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3.3|livro três | erga omnes

AVISOS: Um recadinho importante, depois desse capítulo alguns leitores vão me perguntar se essa história ainda é Jenlisa e sim, ainda é Jenlisa, se acalmem e confiem no processo. :)

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Chaeyoung pressiona os lábios nos meus e sinto a respiração quente se mesclar a minha. As mãos tímidas encontram morada na minha nuca, apertando os meus cabelos.

Não lembro a última vez que transei e, em choque, percebo que foi com a Lisa. Desde então, me mantenho no jogo de seduzir alunos para matá-los, mas nunca cheguei a transar com nenhum deles.

Abro os olhos, num desespero repentino para sair do banheiro, para cessar aquela crescente de calor, mas Chaeyoung intensifica o beijo e me prende contra a pia.

Imagino o que ela faria se soubesse o que eu fiz a sua irmã gêmea nesse banheiro, na mesma pia em que me pressiona. Se soubesse que Rosé não morreu com a pancada e sim porque passou a noite inteira presa em um porta-malas, sangrando. Que, enquanto se debatia em busca de liberdade, eu estava transando com a minha professora de Introdução a Teoria Musical.

Porém, a cada segundo, o selar aumenta e meus pensamentos desaparecem. Eu sei que deveria parar enquanto é tempo, deveria estabelecer limites, dizer que não é aconselhável fazer o que estamos fazendo... é o que uma pessoa com caráter faria, mas eu não tenho nenhum. Deixo a minha mente vagar até imaginar o que Lisa faria se tivesse voltado a vida. Como me trataria, o que faria comigo, e quando abro os olhos é ela que eu vejo no lugar de Chaeyoung.

Meu corpo relaxa, o toque é familiar. Depois de anos, me permito sentir saudades.

Agarro o maxilar dela e tomo conta do beijo, adentrando a língua devagar por sua boca enquanto o arrastar dos nossos corpos a procura de contato fica mais forte. A minha língua redescobre Lisa em um misto de sensações que atingem a boca do meu estômago e acelera a minha respiração. Ela se afasta sutilmente, apenas para que nossos olhos se encontrem, procurando a certeza em minhas pupilas que nunca procurou antes.

Lisa sempre comandou, sempre gostou de me ver por cima, algemada, pedinte, pronta para acatar as suas ordens, mas ali me permito imaginar o contrário. Toco as nossas testas no calor infernal que toma conta do banheiro porque ali, na minha cabeça, a nossa dinâmica é diferente.

Tomo a iniciativa de prosseguir com um beijo lascivo, nossos lábios se tocam urgentes, cheio de tensão. Ajoelho-me sem ela mandar e minhas mãos vão até o fecho da sua calça, desabotoando. Não ligo se estamos em um banheiro de bar ou se alguém vai ver. Não posso sair dessa divagação nem se quisesse.

Agarro a sua calça, louca para tira-la o mais rápido possível, mas algo que antes passou despercebido entra no meu campo de visão: o coldre preso a cintura, guardando um revólver cinza-escuro.

Olho para cima, ela sabe o que eu quero fazer.

Não preciso desafivelar o coldre para pegar o revólver. Ele é mais pesado do que imaginei e cabe perfeitamente na minha mão. Sorrindo com o novo brinquedo, com o poder que ele me dá, eu o levo até os lábios e lambo o cano grosso, passando a língua por toda a extensão. O aço é gelado, mas é gostoso pensar no perigo. Pensar que se eu apertar o gatilho vou estourar a minha cabeça. É como se eu estivesse me divertindo com a possibilidade de morrer.

Continuo chupando, sem fazer ideia qual o modelo do revólver ou a capacidade de estrago, armas nunca foram atrativas para mim. Até agora. Olho para cima e vejo Lisa observar com cautela o que estou fazendo. Ela está morrendo de tesão, sei que está, mas não quer dizer. Coloco o cano inteiro na boca, sentindo-o ir fundo, e só então ela toma o revólver de mim, tirando-o e enfiando de volta na minha boca num vai e vem que nunca pensei gostar tanto. Talvez ela acione a trava e estoure a minha cabeça, e só de pensar nisso fico mais molhada.

O som da sucção preenche o banheiro, mais urgente e mais quente, até Lisa puxar os meus cabelos, empurrando a minha boca em seu quadril. A calcinha já está molhada, eu a arrasto para o lado e chupo com força à medida que seus gemidos crescem acima de mim. Lisa aperta as coxas ao redor do meu quadril. Tudo fica insuportavelmente gostoso.

Aquela Lisa me deixa conduzir o ato, então não quero apressar as coisas. Intercalo com a língua e os dedos até a minha mandíbula doer. Só a partir daí interrompo o que estou fazendo em um arfar necessitado. O rosto corado me encara de volta e me faz ter vontade de chorar. Ela é tão real. Os lábios grossos e vermelhos, molhados de saliva, e os olhos quase fechados em deleite enquanto os cílios grandes seguem o movimento das piscadas.

Porém, voz de Chaeyoung ameaça ressurgir na minha mente, "Depois de um tempo longe de quem amamos, esquecemos as partes ruins e só lembramos das partes boas. Faremos de tudo para ter elas de novo, mesmo se as ruins vierem juntas." Eu faria tudo para ter as partes boas de Lisa de novo, ao ponto de fantasia-la.

Lisa está tão viva na minha cabeça que quero perguntar o que nós tínhamos. Quero perguntar o que viu de diferente em mim, o que sentia por mim, por que me enterrou viva, por que quis me ensinar a não ser pega... ? Meu corpo age por impulso e me levanto, beijando-a, afundando os meus lábios em sua pele. O cheiro é diferente, não é nada familiar, mas eu ignoro isso, porque o som da respiração dela é o que preenche o momento, o seu peito sobe e desce rápido debaixo de mim.

Levanto a cabeça para ver Lisa de olhos fechados e o leve franzido no meio das sobrancelhas, mas o que encontro é Chaeyoung e então, eu me lembro.

Eu já transei assim com a Lisa uma vez. A nossa última vez em cima do carro, com a loja de conveniência queimando atrás de nós. Mas aquela não é Lisa. Lisa está morta.

Afasto-me de forma brusca, sentindo a respiração espessa à medida que a realidade me atinge como um soco.

Não acredito no que acabei de fazer. No que quase me deixei ser.

— Jennie...? — Chaeyoung pergunta confusa, mas logo vê o meu semblante de arrependimento.

Debruço-me na pia, querendo vomitar. É surreal me ver ali novamente, com duas mulheres diferentes, mas semelhantes, em um contexto novo. Rosé e Chaeyoung, Chaeyoung e Rosé... elas são mesmo duas pessoas diferentes? Levanto o olhar e encaro o rosto da detetive no reflexo do espelho, numa mistura de sentimentos que não consigo descrever. Ela está levantando a calça e a abotoando de forma desengonçada. A arma ainda está sob a pia, molhada pela minha saliva.

— Não era pra isso ter acontecido... — Chaeyoung diz num fiapo. — Podemos... podemos...

Raiva. Sinto raiva por ela ser tão irritantemente estúpida.

— Fingir que nunca aconteceu — acrescento.

Ela assente com a cabeça enquanto eu lavo a boca.

Se eu fosse um pouquinho mais irresponsável, teria tentado matar-lá. Controlo-me para não deixar isso acontecer de novo, porque voltarei a ser a garota que eu era antes, intensa, ingênua, pronta para entrar em encrenca e, diferente de antes, sem ninguém para me ajudar. Não sei porque pensei que ser irresponsável me traria algo além de arrependimento.

Chaeyoung e eu não dizemos mais nada, estamos sóbrias e envergonhadas, loucas para ir embora, mas tentamos ser educadas o suficiente ao seguirmos juntas até o lado de fora. Atravessamos a rua chuvosa, indo em direção aos carros. O meu está atrás da picape dela.

Não preciso chegar perto para ver o pneu murcho.

— Merda, merda, merda... — Apresso o passo, parando na traseira do sedã.

Num acesso de fúria, chuto o pneu com a força, mas a dor que irradia pela minha perna me faz comportar. Chaeyoung se aproxima e, mesmo com a chuva intensa, consigo ver o seu cenho franzido. Ela olha para os lados, repentinamente atenta, e repousa uma mão no revólver pendurado no coldre.

— O que foi? — Olho para os lados, tentando captar o mesmo que ela, mas só consigo ver a chuva inundando a rua escura e nos deixando encharcadas.

— Você mora sozinha? — ela aumenta o tom de voz para se sobressair à chuva.

— Você não deveria saber disso? — respondo impaciente.

Ela me olha ofendida, pronta para retrucar, mas decide se calar no último minuto.

— Entre no meu carro, eu te levo até a sua casa.

Solto uma risada sem humor, dando-lhe as costas.

— Tenho o telefone do guincho, mas obrigada pela consideração.

— Jennie! — ouço-a gritar enquanto eu me afasto. — Professora Jennie, por favor, entre no carro ou terei que usar a força!

Paro de supetão, cerrando os dentes.

Gostaria de vê-la tentar me levar a força. Viro-me contrariada, tirando uma mecha molhada de cabelo do rosto.

— O que foi detetive, Park? Está desconfiando de mim? — pergunto irônica. Ela não parecia nenhum pouco desconfiada lá dentro.

Quero ver a mascara dela cair, quero ver um brilho perverso em seus olhos. Quero que ela aponte o revólver na minha cara e me ameace. Se Chaeyoung fizer isso, vai me mostrar que eu sempre estive certa, mas o que ela faz é o contrário. Seu semblante exala preocupação.

— Só preciso que entre no carro! — Ela abre os braços, apontando para a picape. — Precisamos chegar na sua casa o mais rápido possível!

A frase acende o alerta na minha mente.

Olho para o pneu furado do carro, para Chaeyoung e então para o bar. Rapidamente, dou a volta no sedã e vejo mais dois pneus furados. Um é coincidência, dois é azar, mas três...? Eu estava tão furiosa com o que fiz no banheiro que não percebi o que estava estampado na minha cara. Alguém furou os meus pneus para que eu demorasse a chegar em casa. Onde Liz está, onde o maldito pedófilo está me esperando na fornalha. Meu porão. Não posso deixar que ninguém entre no maldito porão.

Chaeyoung percebe o desespero no meu olhar e abre a porta da picape. Pulo para dentro. Não sinto frio, mesmo com o queixo tremendo, nem o som do rádio patrulha. Burra. A voz de Lisa sobressai nos meus pensamentos alarmados. Lembre-se, Jennie, você pode fazer tudo certo durante a sua vida, mas depende de um só erro para ser pega. E nunca estive tão perto de ser pega como agora, por um erro idiota.

Chegamos na minha casa na metade do tempo habitual. Ela foi construída no sopé da montanha, onde a chuva agora é uma tempestade. Não consigo ver uma palma na frente do meu rosto, mas nada disso importa, não quando a porta da minha casa está aberta.

A construção é muito parecida com a de Lisa, mas fiz algumas mudanças para não despertar tanta familiaridade. A minha tem três andares, mesmo que eu nem pise no terceiro. Quanto à antiga casa de Lisa, deixei tudo limpo antes de o governo fazer o inventário, vendi o que tinha de valioso e o que sobrou está no sótão. Estarei viva para vê-los colocar a placa de "Venda-se", para ver a nova família mudar para lá sem sonhar no que aconteceu dentro daquelas paredes.

O universo parece estar rindo da minha cara agora, por ter me feito acreditar que eu poderia fazer o que ela fazia tão bem sem nada sair do controle.

Atravesso a rua pisando nas poças d'água enquanto os meus cabelos molhados colam nas minhas bochechas. Entro em casa sem olhar para trás, nem para saber se Chaeyoung me segue. Minha principal preocupação sai dos meus lábios num grito alarmado.

