3.4|livro três | continuum
Não consigo parar de olhar para o corpo da garota enforcada na minha cozinha e, sem expressar nenhuma reação, deixo Chaeyoung me guiar para a sala de jantar. Sento-me em uma das cadeiras, ainda olhando para a cozinha onde metade do corpo da garota de cabelos negros é visível. Parece um filme de terror, o escuro, a morte, o recado a sangue que só eu entendo.
Não sei o que pensar e como agir e, acima de tudo, estou sozinha. Sem Jisoo ou Lisa, ou qualquer outra pessoa para me dizer o que fazer.
A voz de Chaeyoung oscila ao telefone e sei que a qualquer momento as viaturas vão encher o lugar, vão vasculhar tudo, vão analisar e mexer nas minhas coisas. Podem até querer saber o que há por trás da porta metálica além da cozinha, o meu porão. Não posso deixar que cheguem tão longe.
Chaeyoung vira de costas para mim, ela tem seus próprios medos agora, mas assente a cabeça quando digo que preciso vomitar.
— Quer que eu vá com você? — pergunta, os olhos preocupados no escuro da cozinha.
Nego rapidamente e, por instinto, pego Liz no colo. Ela é o meu porto seguro, só me acalmo ao sentir o seu corpinho junto ao meu, os pelos macios aquecendo os meus braços. Passo pela cozinha sem olhar para o cadáver da garota, mas não deixo de conjecturar quem é ela dentre todas as garotas das três turmas que eu leciono. Alguns nomes passam pela minha cabeça, mas os cabelos não me deixam ver com clareza o seu rosto.
Entro na área de serviço e, através das janelas de vidro, observo Chaeyoung no celular. Espero que ela se distraia e vire as costas, então, devagar, vou até o fim do corredor, onde a porta metálica me leva ao porão. Meus dedos tateiam a pequena chave presa no meu colar. O que vou fazer agora não é o suficiente para mantê-los afastados, mas vai adiantar por hora.
O desespero aumenta quando o som das sirenes chega aos meus ouvidos. Vou até o registro da parede que leva gás encanado para o restante da casa e, sem pensar muito, desenrosco o cabo que liga o registro a mangueira. Ouço o leve zumbido do gás escapando.
— Vai ser o suficiente, por enquanto — sussurro e, com um miado mais alto de Liz, volto para a cozinha ouvindo o som das sirenes se aproximando da casa.
>< >< ><
A sala é retangular e, atrás de mim, um espelho espião ocupa a parede.
A minha frente, a mesa metálica está lotada de fotos do primeiro assassinato. São fotos cruas, sem nenhum tipo de tratamento para ocultar ou amenizar o que aconteceu.
Só consigo pensar que, quem matou essas garotas é mais experiente que eu e está cheio de ódio. Bambam e Lisa aparecem como opções óbvias. Lisa teve influência na morte de Yeri e Jisoo deve ter contado a Bambam a minha suspeita sobre a morte de Yeri, mas há algo que me incomoda, que não faz sentido, além dos dois suspeitos principais estarem mortos.
Voltando ao presente, o primeiro assassinato na minha sala me traz muitas questões. Pela foto, vejo que a borda da mesa está suja com resquícios de massa cerebral da garota. Foi proposital. O impacto levou fluidos cerebrais para todos os lugares, mas o sujeito limpou e deixou apenas um pouquinho na borda da mesa, como uma degustação. Ele é meticuloso. Não consigo me lembrar se consegui quebrar o crânio de Rosé, mas sei que Lisa teria essa força, se quisesse. Chaeyoung teria? Sorrio com o pensamento, qualquer um com raiva o suficiente teria.
O sangue me intriga porque está velho, mas o crime aconteceu na noite de terça para quarta. O que eu faria? Penso por alguns instantes até ter a resposta óbvia: eu a mataria em outro lugar e a traria para a sala durante a noite, só então montaria a cena. Seria rápido e eu não seria interrompida.
