3.11|livro três | habitum II
Songkhla — Tailândia
A mala de rodinhas engancha no meio fio e me faz dar um solavanco para trás.
Fecho os olhos, contando até dez, e puxo a mala com mais força.
Na terceira tentativa, a rodinha se solta e sai rolando morro abaixo.
— Merda — praguejo, arrastando a mala pela calçada do condomínio fechado, na beira da praia. É um lugar bonito, um lugar que eu provavelmente moraria se tivesse que manter as aparências.
Ainda preservo alguns hábitos da minha outra vida: sorrio para estranhos, sou simpática com a vizinha, puxo papo com as senhorinhas na fila do banco e dou gorjeta ao entregador de comida, como se tivesse que ser a professora Lalisa Manoban em tempo integral. Não consigo me lembrar o que eu era antes de ser ela, o que eu costumava vestir ou como tratava estranhos.
A única constância são os gatos, sempre gostei de gatos.
Agilizo o passo ao passar por uma casa amarela, minha cor favorita, com um carro econômico na garagem, o mesmo carro que eu tinha. Quanto mais me afasto daquela vida, mais ela me persegue, mais ela me persegue. Aperto a carta com força na mão direita, está amassada e molhada pelo meu suor.
Não a soltei desde que a recebi, há três horas.
Ando por mais dez minutos até a casa de decoração escandinava e paro em frente a ela, deixando a minha enorme mala ao meu lado. Aprecio a decoração com um sorriso no rosto. As paredes são brancas e bejes, o telhado também bege de madeira de eucalipto. As janelas verticais são enormes, de modo que consigo ver toda a sala de estar e a cozinha daqui, através do muro vazado que contorna a casa.
Sorrio mais largo, é claro que ela teria uma casa assim.
Passo a mão pelo vestido dourado, nervosa. Ele é uma releitura de uma veste tradicional tailandesa, com uma faixa com pedrarias contornando o meu peito. É uma roupa especial para uma ocasião especial. Acho que ela vai gostar. Eu teria gostado.
Aproximo-me do portão e aperto o interfone.
Por um segundo, penso que ela não está em casa, mas depois me acalmo. Ela tem que estar aqui. Agora sei de todos os seus passos, que horas dorme e quando vai ao consultório, o histórico dos seus pacientes e que tem duas filhas lindas.
Um clique vindo do interfone faz o meu coração saltar pela boca.
Alguém atendeu.
— Doutora Suwan? — pergunto.
Os minutos se estendem numa eternidade.
— Lalisa? — ela retruca.
— É Lisa — corrijo, trocando o peso de um pé para o outro. — Sabia que só os meus alunos novatos podiam me chamar de Lalisa? Era o nosso trato. Se fossem bonzinhos e estudassem bastante, passariam na minha disciplina. Agora, se fossem...
— Lisa. — A mulher me interrompe, a voz está mais alarmada. — Como você descobriu onde eu moro?
Olho para os lados, observando a vizinhança pacífica do condomínio. As pessoas que moram ali são maiores de sessenta anos, eu pesquisei, o lugar é chamado de "recanto dos aposentados." A vista para a praia é bonita e o mar aqui é quente e tranquilo, há um hospital perto, farmácias e uma agência de viagens especializada na terceira idade. Não ouço som de conversa ou de televisão ligada. Os moradores aproveitaram o tempo para viajar.
— Lalisa, está aí? — a psiquiatra pergunta.
Volto a atenção ao interfone. É incômodo conversar com um aparelho.
— Posso entrar? — Meu queixo treme. — Está um pouco frio aqui fora.
— Está fazendo 30 graus agora — ela lembra.
— Com sensação térmica de 29 — acrescento com um sorriso. — Eu também vejo o noticiário local, doutora.
Os minutos se passam enquanto imagino a doutora Suwan com a sua camisola de cetim e um robe da mesma cor, porque mulheres com mais de quarenta acham chique dormir assim, e sem maquiagem, claro. Ela tem uma rotina de skincare que segue à risca, além de consultas mensais com o dermatologista. Está tudo no extrato do seu cartão de crédito.
— Como descobriu onde eu moro? — ela pergunta.
Dou de ombros, como se ela fosse ver.
— As pessoas se expõem muito no Facebook hoje em dia.
— Lalisa — A psiquiatra me interrompe. Seu tom de voz está severo, como nunca foi em nossas sessões. — Fico feliz que tenha vindo me visitar, mas nossa relação está restrita ao consultório. Se quiser, marcamos uma sessão para amanhã de manhã e...
— Eu não estarei aqui amanhã de manhã — declaro, mas após um tempo de silêncio aterrador, lembro-me de acrescentar. — Eu não vou morrer. Só vou embora do país.
Ela solta um suspiro. Acho que deixei a mamãe decepcionada de novo.
— O que houve para a sua partida repentina?
— Por que não me deixa entrar, doutora? — suplico com um biquinho nos lábios. Ela também não verá isso, mas é mais forte que eu. — Eu só quero me despedir, nada mais. Nossas sessões foram muito importantes para mim, não poderei ir embora sem agradecê-la.
Depois de mais um período longo de silêncio, onde pensei que a psiquiatra tivesse decidido me deixar aqui fora, ouço um clique vindo dos portões. Através do muro vazado, vejo a porta da casa abrir e uma mulher sair. Os cabelos grisalhos da doutora Suwan estão presos em um coque e um robe de seda cobre o corpo franzino.
Sorrio largo, como eu imaginei.
>< >< ><
Ela me convida para entrar primeiro.
Puxo a mala pelos degraus, recusando a sua ajuda, e passo pela doutora. A rodinha a menos me faz aplicar mais força que o necessário para carregar a imensa mala, mas não tem muita coisa dentro dela. Paro assim que entro na sala de estar, analisando as paredes brancas, o sofá branco em formato de "C", e o teto branco e...
— A senhora gosta muito de branco — digo.
Não sei como isso soou, mas a psiquiatra parece afetada.
— Gosto de decoração minimalista — ela fecha a porta, alisando as coxas. Parece estar nervosa e perceber isso me faz sorrir. Nunca a vi nervosa antes, mas também nunca a vi sem as meias calças. Ah, as malditas meias-calças. A Doutora Suwan fica até mais bonita sem elas. — Então, para onde está indo?
Despreocupada, ando lentamente pela sala, passando os dedos pelo sofá grande o bastante para caber vinte pessoas. As minhas falanges afundam no estofado branco. Parece um pedaço de nuvem. Levanto os olhos, mirando a doutora no mesmo lugar de antes, perto da porta, como se tivesse planejando uma rota de fuga.
— Coreia do Sul, mais especificamente para Gangneung.
Espero-a responder, mas a doutora arregala os olhos.
— Ah, que indelicadeza a minha! Venha cá! — Ela me leva pelos ombros até a cozinha.
Não há uma divisão entre o próximo cômodo e a sala, apenas um balcão branco, com um cesto cheio de frutas e vasilhas demais na pia. Ela me indica uma cadeira desconfortável — as pequenas de bar, com um estofado do tamanho de uma moeda e com pernas altas demais para qualquer um se equilibrar — e me espera sentar para empurrá-la próximo ao balcão. Quando olho para trás, para a sala, ela chama a minha atenção para a cozinha.
— Quer um café?
Não tenho tempo de responder, a doutora Suwan já está despejando o líquido marrom escuro na xícara, mas ela não está prestando atenção no que está fazendo, seus olhos estão desfocados como se estivesse tentando lembrar se trancou ou não a porta. O café transborda da peça de porcelana, sujando o balcão de mármore e pingando no chão.
Franzo o cenho, inclinando-me no balcão.
— Está nervosa, doutora Suwan?
Ela pisca algumas vezes, afastando-se num pulo com a minha aproximação, e só então percebe a bagunça que fez com o café.
— Ah, me desculpe... — Ela procura o pano de prato ao seu lado. — Não costumo receber pacientes em casa, como deve ter percebido.
— Também não costumo interferir na privacidade alheia, prezo muito pela relação paciente e terapeuta...
Levanto-me para ajudá-la a limpar o café, mas a doutora Suwan dá outro pulo para trás. Delicadamente, eu me aproximo, parando frente a frente com a psiquiatra. Ela deve gostar de vinho, seus lábios franzidos pela idade estão manchados de roxo e as bochechas coradas, com os poros dilatados. Deve ter sido bonita quando jovem. Ela segura a respiração quando eu pego o pano de suas mãos e só se permite respirar fundo quando me distancio, limpando o café esparramado no balcão.
— Nossas conversas foram essenciais para o meu desenvolvimento — continuo. — Me sinto uma mulher diferente porque, durante a terapia, trabalhamos sobre o meu passado, sobre Jennie, minha família e meus alunos. E são tantas considerações! Mas a questão é, sei o que devo fazer agora, tudo graças a senhora.
O balcão de mármore está limpo, mas a borda ainda pinga café, um gotejar que diminui aos poucos, mas nunca termina, tuc, tuc, tuc... e então mais demorado, tuc... tuc... tuc... e por aí vai, deve ter se passado alguns segundos, talvez minutos. Ninguém ousa se mexer, só ouço o som das gotas de café sujando o chão de porcelana tão branco da doutora Suwan. Pobre doutora Suwan. Desprendo os olhos do chão com um sorriso petrificado no rosto, e a encaro.
Ela suspira fundo, as sobrancelhas brancas estão juntas.
A doutora tem pena de mim.
— Vejo que já vestiu a sua casca, Lalisa.
Engulo o seco enquanto o incômodo bloqueia a minha garganta.
— Acho que nunca tirei, doutora Suwan — sussurro.
Ela assente, desviando o olhar.
— Pretende ficar quantos dias em...
— Gangneung.
— Isso, Gangneung. — Ela confirma.
— Não sei. — Dou de ombros. — Jennie está lá. Ela precisa de mim.
A Doutora Suwan não sabe o que fazer agora, ela fica alguns minutos olhando para o nada, depois acaricia os braços e então decide se aproximar. Deixo-a pegar o pano sujo da minha mão, jogando-o na pia. Estamos de costas uma para a outra, lado a lado.
— Sabe o que é mais inusitado, Suwan? Caso me permita te chamar assim... — recomeço baixinho. — Eu só soube que precisava ir a Gangneung porque recebi uma carta.
Preciso olhar para o lado, para ter certeza que ela ainda está aqui. É tudo tão silencioso que penso ter ouvido a sua glote se fechar.
— Uma carta...? — ela pergunta, sem humor.
— Uma carta — afirmo, escorando-me no balcão.
Agora vejo as suas costas tensas, o robe de seda marcando os músculos rijos. Tranquilamente, pego uma laranja do cesto acima do balcão e procuro nas gavetas até encontrar uma faca. Enquanto descasco a fruta, mantenho os olhos na doutora.
— Eu não fazia ideia do responsável por me enviar a carta. Não tinha selo e nem código de postagem... — Termino de descascar a laranja. — A senhora sabe o que me fez reconhecer?
A doutora Suwan não se vira, mas suas costas balançam para cima e para baixo.
Deixo a faca na mesa, num tilintar que ecoa pela cozinha, e parto a laranja em duas.
— A folha era do seu bloco de notas, e a letra era uma clara tentativa de não soar familiar, mas sou boa em reconhecer letras, já fui professora.
O silêncio se estende pelo que parece horas, ela não se mexe, eu termino de chupar uma parte da laranja. Está azeda, do jeito que eu gosto. Viro-me para cuspir o último caroço no balcão, mas volto a atenção a doutora Suwan quando ela finalmente responde:
— Uma coincidência estranha... — sua voz é um fiapo, quase não consigo escutar.
Solto uma gargalhada que soa mais alto que o normal graças ao silêncio da cozinha.
— Mais estranho ainda que esses blocos de notas sejam encomendados. São feitos especialmente para profissionais da saúde. Impede que as pessoas saiam por aí falsificando prontuários. — Pego a faca que cortei a laranja, observando o meu reflexo no alumínio polido. É um talher caro e está tão lustroso que parece um reflexo no espelho. Limpo os cantos da boca borrados de batom e, quando levanto o olhar, a doutora Suwan se virou. — Mas acho que a senhora já sabia disso.
Ela abre a boca e depois fecha, sem saber o que dizer.
— Lalisa...
Dou um passo na direção dela, sem desviar os olhos.
— Eu liguei para a operadora do seu telefone fixo. É relativamente fácil pedir o histórico de ligações usando o número nacional de identificação da senhora, e é fácil conseguir o número nacional de identificação com o locatário do seu consultório. — Dou mais um passo e ela dá outro para trás, batendo as costas na pia. — Você troca longos telefonemas com alguém na Coreia do Sul, não é? E, olha que coincidência... — Com o último passo, fico cara a cara com a doutora. A respiração dela sai em uma lufada quente enquanto uma gota de suor desce por sua testa. O meu reflexo calmo brilha em seus olhos desesperados. — Você ligou para alguém em Gangneung hoje de manhã, logo depois que eu saí do seu consultório. Gangneung, uma cidade tão pequena... não tem nada lá a não ser uma base da marinha.
Devagar, passo a faca por suas bochechas magras, os olhos dela acompanham o movimento.
