10. επαναπροσδιορίζω
Ressignificar.
Exceto por essa palavra o quadro se encontra vazio, ela se apresenta quase tímida entre todo branco ao seu redor mas a palavra em preto escrita em tamanho médio carrega importância.
Sento calmamente em um canto isolado observando a palavra com grande atenção, como se ela estivesse prestes a me queimar somente por significar uma mudança e nos poucos segundos em que olho ela cresce na minha mente; não gosto da sensação.
Jungkook permanece em silêncio ao lado do quadro, as mangas da blusa preta social que veste estão arregaçadas e os músculos se sobressaem quando cruza os braços frente ao tórax esculpido. Ele olha todos os alunos entrando na sala com um meio sorriso gentil e sua beleza encantadora.
Professor Jeon, droga.
Relembro a mim mesma que depois da ligação, informalidade de tratamento seria um péssimo indicador para como as coisas terminaram entre nós, embora toda vez que seus olhos encontravam os meus o fim aparentava estar cada vez mais longe.
Às vezes consigo sentir seu olhar queimando em mim durante as aulas, furtivos e breves, mas o arrepio na minha espinha continua ali por horas seguindo-me mesmo quando estava fora de suas vistas. Uma parte de mim gostava bastante dessa atenção e ficava tentada a retribuir e lutava contra a parte sensata que pedia para esquecer aquela noite.
O problema não era realmente aquela noite, poderia ser grande parte do problema, mas não ele por completo. Uma fração de tudo que sentia se devia às possibilidades do que teríamos, a possibilidade realmente grande dele me enxergar mais do que o caso para uma noite.
Eu não queria ser somente isso pra ele, internamente sabia disso.
Na fresta esquecida entre todas as minhas barreiras ele se esgueirou e pegou uma parte intocada minha para si, ele viu isso chegando nos meus olhos e ainda que estivesse entregando meu corpo Jungkook se apegou ao que eu desejava esconder. Odiava me sentir vulnerável, com alguém olhando tudo de quem sou, no entanto baixar a guarda com ele foi instintivo. Agora ele não deixava meus pensamentos.
— A palavra do dia é ressignificar, para os que não notaram o quadro — Ele começa quando todos se sentam, logo o silêncio preenche a sala e tudo que resta é ele. — A literatura é uma forma de atribuir a palavras diferentes sentidos, originalmente o amor pode significar algo, mas quando se escreve temos poder de redefinir isto. A aula de hoje é sobre isso, ressignificar.
Um desconforto estranho sobe pela minha garganta, ajeito-me na cadeira repentinamente inquieta. O brilho nos olhos dele é contagiante, porém quando eles me encontram ganham uma intenção um tanto oculta e outro arrepio me atinge, desta vez ele não é agradável.
— Não precisam de tanto alvoroço, é uma atividade simples. Eu lhes darei palavras aleatórias e vocês irão dar outro significado a elas, podemos começar com coisas pequenas e depois vamos ressignificar alguns momentos de livros, certo?
Os murmúrios agitam a turma, conversas paralelas começam por toda a sala, mas os meus olhos continuam encarando a palavra como uma inimiga declarada.
Eu poderia comentar como redefinir um significado pode ser mais necessário do que poesia. Um exemplo é como Jeon Jungkook significava uma curiosidade para mim, aquela promessa não dita em voz alta apesar de ser sentida nos ossos, então de repente tudo que atribuí a ele mudou.
De uma curiosidade para fora dos limites, escrito em letras garrafais que no momento estava tendo grandes problemas em vê-las como um aviso, era mais como uma palavra sem significado parada entre mim e ele, somente um passo para encontrá-lo.
— Vamos começar com uma simples, alguém para dar um novo significado à palavra poder?
— Poder é conhecimento — Uma voz se sobrepõe.
— Tudo bem, poder é conhecimento, outra definição, por favor.
— Capacidade de decisão, tanto na sua vida como na de outra pessoa, influenciar pessoas de forma que mude um pensamento. É como dinheiro ou um nome, mas sem precisar comprar um direito ou pagar por ele. Embora dinheiro e nome possam ser formas de poder.
— Muito bem, Yeonjun — O cumprimento é seguido de palmas e alguns risos dos meninos em volta. — Agora eu quero alguém para redefinir a palavra prazer.