O rosto da garota também diz muito: está congelado em uma expressão de desespero, os traços bonitos contorcidos em dor. Não foi um ataque rápido. A garota deve ter sentido cada vez que a sua testa afundou na quina da mesa, cada vez que a ponta feriu ao ponto de quebrar o crânio. Ela não morreu na hora, claro que não, mas sagrou angustiada até a morte. Ela não teve forças para se levantar ou gritar, mas soltou balbucios.
Será que o sujeito a esperou morrer? Esperou para ter certeza que ela não viveria para o reconhecer? Ela deve ter visto, sem entender, ele amarrar as suas mãos na posição de prece, feliz pelo resultado satisfatório.
O prédio dos professores não tem câmeras, na verdade, em nenhum lugar da universidade tem, só nos portões. Milhares de pessoas atravessam os portões dia e noite, em carros ou a pé. Quem fez isso sabia, sabia muito bem como funcionava a segurança da universidade.
Remexo-me na cadeira de metal, incômoda o suficiente para tentar esconder isso. Está fazendo frio aqui dentro, de modo que nem Liz nos meus braços me aquece. Cruzo as pernas abaixo da mesa sem tirar os olhos das fotos, até que a porta se abre e duas pessoas entram na sala.
Chaeyoung está usando um sobretudo pesado, mas o distintivo da polícia brilha em seu peito. Os cabelos estão amarrados em um rabo de cavalo mal feito, acentuando as olheiras e o olhar preocupado que me lança. O seu companheiro, obviamente o superior, tem uma beleza nada delicada. Os músculos se sobressaem na camisa de botões e os olhos pequenos me analisam de cima a baixo. Odeio homens assim, são difíceis de matar.
— Bang Yongguk, delegado da Divisão de Homicídios. — Ele me cumprimenta e logo depois olha para Chaeyoung, como se quisesse dizer alguma coisa, talvez apresentá-la, mas muda de ideia. — Sinto muito pelo que está acontecendo, senhorita Kim.
— Só Jennie, por favor — peço.
Não sei como devo agir na presença dele, qual personagem vou usar, mas entendo em instantes que não posso arriscar mentir. Ele é mais experiente que Chaeyoung, consegue identificar um mentiroso. Vou continuar o plano anterior: dizer o máximo de verdades que conseguir.
— Obrigada, delegado. — Aperto Liz nos braços. Não queriam me deixar entrar com ela, mas não insistiram quando me opus. — Está sendo uma noite de merda, desculpe a palavra.
Ele concorda com um aceno, sentando-se à minha frente. Chaeyoung permanece de pé. Ela fará o papel de policial boazinha.
Volto a fitar o delegado, mas ele deixa de ser cordial ao perguntar:
— Qual o seu álibi das sete até às onze horas da noite de hoje?
Não consigo esconder o riso, foi abrupta a mudança de humor.
— Agora virei uma suspeita? — pergunto. — É melhor me dizerem, assim tenho tempo de procurar um advogado.
Chaeyoung se aproxima, receosa, e toca os ombros largos do delegado.
— Ela estava comigo, me ajudando... — ela pigarreia — me ajudando na investigação, senhor.
Merda, agora preciso conter uma gargalhada, e é um esforço muito difícil. O silêncio toma conta da sala, ninguém sabe para onde olhar e até Liz se aquieta em meus braços, constrangida.
O delegado Bang respira fundo, massageando as pálpebras.
— Ok. — Ele diz por fim, desgostoso.
Eu os encaro alternadamente, procurando alguma tensão sexual, mas não há nada aparente. O delegado parece mais puto por Chaeyoung estar no caso do que qualquer outra coisa. Enquanto isso, a detetive mantém o olhar baixo, como se quisesse se mesclar a parede para não chamar atenção.
Yongguk recomeça, com o semblante mais sério que antes.
— É cedo para tirarmos conclusões, mas acreditamos que o responsável pelos dois assassinatos é um dos seus alunos. Um aluno que a desafiasse ou a amasse, e se sentia triste pela falta de atenção. Os versículos deixados na cena do crime, a forma como as mãos estavam postas, sabe o que quer dizer?
— Não, não sei o que significa — minto, mas logo acrescento uma verdade. — Não sou uma pessoa religiosa, então não faço ideia porque esse monstro fez isso.
