• enchanted • I
canção de Taylor Swift
(indicação do Taehyung em 02 de nov. de 2015, via twitter)
nota da autora: como têm um tempinho que a sépia não é atualizada, só queria lembrar que não tem exatamente uma ligação entre os contos, ok? e, "quebrando" um pouquinho a ordem dos últimos serem só de solos do Tae, e voltando a ideia da sépia ser de várias situações o envolvendo, desta vez será inspirado em uma música indicada por ele.
Fiquem com mais uma possibilidade de um encontro entre a Nina e o Tae.
até, Polly ♥
#ffcbdb
Museu Histórico e Diplomático do Itamaraty - RJ/Brasil
I
Devia ser a terceira vez que eu lia o mesmo parágrafo do periódico e culpava minha falta de habilidade no idioma à consequência de não saber com certeza se estava entendendo a perspectiva do autor sobre o que ele dizia.
Eu até acreditava ter entendido, mas sabe Catarina, realmente não custava nada ter seguido o planner que dedicava 4 horas por semanas para aprender o idioma da Piaf.
Na mochila jogada no chão ao lado da minha cadeira, procurei pela caixinha dos airpods no bolso frontal. Os encontrando, levei aos ouvidos, dei play na minha última playlist e fechei os olhos ouvindo as 3 primeiras canções que apareceram no aleatório, todas em idiomas diferentes um dos outros.
Eu admirava pessoas que conseguiam estudar acompanhadas de música, independente de qual fosse o ritmo, porque eu não era uma delas e estava longe de ser.
Quando a interpretação de Laura e Anton começou a tocar em meu ouvido, eu declarei meu momento de estudo descendo por água abaixo já que agora tudo o que restaria no canto afastado da biblioteca seria uma Catarina olhando para o nada e resmungando, em um idioma completamente inventado por mim, enquanto estragava a bela voz da cantora.
Abri meus olhos e corri o olhar sobre os objetos sobre a mesa. Do notebook ainda aberto com o texto todo escrito no idioma oficial de Paris, fui para o leitor de livros digitais, depois para a pilha com três livros ao seu lado, e por fim para o meu caderno cheio de anotações confusas que nem eu entendia mais o que escrevi ali.
Eu era o caos em pessoa e ainda tinha dúvidas de como consegui sobreviver por 26 anos na sociedade com toda aquela falta de organização.
Não que a sociedade que nós vivemos não seja a coisa mais caótica de todas, claro.
Mas, por precisar de meia mesa para estudar — diga-se espalhar meu material por toda ela —, eu acabava me sentando sozinha no local mais distante da porta de entrada, para evitar atrapalhar quem tivesse o mínimo de organização e estudasse como uma pessoa normal. Eu enxergava aquela mesa como minha espécie de ilha pessoal, onde só havia eu e mais uma vez, o caos que eu causava quando precisava ligar meus neurônios e pensar.
Porém, daquela vez em específico, eu não estava sozinha. Pela primeira vez em anos eu aparentemente tinha visita em meu caos particular, e só o percebi sentado ali após vários minutos de procrastinação da minha parte.
Com o tronco levemente inclinado sobre um enorme livro, que eu arrisquei ser sobre História da Arte pela grande representação de A Coroação de Napoleão no centro de uma das páginas, naquele dia, você usava boina preta sobre os cabelos castanhos e camisa branca com gola henley. Com seus olhos escuros por detrás de lentes levemente arredondadas, me fitava.
Havia um leve rir em seus lábios, e aquilo foi o suficiente para em poucos segundos me fazer entender que eu não estava apenas cantando, como também havia acabado de repetir cada palavra, naquele meu francês terrivelmente sofrido, em voz alta.
Levei as duas mãos a frente da boca, e o vi aumentar o sorriso, balançando a cabeça de um lado para o outro, como quem achasse graça de toda a situação.
— Me desculpa... — sussurrei envergonhada, retirando os fones das orelhas.
E então, em silêncio, você voltou o olhar a pintura no livro e eu disfarcei uma explorada ao nosso redor. Em meio as mesas e as estantes altas repletas de volumes com lombadas coloridas, ninguém parecia muito interessado na mesa que antes eu considerava apenas minha, e que agora, ao que tudo indicava, seria nossa. Em outro momento, seguido por um lapso de egoísmo infantil, eu me sentiria incomodada por agora ter que dividir um espaço que por 6 períodos foi apenas meu, mas, tudo o que eu sentia agora era gratidão a todas as possíveis criaturas divinas ao notar que apenas uma pessoa ali teve o azar de me ouvir grasnar desafinada.
— La vie en rose? Gosta da Piaf? — o observei se virar em minha direção, largando o lápis de desenho ao lado esquerdo de seu sketchbook. Ao ver a capa dura com a representação de uma das pinturas de Monet, controlei a vontade de perguntar se comprou ou se fez você mesmo.
