|livro um| septem
Conheci Nayeon no final do ensino fundamental, mas ela já cursava o ensino médio.
Ela sentava na primeira fileira e respondia com maestria todas as perguntas do professor, sorria com seus dentes dianteiros avantajados — o que poderia ser material para bullying porque todos nós conhecemos como a escola é —, mas de alguma forma, Nayeon transformou os dentinhos de coelho em algo invejável. Ela gostava de ler, fazer piadas sem graça e beijar garotos de índole duvidosa. Às vezes, a noite, sinto falta do gosto do seu gloss de uva, piadas sem final e facilidade em abrir sachês de catchup.
No ensino médio teve Chaerin, mãe de um garoto tímido de quem fui babá por um verão inteiro. Ela o teve muito cedo em um daqueles surtos rebeldes por se considerar certinha demais para a idade, na primeira transa com um cara que nunca amou e sequer imaginava namorando, engravidou e foi obrigada a se casar com ele. Chaerin não saía de casa sem um delineador, gostava de ser ouvida, cheia de rimas fáceis e com uma culpa maior do que as ruínas do seu casamento.
Depois dela teve Tiffany e seu sonho de mudar o mundo, Hyolyn e sua certeza que o mundo ficaria melhor sem mim.
Guardo todas elas na lembrança, apesar do fim trágico que tiveram.
Mas sempre foi assim, minha vida foi moldada por mudanças repentinas e amores que vem e vão, é uma memória vívida em minha mente como um toque familiar na pele, o gosto de achocolatado quente e a euforia de ganhar um presente novo no natal: o gosto de recomeço.
Minha mãe era uma mulher de possibilidades perdidas, sonhos engavetados e contas para pagar. Algo nas fotos de quando ela era jovem remetia a mim, o cabelo castanho claro que começava liso e acabava com ondas nas pontas, os lábios sempre cobertos por cores entre vermelho e vermelho escuro, e havia um brilho perverso e desafiante em seus olhos, na maneira como brandia cartazes em manifestações ou abraçava a cintura daquele garoto alto que um dia seria meu pai. Aprendi com ela que é isso que homens fazem com você: eles prometem amor, dinheiro e o mundo, prometem nunca te bater, nunca te trair e nunca te abandonar, mas quando a amargura surge, quando as coisas não saem como planejado e eles descobrem que não há nada de especial só porque existe um pau no meio de suas pernas, eles fazem tudo aquilo que prometeram não fazer.
A fagulha da minha mãe foi apagada, a faculdade trancada e eu crescia em sua barriga, planos não planejados, situações não contidas e aquela foto acabou se tornando a única coisa que eu tinha de recordação do meu pai, além das lembranças ditas com voz nostálgica pela minha mãe, que depois que eu nasci virou só isso: mãe. Não direi o nome dela porque mães nas histórias não têm nome. Não têm gosto ou amores, não têm um passado, são reduzidas a serem mães.
Nos mudávamos com frequência porque eu demandava isso. Ela tinha ódio pelo sexo oposto, pelo o que meu pai fez a nós, e para deixá-la feliz comecei a morder os menininhos no maternal, tivemos que nos mudar pela primeira vez quando acabei arrancando um naco de pele com meus caninos infantis. Lembro-me dela sussurrar em meu ouvido: morda mais forte da próxima vez, querida.
No entanto, a primeira garota que apareceu em minha vida, Joohyun, foi um ponto de virada. Ela era a mais velha da sala, enquanto todos faziam 11 ela já tinha 12 anos completos — apesar de não gostar de lembrar do surto de catapora que a atacou quando tinha 9 anos e fez com que ficasse em casa mais tempo que o previsto —. Joohyun gostava de um projeto e me aninhou em baixo de sua saia como uma mãe faria.
Ela me ensinou a passar batom, a colocar enchimento no sutiã e a mascar chiclete daquele jeito sexy dos filmes americanos. Eu passava muito tempo na casa dela, registrando tudo para fazer quando chegasse em casa. Imitava o jeito dela dançar, falar, cantar, o jeito como mexia no cabelo e como andava, comecei a treinar para ter uma letra parecida também.
Joohyun era os que os cristãos chamavam de milagre, ela me fazia sentir aquilo que mais tarde eu descobriria o que era mas, naquela época, nova demais, achava ser admiração.
Tudo mudou com a chegada de Seulgi. Joohyun a chamou para andar com a gente. Lembra o que eu disse sobre ela gostar de um projeto? Pois bem, Seulgi era nova, calada, bochechas grandes e olhos pequenos, encantadora.
