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Comportamento suspeito

YONSEI University
Domingo – 31 de Outubro.


Acordei em um susto.

Minha respiração estava rápida, eu arfava como uma necessitada, como se tivesse passado muito tempo debaixo d'água.

E as lembranças voltaram frescas na minha cabeça, misturada a dor, o sangue, e a coisa que me matou. A respiração estava ritmada enquanto enfiava a faca em mim.

Eu morri? Sim, eu morri, e quebrei uma regra.

A quarta regra quebrada.

Apalpei o meu peito, tudo intacto, nada de sangue, apenas pele macia debaixo dos meus dedos. Alguma coisa estava errada, não-natural.

— Ei? Tá tudo bem?

Franzi o cenho ao encarar o homem deitado na cama, ao meu lado, pelado, com os cabelos negros até o queixo e o rosto amassado de sono.

Olhei para o meu próprio corpo, meu corpo? Não, eu não podia dizer isso com tanta certeza. Eu estava pelada também, mas aquele corpo não era meu.

— Que porra...? — balbuciei.

Minhas mãos tatearam a esmo até agarrar a primeira coisa que vi, o abajur, e acertei a cabeça do garoto. O baque fez a cabeça dele tombar para o lado, mas ele não apagou, como deveria ter acontecido, como acontecia em qualquer filme que vi na vida, ele apenas soltou um "aí" prolongado enquanto os meus gritos tomavam conta do quarto.

— Eu fui... meu Deus? Você é um tarado!? Como...? — Sai da cama, enrolando no lençol. Ele me encarava com os olhos arregalados. — Você entrou aqui enquanto eu estava dormindo? É isso? Você me estuprou?! Essa irmandade é feminina! ALGUÉM ME AJUDA! O QUE TÁ ACONTECENDO!?

— Porra, você pirou, Rosé!? Que merda...?

Os primeiros toques do outro lado da porta surgiram, vozes femininas me pediam para abrir a porta, mas... Rosé? Ele me chamou de Rosé? Olhei para o quarto e tentei prestar atenção em algo que não fosse o emo pelado na minha cama. Aquele não era o meu quarto. Aquele era o quarto de Rosé. Caminhei aos tropeços até o guarda-roupa espelhado.

Eu era a Rosé.

Os cabelos vermelho-cereja até a cintura, os olhos pequenos em um delineado que agora estava borrado e as maçãs do rosto altas. Aproximei-me do espelho, tocando o meu reflexo. Eu, Jennie, estava no corpo da Rosé.

As vozes do lado de fora aumentaram, elas queriam arrombar a porta, e o garoto ficou alarmado. Ele se aproximou e agarrou meus ombros, balançando-os.

— O que você tomou ontem!? Rosé, me responde! O que...

— Eu to bem! — gritei. Não, eu não estava. — Eu tô bem! — gritei de novo, para as garotas do outro lado da porta. Meus olhos não saiam do garoto, eu o encarava como se não tivesse certeza da minha sanidade mental. — Foi só... um sonho!

Sonhos, claro! Eu estava em um sonho vivido, daqueles que te faz achar estar acordado quando estava dormindo. Eu já vi um filme assim. Drogas, há a possibilidade de ser drogas. Drogas são capazes de tudo! Eu já fui drogada uma vez e achei estar na Disneylândia.

Eu não morri de verdade, foi um delírio causado por algum efeito colateral e a minha mente me fazia acreditar estar no corpo de Rosé. Eu preciso acordar. Comecei a me beliscar, toquei o rosto do garoto, puxei suas bochechas, parecia bem real, o que era estranho.

Ele franziu as sobrancelhas.

— Eu estou com medo de você.

— Qual o seu nome? — perguntei. — Que dia é hoje?

Ele segurou as minhas mãos.

— Dá pra parar de me olhar como se eu fosse um elefante no meio do seu quarto?

— Por que eu fui morta?

— Você... — Ele balançou a cabeça. — O quê...?

— Eu fui morta — sussurrei. — E eu não sou a Rosé.

O garoto pegou a calça no chão e a vestiu depressa.

— Eu sou seu namorado, Loren, da Delta Pi. Hoje é 31 de outubro e você vai agora comigo pra enfermaria.

— Espera, a Rosé... namora? Ela namora e traz o namorado para dormir aqui, na irmandade? — Ri, incrédula. — Eu vou usar isso contra ela nas eleições... ah se vou...

— Por que está se tratando na terceira pessoa? — Ele parou na minha frente, abrindo os meus olhos com o polegar e o dedão. — O que há de errado com você?

Sim, tinha algo de errado comigo. Eu era a Jennie, lembrava-me de ter sido morta e agora estava presa no corpo da minha inimiga. Passei as mãos pelos cabelos, estranhando o tom vermelho que fazia relevo na palma da minha mão. Meu corpo era estranho. Era como se eu estivesse usando uma numeração de roupa errada, incômoda, que não conseguia ajustar.

Encarei o espelho da penteadeira ao lado e segurei um grito na garganta. Eu precisava arrumar um jeito de sair do corpo de Rosé. Precisava descobrir o que aconteceu comigo ontem a noite, e quem foi capaz de fazer aquilo.

Quem seria capaz de me matar?

— Você é da Delta Pi, certo? — perguntei. — Preciso que me leve até a sua fraternidade, agora.

Loren abriu a boca, como se procurasse algo para contestar a minha fala, depois a fechou, passando as mãos nos cabelos.

— E depois vamos pra enfermaria?

Não, não vamos.

— Vamos sim. — Sorri.

﹝•••﹞

Rosé, como todas as garotas do Kappa Kappa Tau, se vestiam com roupas em tons pastéis, saltos altos, vestidos, plumas e muitas plumas. Não tinha nenhuma calça jeans, nenhuma peça que não me fizesse parecer uma dondoca que carregava um chihuahua em uma bolsa da Gucci.

— Rosé, onde vamos colocar as abóboras?

— Rosé, Nancy vomitou nos vasos de orquídeas!

— Rosé, a minha menstruação tá atrasada...

— Rosé, onde vamos pendurar o cartaz de Boas-vindas?

— Rosé, qual sua fantasia pra festa de Halloween?

— Rosé, qual rosa fica melhor na fachada? Rosa La France ou Rosa Mosqueta?

— Que perturbação! — berrei.

Um bando de garotas à minha volta arregalaram os olhos. Uma delas veio com um papelzinho abanando o vento no meu rosto. Como Rosé aguentava isso todas as manhãs? Eu teria surtado na primeira oportunidade.

— Onde está Nayeon? — perguntei. — Ela é não a vice representante dessa porra?

Uma delas levantou a mão para responder.

— Ainda não acordou.

— Pois a acorde, ela tá achando o quê? Que é a Bela Adormecida? Acorde ela e façam essas mesmas perguntas... e você, a da menstruação atrasada. — Aproximei-me de uma das meninas. — Acho melhor tomar um chá de canela, senão vai ter uma surpresinha nada agradável daqui a nove meses.

Ela meneou a cabeça em concordância e me deu espaço para sair.

Loren estava me esperando nos fundos, encostado em um Audi preto.

A Delta Pi era uma fraternidade masculina que ficava a poucas ruas da Kappa Kappa Tau. Era o equivalente a ela também, mas era óbvio que uma fraternidade organizada por homens nunca teria o mínimo de civilização, etiqueta e bons costumes.

Meu alvo era de lá. O primeiro suspeito.

As ruas estavam tomadas por universitários bêbados, caídos nos canteiros das casas, com fantasias rasgadas, sujas de vômito... ah o Halloween. Como explicar a magia do Halloween? O canteiro da Delta Pi estava inundado de latinhas de cerveja, como um final de um show. O cheiro de urina me irritou antes mesmo de estacionarmos em frente a casa.

— Agora você vai me dizer quem te drogou? — Loren me olhou, preocupado. A vontade de dar um soco em um colega de fraternidade o fazia ansiar pela resposta.

— Eu vou resolver isso sozinha, ok? Não precisa se preocupar. — Inclinei-me e dei um selinho nos seus lábios. — Quando voltarmos, vamos direto para a enfermaria.

Ele me encarou como se estivesse faltando algo na sua namorada.

Eu não estava afim de imitar Rosé corretamente, eu precisava descobrir como reverter isso, porque o que quer que aconteceu ontem a noite foi desencadeado pelo desgraçado que me matou. Ele me matou na minha casa, no meu quarto, me fez descumprir a maldita quarta regra e cá estou eu, presa em um corpo estranho.

Meus saltos afundavam na grama, mas pulei as latinhas de cerveja como pude, sentindo os olhares masculinos caírem em mim. Uma piscina que ocupava parte do quintal dos fundos parecia um lago poluído há séculos, com camisinhas usadas, latinhas de cerveja e um garoto boiando nela.

Um grupo de meninos deitados debaixo da sombra de uma árvore, apenas de sungas, com os abdomens trincados reluzindo cerveja dormida e suor, me acompanharam com os olhos.

— Ei, você! — Apontei para um deles.

Kai ergueu a cabeça em minha direção, esperei que me reconhecesse, mas aí lembrei que ele não me reconheceria nesse corpo.

— É a namorada do Loren. — Um deles cutucou Kai e disse, e só então ele se dispôs a se levantar e se aproximar de mim.

— O que eu posso ajudar, madame? — Ele sorriu irônico, me olhando da cabeça aos pés com um sorriso idiota de lado. — A Kappa fica do outro lado.

Mordi os lábios, controlando a raiva

— O que você fez comig... com a Jennie.

Ele franziu o cenho.

— Jennie Kim?

Levantei uma sobrancelha.

— Quem mais seria?

Kai suspirou, bagunçando os cabelos molhados.

— Eu estou tentando não arrumar problemas e Jennie é chave de cadeia, então, por favor, fala pra ela não me procurar. Eu tô de boa. Eu quero distância daquela surtada.

— Surtada? — bufei. — Você é o surtado aqui!

Ele riu, dando alguns passos para trás, mas antes que pudesse se virar, puxei o braço dele.

— É melhor dizer logo o que você fez!

Kai se desvencilhou de mim.

— O que você está falando!? Eu não fiz nada!

— Você ameaçou ela! — retruquei impaciente.

Ele olhou para os lados e se aproximou, sussurrando.

— O que ela te disse?

Olhei bem no fundo daqueles olhos falsos.

— O suficiente — respondi.

Kai era a minha primeira aposta porque, dentre todas as pessoas que me odiaram sem motivo, ele tinha um bem justificável. Não que ele fosse violento. Kai não era violento nem quando bebia, mas me expulsou da Delta Pi aos berros quando me viu beijar a namorada dele.

Acabei a noite no quarto de Lisa, claro, porque estava com medo de voltar para Kappa e vê-lo me procurando por lá.

— Eu sei que o meu comportamento não foi legal, mas eu estava me sentindo traído. Jennie simplesmente apareceu e beijou a Krystal na frente dos caras. Aqui a gente precisa marcar território, sacou?

Queria acreditar que Kai era só um corno que ficou chateado demais, que estava bêbado e queria causar estrago, que não tinha me matado no meu próprio quarto, mas eu não confiava em homens. Porém, encarando a nossa proximidade, eu percebi. A pessoa que me matou era uma garota. Kai era bem maior que eu, de salto ficaria duas vezes maior.

Quando aquele mascarado se aproximou de mim, não parecia ser tão alto. Poderia ter a força de um homem, mas era uma mulher.

— Eu sou a Jennie, eu morri ontem e... me esfaquearam e... eu acho que vai acontecer de novo hoje. — Engoli o seco, as lágrimas desciam pesadas pelas minhas bochechas. — E eu sei que recebo ameaças de morte toda semana, mas quando você ameaçou me matar, parecia verdadeiramente empenhado em cumprir a promessa.

Kai olhou dentro dos meus olhos e me viu, não Rosé, não aquele corpo. Ele me viu.

— Eu não sei o que tá acontecendo... — Kai disse, ainda um pouco confuso. — Mas não fui eu. Se eu tivesse te matado, Jennie, teria feito direito, porque claramente não funcionou. — Ele me olhou de cima abaixo, incrédulo. — Já pensou que isso pode ser um karma?

— Karma? — repeti, como se tivesse ouvindo a palavra pela primeira vez na vida.

— Por você ser essa vadia estúpida com síndrome de celebridade. Todo mundo que tem o desprazer de te conhecer quer acabar com você. E volto a falar, não sei o que tá acontecendo, mas acho melhor você descobrir, porque se você voltou, a pessoa que te matou também e acho que ela vai querer acabar o serviço dessa vez.

Kai virou de costas e se afastou, me deixando plantada naquele pedaço de quintal sujo.

﹝•••﹞

Abri a gaveta de cabeceira, jogando todos os pertences de Rosé no chão até achar o bloco de notas. Ainda estava arfante. Precisei pular o muro da Delta Pi para sumir do radar do namorado dela e andar de salto plataforma até a Kappa.

Peguei uma caneta rosa, com um pompom na ponta.

— Pode ser a Seulgi... — Anotei o nome dela.

No semestre passado, contei à reitoria que ela mantinha um caso com uma professora, ela e a professora foram expulsas da faculdade. Escrevi Soyeon depois, transei com a namorada dela um dia desses. Hackeei o Instagram da Jihyo, pichei "cadela velha" na mesa da Taeyeon... coloquei produtos para queda de cabelo no shampoo da Solar, laxante no iogurte da Nayeon... Não coube tantos nomes, precisei virar a folha.

— Eu ferrei com muita gente... é impossível saber quem é — sussurrei.

Joguei o bloco de notas longe e deitei na cama desforrada. A minha única alternativa era esperar ela voltar, quem quer que seja, e enfrentá-la novamente. Peguei o celular de Rosé, poderia descobrir alguma coisa por ele, mas alguém bateu na porta.

Fiquei minutos em silêncio, esperando a pessoa do outro lado desistir e ir embora, mas ela não continuou batendo.

Arrastei-me até a porta e torci a maçaneta.

— Jisoo? — perguntei, como se não estivesse vendo a própria na minha frente.

Ela sorriu antes de entrar no quarto sem ser convidada.

Jisoo estava na pequena lista de pessoas que aguentavam a minha presença, então elencá-la a melhor amiga foi, de certa forma, fácil. Mas, enxergando-a pelos olhos de outra pessoa, descobri que eu não sabia absolutamente nada sobre ela. Fechei a porta devagar, observando-a jogar uma bolsa na cama, tirar os sapatos e colocar os brincos na mesa de cabeceira. O que ela estava fazendo?

— Então... — pigarreei. — Jennie ainda sumida, né?

Jisoo deu de ombros, ninguém se importava comigo nessa caralha de casa?

— Ela deve aparecer daqui a pouco, você sabe, Jennie não passa o fim de semana dormindo na própria cama.

Aquilo me ofendeu.

— Tem certeza? Quer dizer, desde ontem a noite...

Jisoo começou a vir na minha direção como uma pantera, andando com as mãos em punho. O que eu fiz de errado? Eu nem sabia que Rosé e ela conversavam, quanto mais que Jisoo ficaria brava com uma simples pergunta. Ela estava brava? Quer dizer, Jisoo era sempre tão serena e afetuosa que era difícil imaginar algo parecido com raiva em suas expressões. Durante esses anos de amizade, eu só consegui tirar chateação dela.

Dei alguns passos para trás, mas as minhas costas bateram na porta. Olhei para os lados, procurando um objeto pontiagudo, mas com um passo grande em minha direção, ela me deu um tapa na cara e depois... me beijou.

Jisoo agarrou o colarinho do meu vestido com tanta força que, mesmo que naquele corpo eu fosse maior que ela, não tive alternativa a não ser seguir como um cachorro na coleira até a cama. Ela me deu outro tapa na cara, bem forte, e montou em cima de mim. Parecia um furacão, eu não conseguia nem respirar. Gritei, recuperando o resto de fôlego que me sobrou, e balancei meus quadris loucamente.

Jisoo caiu para o lado.

— Rosé, o que aconteceu!? Eu trouxe tudo que você pediu! — Ela abriu a bolsa. — Algemas velas, o plug anal, não sabia se você queria a mordaça, mas trouxe ela também, a coleira e...

Pisquei algumas vezes, tentando assimilar a informação.

— Você... o quê?

— Esqueceu do nosso encontro hoje? — Ela sorriu maliciosa, abrindo os botões da camisa. — Eu posso te lembrar...

— Nãnãnão! — A impedi de abrir mais botões da camisa. — Eu... eu vou encontrar com o... o Loren mais tarde e... — Engoli o seco. — Ele veria as marcas?

Era para ser uma afirmação, mas eu não sabia como o sexo entre elas funcionava. Na verdade, até segundos atrás eu pensava que o anel de castidade que Jisoo usava no anelar era sério e que ela realmente se empenhava nesse lance de "Eu escolhi esperar o casamento." Ela era a líder de um grupo de jovens na igreja e fazia live com eles todo Domingo. Agora descobri ser adepta a sexo sadomasoquista. Eu acabei de acordar de um pós morte, será que teria um minuto de paz?

— Ah, então você quer um sexo fofinho, é? — Jisoo arrancou a camisa com um único puxão, mas pela proximidade que estávamos, senti como se os seus peitos tivessem dado um tapa na minha cara.

Gritei de novo.

— Não! — Segurei as mãos dela. Meu Deus!? — Olha, hm, eu estava pensando em algo especial.

Jisoo se encaixou no meu colo, me fazendo desviar da visão dos seus seios perto demais da minha cara. Pensa, pensa, pensa.

— Eu estava procurando a Jennie, ela ficou de olhar uns lugares legais, você poderia gostar...

Jisoo segurou o riso.

— Que piada é essa? A Jennie?

— Algum problema? — retruquei.

Ela me olhou, desconfiada.

— Rosé, você odeia a Jennie. Você me disse que só não mata ela porque não quer gastar seu Réu Primário com alguém tão desnecessário.

Okay, eu não sabia que ela me odiava a esse nível.

— E você? Quer dizer... ela é super sua amiga, né?

Jisoo saiu do meu colo, puxando a blusa que acabou de arrancar.

— Lá no fundo... bem no fundo, quase chegando ao pré sal, Jennie é uma boa pessoa.

— Ei! Valeu pela parte que me toca!

Ela balançou a cabeça, confusa.

— O quê?

— Nada — falei apressada. — Eu concordo com você, quer dizer... não concordo. Não concordo mesmo, puff, Jennie é muito... desnecessária, como você disse. — Cocei a nuca. — Como você disse que eu disse.

Jisoo franziu o cenho.

— Tá tudo ok?

— Tá, tá. — Antes que ela pudesse continuar com mais perguntas, me levantei e dei um beijinho casto em sua testa, correndo para fora do quarto.

﹝•••﹞

Prendi as madeixas vermelhas, não vê-las me fazia me sentir melhor. O ponteiro rosa choque do relógio do corredor marcavam 16 horas.

Lá embaixo, tudo corria como o esperado. Anunciei o início da confraternização como Rosé fez ontem, às novatas e veteranas estavam se dando bem, e daqui a pouco começaria a festa de Halloween, com uma pausa de duas horas para que as meninas pudessem se arrumar. A festa estava marcada para às 19.

Dentre todas as coisas que me incomodavam, ninguém ter notado o meu sumiço era um deles. Você percebe ser querida quando some, eu não poderia me dar o luxo de dizer isso.

Segui o corredor a passos delicados e parei em frente à porta do meu dormitório. Eu e Jisoo éramos colegas de quarto. Ela lidava com a arrumação necessária para tudo ficar limpo e habitável, os pincéis de maquiagem eram organizados por cor em cima da penteadeira rosa-claro, ela forrava a minha cama e a dela e arrumava o meu guarda-roupa quando estava cheio demais e a porta não fechava.

Tudo continuava assim, limpo, nada de manchas de sangue no chão ou nas paredes. Eu realmente estava vivendo o dia das bruxas pela segunda vez.

Dei um passo para dentro do cômodo, mas o meu sapato fez barulho no chão de madeira.

Agachei-me no mesmo lugar que caí ontem e procurei qualquer sujeira que comprovasse a minha morte. Nada. Levantei-me novamente e abri as gavetas do meu armarinho de cabeceira, meu celular tinha sumido, como o meu corpo.

O silêncio era cortado pela música ambiente do primeiro andar e um burburinho constante de conversa. Até que eu ouvi um mínimo barulho no quarto.

Uma goteira no banheiro. A porta estava fechada.

Engoli o seco, numa coragem frígida e, lentamente, me propus a caminhar até lá. A minha respiração estava acelerada, era impossível manter a sutileza num corpo diferente do meu.

Torci a fechadura, prestes a abrir a porta do banheiro, quando Nayeon entrou no quarto.

Ela parou de supetão, assustada. E, novamente, demorei a entender o porquê. Ah, é, Rosé não deveria estar ali.

— Ah, Rosé, tudo bem? — Ela me olhou como se eu fosse uma ameaça.

Endireitei-me, desconfiada. Nayeon também não deveria estar aqui, esse quarto é meu e de Jisoo.

— Por que não está lá embaixo?

Ela devolveu a pergunta.

— Por que você não está lá embaixo?

— Eu estava com... problemas... problemas intestinais...

— Ah, meu Deus! — Ela colocou a mão na boca. — Que indelicadeza a minha, eu só... — Ela observou o quarto, até pegar um pente em cima da penteadeira. — Ia pedir a Jisoo isso emprestado. — E balançou o objeto, rindo.

Antes dela sair, a chamei novamente. Nayeon se virou, temerosa.

— Onde está Jennie? — perguntei.

As feições dela tomaram um ar surpreso, Nayeon puxou o ar com a boca, como se tivesse escolhendo a desculpa mais plausível.

— Ela estava lá embaixo, não viu? Apesar de haver tantas meninas, é quase impossível notar!

— É, tem razão. É impossível notar.

Tentei sorrir, mas ela foi embora antes que eu tivesse a chance.

Vadia mentirosa.

Esperei alguns minutos até entrar no banheiro, ele se dividia em duas entradas com dois boxes, à esquerda o meu e à direita de Jisoo. A goteira vinha do meu chuveiro, então apertei com força o registro. Patético, uma goteira me fez ter medo de ser assassinada. Passei as mãos pela testa a fim de conter o suor frio que se alastrou.

Voltaria para a reunião e seria a melhor versão de Rosé, esperaria até a hora da festa e pegaria a mascarada no pulo. Aproximei-me da porta, estava prestes a sair, quando a goteira começou de novo.

Olhei para o meu chuveiro, sem entender de onde o som surgia, até virar-me para a direita. O chuveiro de Jisoo soltava alguns pingos d'água, eles desciam da ducha e batiam na sombra rosa choque desfocada, dentro do box.

Tapei a boca numa tentativa chula de controlar o jato de ar que saiu por ela. Meus olhos já lacrimejavam, minhas pernas tremiam e o medo se alastrou tão rápido que me impedia de pensar numa fuga rápida. Olhei para a porta, com alguns passos eu estaria livre, poderia correr e chegar ao primeiro andar, gritar por ajuda, mas eu era desengonçada naquele corpo, meu salto era, talvez, mais mortífero que aquela lâmina. Não daria tempo de ligar para alguém, de chamar alguém.

Eu deveria encará-la, tirar aquela máscara idiota e descobrir quem estava por trás dela.

Segui até a mascarada, mas acabei escorregando em um azulejo molhado. Minhas mãos se firmaram na bancada de mármore, mas o meu corpo desmoronou no chão.

A mascarada aproveitou desse descuido e saiu do box. Vendo-a se aproximar, peguei uma chapinha de cabelo no segundo em que ela agarrou o meu rabo de cavalo.

Prendê-los agora não pareceu uma boa ideia.

Larguei a chapinha com um arfar quando os meus saltos patinaram na cerâmica, me fazendo virar forçadamente. O meu corpo formou um arco pela força que meus cabelos foram puxados, parecia que ela queria me decapitar só com as mãos, mas eu ainda tinha uma vantagem: estávamos tão perto que o plástico da fantasia encostava em mim. Formei garras com as unhas indo unicamente para tirar-lhe a máscara, mas ela me deu um chute certeiro, bem na bolinha do joelho e, com um baque mudo, eu desabei no chão de novo.

— Puta desgraçada! — berrei. Ela agarrou a minha cabeça e a bateu na bancada. Uma, duas, três vezes. Minha visão ficou embaçada, minha mente latejava. — Se me matar... eu vou...

Os azulejos se multiplicavam, dançavam pela minha visão, pensei ter agarrado as pernas dela, mas sumiram como se fossem feitas de ar. Será que essa pessoa era humana?

Antes que eu pudesse completar esse pensamento, o frio do alumínio entrou em contato com meu pescoço.

— Eu vou... voltar... — Conseguir dizer assim que ela começou a me enforcar com a mangueira da ducha acoplada no vaso sanitário. Péssimo jeito de morrer, péssimo jeito de morrer.. — Eu vou te procurar... — Minhas mãos tatearam a procura de algo para segurar, mas só achei o vaso. As unhas deslizavam pela superfície lisa, sem sucesso.

Era como se tivesse milhares de gotinhas de água coladas nos meus cílios, embaçando a visão. Minha cabeça doía tanto que eu não conseguia medir, não era uma dor comum, era uma dor que não me deixava pensar. O ar sumiu gradativamente dos meus pulmões.

O azulejo estava frio, parecia ficar cada vez mais frio e eu não conseguia respirar.

Chegou uma hora que cansei de lutar e me entreguei à escuridão pela segunda vez.

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