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|livro dois| renatarum

"Seu Deus virá, virá com vingança."
Isaías 35:3-4






Ar.

Por mais que eu tente, não encontro ar para respirar.

Aqui está escuro como um túmulo, abafado e apertado. Não consigo mexer as mãos ou as pernas, mas consigo mexer a cabeça de um lado para o outro. Estou deitada, não enxergo um palmo na frente do meu nariz.

Pisco algumas vezes, porém, meu olho arde em contato com a terra pastosa, ela entra na minha boca e em meu nariz, me impedindo de respirar. Há insetos também, que passeiam pelo meu rosto, dentro da minha blusa... as patinhas se arrastando, me causando um calafrio. O grito quer sair da garganta e saí de forma dolorida, cuspo terra, mas ela empoça ao redor dos meus lábios. Continuo gritando, a minha voz não ecoa, ela está enterrada.

Eu estou enterrada.

Meus dedos cavam a terra em busca de uma saída, tocam nas bordas do caixão, o som abafado percorre a madeira e se mistura ao das baratas. Estou debaixo da terra, não consigo respirar e estou debaixo da terra.

O pânico me toma em questão de segundos, fui enterrada viva, fui enterrada viva, fui enterrada viva... e a única coisa que me lembro com clareza são dos olhos de Lalisa, negros e intensos, e da minha face refletida neles. "É por isso que você é fascinada com os meus olhos" ela disse "Porque você se vê refletida neles". Lembro que ela me incitou a matar um garoto... ela matou Jisoo, brigamos para pegar uma faca, ela enfiou a faca em minha barriga. Isso parece ter acontecido há anos atrás, parece ter se passado uma vida desde que estive naquele porão, desde que fui esfaqueada por Lalisa.

Meus punhos acertam a madeira, reverberam, mas nada acontece por um tempo, a terra remexe, cai e me enterra ainda mais. O caixão está rachado e é nessa abertura que me foco. O ar está escasso, pesado, parado, ele não entra pelas minhas narinas como deveria, o que me faz arquejar e chorar, estou chorando, lágrimas se transformam em barro ao rolar pelos meus olhos. Não posso me mexer, não tem como me mexer, minhas pernas estão dormentes, formigam, e meus punhos se afundam na madeira quebrada. A terra está em maior quantidade agora, as formigas e baratas passeiam livremente em meio aos meus gritos.

— SOCORRO! — berro, com a boca cheia de terra. — Alguém me ajuda!

Uma avalanche cai sobre mim, não consigo gritar ou mexer os meus braços, é como ser amassada por um muro. Meus dedos cavam até a saída, com as unhas quebradiças e machucadas, enquanto uso o resto das minhas forças para não morrer. Meu braço rompe a terra, o frescor atinge a minha pele como um abraço, e isso me dá forças para continuar.

Prossigo cavando porque minha vida depende disso, e encontro a superfície em um arfar.

O ar entra gelado pelas minhas narinas entupidas de terra, sinto-o passar pelas correntes sanguíneas, restaurando os batimentos do meu coração. Estou viva. Apalpo o meu corpo, tudo está no lugar, por mais que uma poça de sangue se acumule na minha barriga machucada e minhas pernas estejam dormentes, está tudo no lugar.

Está escuro aqui fora, o céu é pincelado por um azul sem estrelas. Estou em um descampado decadente, com uma terra infértil, vermelha. As árvores rodeiam o perímetro, baixas e retorcidas, e a maioria sem folhas. Atrás de mim, uma cruz está fincada na terra e "Jennie Kim" foi escrito na madeira. Não encontro o ano em que nasci e nem o ano que "morri", é como se eu fosse uma indigente, como se não houvesse ninguém para interceder pelo meu corpo.

Na verdade, me sinto um zumbi, saindo do caixão e renascendo de novo, suja de terra e machucada... tirando o fato que nunca estive morta, que meu caixão estava enterrado de maneira porca e perto da superfície, e que a culpada disso é a minha professora de Teoria a Introdução Musical.

Analiso o espaço ao meu redor, é do tamanho de um campo de futebol pequeno e há várias fileiras com uma cruz fincada no chão, contei mais de vinte. Me levanto com dificuldade, mas a dor que atinge a minha barriga é tão forte que perco o ar por alguns minutos. Estou com muita sede, minha língua é uma lixa, minha boca está sem saliva, de modo que a terra impregna no interior das bochechas. Estou com fome e fraca, é um milagre eu me sustentar, mesmo que porcamente, e conseguir andar.

"Park Jimin" está escrito em uma das cruzes, "Kim Taehyung", "Chou Tzuyu" "Jung Jinsol"... passo por todas elas, parecem não ter fim. Esse é o cemitério particular de Lalisa, é onde ela enterra os corpos dos alunos que mata.

Paro em frente a uma cruz em especial e um bolo de angústia se forma na minha garganta.

"Park Rosé."

