2. 이
──── JENNIE ────
— A lili cantou!
Uma das presas bate a caneca metálica nas grades, trazendo um som estridente que chama a atenção das mulheres nas celas ao lado. A agente penitenciária pára na minha frente, com o molho de chaves balançando e uma careta de raiva.
Meu dia chegou.
— Vamos sentir a sua falta, Jendeukie! — Outra detenta diz e, em um rompante, me abraça, esmagando-me entre os seios enormes.
— Obrigada Sandrão, obrigada Castigo de Mãe... te vejo já fora, Cruela! Vou sentir falta de vocês! — Mando um beijo para todas. Elas têm lágrimas nos olhos e não querem me soltar por nada.
A agente penitenciária me dá um puxão impaciente para fora da cela, tirando-me dos braços de Sandrão, enquanto Castigo de Mãe e as outras se despedem de mim. Os gritos ficam cada vez mais fortes à medida que os outros se sobrepõem a eles. Dia de libertação no presídio é sempre assim, uma gritaria que não tem fim.
O cheiro de urina e sujeira é tão forte que, quando saio da área destinada às celas, me permito respirar fundo. O ar limpo é algo que eu possuía somente às quartas feiras, no banho de Sol, e nos dez minutos diários para me lavar com nada mais que um sabão de barra feito de gordura de porco e um pedaço de pano que chamam de toalha. Meus cabelos estão grandes agora, batem na cintura, e as duas mechas loiras só existem nas pontas, mas não recebem uma lavagem decente há pelo menos dois anos. Cruela tentou cortá-los com caco de vidro, mas só conseguiu replicá-los.
A agente penitenciária, uma mulher magrela e carrancuda com um cabelo brilhando gel, me empurra para frente, para que eu ande mais rápido, e chegamos a uma sala encardida. As prateleiras lotadas de arquivos cheiram a mofo e um computador da era jurássica toma conta de uma mesa de metal manca. O presídio é decante, mas que se foda, a minha liberdade está próxima e tudo aqui fará parte do meu passado. É só eu assinar as papeladas e seguir o corredor, passar por duas policiais armadas e voalá, liberdade.
A agente me empurra para o balcão, onde uma secretária está atrás do computador, batendo o carimbo nas pilhas de papéis.
— Liberação da menina aqui — a agente diz.
— Posso trocar de roupa antes de ir? — pergunto.
Passar três anos usando calças de moletom bege e camisa branca — detalhe, sem sutiã — é o meu pior tormento. Além da marca dos chinelos de dedo que não vão sair dos meus pés e os pelos em partes do corpo que eu nem sabia que poderiam nascer.
— Você terá tempo o suficiente para trocar de roupa lá fora, Jennie — diz a secretária. Ela pressiona o carimbo em uma folha de papel e me entrega, junto a uma caneta. — Nos vemos de novo daqui a pouco.
Dou um sorriso irônico a ela, enquanto assino o papel.
— Vai sonhando, catarro de porra.
A agente joga o saco com os meus pertences e me empurra portão afora.
Ao passar pelas grades de contenção e pelas policiais armadas, agarro o saco de roupas como se fosse um bebê. Lágrimas saem dos meus olhos a cada passo que eu dou para fora do presídio. Eu nunca mais vou pisar nesse lugar. É uma promessa.
Meu sorriso é tão grande que pode ser visto pelas costas. A minha frente, os campos verdes e o horizonte deserto me convidam para uma nova vida, e eu corro como uma medalhista olímpica, rodopiando e gritando:
— AAAAAH LIVRE! — Abro os braços e começo a girar. — FINALMENTE LIVRE, CARALHO! Pior experiência da minha vida! A lili cantou, porra! — Dou um chute no muro do presídio, mas o meu pé acerta o chapisco com muita força. — Aí, aí...— Seguro a sola machucada. — Merda... — Manco para longe do muro.
Três anos vendo o sol nascer quadrado, mil cento e noventa e cinco dias encarcerada, comemorando aniversários com sachê de cachorro em formato de bolo e dormindo em um colchonete mais fino que a minha dignidade, brigando por absorvente, amolando caco de vidro no muro... mas agora eu estou finalmente livre. Encaro a rua do presídio, os campos verdes que eu vou correr por mais alguns minutos, imaginando estar em um panfleto de Testemunhas de Jeová, e resolvo tirar os chinelos. A grama molhada faz cócegas nos meus dedinhos enquanto os meus cabelos farfalham contra o vento e o sol aquece a minha pele. Eu vou ser uma nova mulher, sem sombra de dúvidas. Jennie Kim será uma mulher, direita e livre.
Até que uma SUV preta pára na minha frente.
A aproximação foi tão rápida que eu nem a vi chegar. Os pneus amassam os pedregulhos da rua e o sol reflete no vidro escuro do automóvel. Franzo o cenho, confusa, no momento em que a porta do motorista se abre e uma mulher de cabelos pretos e uma franja espessa saí. Ela olha para mim e cruza os braços, como se tivesse atropelado um animalzinho no meio da estrada e estivesse decidindo se acabava de matá-lo ou se o abandonava no acostamento. Ela veste uma jaqueta militar e calças jeans justas, e o coturno preto batuca no meio fio, impaciente.
Olho para os lados.
— Ãn... posso ajudar?
Antes que ela respondesse a minha pergunta, outra pessoa sai pela porta do carona, mas só o topo dos fios cinza são vistos por mim. A mulher contorna o carro e entra no meu campo de visão.
Park Filha da Puta Rosé, bem na minha frente.
Vou para cima dela.
— Sua cadela imunda! — berro, mas a mulher de jaqueta militar me incapacita tão rápido que, no segundo seguinte, estou com a cara prensada na janela do SUV e meus braços presos atrás do meu corpo. — Me solta... porra! Rosé...! Eu vou... argh... caralho! Eu vou te matar! EU VOU TE MATAR! VOU MATAR VOCÊS!
Rosé encosta no carro, ao meu lado, observando a minha bochecha prensada no vidro e as tentativas fracassadas de me soltar do aperto, mas a mulher de jaqueta militar é tão forte que parece um muro de contenção segurando os meus braços. Ela pressiona o corpo contra o meu e sussurra no meu ouvido, divertida:
— Quanto você mede, ein? Um e sessenta? É tão fofo...
— Tá me tirando? Eu tenho um sessenta e três! — grito em resposta. — Me solta agora que eu vou te mostrar o fofo e...
A mulher ri da minha cara, mas Rosé dá batidinhas nos ombros dela.
— Largue-a, Lisa. Jennie não vai causar problemas, certo?
A tal da Lisa demora um tempinho para cumprir a ordem, mas finalmente me solta. Dou um empurrão que nem a muda do lugar, ajeitando a minha blusa amassada.
— Qual foi, Rosé? Já não basta me prender por três anos, agora veio zoar com a minha cara!? — Encaro ela e a brutamontes, alternadamente.
Rosé está vestida como a boa metida a besta que é. O vestido preto longo, com os botões que o dividem ao meio até metade da coxa, formando uma fenda. Os saltos parecem uma arma — eu não duvido que fossem — e os cabelos estão soltos, farfalhando pela brisa. Ela os joga para trás, colocando uns óculos escuros enormes.
— Eu tenho uma proposta para você, mas antes, preciso que se acalme e entre no carro — diz Rosé.
— Entrar no carro? — pergunto incrédula. — Com você e a Robocop aqui?
Lisa arqueia uma sobrancelha.
— Nem pensar! — continuo. — Tô fora dessa vida de crime, já paguei o que eu devia pra justiça e agora vou ser uma mulher renovada, sacou? Vou entrar na igreja e arrumar um emprego... — Dou um tchauzinho pras duas. — Só força e até nunca mais...
— Dez milhões de dólares — diz a tal de Lisa.
Paro de supetão, confusa.
— O quê?
— Se você aceitar a proposta de Rosé, vai ganhar dez milhões de dólares — responde Lisa.
Encaro o rosto impassível da pseudo robô. Ela é bonita, maçãs do rosto altas, lábios grandes e os olhos angulosos, mas parece um bonequinho treinado. Até o jeito em que está parada revela que tem treinamento militar. A forma como mantém a cabeça arqueada e as mãos entrelaçadas atrás do corpo, com os olhos sempre inquietos, esperando uma bomba atômica ou um ataque surpresa. Ex-soldada. São os piores tipos, letais e traumatizados demais para serem confiáveis. Já vi muita merda acontecendo na cadeia por causa de gente do tipo dela.
