Capítulo Três
– E aí, vai sair desse banheiro em algum momento, ou não? Somos amigas, mas preferia não ficar na detenção com você por estar atrasada...
A voz vinha do outro lado da porta. Ele tinha perdido a noção do tempo depois de criar coragem para se olhar no espelho. De alguma forma muito bizarra que ele dificilmente entenderia algum dia, ele agora era uma garota. Colocou a mão no rosto, apertando a bochecha alta da garota e beliscando. Doeu. Virou o rosto em vários ângulos, analisando cada centímetro dele, tentando se reconhecer ali, mas não tinha nenhum indício de que ele era Jeon Jungkook.
– Aleluia! – falou a garota assim que ele saiu. Ainda estava usando o pijama da tal garota, mas se sentia incomodado mesmo é com o que tinha visto no espelho antes de sair vestido.
Não sabia o que fazer ou como agir. Não sabia ser uma garota. Muito menos fingir que era uma que nunca tinha visto na vida. Ficou com vontade de contar que não era a tal da Nina, era na verdade Jungkook, mas não teve coragem. Com certeza ela contaria para mais gente e quando ele menos esperasse estaria internado com uma camisa de força bem apertada. Um final previsível que ele mesmo daria se não fosse ele a vitima nessa coisa toda.
Não teve tempo de conversar com a outra garota, assim que ele saiu do banheiro ela entrou, deixando-o sozinho. Teve tempo de olhar para o quarto com mais atenção. Havia um pôster dele e dos outros caras pregado na porta. Um mural sobre uma escrivaninha continha vário cards dele. Era estranho se ver assim, do ponto de vista de uma adolescente normal. E pelo visto ele era o bias dela. Um degrau a mais no nível de loucura.
Como ele pediria ajuda? Não sabia nem o que vestir! Tinha medo de tirar a roupa e constatar o óbvio. Não era burro, sabia como era o corpo de uma garota, também não era tão inocente assim, mas uma coisa é tocar o corpo de uma garota com ela participando de tudo, outra coisa totalmente diferente era ser uma garota e ser obrigado a tocar no corpo dela. Quanto mais ele pensava, mais ele achava que tinha ficado louco.
– É só fingir que é uma fantasia. Só isso. Faz de conta que é um cosplay. Ignore o... – fez menção de tocar os seios, mas parou no meio do caminho. – É, ignore isso.
Foi até uma mochila perto da cama onde havia acordado e começou sua investigação. Antes de procurar por uma roupa, procurou pela carteira da garota. Precisava pelo menos saber o nome e a idade dela, mas havia tanta coisa dentro daquela mochila que ele ficou impressionado que ela conseguisse colocar tudo aquilo ali sem bagunçar. Não podia dizer o mesmo de si mesmo, foi tirando tudo sem se importar com nada além de achar algum bendito documento. Achou, por fim, uma carteira fininha, de um material que parecia papel, estampada com trechos de Mikrokosmos.
– Ótimo, fui trocar de corpo justo com uma army. Isso significa que posso procurar os caras e pedir ajuda fingindo que sou fã. – sussurrou abrindo a carteira. – Até parece que eles vão acreditar. – concluiu depois de um tempo, imaginando como soaria ridículo ele aparecer daquele jeito em casa dizendo que era Jungkook e que aquele que estava com eles era um impostor.
Continuou sua busca por pistas e encontrou o documento dela. A foto mostrava uma garota pouco fotogênica, mas bonita, o rosto parecia bem mais jovem do que o que ele havia visto no espelho, mas as maçãs do rosto alta estavam ali, assim como os olhos curiosos. Kang NiNa, dezoito anos, estudante.
– Ótimo, ainda por cima vou ter que voltar para a escola. – resmungou jogando o documento de lado e tirando um adesivo de amuleto de dentro da carteira.
– Você sabe que se faltar de novo é fim de linha, né? – a garota saiu do banheiro interrompendo seus pensamentos. Ele olhou para ela assustado e logo desviou o olhar ao perceber que ela estava nua, com a toalha no cabelo. "Puta merda, não tem como esse dia ficar pior" – pensou em pânico.
– Ficou tímida de repente? Nem parece que a gente cresceu juntas, eu hein! – falou a garota, virando as costas para Jungkook e abrindo o guarda-roupa para se trocar. – Anda, se troca que eu não vou deixar faltar da escola de novo. Prometi que não vou deixar você ser a única pessoa com dezenove anos na escola ano que vem.
Jungkook sentiu o rosto arder, mas obedeceu. Achou o uniforme da menina em meio a tudo o que tinha tirado da mochila e vestiu de qualquer jeito. Ainda não se sentia muito confiante quando se olhou no espelho. O sutiã incomodava, o absorvente incomodava, aquela saia ridícula incomodava. Fora o cabelo, ele não sabia o que fazer com aquele cabelo. Pegou um boné pendurado próximo ao espelho e vestiu ele para se sentir menos uma garota e mais ele mesmo. Sorriu ao ver como ela ficava bem de boné. Droga, não é para se achar bonito, não é seu corpo, Jungkook!
***
Abri os olhos crente de que eu estava sonhando. Taehyung me olhava tão de perto que eu podia ver a pinta na ponta do nariz lindo dele. Meu Deus, acho que nem em sonho eu cheguei tão perto desse homem como agora! Ele sorriu e se afastou assim que percebeu que eu não estava dormindo.
– Ele está bem. Não foi nada. – falou para alguém atrás dele. Logo meu campo de visão foi invadido pelo rosto de Hoseok. Senti que ia surtar de novo quando me toquei que eu estou mesmo dentro da casa do BTS. No quarto do Jungkook. DENTRO DO CORPO DELE!
– Levanta logo. Esse desmaio fingido não vai te livrar de cumprir a agenda. – ouvi outra voz bem conhecida dizendo. Levantei a cabeça parcialmente e Jimin me encarava do outro lado do quarto, sentado na cama que eu tinha acabado de levantar. Deixei a cabeça cair para trás de novo, sem me importar com a dor que senti com o baque que ela deu no chão. É um sonho, qualquer dor que eu sentir vai ser falsa, não vai? Por precaução levantei a cabeça de novo e a bati no chão de propósito. E doeu demais.
– Não é um sonho. – murmurei.
– Claro que não, você vai ter que trabalhar! Anda. Você tem cinco minutos. – respondeu Jimin saindo do quarto e me deixando sozinho apenas com Taehyung.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou preocupado de verdade.
Como eu explico que essa pessoa para quem ele olha com tanta compaixão não é quem ele acha que é? E que meu coração parece que vai explodir de vontade de pular em seu pescoço e encher essa carinha de pidão com beijos e mais beijos? Como ele reagiria? Vou ter que fingir ser o Jungkook. De todos com quem eu poderia trocar de corpo – se é que eu jamais tivesse pensado nessa possibilidade – foi justo com o bias da MiMo que eu troquei.
– O que é isso? – a voz de Taehyung voltou a me tirar da minha própria mente insana. Sentei e olhei em direção a ele e o vi segurando o amuleto. O mesmo amuleto que Madame Min havia me dado há dois dias. Levantei num pulo, mal tendo tempo de admirar a agilidade que aquele corpo me dava para esse tipo de coisa, tirando o cristal da mão de Taehyung.
– É ISSO! A MADAME MIN VAI SABER ME AJUDAR. – gritei empolgada, mostrando o cristal para ele como se fosse obvio que a culpa era do objeto.
– Quem?
Ignorei a pergunta dele, já perdida de novo nos meus próprios pensamentos, vestindo o colar e andando de um lado para o outro na sala.
– O idol com quem trombei ontem saindo do ferro-velho era o Jungkook! Claro! E o cristal ficou preso na roupa dele, por isso que...
– Então agora você fala de si mesmo na terceira pessoa?
Ele sempre vai fazer isso? Me senti em meio a um palco, pelada, com a escola inteira me encarando. O rosto ardeu, a vergonha bateu e eu finalmente me toquei de onde estava.
– Vou precisar de um banho antes de sair. Dá tempo, né? – perguntei ganhando tempo.
– Acho que dá...
– Beleza e... – olhei a minha volta, perdida. – Onde é o banheiro, mesmo?
– Cara, você precisa parar de malhar antes de dormir. – foi a resposta de Taehyung antes de me deixar sozinha para descobrir por mim mesma onde era o bendito banheiro. Foi só então que passei a prestar atenção no cenário onde me encontrava. O quarto de Jungkook não era nada do que eu e Mimo esperaríamos, era amplo, sim, mas tinha uma decoração super simples para um idol. Ate o armário dele era menor do que eu esperaria de um cara famoso como ele. Abri todas as portas apenas para ver que tipo de roupa tinha ali e foi assim que descobri o banheiro.
– Gente rica é outro nível, né?
O banheiro sim, denunciava a quantidade de dinheiro que esse garoto tem. É enorme e tem de tudo, incluindo um chuveiro com água saindo de todas as direções. Olhei no espelho grande sobre a pia dupla e vi a mesma cara de paspalho que eu tanto transformei em meme depois de assistir qualquer episodio de Run. A diferença é que eu estava por trás dele.
– Gente do céu, eu acho que se eu sobreviver a esse dia sem parar no hospício vou poder ser considerada uma santa. Santa Nina, padroeira do fandom do BTS. – sussurrei.
Tirei a camiseta do pijama de Jungkook e o choque de realidade veio junto com o reflexo da barriga tanquinho contrastando com a cara de paspalho que eu fiz de novo.
– Puta que pariu, eu vou ver o Jungkook pelado! PUTA QUE PARIU CAPAZ DE EU VER O BTS INTEIRO PELADO SE TIVER TROCA DE FIGURINO HOJE! – gritei, tampando a boca logo em seguida, me lembrando de onde estava.
Passei os dedos pelo elástico da calça e o estiquei para olhar sem medo de ser feliz para o que aquela peça escondia. Inclinei a cabeça, impressionada. O moleque é realmente todo bonito, não dá para negar.
– Já passaram seus cinco minutos, Jungkook-ah! – alguém gritou de dentro do quarto. Lavei o rosto e escovei os dentes o mais rápido que podia. Não ia dar tempo de tomar banho, então saí daquele jeito mesmo, pegando o primeiro par de calça e camiseta preta que encontrei naquele armário. Coloquei o colar de Madame Min por cima de tudo aquilo e saí. Seja o que Deus quiser!
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Vocabulário
*Bias: pessoa favorita em determinado grupo de kpop.
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