Ela roubou o meu lugar em menos de um mês.
Mas um dia você está quieta, assustada demais com a nova escola, novos amigos e novos desafios, sem entender o turbilhão de hormônios apossando seu corpo, fazendo crescer pelos, fedor, tesão e todos os males que acompanha a puberdade e então, no outro dia, está morta.
Acidentalmente, Seulgi bateu a cabeça na calçada do colégio e morreu a caminho do hospital. A diretora me chamou em sua sala, junto a minha mãe, e me perguntou se eu tinha visto o que de fato acontecera, já que estávamos apenas nós duas, juntas, esperando Joohyun sair da detenção por ter esquecido de fazer o dever. Minha mãe falou por mim, me defendeu com unhas e dentes.
Assim que chegamos em casa, ela disse que eu deveria ser mais cuidadosa.
Nos mudamos de novo e de novo e de novo. Sempre que algo dava errado havia um lugar para recomeçar. Minha mãe me ensinou que acidentes acontecem e devem ser bem acobertados, e suas últimas palavras foi um conselho que me fez prometer seguir: eu nunca deveria cometer o mesmo erro que ela, nunca deveria deixar um homem acabar comigo.
Já mulheres, bem, ela nunca disse nada sobre mulheres.
Se ela estivesse viva, me aconselharia a ir embora, mas não penso em me mudar. Jisoo chama de destino, eu chamo de acaso, porém tudo que vivi me levou até aquela universidade, até Lalisa, e eu não vou desistir tão fácil.
— Não estou pronta para deixá-la, o que aconteceu foi a prova de que se eu quiser conquistá-la, preciso tomar medidas mais drásticas.
Me sinto satisfeita, encaro as roupas jogadas no vão entre minha cama e de Jisoo, os lençóis dela que precisam ser trocados, sujos de resto de maquiagem e bitucas de cigarros. Não temos responsabilidade para morarmos juntas, a lixeira não aguenta mais lixo e os livros precisam ser devolvidos para a biblioteca, mas estão jogados na mesa de estudos. O armário de Jisoo não fecha mais, porque ela embola as roupas umas em cima das outras e não há nada que eu possa fazer além de puxar uma peça nova todos os dias e passá-la com a chapinha de cabelo.
O ventilador de teto vai cair em cima das nossas cabeças em algum momento e quando olho para cima vejo uma calcinha pendurada em uma das hélices, puxo a peça, jogando-a no chão. Assim que me sento novamente no colchão mexo os dedos do pé, as unhas pequenas pintadas de vermelho sem nenhuma falha, flexiono o joelho, começando a passar o esmalte nos dedos do outro pé.
O gemido de Jisoo soa no banheiro no que seria um "o quê?"
— Eu disse: "Não estou pronta para deixá-la, o que aconteceu foi a prova de que se eu quiser conquistá-la, preciso tomar medidas mais drásticas." — Aumento o tom de voz para chegar no outro cômodo, sem querer, erro uma pincelada.
— Que medidas... drásticas? Você me... prometeu... Jennie! — A voz de Jisoo é abafada.
— Não é esse tipo de medidas que estou falando! Arh, droga... — Erro de novo. — Jisoo, onde está a acetona?
Ela geme de novo.
— To meio ocupada!
— Ah, qual é!? — Me levanto, emburrada, e tropeço na chapinha que ela deixou aos pés da cama. Todo o bom trabalho que fiz pintando os dedos do pé direito não existe mais, há apenas um borrão vermelho. — KIM JISOO!
Meu berro ecoa no momento que a porta se abre e o garoto sai, ainda meio cambaleante, fechando o zíper da calça. Ele me encara por segundos de constrangimento antes de dizer:
— Ãhn, oi, Jennie, eu e a sua irmã... a gente... — Ele tenta explicar como se eu não soubesse o que estavam fazendo lá dentro.
Jisoo saí do banheiro depois dele, abaixa a saia e, como se o garoto não existisse, vem até mim.
— Eu deixei a acetona no armário... — Em um clique ela se lembra que o menino está no meio do quarto, suor escorrendo da testa e uma elevação nada legal no meio das pernas, ela maneia a cabeça em incredulidade e aponta a saída. — O que você ainda está fazendo aqui?
— Ah, é pra ir embora... então, é, foi... maneiro. — Ele coça os cabelos, pela forma que transpira acho que se sente intimidado por nós duas, como um bicho que no meio do ataque do predador se esquece de correr.
— Tchau, Mino. — Jisoo aponta para a porta.
— É Jinyoung.
