Capítulo 3
Aconteceu de novo! E não fizemos nada para pará-las, Flora apanhou muito hoje no banheiro feminino. O cheiro agonizante da enfermaria ainda estava em minhas narinas, a culpa e o medo constante infernizava a minha mente, eu precisava contar.
As meninas estavam sentadas no chão do meu dormitório, Hope chorava sem parar no colo de Freya e Eve parecia bastante aborrecida. Flora passaria a noite na enfermaria, ela estava bem machucada e com hematomas que demorariam semanas para sair e pensar nisso só me angustiava cada vez mais. Já estava perto da meia noite e eu sabia que Nate poderia romper por essa porta a qualquer momento, mas dada toda a situação acho que ele vai se manter afastado por hora. Não é que eu não queira vê-lo, contudo sei que as coisas complicariam para ele se escolhesse um lado nessa briga e por mais que eu odeie admitir Nate estava indo muito bem em sua adaptação. Ser colega de Diego Gonzáles colaborou, mas o jeito imponente e galante de Nate o destacou dos demais, e estar tomando o lado das renegadas da Milbrook só atrapalharia.
— Acho que estamos nisso juntas, e precisamos confiar uma nas outras — Eve andava de um lado para o outro — Acho que é justo sabermos quem cometeu tal delito. Não é justo pagarmos dessa forma por algo que não cometemos, é difícil confiar em vocês com essa brecha enorme entre nós. — Ela coçou os olhos — E gente eu preciso tanto de amigas e confidentes.
Ela tinha razão, não era justo.
— E como vamos saber que não é você Eve? — Vyck acusou.
— É sobre isso — Freya pontuou — Sempre ficaremos nessa desconfiança.
— Acho que essa pessoa pode ter um círculo seguro entre nós se contar toda a verdade e seus motivos. Ninguém merece passar por esse inferno sozinha. — Jasmim afagou os cabelos de Hope.
— Vocês tem total razão — Falei tirando os olhos da porta — Eu...
A porta se abriu em um estrondo de rizadas e piadas sem sentido quando o corpo forte de Diego se esgueirou para dentro do quarto seguindo por Nate com um sorriso divertido nos lábios. Eu não sei se eles sabem sobre Flora, mas se sabem estão agindo feito babacas.
— Desculpe atrapalhar a reunião do clubinho, mas meu amigo aqui tem assuntos a tratar com a amiga de vocês. — Ele apontou para mim causando espanto nas minhas colegas.
— Vocês não acham que já zoaram com a gente o suficiente? Nossa amiga esta no hospital e vocês dois ai com esse sorriso superior na cara. — Eve entrou na defensiva. Nós duas éramos muito parecidas e por esse motivo sempre trocávamos farpas.
— Eu salvei vocês da última vez, se lembra? Deveriam estar me agradecendo de joelhos, gatinha — Eve sustentou o olhar atrevido de Diego por segundos que mais pareciam horas.
— Está tudo bem gente, Nate é um velho amigo. — Me levantei — Estamos em crise aqui Nate, podemos marcar para amanhã de preferência sem plateia?
Diego fez uma cara de indiferença e balançou os braços.
— Vocês estão em crise desde que entraram nesse lugar, é só mais uma. — Diego se jogou em minha cama — De toda maneira viemos avisar sobre a noite do trote, só não imaginei que o quarto estaria tão movimentado. — Fez um gesto com a mão.
— Noite do trote? — Perguntamos em coro.
— É só uma noite em que eles aplicam pegadinhas nos alunos mais novos, o problema é que esse ano tem vocês e toda essa bagunça que nos cerca. — Nate se aproximou de mim e me olhou nos olhos — Estou preocupado com você e com o que podem fazer.
— Qual é meu parceiro, sabe quem comanda o trote esse ano? Isso mesmo, nós dois. O que falarmos é regra, e sabemos que você não quer mexer com essas lindas moças. — Diego colocou um de meus doces na boca — E devo enfatizar o você.
— A é, porque se fosse pelo extraordinário capitão do time do capeta seriamos pregadas numa cruz até confessarmos. — Desafiei
— Não me dê ideias, minha linda, afinal somente você importa para o meu parceiro ai, as outras ainda podem ter muito o que contar.
Elas não tinham, porque sou a única que pode revelar toda a verdade. Me pergunto se eles ouvissem o meu lado entenderiam que sou apenas a vítima de toda aquela armação.
— Queria entender como vocês ainda podem fazer essas coisas ridículas e cruéis, estão nos atacando por sermos possíveis "assassinas" mas destroem vidas todos os dias.
— Não passam de hipócritas, mimados e sem noção — Eve cuspiu para Diego — Vá em frente nós ataquem e virem assassinos como nós.
— Eu não empurrei meu colega de quarto de proposito pela escada, ele está ai cheio de hormônios e pretendentes a uma boa foda. — Olhei de soslaio para Nate — Que foi? Cara se você não reparou que a Eloise está louca para te dar você é muito lerdo.
