XIV.
Justin P.D.V.
Estar morto era uma condição a qual já havia aceitado a muitas décadas, afinal de contas não havia milagre celestial que pudesse me trazer de volta. Estou morto e ponto. No entanto, nunca me incomodou ser apontado nesta forma, até tê-lo ouvido de forma tão fria pela boca de minha doce Sabine. Era diferente de quando o assunto surgia em meio de nossas conversas, naquela época parecia apenas um detalhe e agora era a confirmação. Ela estava fora do meu alcance, pois não há nada que possa lhe oferecer além de alguns momentos de prazer. Nem mesmo posso lhe fazer companhia como aquele bastardo de olhos azuis faz.
Como odeio aquele imbecil sortudo. Queria ser ele, entregar flores a garota e beijar seus lábios em público. Na verdade, me bastava estar vivo. Só queria estar vivo.
Carma. Por todas as vezes que me aproximei de outras e nada fiz para impedir que se machucassem. Afinal de contas é isso que faço, destruo as coisas, prova morta é Heloise. Sou como o vento frio que toca seu rosto ao cair da noite, pareço inofensivo mas posso ser letal. Basta esperar até seu corpo cair enfermo no dia seguinte. Tudo que toco é destruído.
Mas a questão é que agora meu coração, ou que quer que seja que ocupe o espaço dele hoje vive em agonia, com medo de que ela seja a próxima da lista. Não tenho mais forças para carregar a morte de quem amo nas costas, se algo acontece a Sabine, estou perdido. Não há mais possibilidade de redenção, sucumbirei a escuridão e dela farei morada até que minha alma de dissipe com o tempo.
Por isso resolvo tomar uma decisão, enfrentar o grande fantasma e dar um jeito de protege-la, ainda que isso custe o pouco que ainda tenho.
Rastejando pelas sombras posso ver seu rastro, as flores mortas e o cheiro de cemitério, seria um belo poema se não estivesse certo de que ela me surpreenderia atravessando um martelo em meu crânio transparente. Ao transpassar uma parede vejo sua silhueta a frente da janela sendo iluminada por uma falsa luz. Seus fios dourados estão presos em um penteado de época, veste o mesmo vestido de seu último aniversário. Deixando visível pele o suficiente para que lembre daquela noite. Uma Heloise que amei e não existe mais.
-Justin? Meu querido Justin veio me ver? - tem excitação na sua voz, mas tenho receio de me aproximar.
-Heloise, você tem que parar.
-Parar o que meu amor? Gostar de ti, não conseguirei mesmo que meus país proíbam, eu te amo. - seu tom é calmo, como um cantiga.
-Me escute! - peço tentando ignorar o efeito que sua voz tem sobre mim.
-Eu estou. Estive pensando.... - ela se vira mostrando um belo sorriso, sua pele branca reluz, seus lábios são tão vermelhos quanto morangos. -Deveríamos fugir, apenas eu e você para um lugar para onde não poderão nos superar. - ela se aproxima.
-Isso não é real. - reluto contra a energia cintilante que me guia até ela.
-Meu amor é real. O seu também. - suas mãos tocam meu rosto.
Ela é como um grande aspirador de energia, estou zonzo e a minha cor oscila. Sei bem o que esta fazendo, mas não consigo lutar contra, na verdade nunca consegui, nem mesmo quando estava vivo.
-Pare, por favor! - peço tocando suas mãos e tentando afasta-la.
-Diga que me ama. - pediu e inclinou-se pressionando os lábios contra os meus. Ela é frigida, sem gosto, sem calor. Seus lábios parecem pedras sem vida. - Diga que me ama. - pede outra vez abrindo os olhos para me encarar.
-Tire suas mãos de mim. - murmuro quando o efeito da sua corrente de energia parece se dissipar. - Não cairei neste jogo de novo. - me recomponho sentindo que voltava ao normal.
-Você sempre caiu, o que há de diferente agora? -a sua luz diminui, ela me encara procurando alguma pista em meu rosto. - É por causa dela? - seus olhos ficam opacos, imagino o que esta por vir. - INFERNO!
Heloise explode em fúria me arremessando longe, meu corpo bate com força na parede. Para um fantasma estava sentindo bastante o impacto do concreto. A sua imagem perfeita se retorce até voltar a sua forma atual. Seu cabelos antes dourados como fios de ouro estão cinzas, sua pele é pálida e cheia de rachaduras, entre elas uma luz vermelha flamejante aparece. Seus olhos são negros, por completo. A imagem angelical de Heloise é uma farsa, aquela era ela na verdade, o que havia se transformado.
-Envenenou ela contra mim, não foi? -pergunto.
Sua gargalhada maléfica ressoa pela sala que agora é escura e fria.
-Talvez, mas nós dois sabemos que não preciso fazer muito para ela te odiar. - suas vestes mudam ficando surradas e sujas. -Basta ela olhar nesses seus olhos demoníacos para saber que vai acabar como eu, como todas as outras.
-Ela é diferente. - protesto.
-Diferente por que? Dessa vez você rompeu o hímen dela e se sentiu culpado? Não foi assim com Anna...pobre garota.
Me poio na parede levantando com cuidado, a sensação é de ela havia arrancando um pedaço de mim ao me atirar na parede.
-Não tente me culpar por algo que não fiz. - dou um passo a frente sentindo-me menos amedrontado. A forma monstruosa dela me assustava menos, pois aquela eu repudiava.
-Sim, por que você é tão inocente garoto. -ela flutua deixando o rastro de uma fumaça negra atrás de si.
-Deixe-a em paz. - suspiro afundando os dedos em meio ao cabelo. - Faço o que quiser, desapareço se for necessário, mas deixe-a em paz.
Nada me doeu tanto do que ver o transtorno que havia causado a garota de olhos de coruja. Ela estava fora de si, assutada e confusa. Chegou a machucar-se. Se permitisse que isso continuasse acontecendo me sentiria pior do que já sinto. Havia algo sobre ela que não tinha visto em nenhuma outra e não queria que se perdesse. Ela era cheia de luz, mesmo com os nuances escuros em sua alma, era tanta luz que mal cabia dentro si. Sua áurea me alimentava, me dava forças para continuar a voltar e contemplar seu brilho.
-Desde quando você barganha comigo? - pergunta parando no ar e me encarando. - Sempre foi tão desinteressado com meus feitos. O que mudou?
-Ela não merece isso.
-De todas é a que mais merece isso. - seu tom oscila, esta pensativa. - Ela tem a alma suja.
-E a sua era imaculada. - ironizo.
-Espere....- uma risadinha irritante soa de seus lábios rachados. - Você gosta dela, de verdade. - tenho a impressão de que a sala diminui quando profere aquelas palavras. - Realmente ama a vadiazinha homicida.
-Não importa, apenas peça algo em troca e eu farei.
-Oh querido. - ela se aproxima. Não me afasto, estou cansado de fugir. -Apenas admita que a ama. - fico quieto esperando que ela desistisse daquilo.
A loira ergue a mão a minha frente e a fecha vagarosamente. Minha caixa torácica parece ser esmagada. É como se estivesse preso em meio a um rolo compressor. Não consigo me mexer, a dor é escruciante.
-Admita! - fecho os olhos em agonia gemendo de dor. - Vamos lá seu fracote, admita. - meu corpo se curva e é como se algo estivesse sendo quebrado.
-Eu a amo! Amo Sabine. - esbravejo. Se não estivesse morto juraria que começava a engasgar com meu próprio sangue.
-Ótimo, agora tenho mais uma razão para transformar a vida dela em um inferno. - sinto meus cabelos serem puxados, seus olhos estão me encarando com tanto ódio que posso sentir a morte me chamando outra vez. -Eu prometi uma eternidade de sofrimento a você, deixar que o seu novo amor se mate sera uma das suas punições. Ela queimara em chamas a sua frente, assim como eu. Quem sabe ela não se junte a mim para te torturar?
-Ela não como você. - rosno entredentes.
-Ela é pior, e você sabe.
Sua mão se fecha completamente pressionando seus dedos de forma em que em poucos segundos o meu corpo entra em combustão e se rompe em inúmeras fagulhas. Desapareço.
Há um tipo de escuridão diferente da que vivo naturalmente. Lá não há nada além do vazio e quietude. É como um grande salão, mas sem nenhuma mobília. É doloroso estar ali, você sente cada parte do seu corpo ser dilacerado pelo interminável silêncio. E se tenta gritar, é pior. Não há voz pois não há ninguém para lhe escutar.
Aqui é onde você paga pelos seus pecados, onde sua angústia e todos os seus pesadelos se transformam em realidade. Sempre foi apenas escuridão para mim. De fato eu não tive medo de nada até aquele momento. Ela estava certa. Algo mudou.
A imagem de Sabine aparece a minha frente. Ela esta linda, sorrindo. Estou tão envolto na melancolia daquele lugar que penso por um instante que poderia ser real. Penso em me mover mas sinto o peso das correntes sobre meu corpo. Não há como alcança-lo. Seus lábios se mexem, sei que ela esta chamando por meu nome apesar de não ouvir uma palavra sequer.
Em um instante ela sorri, sinto que posso lhe alcançar. Uma lamina atravessa seu peito e o sangue espirra em meu rosto, as correntes pesam me forçando a ficar no chão e apenas assistir a cena. Tento gritar enquanto seu corpo convulsiona. É inútil. Então eu choro em desespero.
Tudo vira um borrão até o seu corpo estar de pé novamente, sorrindo. Percebo então que aquilo estava longe de acabar.
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