Gritos enchem o lugar, a maioria acompanhado de palavras associadas a sexo e algumas destas causam um leve rubor no rosto de algumas pessoas pela sala. Eu, ao contrário de todos, me encolho tentando o máximo passar despercebida.
— Park Jimin — O nome conhecido faz meus olhos virarem assim como todos. — Redefina a palavra prazer.
As bochechas dele ganham leve coloração, os cabelos castanhos caem no rosto ainda que não escondam os olhos, lembro como eles são marcantes e exatamente por eles reconheço da outra aula.
Meus olhos vagam por si, apesar de possuir uma cor rósea nas bochechas fartas sua postura não indica nenhuma ponta de nervosismo, o corpo desleixado na cadeira de uma maneira que se encaixa nele com perfeição, chegando a parecer ocasional, totalmente dele.
Como antes, chego à mesma conclusão, não extremamente diferente e com toda certeza nunca comum.
— Prazer é um arrepio no corpo, uma euforia estranha que dá vontade de correr, gritar ou se for o caso gemer — Ele joga os cabelos para trás num gesto simples, exceto que nele parece impressionante. — É como uma fonte de vida, pessoas vivem pelo prazer de beber, amar, fumar, dançar ou fazer sexo.
— A parte do sexo é a mais interessante — Alguém diz, algumas risadas acontecem, mas não me atenho a nenhum movimento pois estou ocupada demais observando-o.
Como se sentisse estar sendo observado seus olhos se viram para mim, certeiros. Ele não disfarça e movida a curiosidade esqueço-me de tentar olhar para outra direção. Um sorriso enche seu rosto, não aquele sorriso de alegria é mais um riso convencido que manifesta um sentimento; presunção talvez.
Seja qual for, combina com ele.
Outras palavras são ditas, ganhando novos significados enquanto o calor na minha espinha se acende, começa lentamente, mas depois que a turma acolhe o silêncio, sinto-o como brasa envolvendo todo corpo e causando uma leve alteração na respiração.
Eu sei, ele continua me olhando.
— Ravine — Chama, um tremor perpassa meu corpo pela entonação usada. É como qualquer outra, usada para outros alunos, mas entre nós, soa com mais intimidade do que deveria. — Como você parece bem interessada na nossa aula, pode ressignificar uma palavra.
— Uh, sim.
— Não era realmente uma pergunta.
— Certo — Aceno. — Qual a palavra?
Os olhos dele queimam como o calor na minha espinha, naqueles poucos segundos de silêncio a palavra já estava me consumindo ou era a forma displicente e desafiadora dele me olhar.
A palpitação no meu coração acelerou, minha pulsação ecoando nos meus próprios ouvidos e quando a palavra enfim deixou sua boca, me deixei queimar com as lembranças.
— Beijo.
O boca dele sobre a minha, um suspiro deixando meus lábios e tudo que consigo pensar entre os momentos de espera é que não existe ar suficiente para beijá-lo por uma eternidade completa.
Minha cabeça bagunçada, um turbilhão de pensamentos invadindo minha mente, nenhum deles poderia ser dito em voz alta, pois todos eles envolviam Jungkook, suas mãos, sua boca, sua língua e todas as possibilidades que não tínhamos mais.
Todas as possibilidades que eu queria ter.
O beijo é uma ação física com um sentimento mais arrebatador, os corpos se envolvem, o encaixe perfeito. Uma conexão maior, e quando feito com a pessoa certa ou a pessoa que pode ser diferente das outras te deixa vulnerável, completamente despida.
Como o beijo que ele me deu, quando seu corpo conversou comigo de uma forma mais lenta do que meu desespero, desespero esse para impedir que fosse vista. Impedir que a forma dele de tocar me deixasse à mercê de si, mas ainda assim, ele me tocou diferente.
O beijo dele é um toque mais sincero, uma despedida dolorosa, é uma promessa subentendida escrita com sua própria língua. Ele se forma no suspiro dele, arrastado pelos lábios com sabor de vinho e curiosidade, caminham em um aperto gostoso na minha coxa e sobem pela curvatura do meu ombro.
E termina nos olhos, eles demonstram não apenas desejo e ânsia, demonstram um sabor pela verdade, pela mulher que realmente sou escondida sob o pretexto de uma noite; com tanta verdade nos olhos dele foi impossível não ficar um pouco exposta.
— Uh, o beijo é… uma assinatura.
Digo sucinta.
