11. ΚΑΣΤΡΟ ΑΠΟ αμμο
Um castelo de areia não precisa de muito para se desmanchar, basta manter-se em pé e a qualquer momento sua estrutura está ameaçada. Eu não pensava na minha família como um castelo de areia, antigamente não.
Acreditava fielmente que nossa base estava firmada no amor que compartilhavamos, e que todos os anos ele se firmava mais. No entanto, não se pode subestimar o poder de uma tragédia, porque quando ela chega, pode não restar nada.
Para mim, não restou muito, somente eu.
A morte do meu irmão carregou minha mãe que aos poucos se deixava morrer, enquanto eu a olhava apenas tentando ser suficiente para que pudesse voltar à vida outra vez. Quando ela estivesse pronta para seguir em frente, eu estaria esperando.
Um ano depois, com as malas feitas no corredor da casa, o silêncio da madrugada interrompido pelo choro constante, tive o golpe final. Assombrado pelo acidente do filho e a dor da perda que pegou o melhor de todos nós para ser enterrado, meu pai nos deixou.
Era engraçado como minha versão de dezessete anos que chorava pela morte do irmão pensou que a união seria suficiente para que dias melhores viessem, como ela pensou que meus pais lidariam como um conjunto. Mas, não aconteceu, e os dias melhores se ausentaram por um longo tempo.
Minha mãe se recolheu para tão dentro de si mesma que era impossível fazê-la sair, sempre visitando o quarto vazio de Oliver, cheirando suas blusas e chorando a perda. Quebrada e inconformada, ninguém a alcançava quando desmoronava em seu próprio mundo.
Meu pai carregava uma culpa pesada que calava sua voz e esfriava seu amor. Mais turnos tardios no trabalho para não encarar a falta que meu irmão fazia, mais horas longe para ignorar que não podia salvar sua vida, pois ele tinha partido. Uma junção de coisas que finalmente o fizeram ter seu desejo, sair e não voltar para a casa.
Eu tinha tentado melhorar, com o passar do tempo o meu esforço esgotava a mente e deixava muito evidente a falta dele.
Tentava arrancar sorrisos dela, o que não era meu forte tentar ser engraçada para contagiar as pessoas ao meu redor, mas eu tentava tanto ser diferente para que minha mãe pudesse sorrir. Eu lembro de uma única vez que seu sorriso acanhado apareceu, sobre a sombra de uma história com meu irmão, ela estava presente por alguns segundos; até não estar mais.
Às vezes, tarde da noite eu esperava na sala encolhida debaixo das cobertas que ele chegasse do seu turno, mas quando meu pai estava aqui o cansaço dominava-o totalmente. Seu andar parecia exigir muito e as respostas monossilábicas matavam todo meu ânimo.
Meu companheiro de confidências estava fora de alcance, não ouvia sua voz e temia me esquecer como era sua risada. Ele era o oposto de mim, jovem, alegre e corajoso com uma luz tão forte que quando se apagou nos deixou sem direção.
Estávamos no escuro, eu era a única desejando ser encontrada.
Agora, seis anos depois da morte do meu irmão, em uma cidade completamente diferente eu não desejava ser encontrada, não estava perdida de ninguém e sentia-me livre. Porque ao remoer a falta de todos me amavam eu finalmente tinha compreendido, não existe uma base real na vida, tudo é um castelo de areia.
E não importava realmente quem chegasse na minha vida, quando tudo desmoronar ainda serei somente eu.
Às vezes eu esqueço o quão quebrada estou, olhando a longas distâncias uma vida que não parece minha mas promete tanto que por longos segundos posso sonhar. Fechando os olhos em um desejo forte que grita "seja para mim", no entanto quando a luz da sala se infiltra em minha visão, enxergo a realidade.
O silêncio nunca me incomodou muito, não quando sempre existia alguém para interrompê-lo com a força de uma vontade. Essa vontade que minha mãe deixou morrer, vontade que fez meu pai carregar malas e ir embora, uma vontade que Oliver podia emanar quilômetros longe.
Mas, nenhum deles poderia ter vontade por mim e apesar de tudo que pensava ser certo, não pude ter vontade por nenhum deles.
É um processo longo para aceitar que outras vidas independem da sua, não importando o quão afetivamente estas estão conectadas ainda são independentes e únicas. Porque quando outras vidas não possuem vontade eu quero ser suficiente para que elas tenham, só que na vida real não funciona dessa forma. Cada um carrega a responsabilidade dentro de si.
Eu, muito obviamente nesse pensamento, não carrego nenhuma responsabilidade sobre a vida da minha mãe — esse deve ter sido o pensamento do meu pai cinco anos atrás — mas, apesar de querer ir embora muitas vezes, alguns momentos como este sei que ainda a amo.
Momentos em que sua melancolia se transforma em um ânimo fugaz, repentinamente ela chega e repentinamente ela se vai. E a única constante que temos é que logo estaremos ouvindo sua maldita música de coração partido, enquanto outra vez ela se veste de tristeza, carregando tudo para dentro de si.
E de lá, raramente ela sai.
— Mamãe — Eu digo, é impressionante como nesses momentos me sinto uma criança pela forma que a chamo. — Estou saindo para visitar Soyeon, tem certeza que não quer ir?
— Tenho trabalho, querida.
Ela responde movendo-se pela cozinha com habilidade. Mamãe sempre foi uma cozinheira maravilhosa e se posso carregar uma lembrança agradável era o cheiro da nossa antiga casa quando chegava da escola.
Ela tinha cheiro de biscoito recém assado.
— Eu sei, mas pode trocar de turno com uma parceira.
— Não estou com ânimo para ir, não se prive de ir por mim, ela adora te ver — Ela nunca tem ânimo, no entanto me calo.
Quando criança se me lembro bem, gostava de observar seus movimentos pela casa principalmente quando preparava uma nova receita. Ela cantarolava uma música que nunca sabia o nome, sorria levemente quando errava algo e dava de ombros quando o resultado era péssimo.
Mas quando eram bons, acendia uma luz nela impressionante e de repente todos precisavam provar sua nova invenção culinária. Eu era quase uma degustadora formada.
Pensar nesses momentos traz um calor quente ao peito, ele não dura tanto.
Ela não cria mais nenhuma receita.
Ela não cantarola.
Mamãe não tem mais cheiro de biscoitos.
É aqui, uma ilusão categórica enchendo minha visão de miragens e possibilidades que minha mente gosta de projetar. Uma versão da vida onde minha mãe veste um sorriso, onde meu pai ainda é meu herói e Oliver continua sendo minha segunda metade, pode não ser sincero, mas eles estão aqui.
Imagino uma versão onde minha mãe olha para mim e decide que podemos sair — esta versão mais perto da realidade do que a anterior — que encontraria uma substituta para seu turno de hoje.
Minha mente grita.
Seja para mim.
Seja para mim.
Como outras milhões de vezes, saindo sozinha e caminhando rumo a casa de Soyeon enxergo a realidade. Não como eu gostaria que fosse, mas como ela realmente é, e então firmo os pés no chão continuando.
Não posso viver de ilusões.
Não posso ter vontade por ninguém.
No meio do grande caos de sentimentos tenho minha avó que tem a energia de cem jovens, quando adentro sua casa ela está dançando pela sala, irrevogavelmente linda e uma versão mais velha da minha mãe. Uma versão com juventude e vida, aqui ela parece anos mais jovem enquanto minha mãe em sua tristeza aparenta ter mais anos do que realmente tem.
Ela é meu ponto de equilíbrio.
Os montes de cabelos brancos surgindo em meio aos pretos como gostava de exibir, e o corte médio combinava perfeitamente com ela. Embora estes estivessem presos. Ela dançava pela sala descalça, com uma calça branca e uma blusa azul escuro por cima.
Seja quais forem os dons passados de geração para geração a dança correndo em minhas veias corria nas dela também. Aquele laço unindo nossas vidas era incrivelmente forte e enquanto minhas relações com minha mãe murchavam, a nossa se fortalecia.
— Não fique olhando — Ela diz quando me nota parada sorrindo para si. A melodia da música enchendo meus ouvidos e o sorriso dela me acolhendo. — Dance comigo, querida.
Eu danço.
Desejando que minha casa seja mais alegre, desejando que um dia minha mãe volte a dançar comigo pela casa ou a cantarolar músicas antigas que provavelmente nunca saberei o nome, desejando que um dia ela venha comigo e como uma família possamos dançar juntas.
Eu desejo minha mãe de volta.
— Ela não quis vir hoje? — Minha avó pergunta notando algo em meus olhos e me abraçando com calma, logo depois rodando-me levemente. — Então seremos apenas nós duas, certo?
— Sabe como é, ela está cansada — Respondo dando de ombros desanimada e jogando meu corpo no sofá. — Taehyung teria vindo comigo mas ele aparentemente está em um dos seus grandes encontros, de qualquer forma ele mandou um beijo.
— Você deveria fazer o mesmo. Sair e namorar ao invés de passar seu tempo livre com uma velha senhora como eu.
— A senhora vale todo meu tempo livre, vovó.
Ela se senta pegando minha mão, os dedos marcados pelo tempo e o sorriso encantador em seu rosto criando linhas de expressão, embora a verdadeira cilada esteja em seus olhos, amorosos, acolhedores e mais atentos do que eu gostaria nesse momento.
Me olhando por longos segundos com somente a música envolvendo-nos, uma coisa que sinceramente me desagrada. Não gosto quando me olham com tamanha atenção, principalmente quando esse alguém é minha avó.
— Seu amigo disse que você conheceu um rapaz.
Ela comenta não tão casualmente para me fazer crer que é um comentário solto, porque realmente nunca é.
— Taehyung é um fofoqueiro.
— Bom, na minha idade a fofoca é bem vinda, não é como se eu fosse fazer algo interessante, tenho que me entreter de algo, certo? — Pura conversa fiada, ela tem a vida mais agitada que a minha. — Então como ele é?
— Fofocar é algo tão feio, não acha? — Digo levantando para a cozinha, logo depois a música para e os passos dela me seguem. — Vovó, tem morangos?
— Na geladeira.
Ela me permite um momento de silêncio enquanto pego os morangos e lavo-os sob seu olhar atento que me segue em todo momento, quando finalmente me sento em frente a bancada e começo a comer, ela inicia.
— Evitando o assunto, uh?
— Não estou evitando nada, na verdade não tem assunto.
— Como ele é?
— Alto, incrivelmente bonito, ruim de cantadas, humano como qualquer outro, não tem muito para dizer.
— Isso com certeza explica porquê você está se esforçando para manter a boca cheia de morangos — Ela me pega e com um riso frouxo mastigo os três morangos na minha boca. — Como ele realmente é?
Sei que não posso vencer essa conversa sem no mínimo entregar alguns detalhes para que ela possa gentilmente largar o assunto, mas de todos os homens com quem já estive Jungkook é provavelmente o único de quem ela vai gostar e não exatamente por ser ele, mas por como ele me tratou até agora.
— Gentil mas ousado, ele gosta de ler mas tem uma péssima inclinação para Romeu e Julieta e é totalmente convencido sobre suas habilidades culinárias, embora nisso eu possa dar crédito a ele. Mas, fora dos limites, ele é convenientemente meu professor.
— Dormiu com seu professor? — A fala não carrega espanto, repreensão ou surpresa, é simplesmente uma pergunta.
— Não, apenas nos beijamos.
— Querida, tenho que te dizer — Ela faz uma longa e desnecessária pausa. — Estou orgulhosa de você.
Incredulidade transborda das minhas feições, mas a risada sonora dela enquanto rouba um morango me faz esquecer o sentimento inicial de espanto. Minha avó é a pessoa mais aleatória do mundo.
— Vovó!
— O que foi? Você está finalmente vivendo outra vez, e ele parece ser um ótimo partido.
— Ele ainda é meu professor.
— Detalhes, na sua idade eu odiava os meninos mas amava meus professores, mas as coisas eram mais rígidas. Além de que sua vida é muito parada, precisava de uma emoção e esse rapaz trouxe.
— Seu senso de decência quebrou.
— Não me lembro desse senso, mas sabe como é, a idade chega — Brincando ela pisca para mim a sorrir.
— Deveria ter ficado calada.
— Mas, vamos ao que interessa, o que ele tem que os outros não tiveram?
— Como assim?
— Não me leve a mal, mas você não fala sobre seus namorados.
— Deve ser porque eu não tenho namorados, nenhum em quatro anos, como eu disse não tem muito o que comentar, minha vida romântica não é agitada e eu gosto assim.
— Você gosta de se esconder do amor.
— Eu não tenho problema algum com o amor, eu posso até acenar para ele a longas distâncias, mas não quero sentir isso.
O sentimento nos olhos dela me faz enxergar o quanto algo mudou em mim, a empatia que sua respiração carrega em um único suspiro é como a evidência de que não sou mais a garota que ela conheceu um dia, e a mulher que ficou em seu lugar não acredita mais no beleza do amor.
Porque o amor não é romântico, não carrega uma cura para os males da alma como as pessoas gostam de dizer. O amor é apenas isso, um sentimento que chega quando menos se espera e se instala dentro de nós sem permissão. É uma entrega súbita e violenta e quando vai embora, não deixa muito para apreciar.
Eu tinha apenas a mim mesma e não podia permitir que isso fosse tirado de mim tão brutalmente como tantas coisas antes desta, amo minha avó mas sei que ela não vai viver eternamente e não pode lutar minhas batalhas por mim. Embora em algumas delas desejasse que não fosse somente eu.
Ela sabe que no fundo estou sempre pronta para ser deixada sozinha, mesmo que tanto ela como Taehyung tenham mudado minha visão de confiança, mesmo que o amor que sinto por eles não me cause rejeição como os outros. Depois de tudo, ambos continuam aqui e sou eternamente grata.
Mas, ainda assim, não consigo desligar minha mente de seu estado de autodefesa e sinceramente muitas vezes não desejo fazer.
Esse é o motivo principal de me convencer tanto que Jeon Jungkook não é para mim, porque ele quer me conhecer tanto quanto eu desejo ser mantida fora de vista.
— Ele me olha diferente, como se quisesse realmente me conhecer.
— Acredite querida, qualquer homem seria muito sortudo por conhecer você, mas precisa permitir que isso aconteça.
Minha expressão denuncia bastante e acompanhada de um longo silêncio é quase a maior das minhas declarações.
Não vejo sentido em negar, Jeon Jungkook realmente mudou o jogo para mim e dizer que a vontade dele me conhecer me assustava era um eufemismo enorme. Eu simplesmente não sabia o que fazer com todas as declarações dele, mas ele parecia saber exatamente como agir comigo.
Isso assustava, pra cacete.
A última vez que algo me assustou era o começo não anunciado do fim, o medo que se alastrou por mim quando o caixão desceu e o desespero de nunca mais ver meu irmão chegar, mais forte do que antes. Era como acordar de um coma e ver depois de anos a realidade, após a primeira degustação do medo, outros pratos vieram em outros sabores tão amargos quanto o primeiro se fez.
Agora era como sentir depois de anos de anestesia.
Eu não sabia se Jeon Jungkook era um começo promissor ou um começo destinado ao meu fim. A única forma que meu coração ainda se mantinha intacto era no nesse tipo de amor, e eu não sabia se sobreviveria ao quebrar mais uma vez.
E na minha percepção, em frente à incerteza era melhor não confiar.
Continua...
Atualização!!! Como vocês estão tudo bem? Se cuidando?
Novo capítulo veio mais tarde que o previsto, realmente foi uma questão de escrita. Eu sabia o que queria escrever e que lado da Ravine queria mostrarneste capítulo mas depois de escrever as primeiras palavras pensei na melhor forma de fazê-lo, tanto que escrevi duas opções de começo para o capítulo.
No fim acabei mesclando ambas e espero que gostem do resultado e que possam compreender as atitudes da Ravine, tanto as dos capítulos anteriores como as que virão.
Gostaram?
Estou atualizando hoje como uma exceção pela demora, mas como sabem as atualizações são feitas no sábado mesmo.
Gente comentem, me passem um feedback do capítulo e votem, ajuda bastante a me motivar e ganho também um ponto de vista do leitor sobre a história, ok?
Próxima atualização vem dia 25.
O capítulo já está pronto, aliás!
Beijinhos ❤
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