Caio em meio a terra vermelha e uma gosma ameaça romper pela minha garganta. Era para ser um vômito, mas não há nada além de suco gástrico no meu estômago. Não sei onde estou, minha cabeça doí, mas eu me levanto e continuo a caminhar, um pé na frente do outro e uma mão contendo o sangue da minha barriga. É fácil transpassar as árvores, elas não trazem perigo nenhum. No acostamento da rodovia, os carros passam zunindo, os faróis cortam a noite densa e fria, jogando os meus cabelos cheios de terra para trás em um farfalhar violento.

Levanto o polegar para cima, balançando-o em direção aos carros.

Imagino o que os motoristas veem ao olhar de relance para mim: um monstro cheio de terra, um fantasma, o resquício de um corpo sem alma. Meus olhos estão vidrados, sem emoção alguma. Não há nenhum resquício do que eu era aqui dentro. Um caminhão diminui a velocidade até parar próximo a mim, o farol alto me cega.

Não penso duas vezes antes de entrar.

O motorista me espera fechar a porta antes de dar partida. Não vejo o seu rosto em um primeiro momento, estou me ajustando, tentando ficar em uma posição sem que nada doa. A voz dele ressoa, rouca e preocupada:

— O que houve com você, criança?

Ignoro a pergunta.

— Que dia é hoje?

A cabine do caminhão é aconchegante, os faróis dos carros refletem por ela, vagueiam sem rumo, amarelo e vermelho, amarelo e vermelho... e uma música country sai baixinho da rádio.

Ele não me responde.

— Que dia é hoje? — insisto.

Ele pisca algumas vezes.

— Quarta feira.

— De Agosto?

Ele maneia a cabeça em afirmação.

Três dias, se passaram três dias desde que fui esfaqueada por Lalisa naquele porão. Três dias, talvez eu seja o novo Messias.

O enterro de Jisoo aconteceu? O semestre começou? Olho para os lados, momentaneamente zonza.

— Você tem água? — consigo perguntar.

Minha voz está rouca e falha, não a escuto há tanto tempo que me assusto com o leve ressoar que ela emite, um chiado baixo, como lixa na parede. O caminhoneiro se inclina no assento e me dá uma garrafa de água. Eu tomo de uma vez, molhando o meu queixo e o meu pescoço.

— Sei de um hospital aqui perto, posso te deixar lá. — Ele tem um sotaque forte do litoral. Busan, estamos em algum lugar de Busan.

— Nada de hospitais — respondo.

— Você parece precisar de um — ele aconselha.

— Estou bem — respondo lentamente, como se conversasse com uma criança. — Só fui enterrada viva.

Ele balança a cabeça, como se dissesse "ah, esses jovens... bebem, fumam, são enterrados vivos..."

— Isso explica muita coisa — ele balbucia.

Jogo a garrafinha de água no chão da cabine, está bastante limpo.

— Você tem um cigarro? — pergunto.

Ele me observa com uma expressão analítica, o bigode espesso tampa a boca, as sobrancelhas grossas estão juntas. A blusa devia ser branca, um dia foi branca, mas agora está encardida e esconde metade da pança gorda.

— Tem um maço no porta-luvas — Ele diz por fim, prestando atenção na estrada, com os dedos firmes no volante.

Abro o porta-luvas, minhas mãos sujas de terra vasculham os papéis até encontrar a caixa. O isqueiro está no porta-balas.

— Qual o seu nome? — pergunto, acendendo o cigarro.

Inspiro a nicotina como um viciado que desiste de resistir ao vício. Meu corpo está todo fodido e, ao invés de tentar melhorá-lo, estou acabando com ele. Há algo de genuíno nisso.

— Jhonny — ele responde.

— Seu nome de verdade — pontuo.

Ele olha para mim e para a estrada, alternadamente.

— Seung, Jung Seung.

— Senhor Jung Seung... — experimento o nome em meus lábios, como se saboreasse um chiclete azedo. — Senhor Jung, para onde estamos indo?

Ele puxa o ar pela boca, pensando se deve dizer a verdade.

— Seul.

— Seul é perfeito. — Uso o porta-balas como cinzeiro, a cabine está pura fumaça de cigarro. — Também estou indo para Seul.

As sobrancelhas grossas e levemente grisalhas do motorista estão juntas. Ele parece preocupado comigo.

— Não quer passar em uma delegacia antes? — ele insiste.

Meus lábios machucados se repuxam em um sorriso.

— Por que eu passaria em uma delegacia antes, senhor Jung?

A boca dele se contorce levemente, deve pensar que sou burra.

— Você foi enterrada viva — diz, usando um tom óbvio.

Me afundo no assento acolchoado, pelo som de metal batendo em metal que vem da carroceria atrás de nós, ele deve estar carregando ferragens. Aos meus pés, algumas barras de metal para construção estão quebradas. Ele quer levar mesmo assim para provar que não ficou com nenhuma parte do carregamento. Ele quer fazer o certo. Toco em uma das barras, é tão fina que se assemelha a um dedo, só que longo.

— Você tem uma esposa, senhor Jung? — pergunto.

— Sim, sou casado — ele sussurra, incerto. — Tenho dois meninos.