— Ah, essas coincidências estranhas...
A doutora Suwan treme e mais uma gota de suor escorre pela sua testa.
— Lalisa, eu... eu posso explicar...
— Não, não, não... — eu a interrompo baixinho, apoiando a ponta da faca debaixo do seu queixo. A pele flácida quase a engole. — Não tem com que se preocupar, doutora. Só me diga quem é, okay? Eu sei que alguém mandou você fazer isso. Se me disser, podemos sair daqui da mesma forma que entramos.
Meu sorriso aumenta, o que faz suas pernas tremerem.
— Lalisa...
Afundo levemente a ponta da faca no seu pescoço.
— É Lisa. Juro por tudo que é mais sagrado, doutora, a senhora não vai querer me ver brava. E eu pareço brava?
Ela maneia a cabeça em negação.
— Mas eu posso ficar brava — prossigo — posso ficar muito brava se você não me disser com quem anda conversando. — Limpo uma lágrima que rola pelas bochechas dela enquanto uno os nossos corpos. Suwan precisa arquear a cabeça para conseguir ver o meu rosto com clareza. — Me diga, a senhora não segue nenhuma conduta ética que exija sigilo profissional?
Ela fecha os olhos com força.
— Lalisa, por favor, por favor...
Afundo a ponta da faca, um filete de sangue desce pelo aço lustroso. Vermelho vivo.
— Quem é? — pergunto de novo.
— Você não entende, eu...
A psiquiatra grita de susto quando me inclino sobre ela, colando a boca em seu ouvido.
— Se eu perfurá-la, você morre em menos de um minuto. Mas sei de métodos menos eficazes para matar alguém e eu quero você viva quando começar a te esquartejar. — Aponto para a mala na porta da sala. — Trouxe só para você.
É quando a doutora Suwan entende que vai morrer. É triste estragar toda a surpresa, mas ela estava sendo resistente e eu impaciente. Eu odeio ficar impaciente.
— Não, não, não... — ela murmura, chorando de soluçar.
Uma bola de catarro estoura em seu nariz.
— Então, doutora. Já decidiu? — pergunto.
Ela arfa, em prantos.
— Se eu contar, a minha família inteira morre... minhas filhas, por favor... — Ela tenta cruzar as mãos em uma prece, mas eu a impeço. Não quero meter Deus nisso. — Eu não posso!
Arqueio uma sobrancelha, incrédula.
— Não pode?
Ela continua resmungando sem parar.
— Não, não...
Olho aquela cena com desprezo, pensando em todas as vezes que me encontrei com aquela mulher e contei sobre minha vida a ela, todas as minhas inseguranças, tudo que eu não tinha coragem de falar em voz alta. Contei sobre a minha família, sobre mim e sobre Jennie, todos os meus arrependimentos e as pessoas que eu matei, e como elas me atormentam a noite. Eu estava disposta a ser uma pessoa normal, os remédios na bancada do meu banheiro e as sessões semanais eram a prova. Mas agora eu só consigo me sentir suja e burra, por achar que alguém poderia interceder por mim.
— Você tinha razão, doutora Suwan... — Aperto os dedos suados em volta da faca. — Eu realmente gostava de você.
Olhando para o meu reflexo nos olhos dela, mergulho a faca no seu pescoço.
O sangue rompe como numa represa, vivo e vermelho, suja as minhas mãos e meu vestido novinho. Praguejo em silêncio e puxo a faca, mas está tão presa no pescoço da doutora que, quando consigo tirá-la, um bocado de sangue respinga nas minhas bochechas.
Não tem uma parte da faca que não esteja suja de vermelho.
Afasto-me, e o corpo da mulher cai no chão sem vida e sem parar de jorrar sangue. Não estava nos meus planos fazer tanta bagunça. Agora eu terei mais trabalho do que o esperado e vai demorar a noite inteira. Minha passagem está marcada para às 6h da manhã. Maravilha. Solto a faca no balcão de mármore, sem saber por onde começar a limpar, quando um clique na porta me faz levantar a cabeça.
Olho para a sala, onde duas garotas entram na casa.
— Manhê! Estamos te ligando tem um temp...
A primeira me vê na cozinha e pára de supetão, fazendo a outra trombar em suas costas.
A garota de cabelos castanhos com mechas brancas está pronta para xingar a irmã, quando levanta os olhos do celular e me vê na cozinha.
Sorrio para ela.
— Olá Minnie! Vim pegar o meu colar.
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