O delegado anota o que eu disse num pedaço de papel, mas é interrompido por um pigarreio. Nós dois olhamos para trás, onde Chaeyoung parece pronta para pedir desculpas.
— Eu posso... — Ela muda o peso de um pé para o outro, reunindo coragem. — Eu posso conversar com o senhor um minuto... a sós?
É desconfortável vê-la intimidada na presença do delegado. Chaeyoung não consegue olhá-lo nos olhos e está sempre esperando ser repreendida igual a uma filha que se meteu em encrenca. Não sei se ela sente medo por ele ser o chefe ou se há algo a mais nessa relação que não consigo ver.
O delegado olha para ela de soslaio e, preguiçosamente, recolhe os papéis, saindo da sala sem olhar para trás. Chaeyoung me lança um sorriso constrangido antes de sair porta afora, mas parece uma careta. Espero alguns segundos para ter certeza que eles não vão voltar e só então me levanto. Cuidadosamente, coloco Liz no meu lugar e faço um gesto de silêncio enquanto caminho até a porta. A sorte é que os corredores das salas de investigação são silenciosos, se eu estivesse em outro lugar da delegacia seria impossível ouvir o que eles conversam.
— Por que o senhor disse ser um aluno? Apareceu novas evidências? — Ouço Chaeyoung perguntar em um sussurro que não dá certo.
O delegado solta uma risada debochada, o que aumenta o ódio que sinto por ele.
— Esse é um assassino em série, Park. Assassinos em série são homens. Preciso de mais evidências?
— Nem todos os assassinos em série são homens, senhor — ela retruca depressa.
Após um minuto inteiro de silêncio, ouço-o bufar impaciente.
— Chaeyoung, por favor, não comece...
— Senhor, tudo em relação às mortes foi milimetricamente calculado, os corpos foram bem cuidados. Elas comeram bem antes de morrer e, após a morte, até os cabelos foram penteados, as roupas trocadas e não há nenhum arranhão no corpo. O assassino não as violou sexualmente e...
— O que está dizendo? — O delegado pergunta, num misto de arrogância que arrepia a minha espinha. — Que o assassino não pode ser um homem porque o cabelo das vítimas foi penteado?
Novamente, há um silêncio logo. Posso sentir a frustração de Chaeyoung, mas, acima de tudo, posso sentir o meu medo irradiar. Ela está mais perto do que eu imaginei, tem a certeza convicta que o assassino é uma mulher e a suas impressões sobre os crimes são boas, apesar de eu não concordar totalmente com elas. Um homem como Bambam poderia ser cuidadoso a esse ponto, mas sei que ele é fora da curva.
— É sobre cuidado, senhor — Chaeyoung responde. A voz dela está mais profunda dessa vez, como se quisesse passar confiança. — Nenhum homem teria tanto respeito por uma garota. Ainda mais uma garota morta.
Não preciso ver a cena para saber que ela capturou a atenção do delegado. Ele não faz mais nenhuma objeção, quer ouvir o que ela tem a dizer. Chaeyoung aproveita o momento e continua:
— Além do mais, é impossível que seja um estudante. Quem cometeu os assassinatos é experiente. A perícia pode revirar os corpos do avesso e não vai achar nenhuma evidência. Não há nenhuma evidência onde os corpos foram encontrados também, porque ela é inteligente e experiente...
— Chaeyoung...
— O modus operandi é muito bem definido — a detetive prossegue, sem medo de interrompê-lo. — O que é impossível para um assassino jovem. Quem matou essas garotas matou antes, e matou muitas vezes antes. Para chegar nesse nível, a assassina está ativa há anos. E isso nos leva...
— Lá vamos nós... — o delegado murmura.
— Ao desaparecimento de universitários na Universidade de Seul — Chaeyoung conclui.
Meu corpo paralisa no mesmo momento.
Levo as mãos à boca para conter o jato de respiração ruidosa que saí de uma só vez. Porra, porra, porra, ela está muito perto. Mudo de posição, me encostando na parede ao lado da porta. O delegado perdeu a paciência, é visível pela sua voz quando ele a repreende:
— Chaeyoung isso é...