— E nunca brigou com a sua mulher antes?

— Não a ponto de ser enterrado vivo — ele retruca.

— Uma pena... — Dou a última tragada no cigarro, sentindo-a arder minha garganta machucada. — É uma boa história para contar no futuro.

Agora sua atenção está dividida entre a estrada e a mim. O som dos carros na rodovia se soma a nossa conversa.

— Seu namorado te enterrou viva? — ele pergunta, incrédulo.

— Minha namorada — corrijo, irritada. — Acho que ela levou o "Até que a morte os separe" muito a sério. — Afundo a bituca do cigarro no assento do caminhão, furando-o. — Ela vai ficar surpresa quando descobrir que estou viva, não vai?

Ele arquea as sobrancelhas.

— Muito surpresa.

— Ela me esfaqueou também — digo, apontando para a poça de sangue na minha barriga. — Acha que ela me odeia?

Ele engole o seco, observando o corte na minha barriga com o cenho franzido.

— Tem certeza que não quer que eu ligue para a polícia...?

Encaro-o por alguns minutos, sem dizer nada. Ele volta sua atenção na estrada, mas está suando tanto que a testa brilha, os músculos estão rígidos, os ombros e as mãos também, ele mal respira.

— Senhor Jung, está com medo de mim? — pergunto.

— De maneira nenhuma — ele responde.

— Isso é bom. — Volto a minha atenção à estrada. — O medo é traiçoeiro.

Os carros passam zunindo a nossa volta, a rodovia é larga e sem desvios, de modo que o horizonte é cortado pela manta de concreto sem fim. As luzes vermelhas dos faróis são a única iluminação que temos. A voz do locutor da rádio é baixa, ele está rezando agora, é uma prece afetada e intensa: "Ó Deus, bendito és tu, ó Deus criador, tenha piedade de nós..." ele diz, "tenha piedade de todos nós".

— Senhor Jung? — chamo.

O caminhoneiro me dá um sorriso estranho, está tão nervoso que sinto cheiro de urina.

— Sim? — Ele indaga.

Sorrio amável, mesmo que a minha condição não combine com a gratidão que quero passar.

— Obrigada por ter me socorrido. Obrigada pela água e pelo cigarro. — Acaricio o seu ombro suado. — Você é um homem bom.

O motorista volta sua atenção na estrada e seu corpo relaxa.

— É o que Ele nos ensina, criança: "Fazer o bem sem olhar a quem."

O que se sucede é um silêncio cortado pelos carros e pela voz do pastor, na rádio. Brinco com uma mecha de cabelo dura pelo barro, sem tirar os olhos do caminhoneiro.

— Sabe o que acontece com homens bons, senhor Jung? — pergunto.

Ele me fita com os olhos brilhantes na escuridão, o bigode está sujo, molhado de saliva e suor.

— Semeiam bons frutos? — ele sugere.

— Não. Eles morrem — respondo.

O silêncio muda de perspectiva, é aquele silêncio tenso que aperta a boca do estômago, aquele silêncio incapacitante, que precede maus bocados. O ar está quente, cheio de nicotina.

Agarro uma das barras de ferro e afundo na garganta dele.

A ponta é mais afiada do que pensei, ela entra com uma facilidade surpreendente, como uma faca de pão afundando na manteiga, e o sangue esguicha no meu rosto.

O caminhão dá um solavanco e nos joga para a esquerda. Ele grita muito, é irritante, mas consigo me inclinar e abrir a porta do motorista. Ele tenta puxar a barra de metal, toda a sua atenção está neste ato e em manter o caminhão na estrada, é um homem forte, preciso admitir, mesmo com uma barra de ferro na jugular ele tem coordenação motora para tentar tirá-la e continuar dirigindo. Uma pena que não vai durar muito tempo.

Eu o chuto uma, duas, três vezes, até seu corpo pender para o lado e rolar para fora do caminhão. O vento entra com tudo na cabine aberta.

A adrenalina inunda as minhas veias, estou gargalhando alto, estou viva, porra. É tão bom sentir isso novamente, é como um remédio para todas as minhas feridas, internas e externas. Pelo espelho retrovisor, vejo o corpo dele no meio da rodovia deserta enquanto retomo o controle do caminhão.

Fecho a porta do motorista com um sorriso. Nunca dirigi algo tão pesado, a direção é dura, provavelmente manual. Ajusto o banco para frente e aumento o volume da rádio. "Ó Deus tenha piedade daqueles que se aproveitam de forma perversa da bondade alheia" o locutor diz.

— Amém — respondo, acendendo mais um cigarro.

A noite está apenas começando, a brisa fria atinge o meu corpo sujo como um acalento. Respiro fundo, respiro brisa e nicotina, é bom estar viva de novo. É bom voltar a ter controle sobre algo.

Lalisa irá se arrepender de não ter me matado quando teve a chance.

— Ó Deus, tenha piedade da minha professora de Introdução à Teoria Musical... — Olho para o meu reflexo sujo pelo espelho retrovisor. —  Porque eu não vou ter nenhuma.

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