Um drink do inferno
YONSEI University — Coreia do Sul
Domingo – 31 de Outubro.
Demorei para respirar depois que acordei.
Era como estar em um pesadelo, o ar entrava pelas minhas narinas, mas não chegava aos meus pulmões. Arfei, levando as mãos até o pescoço, mas os meus dedos se embolaram um bocado de fios loiro-claro.
O ar voltou, mas eu ainda respirava como uma necessitada. Toquei as minhas bochechas, olhos e boca, e não precisei ver no espelho para saber ser ela. Eu estava no corpo de Jisoo.
A parte tolerável era que, dessa vez, não acordei com nenhum garoto ao meu lado, estava vestida, debaixo das cobertas, mas um cansaço saudoso me fez ficar alguns minutos na mesma posição enquanto as memórias do dia anterior voltavam gradualmente. Por mais que eu tentasse procurar uma lógica para tudo isso, eu não conseguia, não saía do lugar.
Um bolo de angústia cresceu na minha garganta, mas tentei não chorar, não daria esse gostinho a quem estivesse por trás disso.
O celular de Jisoo estava em cima da bancada, dia 31 de outubro, Halloween. Havia duas mensagens de Rosé, reclamando porque o namorado escolheu uma fantasia de casal "Arlequina e Coringa" para a festa de mais tarde, tão inovador... A última mensagem era minha: "Enrole Rosé o máximo que puder, chego às 14h, beijos."
O armário de Jisoo diferia do de Rosé em paletas de cores, todos os vestidos eram estampados, como se Jisoo acordasse em um filme da Disney. A porta do banheiro estava aberta, conferi todos os armários, boxes e embaixo das camas, para ter certeza que não seria assassinada por alguém à espreita, antes de trocar de roupa.
Eu iria até a única pessoa que me ajudaria a descobrir quem estava me matando.
﹝•••﹞
Sair das áreas reservadas às irmandades era sempre um choque de cultura. Fora dela, os carros esportivos davam lugares a bicicletas presas a cadeados enferrujados, mas em compensação, as pessoas pareciam mais receptivas e felizes.
Apressei o passo ao atravessar a rua, segurando o vestido godê ao mesmo tempo que mantinha a pequena bolsa perto de mim. Tentei não pegar pesado na maquiagem, para me misturar aos outros, mas no fim não fez muita diferença. Jisoo pareceria rica mesmo que eu usasse jeans surrados e camisa de flanela. Além do mais, Lisa não me reconheceria nesse corpo nem se eu colocasse uma placa escrito "Jennie Kim" na testa.
Diferente de Kai, que provavelmente estava virado de MD, Lisa era muito racional, racional até demais.
Era isso que eu precisava no momento, racionalidade. Alguém que pensasse de forma inteligente e me desse luz, qualquer luz. Respirei fundo, entrando na biblioteca da universidade pela primeira vez desde... desde que passei no vestibular, acredito. Foi fácil encontrar Lisa nas intermináveis prateleiras de livros, era só perguntar onde as pessoas que realmente estudavam ficavam e violá! Lá estava ela.
Lisa amarrou os cabelos loiros num coque preguiçoso e, à sua volta, vários refis de cafés jogados evidenciaram o vício voraz pela bebida. Os all stars estavam jogados e as pernas formavam uma posição de índio. Tudo nela era característico, os jeans surrados e o blusão, a franja, e os olhos indo e vindo pelo livro aberto em cima da mesa. Seria mais fácil apenas observá-la de longe, mas eu precisava de ajuda.
Limpei a sujeira invisível no meu vestido e caminhei até ela, parando em frente a sua mesa lotada de refis de café.
— Precisamos conversar — sussurrei.
Queria que de alguma forma, Lisa notasse um timbre familiar, que visse quem estava debaixo dessa casca, mas ela levantou os olhos e tomou um susto, quase derrubando o último café que tomava.
— Você deve ser da Kappa Kappa Tau — ditou ela, preguiçosa. Era tão visível assim? — Eu não faço trabalho de faculdade por dinheiro, e não, não sei hackear o sistema de notas do seu professor.
E voltou a ler o livro.
— A Jennie... Jennie está meio ocupada e... — me embolei nas palavras.
— Ah, você conhece a Jennie? — Lisa me olhou novamente, levantando os óculos que escorreu pelo nariz. — Ela está ocupada na manicure? Fazendo chilique por nada? Fingindo ser feliz bebendo até desmaiar ao redor de um bando de araras de saia rosa pastel para vir até aqui e me pedir des...
— ...Ela está morta — falei.
O queixo de Lisa se desprendeu do maxilar.
— Se isso for uma das brincadeiras...
— Não! Você sabe que eu também não gosto desse tipo de brincadeira! — Abaixei o tom de voz ao receber olhares sorrateiros, e sentei na única cadeira disposta à sua frente. — Eu sei que pode parecer maluquice, mas sou eu, Jennie. Faz dois dias que estou sendo morta.. e quando acordo estou em outro corpo, eu não sei mais em quem confiar e não quero ser assassinada de novo, tem um idiota me matando dentro da Kappa e...
— Caí fora da minha mesa. Agora! — Lisa apontou para a saída.
— Me dê dois minutos! — implorei. — Eu posso provar!
Lisa fechou os olhos com força, massageando as têmporas em um: "desembucha logo antes que eu grite por ajuda."
— Nós fazíamos filosofia greco-romana juntas, você precisava de dinheiro, então aceitou meu pedido um tanto quanto desesperado para me dar aulas-extracurriculares...
— Jennie pode ter te contado isso.
— .... Você não usa sutiã porque acredita que a vida é curta demais para vestir algo que incomoda, ama calcinhas de vó mesmo que eu tenha dito ser brochante mais de mil vezes. Você ama dançar quando ninguém está vendo e tem todas as temporadas de Friends baixadas no seu celular. Você não gosta quando eu bebo porque seu irmão mais velho morreu de coma alcoólico... e odeia irmandades porque ele também era de uma, o nome dele era Bambam. Esse colar foi a última coisa que ele te deu antes de vir pra cá. — Apontei para o pequeno quartzo no pescoço dela. — Quando acabamos de transar, eu peço para você deitar de costas, porque eu amo ver a constelação de pintinhas nas suas costas, você cantarola aquela música da Adele no banho e ama falar de signos mesmo não acreditando nadinha. — Parei de falar por alguns segundos. Lisa me olhava em um misto de incredulidade e surpresa. — Você diz que eu só te amo quando estou bêbada, por isso deixa a porta destrancada todo fim de semana, porque sabe que meu destino é na sua cama.
Os olhos de Lisa se encheram d'água e ela limpou as lágrimas fujonas com a manga da blusa. Respirou fundo, não deixando de me encarar nenhuma vez sequer, como se esperasse que eu arrancasse aquela fantasia de Jisoo.
— A Jennie de verdade saberia que eu só deixo a porta destrancada porque ela fez questão de jogar minha chave fora. — Ela disse, segurando o choro.
— Eu só queria que você não tivesse desculpas para quando eu viesse te procurar. — sorri. Era tão gratificante e libertador ter alguém acreditando em mim, por mais inacreditável que fosse. — Por favor, Lisa, me ajuda a sair dessa. — Apertei as mãos dela, estendidas na mesa.
— Vamos sair daqui, eu preciso ter certeza. — Ela recolheu os livros da bancada.
Apressei o passo para alcançá-la.
﹝•••﹞
Lisa sonhava em ser médica para voltar para o mesmo fim de mundo onde nasceu e ajudar os pobres e oprimidos. Era quase uma reencarnação de Gandhi. Seu sotaque e os óculos de aros finos foram a primeira coisa que me chamaram atenção. Odiava admitir que no fim das contas eu aprendi filosofia greco-romana, que fingia estar bêbada para não ter que explicar porque gostava tanto do quarto dela e, que no meio de toda essa maluquice, ela era a única pessoa que eu poderia contar.
— Isso é bizarro! — Lisa apalpou o meu pescoço. — Sua traqueia está na etapa proliferativa, começando a reconstituição dos vasos sanguíneos e linfáticos... mas não faz sentido, isso demora umas duas a três semanas, e externamente tá tudo perfeito!
Remexi desconfortável.
— Talvez não dê tempo de arrumar tudo em doze horas... vai saber.
Estar sem roupa na frente de Lisa, no quarto dela, sempre indicou outra coisa, menos naquele dia. Eu estava com ciúmes, Lisa examinava aquele corpo que, na teoria, não era meu.
— Abre a boca. — Ela pediu, enfiando o palito mais fundo na minha garganta.
— Eo amo uado oe me ede esso... — Ela tirou o palito da minha boca. — Eu amo quando você me pede isso — repeti.
— Por deus, Jennie. — Lisa rolou os olhos, interrompendo o meu sorriso enfiando enfiado o palito na minha boca de novo. — Sua faringe também está ferida, e a cavidade oral, parece...
— Parece que eu fui esganada até a morte por uma duchinha de banheiro? Foi exatamente isso que me aconteceu, só que não nesse corpo — retruquei.
Lisa se afastou, como se lutasse para pensar em uma situação lógica. Admito que ao menos tentei pensar em uma, mas fiquei feliz que, depois de um tempo, assim como eu, ela entendeu que não havia uma explicação plausível. Ao me encarar, os seus olhos castanhos brilhavam em decisão.
— Vamos pegar essa filha da puta.
﹝•••﹞
A Kappa House estava lotada de enfeites de Halloween.
Era impossível reconhecer alguém, todos usavam fantasias ou estavam com a boca grudada em outra e dançando na batida da música que soava estridente. Se fosse um Halloween comum, eu seria uma das garotas fantasiadas de enfermeira safada, policial safada, bombeira safada ou qualquer outra profissão versão "safada", mas hoje, eu não estava devidamente fantasiada. Nós não tivemos tempo para procurar uma fantasia e eu estava com medo de voltar para a irmandade e acabar morta, então, Lisa teve a ideia de usarmos as roupas que ela vestia na supervisão de medicina. Jogamos um corante para emular sangue e nos tornamos médicas zumbis.
Um grande barril de cerveja ocupava boa parte do gramado e uma mangueira na extremidade inferior ajudava quem quisesse beber, de ponta cabeça. Luzes neons nos refletores faziam o sangue falso das fantasias brilhar e o branco se transformava em azulado fluorescente. Algumas garotas faziam streep tease nas barras de metal perto do som, alguns foram corajosos o suficiente para pular na piscina, outros mais corajosos ainda transavam na piscina.
— Fica de olho, Rosé pode estar aqui — falei, no ouvido de Lisa.
— O quê? — Ela gritou de volta.
— Rosé pode estar procurando a Jisoo! E eu não deveria ter te contado, Lisa! — Levei-a para um local mais silencioso, perto de um arbusto em formato de estrela, cheia de piscas-piscas.
— Você precisa confiar em mim, eu vou te ajudar, Jennie! — retrucou ela.
— Eu sei que vai! É esse o problema! Eu vou ser morta e se acontecer o que aconteceu até agora, vou acordar amanhã em outro corpo, mas você? — Apontei o indicador no peito dela. — Você pode morrer e nunca mais voltar, entende? Você não faz parte da Kappa e não precisa seguir essa regra idiota de não morrer aqui dentro. Eu não me perdoaria se isso acontecesse!
— Somos duas contra uma! Essa coisa pode ser forte, mas não tanto para matar nós duas. — Lisa disse. — Suponho que se você passar uma noite sem morrer, vai acordar no seu corpo no dia seguinte, com algumas escoriações das mortes antigas, mas viva!
Eu queria acreditar em Lisa, mas eu já vi a força daquela mascarada rosada e as coisas que ela pode fazer em cima de um salto quinze. O que pareceu ser uma boa ideia no começo, pedir ajuda a Lisa, agora só parecia uma burrada sem tamanho.
— Tudo bem, vamos fazer isso juntas — falei.
Ela suspirou aliviada, entregando-me uma cerveja.
— Tome, consegui com uma das garotas da casa. Vamos fingir que estamos curtindo a festa, ok?
Maneei a cabeça em afirmação, aproximando-se dela para dar-lhe um selinho, mas quando ela o retribuiu, eu me afastei e corri para o meio da multidão.
Eu não tinha tempo de pedir "licença", mas anos indo para aquelas festas me deu certa vantagem em me esgueirar por entre os corpos dançantes sem maiores problemas. Lisa não conseguiria me acompanhar nem se quisesse. No meio da minha escapada, um manto rosa tomou minha visão por segundos. A luz neon o fez se tornar ainda mais rosa e a máscara da Sharpay passou quase que imperceptível por mim. Era ela. Estava de costas, eu tinha a vantagem perfeita, bateria com a garrafa de cerveja na sua cabeça.
Sem paciência para ser esperta, empurrei dois garotos vestidos de Tarzan, eles caíram na piscina e um esguicho d'água me acertou em cheio. Separei um beijo triplo, pisei no pé de um grupo inteiro até chegar perto o suficiente da mascarada para revelar a sua identidade.
Com o casco de cerveja em punho, puxei o cabelo dela com tanta força que a garota formou um arco para trás.
Tirei a máscara e encarei a caloura, assustada.
— Que porra...?
Sumin? Sami? Somi? Eu nem me lembrava mais do nome dela, mas era a caloura salva por Rosé, a que fazia o meu lanche.
— Foi você que me fudeu, sua cadela maldita! — Segurei a gola do manto rosa choque dela, mas o seu rosto era puro medo, como um passarinho prestes a morrer eletrocutado na fiação elétrica.
— Eu não fodi ninguém, Jisoo, juro!
Atrás dela, várias outras meninas estavam com a mesma fantasia.
Eu a soltei.
— Onde conseguiu essa merda, Samantha?
Ela se sentou, soltando um murmúrio de dor.
— Meu nome é Somi...
— Tanto faz, onde conseguiu essa porra de fantasia?
— As meninas da Garota do Mês estão vendendo, Rosé nos deixou comprar. — Ela engoliu em seco, emendando. — É baratinho, se quiser eu consigo uma pra você também!
Olhei para os lados, tentando me situar. Lisa ainda não tinha me encontrado, nem Rosé, mas era questão de tempo. Precisava me lembrar que estava no corpo de Jisoo.
— Vai lá e pergunte quais das nossas irmãs compraram essa fantasia. — Arregalei os olhos. — O que você tá esperando? Anda logo!
A caloura pareceu feliz em fazer algo que uma veterana pediu, ainda mais Jisoo, e saiu saltitante. Enquanto isso, eu passaria na cozinha e me armaria com todas as facas que estivessem lá, depois me trancaria no quarto de Rosé. Eu só precisava me manter viva até meia-noite.
Tomei um gole da cerveja que Lisa me deu, sentido-a descer amarga na garganta. Ficar preocupada o dia todo me deixou com sede. Olhei à minha volta, eu estava prensada entre vários corpos dançantes, então se eu ficasse quietinha poderia deixá-los me encobrir tempo o suficiente. Se eu ficasse viva até meia-noite, eu morreria de vez? Se eu morresse fora da casa... eu finalmente teria paz? Será esse o real problema? As regras eram inquebráveis por um motivo. Talvez a quarta e última regra fosse impossível de ser quebrada na propriedade da Kappa Kappa Tau, e eu era a prova viva. Por isso acordava em um corpo diferente todos os dias.
Mas, a minha assassina era burra demais para pensar nisso, se tivesse pensado, teria me atraído para fora da casa.
Respirei fundo, respirei fundo de novo, e de novo.
Engasguei, me faltou ar.
Abri a boca, tentando fazer algo entrar, mas a minha garganta parecia fechada. Comecei a bater os braços loucamente, mas ninguém percebeu que eu precisava de ajuda. Eu só parecia uma bêbada dançando desengonçadamente. Bati em um garoto qualquer e, quando ele olhou para mim, apontei para minha garganta, mas ele só riu.
Cuspi sangue na cara dele.
Era uma cólica infernal. A garrafa de cerveja caiu no chão e uma menina se aproximou, tentei pedir ajuda, mas ela apenas deu tapinhas nas minhas costas.
— Wow, sua fantasia tá demais, amiga! O sangue parece de verdade!
Meus joelhos bateram no chão, o sangue escorria pelo meu queixo, pescoço, chegava até a gola da camisa. Os corpos fantasiados continuavam dançando, a música continuava tocando. A melodia foi se tornando abafada enquanto o sangue interrompia e bloqueava toda a e qualquer tentativa de encontrar ar puro. Olhei para os lados, tentando encarar algo que não fosse as cabeças curiosas que surgiam, até que vi a garrafa de cerveja que eu tinha acabado de tomar.
"Merda" pensei, antes do meu coração parar.
Lisa me deu a cerveja.
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