(VII). Lembranças traumáticas são enterradas vivas
"Os arrependimentos ficam com a pessoa, deixam marcas com o tempo. Mesmo quando não há lembranças." — Ann Brashares.
Lisa Manoban (Julho de 1985)
◦◦◦
Acompanho Jisoo enquanto sinto meus nervos à flor da pele. Cruzamos corredores e saímos da instalação do prédio principal. O alojamento dos funcionários fica no terceiro edifício. Para chegarmos lá é preciso passar por todo o pátio forrado de concreto, declives, alguns bancos precisando de uma demão de tinta e várias árvores secas, que iluminadas pela luz da lua traziam um clima gélido e sombrio as construção escurecidas.
Estar em um hospital psiquiátrico é nunca estar em silêncio. É possível ouvir os gritos das internas e o bater de portas das salas ecoando pelas paredes mesmo à noite.
Nada naquele lugar é feito para ser calmo.
Ao entrarmos nos dormitórios, Jisoo me guia pelos corredores como se eu não soubesse o caminho. O primeiro andar é designado às médicas, elas não precisam subir escadas estreitas e escorregadias e seus alojamentos são maiores. Um privilégio que ninguém discute, apesar de querer muito.
O alojamento de Jisoo é amplo, uma pequena divisória separa a cozinha do quarto, na parede contrária a que entramos está a porta do banheiro. Ela tira os sapatos e os deixa perto da saída e eu faço o mesmo. O frio é cortado quando a porta é fechada e uma tensão estranha e aparente surge.
— Você mora aqui faz tempo?
Ela vai até a cozinha, apressada.
— Você quer dizer se trabalho aqui faz tempo?
Maneio a cabeça em afirmação e a sigo até o cômodo seguinte. O quarto é perfeitamente arrumado, parece que ela chegou há menos de uma semana e acabou de arrumar tudo — o que eu deveria ter feito aliás —, mas no meu quarto ainda há caixas jogadas aos pés da cama.
— Dois anos, sou recém formada, não tão recém como você... — Ela se enrijece. — Não quis ofender.
— Não ofendeu. — Observo-a puxar a garrafa de café e encher duas canecas, o cheiro de cafeína enche minhas narinas e quase fecho os olhos em deleite. Jisoo parece alcançável assim, concentrada em colocar a mesma quantidade de café nos dois copos, com os cabelos presos em um coque bagunçado enquanto veste o que provavelmente usa para dormir. — É surpreendente você ser tão nova e ser diretora geral do hospital, tem psiquiatras mais velhas que você, não tem?
Ela puxa o ar pela boca, não sei se ficou ofendida ou só está pensando.
— Mas nem tão competentes. Além do mais, o caso do Divine me deu notoriedade e o antigo psiquiatra chefe se aposentou no mesmo tempo, então me acharam capaz de cuidar do hospital. — Ela me entrega a caneca.
Os minutos se passam sem que falemos nada. Jisoo sopra o café e fecha os olhos quando o vapor vem direto para o seu rosto. Eu seguro o impulso de tomar o objeto e resfriá-lo, para que ela não queime a língua.
— Então... como foi o caso dela?
— De Jennie? — Jisoo não precisa da minha confirmação para continuar. — Um alvoroço. Ela virou o assunto do momento, nos jornais, nas rádios, nas mesas de bar... Onde quer que você pisasse eles estavam comentando: "Você viu aquela menina bonita que trucidou cinco caras no festival?" — ela imita a fala, enojada. — Eles estavam certos sobre ela ser bonita. Jennie tinha uma confiança difícil de se conseguir quando se nasce em Taegon, fora da bolha jovem e universitária...
— Você nasceu aqui?
— Infelizmente, sim — ela suspira. — E não é tão legal quanto parece, mas, voltando ao caso, o julgamento não passou na televisão, mas não se falava em outra coisa. Discutiam o dia todo os motivos que poderiam ter levado Jennie a isso, ela poderia ser louca, era o que todos diziam, e acho que chegou-se a um consenso antes mesmo do julgamento acontecer, Jennie era louca.
— Aposto que não foi só isso — disse baixinho.
— Claro que não foi — Jisoo concordou. — Ela já era conhecida, nove em cada dez universitários sabiam quem Jennie era. Ela vendia de tudo, principalmente remédios sem prescrição médica: clonazepam, ritalina, modafinil e o tal do TSM.
— TSM... — repito, tentando me lembrar.
— É uma droga sintética que ninguém sabe de onde surgiu, mas prometia e cumpria uma onda psicótica que durava quase 4 dias. Dissociação completa. Todos queriam experimentá-la no Divine.