— Complemente — O interesse nos olhos dele é excruciante.
— É como uma assinatura, carrega o seu nome. Quem você é ou o que você quer, dependendo de como é escrito não apaga, fica na lembrança e permanece lá — Um suspiro e então, estou falando de nós, do nosso beijo. — É o que torna os outros irrelevantes.
Quando mais jovem os beijos eram promissores nos livros, o sensacionalismo exacerbado em um único contato. Lembro-me de esperar pela grande sensação de formigamento percorrer meu corpo, me sentir levemente fora da realidade por ter sido, lindamente tocada pelo desejo de outro alguém.
Lembro de esperar que o beijo fosse tudo.
Mas, o meu primeiro beijo se carregou de adrenalina, aquela que bate no peito quando não sabemos o que fazer, ela tornou emocionante e igualmente sem graça.
Nenhum arrepio, nenhum sentimento maior.
Todos os beijos que vieram depois tiveram uma parcela estranha de decepção, eles nunca conseguiram me fazer sentir mais. O pensamento na minha mente dizendo "estou beijando" é a mera lembrança que eles compartilham.
Entretanto com Jungkook, foi diferente.
Ainda acredito que exista um sensacionalismo na expectativa do beijo, mas no momento que os lábios dele tocaram os meus pareceu certo. O desejo estava presente e a euforia gostosa também, principalmente havia uma calma reconfortante na forma que ele me beijava.
Ele tornou os outros beijos irrelevantes.
— Professor — Alguém chama, puxo-me dos pensamentos para prestar atenção. — O senhor pode ressignificar uma palavra pra gente também.
— Oh — O sorriso bem humorado não vacila. — Tudo bem, qual palavra querem?
— Vulnerabilidade.
Às palavras deixam minha boca antes que possa refrear a mim mesma, os alunos presentes no ambiente parecem satisfeitos com a palavra. Sorrindo como se fossem pregar uma peça no professor, mas em mim a palavra queima.
Porque é tudo que sinto quando estamos muito pertos, sinto que posso ser facilmente manuseada por suas mãos. Como se ele tivesse uma visão mais aguçada que todas as outras e realmente olhasse para mim além da medida necessária, às vezes sinto que ele o faz.
Ele encara o restante da sala por alguns segundos de silêncio e instantaneamente sei que ele precisa disfarçar o quanto quer encontrar meu olhar, porque nós sabemos que entre nós significa algo.
— Vulnerabilidade é sinceridade e beleza, pessoalmente acho que é a parte mais linda que alguém pode ter — Ele confessa, a mim parece uma confidência. — A questão sobre vulnerabilidade é que todos têm medo porque nem todos sabem olhar para isso como se deve.
— Ou todos têm medo porque é algo íntimo, e intimidade exige confiança... Professor.
Ele me olha avaliando minhas palavras.
— Bom, se for assim todos devemos lutar pela confiança, não acham?— Eu não quero lutar por confiança, não desejo que ele lute pela minha.
Somos diferentes enquanto tudo nele é sobre a verdade, eu sou sobre minhas meias verdades e as verdades das quais desejo fugir. Sempre pensei que desejasse um homem que deixasse claro suas intenções, normalmente eu leria a verdade nos olhos deles, era sexo.
Mas, os olhos dele são feitos de uma composição mais consistente que exige vulnerabilidade, ele quer observar o desvendar de quem sou a olho nú e, apesar dos meus achismos não estou pronta para ser vista e com toda certeza não estou pronta para a verdade nos olhos dele.
Não quero vulnerabilidade.
Quero Jeon Jungkook, antes, durante ou depois desse semestre de aulas. Mas não tenho certeza se quero sentir tudo que vem com isso.
Talvez, eu deva ressignificar algumas coisas.
Jeon Jungkook sendo a primeira delas.
Continua...
Atualização!!! Gostaram capítulo de hoje?
Vou confessar que alguns parágrafos aqui são meus favoritos na escrita até o momento, de verdade.
Próximo capítulo vocês vão compreender mais a Ravine, alguns motivos para ela ser tão desconfiada e defensiva e principalmente porque ela não gosta de estar vulnerável, e as reservas dela sobre o Jungkook, ok?
O que estão achando? Algum feedback? Dúvidas? Perguntas?
Próxima atualização vem dia 25, os capítulos agora serão um pouco maiores.
É isso!
Beijinhos de luz ❤
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