XVII - Não sabemos quem somos, até perdemos quem éramos
De Kim Jisoo
"Jisoo se perguntou se Jiyong teria um bom conselho para lhe dar naquele momento."
Jisoo estava anestesiada, essa era a melhor definição para descrevê-la naquele sábado a noite. Não tinha ido ao colégio a semana toda, e Rosé e Lisa, as únicas pessoas que a visitavam, evitavam dize-lá como andava sua fama pelos corredores. Mas sabia que não poderia voltar lá sem ser o centro das atenções por um longo tempo, o grande problema era que não tinha esse longo tempo, faltava semanas para o fim das aulas e sua despedida do ensino médio foi sucedida de forma abrupta. Era amargo pensar que Jisoo poderia se considerar sortuda por ter notas o suficiente para não precisar fazer as provas finais.
Sua mãe precisou chama-lá mais de duas vezes para que saísse dos devaneios, encarou surpresa a mulher parada na soleira da porta, as roupas indicando que acabara de chegar do trabalho. Jisoo tinha se surpreendido pela atenção, pois a mãe a ignorava por dias, sem saber direito o que fazer com a filha, e não poderia julgá-la, não sabia qual seria sua reação se estivesse no lugar dela, se descobrisse que sua única bênção não era um terço do que parecia ser.
A mulher deu um longo suspiro e Jisoo esperou ansiosa pelas palavras que sairiam de sua boca.
- Uma amiga veio te ver.
E sem nem mesmo olhá-la nos olhos foi embora a passos pesados, deixando Jisoo curiosa e com uma pontada dolorida no peito. A mãe conhecia Lisa e Rosé, e ela não tinha mais nenhuma amiga além das duas, porém todos os seus pensamentos foram interrompidos pela garota parada na soleira de sua porta.
Nunca poderia imaginar que Jennie um dia iria até a sua casa.
A menina, percebendo a falta de reação ou de um cumprimento cordial, deu um passo incerto para dentro do cômodo, sem saber muito bem o que fazer, mas decidida a estar ali.
- Oi. - sussurrou ela.
Jisoo a encarava sem ao menos piscar, sem saber se Jennie merecia sua hospitalidade ou desprezo. Mas engoliu toda a angústia que crescia e machucava a garganta, ameaçando fazê-la chorar desesperadamente, e meneou a cabeça, era o mais próximo de um "oi" que poderia dar.
O quarto estava uma bagunça, todas as portas do guarda roupa abertas e uma cascata de peças desciam pelas prateleiras. Várias bolsas e caixas ocupavam o chão, e as duas pareciam formiguinhas no meio da selva. Jennie encarou toda a mudança sem saber por onde se enfiar, até encontrar uma trilha diminuta e se sentar em frente a Jisoo, no chão, em meio aos livros.
- Você vai embora?
- O que faz aqui? - rebateu, pois a última coisa que queria era dar satisfações a Jennie, mesmo que soubesse, por Lisa, que ela também era vítima da história. Mas nada tirava da cabeça de Jisoo que, se ela tivesse apagado essas fotos assim que as tirou, nada disso teria acontecido.
- Eu vim te pedir desculpas.
Jisoo riu, gargalhou alto e teatralmente, porque estava no fundo do poço, com olheiras debaixo dos olhos, com feridas em abertos e aquela cena já tinha acontecido, às desculpas de Jennie só servem para acalentar seu coração culpado, mas não resolvem muita coisa, de fato.
Quando limpou as lágrimas fujonas no canto dos olhos, voltou a observar Jennie, ainda a sua frente com as pernas cruzadas, sem reação a não ser os lábios repuxados para baixo, mais de frustração do que raiva. E Jisoo se perguntou o quão forte o ex namorado a bateu. Um grande roxo ocupava o canto da testa dela, como se tivesse batido a cabeça na parede e um leve arranhão de unha cruzava a bochecha. Mas era a áurea que parecia ter sofrido mais, algo em Jennie era digno de pena, como se a garota que estivesse dentro dela não existisse mais.
Jennie abriu a boca, depois a fechou e parecia tentar, desesperadamente, encontrar as palavras certas para dizer, como se estivesse em uma briga interna.
- Não as mesmas desculpas de antes, aquelas não foram verdadeiras.
- Não me diga, Jennie Kim...
- Eu não sei por onde começar...
- Do começo seria bom.
Jennie riu, sem graça, passando as mãos pelos cabelos até finalmente olhar Jisoo nos olhos.
- Um dia Lisa me perguntou "O que Jisoo fez para ganhar tanto ódio seu?"... e eu não soube responder. - ela tentou respirar fundo, mas a voz já estava embargada e as lágrimas teimosas já enchiam seus olhos. Jisoo tentava não olhar, todo aquele clima se tornava torturante. - Porque o problema nunca foi você e eu demorei tempo demais para perceber isso, que na verdade era só eu e minha mania de sentir inveja por tudo o que eu não podia ser.
- Inveja de que? Por Deus, você me infernizou por todos esses anos, por pura inveja? Inveja de mim?
- Você era boa no futebol, tinha as melhores notas da turma e tinha Rosé, que te daria o mundo inteiro se você pedisse. Além de tudo, era malditamente boa e tão generosa que parecia mentira... Eu me sentia um lixo perto de você, eu queria ser como você, Jisoo. Por que meus pais queriam uma filha como você, meu namorado queria uma garota como você. Quando eu não consegui só sobrou... raiva. - Jennie passou a língua pelos lábios rachados. - Eu sei que minhas desculpas não vão te fazer me odiar menos, eu realmente não queria ter chegado aonde eu cheguei, porque eu realmente encontrei alguém que me ama como eu sou, não como eu fingia ser e eu estraguei tudo.
Jennie deu um suspiro, limpando as lágrimas acumuladas nos olhos, na verdade ela parecia ter chorado o dia inteiro, seus cabelos estavam amontoados em uma bagunça castanha e todo o rosto parecia pálido e magro. Nunca poderia imaginar que Jennie Kim chegaria a esse ponto, que ela mesma chegaria a esse ponto, que as coisas fossem ser dessa forma, que na verdade era invejada e copiada, era tão surreal que quase chegava a incredulidade. Mas agora sentia-se de mãos atadas, observando tudo se desenrolar sem poder fazer algo.
Jisoo se perguntou se Jiyong teria um bom conselho para lhe dar naquele momento.
- Lisa me contou sobre Chinhwa, as fotos de vocês duas estão por todo o lugar, mas ela ainda está indo nas aulas, não há nada de errado em beijar garotas, sabe? - disse antes que pudesse segurar, numa forma de consolá-la. Talvez fosse malditamente boa, no fim das contas.
- Explique isso aos meus pais, eu estou indo embora do país esse fim de semana... oficialmente deserdada, acho.
Jisoo arqueou as sobrancelhas, surpresa, mesmo que não estivesse numa situação diferente.
- Eu meio que entendo, as fotos chegaram até a igreja e... mamãe achou melhor eu começar a faculdade mais cedo, longe daqui.
Nunca quis ir para longe, tinha Rosé e Lisa, seus livros e tudo que precisava exatamente ali. Mas os boatos se alastraram rápidos, e todos os adultos que conhecia culpava sua mãe e a falta da presença do pai, como se a culpa pelos pecados de Jisoo fosse não ter um homem na ponta da mesa na hora do jantar, que a criasse corretamente.
- Você se dará bem, onde quer que esteja. - ela sorriu grande, um sorriso gengival que surpreendeu Jisoo.
- Digo o mesmo de você em...
- Veneza.
- Uau, bem melhor que Jeju, não acha?
As duas riram e poderia parecer conhecidas, vizinhas, quase amigas naquele momento.
- Lisa não me contou sobre isso. - sussurrou baixinho, querendo que Jennie tivesse ouvido para não precisar repetir. Elas agora cochichavam, mais próximas uma da outra como se partilhassem um segredo.
Jennie demorou a responder, brincando com um cachecol velho de Jisoo, perdido no meio de tantas roupas.
- Lisa não te contou porque ela não sabe. Esse é o segundo motivo pelo qual estou aqui. - ela tirou uma carta dobrada no bolso de trás dos jeans e estendeu a Jisoo, que olhava para o papel a sua frente, sem saber se deveria pegá-lo ou não. - Meus pais não querem que eu volte tão cedo, talvez anos, não sei - ainda tinha a carta estendida nas mãos, agora trêmulas - Eu não vou conseguir me despedir dela Jisoo, eu nunca conseguiria.
Ainda receosa, tomou a carta das mãos de Jennie. Uma parte sua queria convencê-la e se despedir pessoalmente de Lisa, pois sabia que a tailandesa a convenceria a ficar e se não fosse possível, arrumaria passagens e iria com Jennie para Veneza. Elas iriam embora juntas, ficariam juntas, mas Jisoo se permitiu ser egoísta ao imaginar Lisa vivendo de uma forma melhor sem Jennie, se permitiu imaginar sua melhor amiga aqui, junto a ela e Rosé, ao alcance sempre que precisasse.
- Eu prometo entregar a carta, e manter segredo sobre o que conversamos aqui. - murmurou, encarando Jennie o suficiente para que ela entendesse que cumpriria a promessa.
A garota se levantou, desajeitadamente, sem saber como se despedir, levantou a mão algumas vezes num adeus afetado, e lágrimas já se acumulavam novamente, escorrendo pelas suas bochechas.
- Espero que consiga me desculpar e que tenha uma vida maravilhosa, Jisoo-yah.
- Eu não sei se posso te desculpar, eu realmente queria, um dia talvez.
Jennie sorriu.
- Quem sabe um dia.
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