A Park Cuzona Rosé continua a mesma, inabalável. O fato dela achar que é uma deusa é apenas um dos problemas que eu tenho com ela, tirando o maior deles, claro: ela ter liderado a equipe que me botou na cadeia há três anos. Você pode chamar o que ela fez comigo de "trabalho", eu chamo de filhadaputagem. Mas, vamos lá, dez milhões de dólares? Eu posso entrar no carro e ouvir a proposta, ver qual é desse plano que Rosé encabeça.
Pelos meus princípios, nunca vou confiar na Soldadinho de Chumbo e muito menos na Diaba Cinza, mas sei que ela é boa no que se propõe a fazer, já que foi a única que conseguiu me pegar dentre todos os outros que tentaram.
— Eu tô com fome, falou? Me paguem um almoço pelo menos... — falo, entrando a contragosto no banco de trás do carro.
───「$」───
Elas me levaram para um hotel no centro de Seul e me esperaram trocar de roupa, no banheiro do sangão.
Por incrível que pareça, engordei um pouquinho na cadeia. O short jeans está um pouco apertado e a blusa cavada mostra um decote que antes não havia. Ao acompanhá-las pelo hotel, tento não ficar impressionada com toda a decoração dourada e brilhante — e se contar o tempo em que eu passei vendo concreto e barras de metal — uma parte minha está mesmo impressionada. Mas eu também observei as entrelinhas do que rola dentro do prédio bonito. A maioria dos homens esconde armas nos ternos e as mulheres, provavelmente, também escondem armas brancas em seus vestidos. O salão de festas, no terceiro andar, é usado como uma área de recreação adulta, mas as conversas acontecem com um cuidado a mais, cochichadas. O espaço entre as mesas é longo, mas elas em si são pequenas, para quem estiver conversando olhar cara a cara a outra pessoa, sem ter que falar alto. Os garçons não oferecem bebidas, eles nem mesmo se aproximam das mesas.
Também notei que Lisa está armada até os dentes, uma pistola .40 no coldre da cintura, duas facas militares dentro dos coturnos, um canivete tático no bolso, além das próprias mãos que sozinhas parecem causar muito estrago. Já Rosé não porta arma para se defender, o que é a cara dela, esnobe demais para pensar que alguma coisa pode acontecer consigo ou, talvez, confie nas habilidades de Lisa em protegê-la.
Sentamos em uma das mesas de três lugares e Rosé chama o garçom.
— Queremos uma porção de batatas, por favor — ela pede.
Imaginei que uma mulher como ela comia escargot, lagostas ou algo chique.
— Na verdade, três porções de batatas, por favor — Cutuco o garçom. Elas olham para mim, surpresas. — Qual foi? Vou levar duas pra viagem.
— Okay, três porções — confirma Rosé.
O garçom anota os pedidos e, assim que ele vai embora, Lisa arrasta a cadeira para perto de nós.
— Vamos aos negócios — diz ela.
Maneio a cabeça em negação.
— Apressadinha você, ein? Mamãe dizia que é falta de educação conversar assuntos importantes antes da comida chegar. E eu tô com uma fome de cão, não vou conseguir prestar atenção antes de comer, não...
Rosé rola os olhos, mas Lisa continua me fitando, desconfiada, o que não deve ser muito raro. Ela parece desconfiar da própria sombra.
— Sei o que você está pensando e sim, eu sou confiável. Só estou com fome — digo, sorrindo forçado.
— Okay, Jennie, já entendemos. A comida está a caminho. — Rosé se ajeita na cadeira. — Mas quero que saiba sobre a proposta antes de tudo.
Incito-a a prosseguir, mas Lisa toma a fala de Rosé.
— Vamos roubar uma quantia em dinheiro que o rei da Tailândia mandará para um banco, na ilha de Jeju.
Se eu estivesse comendo, teria engasgado.
— Roubo a banco? — Olho para as duas, incrédula. — Vocês estão falando de ROUBO A BANC... — Lisa tapa a minha boca. — Rumbumbuncu!?
Lambo a palma da sua mão e ela me solta imediatamente, limpando a baba nas calças.