— Tanto faz.
O garoto sai do quarto com o rabo entre as pernas. Não esperamos ele fechar a porta para começarmos a gargalhar.
Jisoo está fazendo sucesso no campus, o que era de se esperar, e está usando o fato dos garotos serem influenciáveis para ganhar alguns minutos de entretenimento. Ela me disse uma vez que éramos as coisas que fazíamos por diversão, então respondi que ela era uma drogada, puta e uma completa bagunça, ela respondeu que eu era uma assassina, psicopata e uma completa porra louca.
Formamos a dupla perfeita.
— Você quebrou o coração dele! — Me esparramo na cama, rindo.
Ela dá de ombros e se junta a mim.
— É o quinto essa semana.
— Jisoo, não tente me abraçar! Você fede a sexo hétero, por Deus...
Ela se aconchega na cama, ignorando o fato de eu não querê-la me abraçando e faz mesmo assim, os braços envoltos na minha cintura e o corpo sempre mais quente do que o considerado normal. Seu rosto está suado e um sorriso pós coito estampa as feições bonitas, mas assim que a encaro ela me entrega um ar temeroso.
— Que medidas drásticas? Tem uma semana que você insiste nesse assunto.
Suspiro, enfim aceitando o seu abraço.
— Você não entenderia. Nunca se apaixonou antes.
Não é a cara de Jisoo se apaixonar. Ela é livre demais e desprendida o suficiente para acreditar em Deus e tirar sarro do amor.
— Eu já gostei de um cara, caso não saiba. — Num pulo ela se senta em cima de mim, alguns fios dos seus cabelos encostam no meu rosto. — Ele era amigo do meu pai, sempre que tinha festa lá em casa ele levava a esposa. Meu coração se despedaçava.
— Conta outra...
— Juro! Quando eu o via, apertava a cruz e fechava os olhos com força... — Ela imitou o gesto que descreveu e automaticamente eu também fiz. — E pedia: "Senhor, sou eu de novo, por favor, faça essa vadia sair daqui para que eu possa roubar o homem dela."
Abro os olhos, piscando algumas vezes.
— Deus te ouvia?
— Todas as vezes.
Outra série de gargalhadas ressoa pelo quarto. Jisoo se deita ao meu lado e ri tanto que está apertando a barriga enquanto eu limpo as lágrimas dos olhos.
— Está me dizendo que para ter Lalisa eu só tenho que pedir?
Ela faz que sim com a cabeça e completa:
— Ele é um cara gente boa, me admira você não ter pedido ainda.
Encaro Jisoo, incrédula, mas ela está me olhando com expectativa. O máximo que pode acontecer (melhor, não acontecer) é nada. Pigarreio, me sento na cama e Jisoo faz o mesmo, com as pernas em cima das minhas no pouco espaço da cama, sinto sua respiração ansiosa quando fecho os olhos e aperto a cruz.
É mais estranho do que eu esperava e há tensão no ar — muito alimentada por Jisoo — que me faz, por um segundo, querer que Lalisa seja minha. É tão idiota que passo metade do tempo rindo internamente.
Não dá menos de um minuto e ela sussurra:
— E então?
Preciso me afastar para responder:
— Pedi.
Jisoo sorri, orgulhosa, como se tivesse me ensinado algo muito valoroso, ela me abraça desajeitadamente, mas nosso período de conforto entre irmãs termina rápido. Batidas soam na porta do nosso quarto.
— Você marcou com outro garoto? — Não há julgamento na fala, só quero saber porque espero dormir mais cedo, mas Jisoo junta as sobrancelhas, em confusão.
— Acho que não. — E se levanta, caminhando até a porta.
Enquanto isso tenho a visão dos meus dedinhos borrados de vermelho e suspiro frustrada. A porta se abre em um plano de fundo que não estou muito interessada, mas o silêncio de Jisoo me desperta estranheza. Ela está parada como uma estátua, seus músculos não se movem, os nódulos dos dedos que seguram a maçaneta estão firmes e ao menos preciso encarar seu semblante para saber que há surpresa em seus olhos.
— Jisoo? — Me levanto da cama, devagar. Sinto minha respiração incomoda nos ouvidos, estou arfando. — Jisoo, o que aconteceu?
Ela finalmente se vira para mim e balbucia algo inaudível.
Quando vou até a porta, vejo Lalisa do outro lado do batente.
━━━━━━
Primeiro capítulo que Jisoo e Jennie não tocam em um cigarro ✊🏾🙏🏾 Proerd é a solução! E me contem, o que acharam do comeback?
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro