ou quem você era, não sabia sobre seus sonhos ou sequer sua cor favorita. Mas algo no que tu exalava me fez perder qualquer interesse em todas aquelas outras formas de histórias contadas naquele lugar. A boina sobre seus cabelos castanhos, os óculos de armação fina, a postura de algum personagem recém saído de uma obra impressionista. Por um tempo até me perguntei se você fazia parte daquela exposição já que se encaixava tão bem ali.
E se antes fosse alguma daquelas estátuas que agora ganhou vida? E se você estivesse cansado de apenas existir e decidiu viver?
Talvez estivesse exausto da monotonia de assistir todas aquelas pessoas lhe observarem todos os dias e decidiu pular para fora de alguma daquelas pinturas. Não sei se você tinha saído de algum pincel segurado por Manet ou Renoir, talvez por Monet ou Pissarro. Não me importava o autor, você era possivelmente a obra mais linda que eu já tinha presenciado. Uma obra viva, que respirava e existia e que emitia serenidade e de certa forma, curiosidade.
Você encarava uma pintura que eu sequer sabia o nome, porque a professora de história da arte havia a analisado minutos antes, mas eu preferi analisar você.
Será que eu seria presenteada com uma foto sua, ao lado de perguntas sobre o que eu enxergava naquela obra que você era? Cairia, afinal, na prova no final daquele mês, a questão sobre de que período você fazia parte? Eu esperava que sim. Mesmo que eu não soubesse às responder, eu poderia te observar um pouco naquele retângulo dentro de uma A4. Depois eu poderia chorar e me culpar pela nota ruim, mas poderia fazer aquela matéria novamente no próximo semestre, e quem sabe, se tivesse sorte, ver você novamente em um quadrilátero com todos os ângulos internos congruentes.
Passei a me questionar se você realmente estava ali ou se era apenas uma alucinação reverberando por meu cérebro e sendo captado apenas por minha retina, já que nenhuma pessoa ao nosso redor parecia o notar. E como ninguém parecia o ver ali? Você não fazia parte daquele cenário, você pertencia a ele. Queria eu me tornar um holofote e te iluminar, transformando-te no eixo daquela sala, fazendo todos girarem ao seu redor.
Que boba eu era de ter tantos pensamentos de alguém que eu sequer sabia quem era.
A professora de história da arte que mais parecia ter a minha idade, chamou atenção de nossa turma, nos guiando até a próxima sala. Segurei o folheto de programação mais forte do que era preciso e abaixei a cabeça te fitando pelo canto do olho enquanto passávamos por você. Levei a outra mão até a câmera pendurada em meu pescoço, me perguntei se deveria me permitir te fotografar. Minha mente se dividia entre aproveitar você estar daquele cenário, daquele museu, e abrir mão do registro, já que eu não deveria invadir seu espaço pessoal daquela maneira. Eu quis te olhar um pouquinho mais, guardá-lo pelo menos em minha memória, mas meu coração bateu afobado apenas por eu ter ganhado a virtuosa oportunidade de passar tão pertinho de você.
Ora, não era sempre que se presenciava um feito daquele, uma obra de arte ganhar vida diante seus olhos era um evento e tanto.
Abaixei a cabeça também porque estava com medo de você perceber que eu tinha perdido longos minutos daquela excursão lhe encarando. Mas poxa, você parecia ter tanta coisa, tanta história para contar. Algo me dizia que elas, suas palavras, eram pedacinhos luminosos que juntas resultaram em você e no que você acreditava.
Gabriela me cutucou, a professora fazia a chamada, queria saber quem estava presente. Apesar de levantar a mão ao ouvir meu nome, eu sabia que ali só estava minha casca. Porque meu câmbio, meu alburno e principalmente meu cerne, estavam na sala que eu deixei para trás, observando você.
Me arrependi de não ter o fotografado, de ter perdido aquela oportunidade. Será que eu teria outra chance?
Aliás, pensei e cheguei a conclusão que agora, talvez, você fizesse parte de outra área artística, a que não englobasse a pintura e escultura, estáticas e sem movimentos. Performance era sua nova casa, já que mesmo que eu o visse novamente, não seria como da primeira vez.
Arriscaria que agora você residisse sob o teto do Happening, talvez em parte, já que você não precisava da atuação do público para existir. Você sozinho tinha saído das telas e se trouxe a vida.
Kaprow que me perdoe, mas precisarei quebrar algumas regras do jogo. Será que você poderia performar mais uma vez a cena em que eu acabei de ver? Poderia permitir que eu o olhe novamente?
Me ofereço para ser seu público.
Aliás, você quer um público? Você deseja ser observado?
Que gafe a minha.
Percebi meu grupo se dispersar e Gabriela, antes de se afastar também, avisou que teríamos que fazer uma análise crítica de alguma obra como um dos trabalhos finais da disciplina. Quer arriscar qual obra eu queria escolher?
Ri sozinha com a minha bobeira. Óh céus, Catarina, isso é realmente sério?
Decidi me aproximar de uma pintura dali que parecia me observar. Ela também, parecia ter o olhar de quem queria pular para fora daquela moldura, o olhar de quem pedia socorro para se ver liberta. Será que vocês eram amigos, antes de você fugir daquelas grades? Será que ela te invejava? Será que ela tinha se apaixonado por alguém aqui do lado de fora? Será que ela tinha alguém por quem lutar?
— Joana D'arc — ouvi a voz rouca e de sotaque carregado me informar. Olhei para o ficheiro ao lado da pintura e confirmei a informação. Como eu não tinha a reconhecido? Era óbvio que ela tinha por quem lutar. Joana tinha um povo a proteger. Sem a armadura que eu já estava acostumada a vê-la, mas com o mesmo olhar determinado que ela carregava em qualquer que fosse a representação.
Pinturas falavam?
Porque enquanto Joana parecia pedir atenção para que aqueles que estivessem naquela sala ouvissem sua história e a de seu povo, você, isso mesmo, a obra recém renascida, agora me olhava por detrás de oclinhos dourados e de lentes redondas parecendo curioso do porquê eu encarava aquela outra obra com tanto afinco.
Com licença, deixa-me te fotografar neste momento? Deixa-me registrar essa sombra de interesse por mim, em seu olhar? Me permita te transformar em, além de uma memória minha, uma memória física e impressa em um pedacinho de papel?
— Kim Taehyung — você se apresentou e então a obra de arte foi batizada com nome, sobrenome e um sorriso arrebatador. Quase disse "Pedro Américo" em resposta, porque o nome do pintor daquela Joana havia sido a última coisa que tinha ocupado meu cérebro antes de encarar o homem ao meu lado. A caixa sobre meu pescoço parecia agora ser algo completamente vazio e branco e incapaz de gerar algum pensamento dentro de um nexo. E então, você, resultado de um momento de grande inspiração de Renoir, com seu sotaque pesado, arrastando um português esquisito, voltou a falar: — E você é?
— Catarina. — respondi, apenas.
Na verdade eu não era apenas Catarina. Eu era sua observadora, aqui, do outro lado do seu sorriso, sua fã. Aquela que não conseguia acreditar na possibilidade de você não ter vindo ao mundo por uma mistura de cores minuciosamente escolhidas a dedo, aliadas a muita dedicação de alguém talentoso e apaixonado pelo ofício que exercia. Aquela que estava há bastante tempo se perguntando como alguém como você poderia ser real em meio aquele planeta tão entediante e de pessoas que pensavam igual e agiam igual a todo momento. Você era surpresa, você era viver no imprevisível, você era você, Taehyung.
Quando eu te vi naqueles tons de marrom pela primeira vez, percebi que nem sempre o mundo precisa ser colorido para ser bonito.
Às vezes, ele pode ser apenas, sépia.
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notas
Édoaurd Manet, Pierre-Auguste Renoir, Claude Monet e Camille Pissarro são grandes nomes do estilo Impressionista, vulgo o meu favorito. O que me encanta nele não é só o fato de que nesse momento os artistas simplesmente quebraram com um tanto de coisas que eram ditas como regras no mundo das artes, e eu não sou lá muito fã de regras haha, mas o fato de terem como foco a fuga de transmitir uma mensagem moral/social para ter a atenção direcionada principalmente a luz solar e as cores. Duas das minhas obras favoritas são: "Woman with a Parasol" (1875) de Monet e "Le Pont Royal et le Pavillon de Flore" (1903) de Pissarro.
Sou apaixonada por esse estilo, e de alguma forma ele me lembra o Taehyung.
Allan Kaprow foi um dos pioneiros do conceito Performance, e criador do Happening. Esse cara foi um dos responsáveis por me fazer enxergar a arte como algo muito mais amplo do que a gente cresce ouvindo falar. Depois de o conhecer, passei a entender que arte é mais do que tintas e pedaços de papel. A arte é viva. E cheguei a conclusão de que o propósito da arte é ser sentida, independente da forma em que ela é feita.
Joana D'arc, de Pedro Américo é uma obra que faz parte do acervo do MNBA, e sempre me vejo a procurando quando estou por lá. Eu não sei explicar muito bem, mas alguma coisa nela me causa uma angústia, um sentimento de querer entender mais aquela pintura. Me arrepio toda vez que vejo aquele quadro haha
Fiquem bem e que esse período seja acalentado por tons de cores quentes, como a sépia.
Abraços, Polly.
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