— Senhor, por favor, leia a minha pesquisa! — ela implora. — A Universidade de Seul tem um índice anormal de desaparecimentos inexplicáveis há quase uma década. Os alunos somem num passe de mágica, não há vestígios, não há corpos e muitas vezes não há nem um boletim de ocorrência porque os familiares ou amigos não fazem a denúncia. O número de desaparecimentos podem ser maiores do que eu coletei e....
— Chaeyoung...
— Ainda não sei como ambos os casos se conectam, mas...
— Chaeyoung!
Ela se cala de supetão.
Agora entendo o medo, até eu me assustei com o grito dele.
Ouço sons de passos, então me preparo para voltar ao meu lugar, mas recuo no último momento.
— Eu sei aonde quer chegar — ele diz mais cuidadoso dessa vez, quase como se pedisse desculpas. — Mas esse caso não tem nada a ver com o desaparecimento da sua irmã. Estamos à procura de um assassino inexperiente, homem, na faixa dos 20 aos 25 anos, aluno ou ex aluno da professora Kim.
Chaeyoung parece murmurar um: "entendido, senhor", mas foi tão baixo que não tenho certeza.
— Quero que repita o que eu disse, Park — ele pede irritado.
— Homem, na faixa dos 20 aos 25 anos, aluno ou ex-aluno da professora Kim... — ela sussurra. Imagino que esteja cansada agora, porque a sua voz está.
— Se eu souber que está desviando do foco da investigação para essa história de desaparecimento infundada, eu te tiro do caso. Está me ouvindo?
Não sei se ela respondeu ou não, porque volto rapidamente para o meu lugar. Pego Liz, ajeitando-a no meu colo no segundo em que a porta se abre e os dois entram na sala. O clima está pesado, obviamente. Dá pra ver nos olhos de Chaeyoung que ela não quer está ali.
A pequena conversa com o delegado me mostrou que ela está frustrada, achou que na Divisão de Homicídios teria mais autonomia, mas continua estagnada numa investigação que nunca vai para frente. Não tenho mais tanta raiva do delegado agora, é ele que está impedindo-a de investigar os desaparecimentos.
O homem me entrega uma caneta e um pedaço de papel.
— Quero que escreva o nome de todos os alunos com que teve algum atrito, discussão, desentendimentos... Quero que coloque tudo.
Sorrio para ele. Vou fazer isso com o maior prazer, vendo-o ir seguir como um palhaço para a direção errada. Chaeyoung acrescenta.
— A perícia do segundo corpo está suspensa, mas vamos...
— Suspensa? — interrompo, fingindo surpresa.
O delegado assente.
— Acabamos de descobrir um vazamento de gás na sua casa. Tivemos que evacuar o local.
Tenho que fazer a minha melhor atuação. Meus olhos se enchem de água conforme olho para os policiais, para as fotos e para Liz, até desviar para o chão, deixando apenas uma lágrima solitária rolar pela minha bochecha.
— Por que isso está acontecendo comigo? — sussurro.
Chaeyoung não sabe o que fazer agora. Ela não quer demonstrar que somos próximas, mas quer me consolar.
— Não se preocupe... — diz insegura. — Vamos descobrir quem está fazendo isso, você terá uma escolta policial. Está visível que o alvo é você. Vamos fazer de tudo para te proteger.
Ah, porra.
— Escolta? — Levanto a cabeça de supetão. — Tipo...
— Duas viaturas que te farão companhia. — O delegado responde. — A levaremos para um hotel até a sua casa ser liberada.
Não, não, não, isso saí do planejado. Não posso ter duas escoltas policiais me seguindo, paradas na porra da minha casa, me acompanhando até a faculdade. Engulo o seco, tentando não demonstrar o desespero que cintila nas minhas pupilas.
— Isso é demais, não acham? Quer dizer...
O delegado corta a minha fala, na mesma agressividade de antes.
— Acho que não entendeu a gravidade da situação, professora Kim. Duas alunas da sua turma foram mortas em menos de um dia. O assassino não tem um método identificável de matar as vítimas, apenas um esforço visível para chamar a sua atenção. Enquanto não descobrimos, você não sai debaixo do nosso nariz. Estamos entendidos?