O vi reclinar o braço sobre o encosto da própria cadeira e sorri sem jeito, porque percebi, mesmo com certo delay, que aquela sua pergunta acabara com a minha pequena porcentagem de chance de não ter tido você como plateia segundos antes.
— Desculpa pelo o que você ouviu, eu não sei falar nada — ri anasalado, e me senti boba ao me ouvir. Você franziu a sobrancelha, inclinando a cabeça levemente para um dos lados, e vi um sorriso meio sacana chegar em seu rosto.
Aquele seu gesto me fez enrugar o nariz envergonhada. Eu estava começando a ter a sensação de que a cada minuto que passava, eu só parecia mais patética para você.
— Estranho... me pareceu que você sabia muito bem o que estava falando — apertou os lábios e suspendeu as sobrancelhas, simultaneamente.
Em um gesto meio tímido, abaixei um pouco a cabeça fitando minha letra redonda em meu caderno. De relance vi o nome de Percier e Fontaine escrito pelo menos umas 4 vezes pela página, mas eu não conseguia assimilar nada. Inclusive em relação a você, porque meu cérebro realmente não entendia se você falava sério ou se estava zoando com a minha cara. E o fato de me encarar com um semblante tranquilo, me deixava mais confusa ainda.
Desde aquele primeiro momento, notei que tinha algo de diferente em você. Algo que de primeira eu não soube descrever, mas que me deixava meio lenta, com aquele ar de quem tinha acabado de ser reprogramada a se mover em uma velocidade menor do que o resto do mundo ao redor.
Mas, diferente de como se movimentava o universo do lado de fora, aqui dentro de mim, meus sentimentos poderiam ser representados por um corredor ultrapassando outro nos segundos finais de uma maratona.
— É... La vie en rose — respondi sua pergunta, levemente atônita. Por fim, ali, não me importava mais a minha falta de fluência. Você já tinha me ouvido por tempo o suficiente para tirar suas próprias conclusões.
Ainda com os lábios pressionados, você assentiu com a cabeça. Com o 6B de volta em mãos — que eu confesso ter me surpreendido com o fato de você conseguir usa-lo para fazer anotações sem que o papel a sua frente se tornasse um festival de manchas de digitais —, rabiscou algo no canto de seu caderno.
Desculpe-me a falta de privacidade, mas me perdi um pouco observando seus vários desenhos. Fruto da curiosidade de conhecer mais sobre você, acredito eu, porque não tem maneira melhor de conhecer a mente de um artista do que olhar seus esboços.
"A arte não é o caos, mas uma composição do caos." diziam Deleuze e Guattari.
Quando dei por mim, percebi que talvez para você, fosse como se o nosso pequeno e esquisito diálogo nem sequer tivesse acontecido. Você voltou sua atenção ao livro quadrado e colorido à sua frente, e pareceu ignorar completamente minha presença, muito mais preocupado com o próprio caos particular.
Provavelmente era só o que você estava fazendo antes de ser atrapalhado por minha cantoria desajeitada. Aparentemente, meu dom de interromper o espaço dos outros continuava intacto. Respondi aos meus pensamentos, com uma careta.
Chequei a hora no vidrinho retangular em meu punho, e me surpreendi ao perceber que caso não saísse nos próximos 5 minutos, perderia o próximo ônibus rumo ao centro da cidade e gastaria um bom tempo fazendo baldeação com pelo menos outros dois.
Ainda atraída por aquele halo solar que parecia te contornar, olhei de relance para ti, mas era como se você já não estivesse tanto quanto antes naquele sistema. Digo, sua presença se marcava ali, era óbvio, mas era como se estivesse tão imerso com o conteúdo do livro em suas mãos, que se o teto desabasse a poucos metros de distância, não teria tanta importância quanto o motivo das cores utilizadas por Jacques-Louis David naquela representação.
Automaticamente, percebi que a falta de importância naquela cena me incluía também.
Não que eu fosse algo que pudesse causar interesse em você.
Mas bem, eu não reclamaria se pudesse, só, por assim dizer.
Ri.
Não viaja, Catarina.
Eu deveria parecer uma idiota, ali, sorrindo sozinha, achando bonitinho aquela inocência que você transmitia ao parecer tão envolvido com as cores à sua frente. Não que eu tivesse deixado de apreciar a arte, mas, olhando para como você parecia absorve-la, me vi em dúvida se havia um grande abismo entre senti-la e conhecê-la.
Afinal, do que adiantaria eu saber que Napoleão construiu um Império que não só modificou a França, como teve influência no mundo inteiro, se eu não conseguisse me sentir tocada pelo olhar das pessoas naquela pintura?
Inveja? Surpresa? Admiração?