— Muitas garotas querem muitas coisas comigo, só não é o momento.
— Ouviu só pequena Jossy, não é o momento, mas logo poderá ser. — Diego jogou um pirulito em minha direção.
— Tá e o que isso tem haver comigo? — Não entendi o que ele quis dizer — O caso é que todo esse bulling destrói a vida de alguém, vocês irão fazer isso até matar uma pessoa.
— Nunca um trote que eu comandei feriu alguém, geralmente é divertido e todos participam. — Diego encarou Eve — Esse ano não será diferente.
— Tem certeza? — Hope foi a primeira a ousar falar alguma coisa, geralmente elas deixam que Eve tome as rédeas — Pode prometer que nenhuma de nós vai acabar em um hospital amanhã? Ou pior?
— Eu prometo pequena — O olhar sínico de Diego se transformou em algo sério e decidido — Vim aqui justamente para assegurar isso a vocês.
Estar no refeitório todos os dias era como se sentir encurralada no aquário, todos te observam e você nada preso com medo das paredes invisíveis. Aqui sentimos essas paredes e todo controle que eles têm sobre nós, eu me sinto um peixe. A única coisa que eu amava nesse lugar era a comida, era a melhor que eu já havia provado e olha que meu pai sempre amou sair e conhecer novos restaurantes. Meu olhar teimoso se voltou para Nate na mesa mais movimentada do lugar, seus olhos se fixaram a mim enquanto os garotos tagarelavam sobre coisas aleatórias. Queria me arriscar a dar um sorriso a ele, mas eu tinha a total noção que isso seria arriscado demais. Eloise se sentou ao lado de Nate e no mesmo instante seus olhos se voltaram para ela e senti um certo incômodo de ter sido trocada tão facilmente. Ela fala coisas que não consigo entender e ele sorri sinceramente para ela, eles fariam um belo casal, mas pensar naquilo me incomodava.
Pode ser somente meu medo de perder meu melhor amigo.
— Se quiser manter esse lance de vocês em off precisa ser mais discreta, você está literalmente fulminando a Eloise por estar perto daquele cara — Eve mordeu um pedaço generoso do hambúrguer gurme.
— Não temos um lance, somos amigos desde o prezinho. E não estou amaldiçoando a garota, só queria poder conviver com meu amigo em paz.
— Claro que sim.
— Vocês viram a Hope?
— Ela viria do banho direto para cá, logo ela estará aqui.
Alguns minutos depois Hope rompeu as portas de vidro com os cabelos ainda molhados e com seu perfume adocicado sendo espalhado por todo refeitório. Hope era linda, a mais bonita entre nós e mesmo sendo uma renegada dificilmente era ignorada por algum rapaz. As olhadas indiscretas comentários e até mesmo tentativas de aproximação eram frequentes quando se tratava dela. Eu não era feia, mas cabelos ruivos, traços asiáticos herdados do meu pai e miopia me faziam ser bem apagada perto das outras meninas.
Entramos em alerta quando uma das meninas que andavam com Eloise foi até Hope, ela era maior que nossa delicada amiga e a roupa impecável escondia o ódio que ela nutria por Hope desde o primeiro dia. A garota de cabelos revoltos cacheados e belos lançou a bandeja de sopa em cima de Hope, foi tudo bem rápido mas em instante estava ao lado de Eve empurrando a garota para longe como um escudo.
— Já chega! Estamos cansadas dessa merda — Eve gritou. — Eu vou partir a sua cara, patricinha ridícula.
— Acho que descobrimos o bicho assassino. — Respondeu ela
— Invejosa de merda — Esbravejei sobre seu rosto — Sua fútil e superficial, como pode fazer algo assim por puro despeito?
— Inveja de ser tratada como bicho? discordo.
— Mesmo sendo ignorada te garanto que Hope teria a atenção de qualquer cara que ela quisesse, e isso te incomoda. — Me aproximei perigosamente dela — Deve doer saber que seu namorado fode com você pensando na Hope.
— Deve doer saber que são mais podres que lixo dessa cozinha — Desafiou ela.
— Posso te fazer provar do lixo do refeitório — A empurrei — Vou te fazer engolir as minhas sobras.
Quando me joguei sobre ela senti meu corpo ser puxado por braços fortes, Diego gritava para os outros alunos se afastarem e pude ouvir quando sugeriram nos castigar. Alguns alunos queriam nos bater e foi aí que a voz de Nate soou alto em meus ouvidos.
— Tranque elas no sótão, melhor do que se rebaixar a isso.
Ouvir aquilo, machucou.
Deem atenção ao gif, bulling e palavras de ódio comentadas na internet tiram vidas. Lembre-se que atrás da tela do computador a uma pessoa engolindo suas grosserias, e por trás do xingamento ou critica inocente ao colega você pode estar destruindo uma vida ou a condenando a uma vida de inseguranças consigo mesmo.
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro