CAPÍTULO QUINZE
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INEJ GHAFA ERA MUITAS COISAS. Um covarde não era nada disso. Ela esteve com Kaz por anos, cuidando dele, de Kira, de Jesper. A Espectro era seu investimento mais leal, sua amiga, mesmo que ele não gostasse muito de admitir. Kaz odiaria vê-la partir, especialmente quando os olhos de Kira ainda não haviam se aberto.
Ela não dormiu por muito tempo e, mesmo que tivesse acordado, Kaz não saberia. Ele não tinha pisado no celeiro desde que saiu. Ele não suportava vê-la tão imóvel, sem sua luz habitual. A saída de Inej pareceu a sua aceitação de que Kira não iria acordar. Era ela confirmando que não confiava nele, para tirá-la do Menagerie. A partida de Inej foi o começo do fim.
Sua tripulação estaria reduzida a uma Sussurradora inconsciente, um atirador de elite e ele mesmo. Kaz teria que lidar com Jesper sozinho, ainda por cima com sua sanidade se esvaindo a cada momento que Kira não acordava.
── Você está com fome? Ou apenas dizendo adeus? ── Kaz perguntou, olhando por cima do ombro enquanto Inej se aproximava dele, onde ele estava sentado em frente ao fogo e assando o jantar.
Inej não disse nada por alguns momentos, seus olhos castanhos, tão escuros que quase pareciam pretos, olhando para ele com algum tipo de compreensão que era totalmente indesejável. Então ela estendeu a mão para ele e entregou-lhe a bengala que havia sido quebrada em algum momento durante o caos dos dias anteriores.
── Jesper consertou sua bengala.
Kaz agarrou-o, colocou-o no chão e assentiu.
── Então, você está saindo.
── É isso? ── sussurrou Inej. ── Depois de tudo, não há mais nada que você queira me dizer?
── O que mais há? ── perguntou Kaz, sem tirar os olhos do fogo, brilhando na escuridão da noite.
Inej não foi embora. Ela ficou lá, sem dar um passo para longe dele. Kaz a ouviu suspirar alto e conseguiu imaginá-la balançando a cabeça para ele.
── A cor está voltando ao rosto dela, Kaz. Kira vai acordar logo. Tenho certeza.
Seus olhos se ergueram para encontrar os dela, e ele sentiu algo apertar em seu peito, algo que parecia muito com alívio. Ele não falou por alguns momentos e então assentiu. Inej deu a ele um sorriso tenso e se virou para sair, apenas para parar quando ele a chamou.
── Você estava certa.
A sobrancelha de Inej levantou levemente quando ela se virou para ele novamente.
── Sobre o que?
Sua mandíbula apertou, mas ele não ficou em silêncio.
── A Conjuradora do Sol. Você estava certa. Ela é real.
Ele observou enquanto Inej se aproximava dele novamente e se sentava em uma tora ao redor do fogo. Ouvindo a rara ocasião em que ele admitiu que estava errado. Os ferimentos de Kira estavam realmente bagunçando sua mente.
── Eu repassei isso várias vezes na minha cabeça. Nada disso é um truque. A luz era dela.
── Então, o que? ── perguntou Inej, olhando para ele com ceticismo. ── Kaz Brekker finalmente acredita em Santos?
O canto de seu lábio se ergueu em um pequeno sorriso. Uma santa. Uma santa manchada de sangue nascida do caos e da luz.
── Dificilmente.
── Mas você acabou de dizer que-
── Eu disse que Alina Starkov é uma Grisha com o poder de manipular a luz. Ela é uma garota com um dom, não uma salvadora do conhecimento.
── Tudo bem. Kaz, se não em santos, em que você acredita?
Os olhos de Kaz se desviaram dos dela e ele olhou de volta para o fogo.
── Eu mesmo...
── Por que eu perguntei?
── Kira. ── ele acrescentou humildemente, e quando ele olhou de volta para Inej, seus olhos se suavizaram, e um pequeno sorriso estava pintado em seus lábios. ── E você, e Jesper. Meus Corvos.
── Porque nos reunimos para obedecer a sua ordem? Como os animais de vingança, você nos deu o nome?
── Os corvos não se lembram apenas dos rostos das pessoas que os injustiçaram. ── disse Kaz. ── Eles também se lembram daqueles que foram gentis. Eles dizem uns aos outros quem cuidar e quem cuidar. Apenas um santo já cuidou de mim. E ela está morrendo dentro daquele celeiro. Fora isso, nenhum outro santo jamais cuidou de mim. Não como você.
Inej respirou fundo, enquanto olhava para longe, e agarrou o pedaço de tecido que era seu colar. Ela levou alguns momentos antes de olhar para ele.
── Kira vai acordar, Kaz.
── Eu sei.
── Ela vai acordar. ── disse Inej, mais ferozmente e Kaz assentiu.
── Eu sei.
Eles ficaram em silêncio, apenas o crepitar do fogo para ser ouvido. Kaz sabia que Kira acordaria. Ele tinha que saber disso, caso contrário... Caso contrário, seria Jordie tudo de novo. Ela seria outro fantasma sussurrando em seu ouvido, outro demônio afogando sua alma. Kaz não precisava nem queria perdão ou redenção por seus pecados, mas se Kira morresse... Ninguém mais no mundo olharia para ele como ela. Ela olhou para ele como se o visse. Todos os seus crimes, todos os seus erros, todo o sangue manchando seu corpo porque certamente não parou em suas mãos, tudo isso, e ela sorriu brilhantemente para o monstro que ele criou. Ela o amava. Ele, Mãos Sujas. Ele, o Bastardo do Barril. Ele, Kaz Brekker. Ele, Kaz Rietveld. E esse pensamento foi assustador
── Eu não posso voltar para o Menagerie. ── Inej quebrou o silêncio e os olhos de Kaz se ergueram para encontrar os dela.
── Você não vai.
── Kira está acordando! ── a voz de Jesper foi ouvida ao lado dela e em um segundo Inej e Kaz pularam de pé. ── Poderemos partir ao amanhecer.
Os olhos de Kira se abriram alguns minutos depois, enquanto eles estavam ao seu redor dentro do celeiro, a luz das velas ao seu redor iluminando as manchas verdes em seus olhos. E um peso saiu do ombro de Kaz enquanto ela fazia uma careta para eles.
── Espero que você não tenha me encarado assim a noite toda. ── ela resmungou, antes de tossir algumas vezes e limpar a garganta.
Jesper soltou uma gargalhada e Inej balançou a cabeça em diversão. Kaz ficou parado, sem tirar os olhos dela.
── Você nos deu um grande susto, sua alteza. ── disse Jesper. ── Você parecia adorável como um cadáver, no entanto.
── Cala a boca, Jesper. ── retrucou Kaz. Jesper levantou os braços em sinal de rendição.
── Como você está se sentindo? ── Inej perguntou enquanto ajudava Kira a se sentar.
Os olhos de Kira olharam para Kaz, dando-lhe um pequeno sorriso antes de se virar para Inej novamente com uma carranca.
── Eu me sinto bem. Envergonhada no máximo. Eu fiz um belo discurso no leito de morte para Kaz e agora estou viva para que ele o mantenha sobre minha vida para sempre.
Kaz revirou os olhos.
── Fico feliz em ter você de volta, Sussurradora. Agora, quanto tempo antes que você possa viajar?
Com isso, Kira caiu na gargalhada, e o sorriso que ela deu a ele foi tão brilhante que Kaz morreria para vê-la sorrir para ele daquele jeito novamente.
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── Quantos são?
── Dois. ── respondeu Kaz enquanto os quatro jaziam no chão atrás de uma carroça abandonada. Os três tentaram convencer Kira a ficar na taverna em Kribirsk, mas ela recusou, dizendo que estava cem por cento curada. Kaz escolheu acreditar nela, mesmo que, quando ela se levantou, ficou claro que ela se sentia fraca.
O trem em que haviam cruzado a dobra estava agora sob vigilância de dois soldados do primeiro exército.
── Em algum momento, um deles terá que contar a um superior o que encontrou. ── disse Kaz. ── Nós vamos entrar então.
── Não quero ser essa pessoa, Kaz, ── disse Jesper. ── mas você tem certeza de que pode dirigir essa coisa?
Kira soltou uma risada baixa à sua direita e Kaz a encarou.
── Sim. No caminho para Kribirsk, enquanto você estava ocupado abraçando a isca...
── Milo. ── Jesper e Kira o corrigiram ao mesmo tempo.
── O nome da cabra era Milo. ── acrescentou Jesper.
── ...Eu estava memorizando os horários de Arken. ── disse Kaz. O que era verdade. Mas ele também esperava que Kira entregasse a caixa de metal para ajudá-los a passar mais rápido ─ Jesper não tinha controle suficiente sobre suas habilidades como Kira.
── Não quero te atacar, mas Jes tem razão. ── Inej disse hesitante. ── O sistema de Arken era complicado e o passeio era caótico. Ninguém iria culpá-lo por perder uma contagem.