— Não vamos roubar o banco... Quer dizer, não propositalmente, é complicado... mas o que você precisa saber é que nós vamos roubar o dinheiro antes que ele chegue ao banco — continua Lisa.
Rosé concorda, como se desse para entender alguma coisa do que Lisa disse.
Minha cabeça desponta de dor, é muita informação para processar em tão pouco tempo. Até semana passada eu lidava com o tédio lendo a bíblia ou ensinando informática para as detentas, já que não me deixavam fazer o curso. Por ordem da justiça, eu vou ficar dez anos longe de qualquer aparelho com acesso à internet, puff, como se eles pudessem controlar isso, nem o próprio Mark Zuckerberg conseguiria me impedir.
Viro-me para Rosé, que repousa os braços na mesa, relaxada.
— Achei que você fosse uma agente da lei, Park, você parecia ser uma agente da lei quando me deu voz de prisão. Agora está me dizendo que vai roubar um... dinheiro?
Rosé joga uma mecha dos cabelos cinza para trás.
— Deixe o passado no passado, Jennie, o que queremos de você é algo bem simples, ok? Queremos que faça o que sabe fazer de melhor.
Ergo uma sobrancelha, sugestiva.
— Sexo...?
Lisa segura um riso.
— Ser uma hacker, meu Deus do céu! — explica Rosé, impaciente.
— Essa é a segunda coisa que eu sei fazer de melhor — respondo. — E se valer dez milhões, é, tô dentro. Eu sei que eu falei sobre arrumar um emprego e entrar na igreja, mas posso fazer isso depois de receber a minha parte do acordo.
A boca de Lisa se ergue em um sorriso.
— Bem que você disse que seria fácil convencê-la, Rosé.
Olho para as duas, pronta para perguntar o que elas conversaram sobre mim, mas o garçom chega com os nossos pedidos, três porções de batata frita com muito cheddar e bacon. Minha boca saliva tanto que parece ser a primeira vez que eu vejo comida. Começo a atacar as batatas antes mesmo do garçom colocar a bandeja em cima da mesa. Rosé e Lisa me esperam comer antes de prosseguirem com o assunto.
— Está pronta para ouvir sobre a operação agora? — pergunta Rosé.
Aponto para as batatas fritas.
— Você sabe se eles fazem entrega?
— Não, eles não fazem entrega. — Lisa tira o prato de porção da minha frente. — Vamos aos assuntos importantes?
Puxo o prato novamente para perto de mim.
— Sou toda ouvidos.
Lisa parece decidir qual espécie de animal me encaixar e, devo admitir, vai ser engraçado pegar no pé dela se tivermos a chance de trabalhar juntas. Rosé tira o celular da bolsa e o coloca na minha frente.
— Esse é o Kim Seokmin — diz ela. Meus olhos brilham ao ver o aparelho, eu estou com tanta saudade de tocar em um celular. Meus dedinhos coçam. — Ele é dono do Banco Industrial de Jeju.
Lisa acrescenta:
— O banco que vai receber o dinheiro do rei.
— Obrigada pelo esclarecimento óbvio, Rambo — retruco.
Rosé lança a nós um olhar de advertência antes de prosseguir. Ela passa os dedos pela tela, mostrando-me o Instagram do velho. Ele é bem apessoado para alguém com mais de sessenta anos, pinta o cabelo de acaju e usa blusas polo, joga golfe, anda de iate e posa para fotos atrás de sua mesa de escritório com bastante frequência.
— Minha informante disse que o dinheiro saiu de Bangkok hoje de manhã, mas não sei quando ele vai chegar e nem onde ele está neste momento. O senhor Kim tem todas essas informações e precisamos dela — diz Lisa.
Elas me encaram com expectativa, como se eu fosse dar-lhes todas as respostas com o poder da mente. Não funciona assim. Nos filmes hollywoodianos os hackers conseguem tudo só apertando o "enter" do teclado, mas na vida real eu preciso de tempo e de uma brecha no sistema.
— Provavelmente, esse tipo de informação tá codificada e não fica no celular. O senhor Kim me parece entender o básico de tecnologia para saber que é fácil demais invadir um celular. Preciso colocar um vírus no seu computador pessoal, normalmente é o computador que ele tem em casa, conectado a uma rede de wi-fi familiar. Assim vou ter acesso a todos os aparelhos conectados à rede e vou conseguir a localização do dinheiro em tempo real — falo.
Lisa pisca algumas vezes, incrédula. Eu não entendi o espanto dela, eu sou inteligente.
— Me deem um minuto... — Limpo os dedos sujos de gordura na blusa e pego o celular de Rosé. É tão bom manter os meus polegares trabalhando.
— Eu imaginei que você iria precisar desse tipo de acesso, por isso vou me aproximar do senhor Kim — diz Rosé, a voz dela está abafada em meus ouvidos já que a minha atenção caiu nos números que rolam pela tela do aparelho. Rosé é esperta o bastante para não colocar nada pessoal nesse celular (eu conferi). O aparelho é descartável, mas aposto que ela tem outro com informações sigilosas e, infelizmente, nunca o deixaria nas minhas mãos.
Minha vingança ficará para depois.
— Você quer dizer que vai dar em cima do senhor Kim? — pergunta Lisa.
— Eu tenho os meus meios — responde Rosé. — Ele precisa me levar para a casa dele, lá eu posso plugar o pen drive que Jennie vai me dar e depois ir embora. Procurei a planta da casa, mas é fortemente vigiada e seria complicado demais invadir. Se formos pegas, levantaria um alarde desnecessário.
Elas continuam a conversa por um tempo, aparentemente Rosé é boa nesse lance de seduzir homens mais velhos. Mas, assim que obtive o acesso ao Instagram do senhor Kim, começo a rir.
— Acho que vocês vão precisar de outro plano — falo.
Elas se calam, me esperando prosseguir. Viro a tela do aparelho, mostrando o histórico de curtidas dele. Lisa enfia o cabeção na frente.
— Porno gay? — pergunta ela, incrédula.
— Porno gay — afirmo. — Muito pornô gay. E pela localização neste exato momento, o senhor Kim está numa sauna gay aqui perto.
A cara que elas estampam é impagável, estou tentada a abrir a câmera e tirar uma foto para fins de meme, mas suprimo a vontade voltando a procurar outras brechas que podemos usar. Lisa enfia algumas batatinhas na boca enquanto Rosé encara fixamente o tampo brilhante da mesa. Dá para sentir o cheiro dos neurônios dela pensando em outras alternativas.
À nossa volta, o salão prossegue com um zumbido baixo, cortado pelo grito ocasional de um jogador nas mesas de poker. Eu devo ser a única do lugar que veste roupas fedendo traças, até os garçons parecem mais apresentáveis do que eu.
— Ele pode ser... sei lá... — Lisa balança os ombros. — Bissexual?
— Mesmo assim, precisamos de outro plano — avisa Rosé. — Um com uma eficácia maior.
Volto para a timeline do Instagram do Senhor Kim, passando pelas fotos até parar em uma em específico. Mostro a Rosé.
— Quem é ela? — pergunto.
— Kim Jisoo, a herdeira do senhor Kim — responde Rosé.
Pela marcação na foto, entro no Instagram da menina e não preciso rolar a timeline para perceber o óbvio: viagem pelo mundo, festas, eventos exclusivos, comidas chiques... ela é o clichê da filha de um bilionário que possui apenas dois neurônios funcionais e muito dinheiro na conta bancária.
— O que você está pensando? — pergunta Lisa.
A soldado já sabe quando estou pronta para agir.
— Vamos conseguir acesso ao computador pessoal do senhor Kim por ela — respondo, colocando o celular no meio de nós três.
Rosé e Lisa se inclinam e chegam à mesma conclusão que eu no segundo stories de Jisoo: ela em Paris, mostrando a vista da Torre Eiffel enquanto bebe um drink de morango. Unhas bem feitas, cabelos loiros hidratados ao vento e um cachorro de madame na bolsa.
Lisa sorri, debochada.
— Está pronta para fingir ser uma herdeira, Rosé? — zomba ela.
Sigo o olhar de Lisa, vendo Rosé branca como um fantasma. Ela sabe que entre mim, que tem um linguajar um tanto sujo, e Lisa, que não consegue ao menos parecer um ser humano, ela é a mais propensa a se aproximar de Kim Jisoo.
E se as coisas se desenrolarem tão fácil como eu estou prevendo, ganhar dez milhões vai ser como roubar doce de criança... quer dizer, doce de herdeira.
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