— E-entendido — gaguejo de propósito, praguejando o maldito delegado em minha mente.
Chaeyoung me acompanha até as viaturas estacionadas em frente a delegacia, na madrugada chuvosa e fria. Não dizemos nada durante o caminho de fardas azuis, mas ela respira fundo assim que atravessamos as portas principais.
— Você não é uma suspeita — sussurra para mim. Ela é mais alta que eu e isso me incomoda de uma maneira inevitável. Lisa também era mais alta. Aumento a nossa distância. — Só queremos entender porque esses assassinatos estão te rondando, Jennie.
Eles só não podem vasculhar demais o meu passado, porque vão descobrir que assassinatos assim sempre me rondaram.
Acho que o assassino está em algum lugar aqui perto, escondido, rindo da minha cara de desgosto na frente da delegacia.
Olho para a detetive, numa última tentativa para notar a mentira em seus olhos, mas eles são como os de um cãozinho abandonado.
Não me enganam mais.
— Eu também quero entender, porque se for mesmo um aluno... — Mordo os lábios como ela faz, para que se identifique com a minha falsa dúvida. — Espero que o prendam antes que ele mate de novo.
Ela sorri, acariciando o meu braço, mas logo percebe que o gesto parece íntimo demais e se afasta.
— Durma bem, amanhã precisaremos de você. — Ela acaba de se despedir ao acariciar Liz, mas a gata não gosta do gesto e mia em protesto.
Observo Chaeyoung entrar na delegacia, mas não tenho tempo para ficar parada ali, porque logo a viatura do outro lado da rua pisca os faróis e dois policiais saltam de dentro do carro. Escondo Liz no blazer ao atravessar a chuva forte.
Diferente do que Chaeyoung pensa, não vou dormir essa noite.
Preciso de respostas.
>< >< ><
O quarto de hotel está na completa escuridão e não há barulho nas redondezas.
Através da janela, a viatura parece vazia como os outros carros estacionados na rua, mas sei que os dois paspalhos que me trouxeram aqui continuam lá.
Liz é a única que aproveita o quarto de hotel, dormindo profundamente há vinte minutos. Deixo-a descansando e vou até o banheiro, tiro a roupa molhada e coloco a que me deram. Conseguiram pegar algumas roupas e objetos pessoais da casa antes de evacuá-la, mas é tudo tão aleatório que me dá nervos.
Visto o casaco de capuz, arrastando a cadeira até a janela do banheiro. Subo nela, abro a janela e forço a minha saída. O começo é fácil, sustento-me no telhado enquanto passo uma perna para fora, mas o metal da janela rasga a minha pele por debaixo da roupa.
Por um segundo de puro pânico, imagino a polícia me pegando nessa situação: entalada em uma janela pequena no segundo andar de um hotel. O sangue começa a se acumular na minha cabeça e tenho certeza que estou vermelha como um pimentão, mas inspiro fundo, ignoro a dor e atravesso a outra perna. Equilibrar-me no telhado é um problema, a chuva cessou, mas a cobertura está molhada.
Depois de uns cálculos para prever o melhor lugar para pular, decido dar o foda-se.
Assim que as minhas pernas atingem a calçada em um baque úmido, a dor irradia pelo meu tornozelo.
— Ah, merda... — praguejo baixinho, alisando o tornozelo torcido.
Levanto a barra da calça, vendo a vermelhidão crescente formar uma bolha no meu pé. Dói como a morte, talvez nem tanto como a morte, já morri uma vez, doeu mais. Seguro a respiração espessada, com medo de chamar atenção dos policiais na rua da frente, e cambaleio até encontrar um carro com as portas abertas.
Sempre há um trouxa para facilitar o meu trabalho.
Entro no carro e tateio debaixo dos brancos e no porta-copos, até achar a chave reserva no guarda-sol. Sorrio maliciosa para a pequena chave e, olhando para os dois lados da via escura, ligo o carro. O ronco silencioso do motor é quase um acalento, o começo de uma viagem de três horas até o cemitério particular de Lalisa.
Preciso ter certeza se aquela vadia ainda está enterrada lá.
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