── Jes? ── foi a resposta de Kaz.
── Santos, Brekker. ── Kira disse com um suspiro enquanto Jesper acrescentava rapidamente:
── É Suli, pela amizade.
── Não, não é. ── Inej e Kira responderam ao mesmo tempo e Kaz teve vontade de revirar os olhos.
── Confie em mim. ── disse ele. ── Arken e eu pensamos da mesma forma.
Ele tinha acabado de falar quando o trem explodiu e Kira caiu na gargalhada bem nesse momento que Kaz estava começando a desejar que ela continuasse dormindo. Ele abaixou a cabeça em aborrecimento e desespero por sua viagem perdida pela Dobra.
── Muito cedo para apreciar a ironia, estou certo? ── perguntou Jesper.
── Nunca. ── Kira respondeu enquanto se acalmava de sua risada. Ela então deu a Kaz um sorriso divertido, como se estivesse lutando contra outra onda de riso. ── Acharemos outro jeito, Mãos Sujas. Quando não achamos?
── Estou completamente arrependido de ter salvado você. ── Kaz murmurou baixinho.
O sorriso de Kira se alargou.
── Você tem um jeito estranho de flertar, sabia disso?
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── O esquife ainda está aqui. ── disse Kira ao encontrar os três, no quarto que ela convencera o dono da taverna a emprestar. ── Os viajantes lá embaixo estão reclamando muito. Eles deveriam atravessar esta manhã, mas...
── Ordens do General Negro. ── interrompeu Kaz. ── Ele planeja cruzar amanhã.
── O general? ── perguntou Jesper. ── É o mesmo general que tentou... Oh, sim, matar todos nós. Aquele?
── Ele tem a Conjuradora do Sol. ── disse Kaz enquanto Kira se sentava em cima da mesa na frente dele, mexendo no anel em seu dedo como ela fazia quando estava preocupada. Kaz não podia culpá-la. Seria a terceira vez que ela cruzaria a Dobra. Qualquer homem são estaria tremendo em suas botas.
── Esse era o seu plano o tempo todo? ── Inej perguntou, olhando para ele com os olhos apertados. ── Para que o general a traga de volta para que você possa levá-la de novo?
── Meu plano é nos levar através da Dobra. ── Ele olhou para Kira antes de desviar o olhar do perfil lateral de seu rosto. ── Não estamos preparados para outra luta.
── Então você não vai tentar outra vez em Alina? ── Inej pressionou. ── E você está realmente disposto a abrir mão de um milhão de kruges?
── Kaz sabe que não podemos fazer isso sem você. ── respondeu Kira.
── Venho dizendo isso desde o primeiro dia. ── acrescentou Jesper.
Kaz relutantemente assentiu. Com Kira sendo ferida, mesmo que ela se recusasse a admitir, eles nunca seriam capazes de continuar com o trabalho. Principalmente sem a Inej. Além dela, eles não eram um grupo exatamente conhecido pela sutileza. Eles reinaram causando estragos, não mimando o silêncio.
── E você deixou sua posição perfeitamente clara. ── Kaz falou.
── Então tudo o que você quer é cruzar a Dobra?
── Assim que pousarmos em Novo-Kribirsk, é sua escolha o que fazer a seguir. ── Kaz assentiu.
── Ok. ── Inej respondeu e Kira se levantou da mesa envolvendo um braço em volta da Espectro.
── Não é bom enfrentar a Morte como uma família? ── ela perguntou a eles e isso pareceu trazer Jesper de volta à realidade.
── Espere. Estamos falando de embarcar em um barco com pessoas que vão nos reconhecer? Pessoas que não gostam muito de nós? ── ele perguntou com uma careta.
Kaz se levantou.
── Teremos que nos misturar. Quem mais estava naquele barco?
── Algumas pessoas da festa de inverno. ── Inej respondeu e Kira assentiu. ── Dignitários de Kerch e Novyi Zem voltando para casa.
── Agora eles são o público de mais um show de luzes. ── Kaz murmurou, e então ele olhou para Jesper, uma ideia fermentando em sua mente. ── Jesper, você gostou de interpretar um guarda zemeni?
E assim seu plano foi posto em ação. Eles conseguiram interceptar um dos dignitários Zemeni e seus homens, roubando suas roupas e documentos enquanto Kira foi roubar um vestido para si mesma. Ela teria que passar pela recém-adquirida esposa Ravkan do dignitário, que, infelizmente, havia esquecido seus documentos.
── Você parece bem. ── disse Inej enquanto Jesper se afastava do espelho.
── Oh, eu pareço mais do que bem. ── Ele soltou uma risada.
── Eu fiz algumas edições em seus papéis. ── disse Kaz distribuindo os papéis enquanto Kira voltava para a sala usando um vestido verde esmeralda. Ele limpou a garganta. ── Deve ser o suficiente para passarmos pelo posto de controle e entrarmos no esquife.
Jesper se abaixou para ver seu documento e franziu a testa.
── Huh? Ninguém nunca vai acreditar que eu sou tão velho.
── Diga isso a si mesmo. ── disse Kaz antes de se virar para Kira. ── Tem certeza de que pode passar sem os documentos?
Ela não se preocupou em responder a sua pergunta e apenas revirou os olhos. E essa foi a melhor resposta que ele poderia ter pedido. Talvez sua arrogância fosse um pouco exagerada, mas quando ela já havia falhado em persuadir um homem a aceitar suas ordens?
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Jesper entregou os documentos ao homem sentado no posto de controle. Seu braço estava em volta da cintura de Kira e Kaz estava carrancudo com a visão.
── Eu sei. Eu pareço incrível para a minha idade. ── disse Jesper com um sorriso presunçoso.
── Bem, eu pensei que você parecia mais velho. ── o homem respondeu antes de seus olhos caírem sobre Kira, que tinha o cabelo preso por um enorme chapéu, com flores decorando-o. ── Senhora, preciso ver seus documentos.
── Receio que isso não seja possível. ── Kira respondeu, fazendo sua voz soar desapontada. ── Meu pai está com eles. Ainda não contamos a ele sobre nosso... ── Sua voz sumiu e ela deu um sorriso hesitante enquanto levantava a mão onde em seu dedo havia uma aliança de casamento falsa. ── Mas você não vai acabar com um casamento, vai? Esta viagem, através da Dobra...
A voz de Kira falhou e ela começou a respirar pesadamente antes de olhar para Jesper com desespero em seus olhos. O último lhe deu um sorriso tranquilizador antes de estender a mão para enxugar uma lágrima que havia caído em sua bochecha por ordem.
O homem no posto de controle limpou a garganta.
── Está tudo bem senhora. Você está segura para continuar.
── Oh, obrigado. ── Kira disse com um enorme sorriso e Jesper tirou o chapéu.
Kaz e Inej os seguiram, mas os quatro pararam quando os sussurros ao redor deles ficaram mais altos e eles se viraram para ver o Darkling e Alina Starkov saindo de uma tenda. A mandíbula de Kaz apertou e ele olhou para os outros três, mais especificamente para Inej.
Ela assentiu.
── Eu sei. Não até Novo-Kribirsk.
Com isso, eles deram meia-volta e embarcaram no esquife. Colocando-se em um canto recluso longe das massas. O General e sua Conjuradora logo embarcariam também, e eles se prepararam para atravessar a escuridão diante deles.
── Boas notícias? É tão assustador quanto eu me lembro. ── disse Jesper.
── Só que desta vez vamos entrar completamente expostos. ── acrescentou Inej.
── Se estou destinado a morrer hoje ── Jesper murmurou quando um rosnado foi ouvido de dentro da Dobra. ── e algum de vocês três sobreviver, certifique-se de que eu tenha um caixão aberto.
Kira soltou uma risada baixa sem humor, seu corpo tenso enquanto ela ficava ao lado de Kaz. Ele respirou fundo antes de envolver o dedo em uma das luvas dela. O tecido das luvas dele e dela era suficiente para manter os monstros afastados, isso e o olhar caloroso no rosto de Kira quando ela olhou para ele com os lábios entreabertos pelo pequeno contato entre eles. Ela estava olhando para ele como se ele a tivesse beijado. E o pior é que ele queria e não conseguia. Não sem se jogar de volta na água gelada, não sem ver seus olhos sem vida enquanto ela se tornava outro corpo do qual ele tinha que escapar. Então ele manteve o que conseguiu e foram seus dedos entrelaçados através de camadas de tecido.
Ele desviou o olhar dela e olhou para sua destruição iminente.
── Ninguém está morrendo hoje. Sem luto...
── Sem funerais.
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um. Eu sei que disse que talvez vocês teriam atualização três dias seguidos, a palavra chave foi talvez.
Eu acabei perdendo esse capítulo e tive que traduzir de novo...
dois. A história está em primeiro lugar em #kazbrekker e está com quase 2k de visualizações!! E como um presentinho irei postar o último capítulo do ato um ainda hoje.
três. Não se esqueçam de votar no capítulo!
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