Seguro a caneca com tanta força que, ao soltar, sinto dor nas juntas dos dedos. Minha boca está seca e preciso de um grande gole de café.
— Foi isso que a fez fazer o que fez?
— É complicado dizer, ninguém nunca estudou o composto do TSM com cuidado, e Jennie não quis falar comigo, nem com a melhor amiga ou... com ninguém. — Jisoo se fixa em um ponto inespecífico da cozinha, os olhos ficam vagos.
— Melhor amiga?
Ela pisca rápido, voltando ao normal.
— Irene. Elas eram amigas de infância.
Prendo a respiração ao ouvir esse nome, mal posso acreditar, finalmente, uma peça do quebra cabeças que consigo completar. Jennie escreveu o nome da melhor amiga de infância e me deu em um papel, ela queria que eu a encontrasse, queria que eu soubesse de alguma coisa por meio de Irene. Minhas pupilas estão inquietas com as possibilidades.
— É melhor tomar o seu café antes que esfrie. — Jisoo aponta para a minha caneca. — Também teve Jungkook. Ele foi categórico em afirmar a culpa de Jennie, foi difícil contrariar esse depoimento, ele e uma das vítimas quase moravam na casa dela, as provas... por Deus, se você visse aquele porão nunca mais dormiria na vida. Então o julgamento ocorreu bem rápido, tive que trabalhar depressa para fechar o laudo a tempo.
Jisoo não dá brechas para que eu duvide do laudo, porque duvidar do laudo significa duvidar da sua capacidade como psiquiatra e aquilo não está em questão na sua perspectiva. Como ela deixou claro alguns minutos atrás, eu sou a principiante.
— Não houve nenhuma opinião contrária que defendesse a inocência dela?
Jisoo acaba de tomar o café e repousa a caneca ao lado da cafeteira. Estamos afastadas além da conta, em cantos opostos do cômodo.
— Jennie usava drogas constantemente desde os 15 anos, algumas funções cognitivas mal estavam formadas e ela acabou com elas. Tudo bem que isso não a torna capaz de fazer o que fez, mas há outros traços da sua personalidade que são preocupantes também, como a incapacidade de reconhecer regras sociais e respeitar autoridades. Na época, ressurgiram com a história dela ser lésbica, o que unificou as opiniões contrárias. Sabe como esse país é, caíram matando em cima de Jennie, como se automaticamente odiasse homens por gostar de garotas, e, bem... não havia mais ninguém naquela casa com o potencial de fazer aquilo.
Jisoo tem razão sobre o café, ele esfriou, mas me obrigo a tomar tudo para que ela não veja o meu semblante afetado. O silêncio se apresenta como uma terceira pessoa dentro da cozinha, disputado espaço conosco, observando as entrelinhas daquela conversa e sussurrando no meu ouvido:. "Havia mais alguém naquela casa com o potencial de fazer aquilo", o cochicho soa mais alto em minha mente e quase engasgo com a bebida.
— Acho que está na minha hora. — Entrego a caneca a ela, desesperada para sair. — Obrigada pela conversa.
LalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisaLalisaLisaLalisa...
Tropeço nos meus próprios sapatos, o solado de um se dobra enquanto calço, mas estou tão concentrada em não chorar que aceito o incômodo. Jisoo não me acompanha até a porta, de modo que, quando estou prestes a rodar a maçaneta ela me chama. O primeiro pensamento que surge é fingir que não ouvi, mas demoro demais para tomar qualquer ação e só me resta uma opção, me virar.
— Pois não?
— Lalisa.... lembre-se que lembranças traumáticas devem ser esquecidas.
Lalisa. Meu coração palpita, tenso. Não consigo ver nada de ameaçador em Jisoo além daquela frase, é como se ela soubesse algo sobre mim que eu não descobri, como se quisesse dizer algo além do que disse, seus lábios ainda estão abertos até ela fechá-los e suspirar profundamente.
— Lembranças traumáticas não são esquecidas, são enterradas vivas. No menor sinal de instabilidade, elas saem dos túmulos e acabam conosco, Jisoo.
[...]
— Ah, que susto, Novata! — Seulgi coloca a mão no coração e, em um rompante, entra no meu quarto. — Fui te buscar na sala dos laudos e você não estava!
Limpo as lágrimas que caíram no percurso do quarto de Jisoo até o meu e fecho a porta, antes que Seulgi note meus olhos brilhantes demais no escuro do cômodo.
— Você contou a doutora Jisoo que eu estava lá?
— Quê? Óbvio que não. — Ela olha para os lados, tensa. — Eu trouxe comida pra você, tinha abobrinha no jantar, aproveite, porque isso acontece uma vez na vida e outra na morte. — E me entrega o potinho.
Seulgi cruza os braços pelo frio e caminha até a janela para fechá-la. O cômodo está gelado pela neve acumulada no chão e na minha cama.
— Isso aqui está uma completa bagunça... Ai meu Deus! Sua cama está molhada... Novata, onde vai dormir? — Ela suspira, como uma mãe entrando no quarto de um filho adolescente. — Temos que virar o colchão, talvez o outro lado esteja seco, com a chegada do inverno você não pode deixar a janela aberta, eu aprendi isso do modo mais difícil.
— Seul... — chamo, ainda escorada na porta. A saída sempre pareceu mais tentadora para mim, que sempre estive preparada para fugas. — Acha que está muito frio lá fora?
— Se está frio? — Ela levanta os braços, indignada. — Está nevando!
— Você tem um casaco reserva? Estava pensando em adiantarmos o jantar para hoje.
O carro de Seulgi é um fusca com um aquecedor excelente.
Ele tem correntes nas rodas, o que a possibilita dirigir com ele pelas ruas enevoadas. Eu preciso fazer aquelas modificações no meu opala, senão ele continuará de molho na garagem do hospital. Me bate uma certa tristeza ao passarmos por ele, tão coberto pela massa branca que sinto-o me pedindo ajuda. Passo minhas mãos cobertas por luvas por sua lataria antes de entrar no fusca.
Meia hora depois chegamos a um restaurante cheio de universitários com jaquetas térmicas e sem largar as canecas cheias de cerveja. É uma sexta-feira, o fim do semestre está próximo e o iminente período de provas começam, mas as bebedeiras de sexta a noite é um ritual que nenhum deles parece deixar de cumprir.
— Preciso de um cachorro quente — peço a Seulgi assim que saímos do carro.
Atravessamos a rua com as mãos no bolso do casaco e dando pulinhos para espantar o frio. Ela me encara, rindo, e perde o equilíbrio ao subir na calçada, a sorte é que eu estou perto e agarro o seu braço. O movimento é brusco e o cachecol vermelho que ela usa cai, como uma língua vermelha no meio da branquidão.
Nossas risadas irrompem na rua, se misturando a dos garotos e suas canecas. Naquele curto segundo de tempo, me sinto uma estudante de novo, me sinto longe de Jennie Kim, me sinto estranha rindo pela primeira vez desde que cheguei em Taegon. Rindo e não ligando para o que me espera no Colônia, rindo sem me importar com o que o passado esconde, rindo e sendo uma garota que nunca pude ser, nunca me permiti ser e quase nunca me lembrava de ter sido.
— Você me paga, Novata! — Seulgi empurra o meu ombro e sobe na calçada.
— É isso que eu ganho por te salvar? — reclamo, falsamente indignada.
Entramos no restaurante agraciadas pelo clima quente. Há um telão improvisado na parede oposta que passa um clipe do Michael Jackson. Alguns garotos se arriscam em imitá-lo, as garotas estão em bando, rindo deles.
— Procure um lugar para sentarmos, vou pedir nossa comida. — Seulgi caminha para a fila do caixa, e meus olhos se iluminam ao ver uma mesa de dois lugares vazia, encostada na parede. É perto do banheiro, pode ser um dos motivos para estar vazia, mas chamo Seulgi e indico onde estou sentada. Minha bunda cabe exatamente como pensei na cadeira, me remexo como uma criança, sorrindo por meus pés não alcançarem o chão. No mesmo segundo, um casal entra no bar e me viro para vê-los.
O garoto parece tenso, ele olha para os lados como se procurasse por algo perigoso escondido debaixo das mesas. A garota o encara ansiosa, centímetros mais baixa e com a mão tão apertada na dele igual a uma mãe não querendo soltar o filho no primeiro dia da escola. Vejo o garoto por perfil e o reconheço tão rápido que minha boca age mais depressa que minha cabeça.
— Jungkook?
Ele se vira para onde ouviu o nome e seus olhos se arregalam. Ele puxa a mão da menina com tanta força que ela se desequilibra, eles dão a volta e deixam do restaurante. Saio da cadeira e os sigo para fora, os alcanço na calçada, com minha respiração formando vapor frio.