— Liz! — Cruzo o corredor que liga a sala de estar a de jantar.

Todos os cômodos estão bem decorados como em um catálogo de revistas. Fiz questão de uma mesa de sete cadeiras mesmo que seja só eu e a gata. Fiz questão de parecer viver ali por toda a minha vida.

— Liz! — grito de novo. Era para a gata estar aqui, me recepcionando. Ela sempre aparece quando eu chego.

Os passos de Chaeyoung soam atrás de mim. O porão. Não posso deixá-la chegar perto do porão ou do corredor que o interliga, porém, as minhas pernas continuam andando como se não me obedecessem, como se estivesse me avisando para prosseguir, para adentrar a casa, para chegar na cozinha. Atravesso a sala de jantar com o coração acelerado. As perguntas sem respostas não param de soar como o alarme na minha cabeça.

A primeira coisa que vejo antes de chegar à cozinha é a pequena felina na porta. Liz. A minha respiração sai em um jato ansioso. Nada mais importa. Ela está segura.

Mas, ao chegar mais perto, vejo os pelos eriçados. Uma preocupação diferente carregam o ar. Ainda não acabou.

Meus passos se juntam com os de Chaeyoung assim que ela chega a sala de jantar e, como eu, percebe a tensão no ar, o presságio de que há algo nos esperando adentrar a cozinha. Trocamos um olhar preocupado enquanto ela ergue o revólver e num gesto me pede silêncio. Seus olhos parecem brilhar no escuro.

Volto a fitar Liz e meus passos diminuem, ressoando fracos pelo assoalho, se mesclando a escuridão. A última vez que vi um gato assim foi quando Leggo presenciou Bambam matar a família de Jisoo. É até difícil dizer em pensamento o nome dele, lembrar-me dele, do que me causou. É surreal que esse nome volte na minha mente assim que vejo Liz.

Porém, se for Lisa, a gata seria a última coisa que ela machucaria.

Chaeyoung me alcança e, delicadamente, me afasta antes que eu entre na cozinha. Ela quer ver primeiro, mas isso não importa porque entramos juntas.

Uma garota está pendurada no teto por um cinto em volta do pescoço. Morta.

Os cabelos negros cobrem o rosto por inteiro, mas não preciso ver muito, sei que é minha aluna. As mãos estão amarradas por barbante igual a da primeira garota, numa prece, como se estivesse rezando, e ela veste uma camisola branca de aspecto antigo, que está ali só para trazer drama à cena. Na verdade, tudo ali é milimetricamente dramático: a iluminação da lua que advém da janela, lançando um vento forte capaz de balançar suavemente o corpo, quase como se estivesse vivo, molhado e pálido na escuridão. O aspecto estranho do cadáver, porque novamente é como se a garota fosse uma boneca, apenas representando o que o assassino quer me mostrar.

A chuva inundou toda a cozinha e o frio gela os meus ossos. Não tenho palavras ou justificativas para explicar o que está acontecendo. Mas, na mesa da cozinha, jaz escrito a sangue mais um recado:

"Quem muito fala trai a confidência, mas quem merece confiança guarda o segredo".

Provérbios 11:13.


A lembrança se acende na minha mente. Sorrio sem humor, petrificada na porta da cozinha.

O Segredo. Garota "suicida". Cinto em volta do pescoço.

O assassinato se refere a Yeri, que segundo a melhor amiga não precisou de um bilhete de despedida, só do cinto que ganhou de presente no natal e o ventilador de quarto do alojamento. Morreu por influência de Lisa, que achou que ela não guardaria segredo do que viu na sala dos professores, ao nos pegar aos beijos. 

Chaeyoung se afasta sem dizer nada, mas na rádio repete o comando para que esforços cheguem a casa. Reforços, uma massiva guarda policial dentro da minha casa. Mas nada disso importa. Não agora. Porque sei que quem fez isso quer recriar assassinatos específicos.

Meu olhar cai em Liz, trêmula aos meus pés, e sei que ela viu quem foi o responsável.

E tem a resposta da qual não quero acreditar.

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