Te olhando eu entendi que se alguém consegue se ligar a obra antes mesmo de estudá-la, já existe um grande passo para entender a verdadeira história da arte.
Quis saber de qual período da faculdade você era, porque apesar dos longos corredores e vários andares, não me recordava de alguma vez ter esbarrado com você.
Quis também te contar um pequeno segredo, para que você, diferente de mim, não perdesse aquela empatia e colocasse tanto peso no que foi registrado em livros por outras pessoas. A arte antes de tudo, tem o poder te falar mesmo sem palavras, e é mágico quando você entende o recado só de olha-la.
No silêncio da biblioteca, o tic-tac do meu relógio se fez presente, me trazendo de volta de seja lá onde eu estava. Joguei as canetas em meu estojo, juntei o notebook, meus livros, caderno e o leitor digital, e os coloquei na mochila no máximo que eu, Catarina, conseguia chegar próximo de organizado. Antes de fecha-la, tirei o cartão do ônibus o guardando no bolso da jardineira, apoiei uma das alças no ombro e me levantei, empurrando a cadeira da maneira mais silenciosa que pude.
No meio do meu caminho, parei ao lado de uma estante, e me permiti poder te olhar por mais uma última vez.
Você rabiscava no caderno parecendo bastante concentrado, mas, como se percebesse ser observado, levantou a cabeça a movimentando lentamente de algum ponto da esquerda para direita, como se procurasse quem estava tentando te entender.
Antes que você pudesse me encontrar ali, apertei os dedos na alça da bolsa e rumei meus cortunos em direção a porta de saída.
Te ver ali, me fez encontrar a resposta para a minha dúvida.
Naquele nosso primeiro contato, eu percebi que não precisava te conhecer para me sentir encantada com o que você me transmitia.
Assim como deveria ser na arte, era só te olhar para entender o recado.
•
notas
No conto têm bastante influências sobre o movimento Neoclassicismo (inclusive o museu lá em cima que eu amo demais!!! ) simplesmente porque é o estilo que estou estudando por esses dias e eu estou completamente apaixonada haha
Sobre algumas figuras importantes que apareceram por aqui:
Laura & Anton: Ai ♥ Esses dois foram uma descoberta maravilhosa nos meus passeios pelo Youtube. Não tem uma interpretação deles que eu não seja apaixonada e eu acho tão a carinha do Tae. Além do cover de La vie en rose, recomendo o cover de Stranger in paradise para quem tiver vontade de conhecer um pouquinho mais o trabalho deles.
Edith Piaf (1915–1963): Essa mulher!!! Meu Deus, como eu amo a Piaf. Além de La vie en rose, outras duas músicas que eu sou apaixonada são Plus bleu que tes yeux e Sous le ciel de Paris. A história de vida da Piaf é fortíssima, e o seu impacto e a contribuição à música francesa, são surreais.
A Coroação de Napoleão, por Jacques-Louis David (1748–1825): David foi um grande representante do Neoclassicismo e pintor oficial da corte francesa e de Napoleão Bonaparte. Minha pintura favorita dele é o Retrato de Madame Récamier, que fica no Museu do Louvre. Eu sou completamente apaixonada por assentos e suas histórias e acho que essa pintura se tornou uma das minhas favoritas por ter dado origem ao nome de um dos meus móveis favoritos.
Charles Percier (1764–1838) e Pierre Fontaine (1762–1853): eram muito amigos e colegas de profissão e estão entre os fundadores do estilo Neoclássico Imperial francês. Eles foram nomeados por Napoleão como seus arquitetos pessoais então praticamente todos os móveis e construções do estilo Napoleônico são de autoria deles. Gente, sério, eu sou apaixonada pelas criações dos dois, é tudo magnífico.
Gilles Deleuze (1925–1995) e Félix Guattari (1930–1992): foram dois filósofos e eu fui apresentada a eles bem no comecinho da minha graduação. Eles têm uma maneira de enxergar a arte que me chamou a atenção demais desde o primeiro momento, e por isso a frase, que sempre vai e volta na minha cabeça, "A arte não é o caos, mas uma composição do caos" apareceu aqui. Eu, Polly, a entendo como se o caos fosse o elemento inicial de tudo, e que a arte é de alguma forma, aquela que luta para encontrar um momento de epifania no meio da confusão de pensamentos do artista. Todo pintor, compositor, escritor, artistas no geral, se sentem um pouco confusos no momento de criação, e eu acho que essa frase representa muito isso.
Tem um tempo que eu não atualizo aqui e é bem louco pensar que o mundo lá fora ainda continua o mesmo caos de antes. Queria contar para a Nina que aqui ta todo mundo se sentindo tão caótico quanto ela.
Espero que em meio à situação que estamos vivendo, esse novo conto da sépia seja um afago no coração de vocês.
Se cuidem, tá bom?
Abraços coloridos, Polly ♥
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