— Ei! Eu conheço você?! — É uma pergunta e uma afirmação. Os olhos dele se fixam em mim numa mistura de confusão, nostalgia e raiva. — Jungkook. Eu conheço você! — afirmo dessa vez. Para a minha surpresa, o garoto assente e permanece calado.
Os lábios dele estão comprimidos, como se segurasse as palavras que insistem sair, e uma gota de suor começa a surgir em sua testa, ameaçando deslizar pelo rosto a qualquer momento.
— Não sei quem é você, foi mal...— Nem mesmo a garota ao lado dele acredita, Jungkook dá um passo para trás, se preparando para ir embora.
— Lisa! Pode me chamar de Lisa.— Ele arqueia uma sobrancelha, como se soubesse o tipo de pergunta que eu faria. — Você sabe, sabe algo sobre o massacre de Divine, sobre... Jennie Kim, não sabe?
As palavras saem de forma tão besta da minha boca que até eu me assusto. Jisoo acabou de me falar que ele era um dos amigos de Jennie, que vivia em sua casa, ele sabe sobre o massacre, sabe sobre Jennie. Mas a conexão de porque eu o reconheci ainda não havia chegado.
— Yeri, me encontre no carro. — Jungkook se vira para a menina que o acompanha. Ela faz um bico nos lábios pronta para refutar, mas ele persiste. — Vá para o carro.
A garota atravessa a rua e entra num monza, o barulho da porta se fechando preenche a rua. O olhar de Jungkook se volta a mim com um tipo de sentimento diferente cintilando pelas pupilas.
— Como você consegue ser tão estúpida e fingida? — Ele se aproxima.
— O quê...?
— Ela matou Taehyung! E agora você me pergunta se eu sei sobre o massacre de Divine e sobre Jennie Kim? Sei bem menos que você. — Ele se aproxima mais um pouco, vagarosamente. — Você também estava lá, não se lembra?
Entra tanto ar gelado pelas minhas narinas que acho que chega ao meu cérebro e ele congela. O atraso dos meus pensamentos pela nova informação que recebi e sempre desconfiei me faz parecer uma máquina com defeito.
— Eu... eu estava... — Pareço uma asmática. — N-não... quer dizer, como você...?
— Fui eu quem contei a mãe do Taehyung como encontraram o filho dela naquele porão, você pode imaginar?
— Me desculpe, m-me desculpe, eu... eu não entendo, vocês não eram amigos? — Me encolho, o que posso dizer? O que posso fazer? O olhar de Jungkook é tão rancoroso que penso que ele vai me bater. Ele me olha intrigado, como se eu estivesse mentindo descaradamente na sua cara.
A porta do bar bate, a rua enevoada e repentinamente silenciosa ressoa o barulho enquanto Seulgi vem até nós, os olhos semicerrados alternados entre mim e Jungkook.
— Algum problema aí, Lisa?
— Nenhum — ele responde por mim, abaixa o tom de voz e respira ofegante. — Deu pra perceber como Jennie trata os amigos, não é Lalisa?
Ele atravessa a rua para entrar no monza. Noto o olhar de Seulgi sobre mim, mas não dou atenção às perguntas que ela faz sobre, quem é aquele garoto e por que eu quero tanto saber sobre o massacre. Meus pensamentos estão apenas em Jennie Kim e na nova informação que acabo de receber. Porém, a próxima questão já toma forma: descobrir o que Rosé esconde de mim, descobrir porque ela mentiu sobre minha vinda a Taegon.
Nunca pensei que desconfiaria da única pessoa que achei ser possível confiar, mas as esquivas de Rosé escondem alguma coisa. Agora está tão claro em minha mente que quase penso em voltar para o Colônia, ligar para ela a procura de respostas. No fim, precisei elencar prioridades.
— Seul, o que você faz quando esquece alguma coisa?
Ela abre a boca e depois fecha, o monza de Jungkook é só um pontinho preto no meio daquela brancura. Seulgi agarra o cachecol e tapa o rosto quase que por completo. Diferente dela eu gosto do frio, gosto de como ele dói e me faz sentir viva, então permaneço com o rosto impassível, recebendo o vento gelado e a neve tímida que cai pelos meus cabelos.
— Tento ir até a origem dele, onde o vi pela última vez. — O semblante dela se torna confuso e ela complementa: — Sem chance.
— O que?
— Você tá com cara de que vai pedir algo que não podemos fazer.
— Vamos até a casa da Jennie Kim.
Meu pedido soa mais como uma idéia que não há escolhas de "sim ou não". Seulgi suspira e concorda, balançando a cabeça e soltando um murmúrio abafado.
Vamos a casa de Jennie, ou que restou dela.
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