𝟙 - ℂ𝕠𝕟𝕙𝕖𝕔𝕖𝕟𝕕𝕠 𝕠𝕤 𝕤𝕖𝕥𝕖 𝕔𝕖𝕦𝕤
- HATHAWAY -
O CÍRCULO
CAPÍTULO UM
Conhecendo os sete céus
"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A terra é azul de quem olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul."
Clarice Lispector
Park Jimin e eu caminhamos por aquele chão enevoado do segundo céu até chegar no elevador do Katsu, pelo caminho ele cumprimentou vários dos que estavam fora da via principal lutando, isso me fez confirmar o que Kara havia me dito, que Jimin é bem conhecido por aqui. Eu ainda tentava adivinhar o que tudo aquilo significava, a começar pelas pulseiras, os que eu vi com a pulseira branca cintilante estavam sendo ensinados a lutar por alguém com a pulseira amarela, talvez tutores ou mentores com seus alunos, isso pode significar que eu também preciso aprender a lutar com aquelas coisas.
Provavelmente quem irá me ensinar é esse tal de Park Jimin.
Mas o que não consigo engolir é o motivo disso tudo, eu morri e aparentemente estou no céu, então pra quê lutar?
Quando entramos no elevador de mármore do Katsu, o chimpanzé abriu um sorriso amarelo enorme para o Jimin e perguntou com toda a cordialidade do mundo para qual céu ele gostaria de ir, Jimin nos levou de volta para o primeiro.
— Esse macaco é tão educado, eu teria sofrido menos se fosse ele no primeiro elevador — Comentei quando voltamos ao céu dos anões em cima de bolas de cristais.
— Katsu é um amor, Jorge que é irritante pra uma porra. — Jimin mantinha uma postura bem descontraída, como se apresentar todo aquele lugar fosse uma terapia pra ele.
Depois de andar um pouquinho eu já pude ver as filas para passar pela catraca aonde me deram minha pulseira, olhei para o pulso e passei a mão nela em um impulso.
— Vamos começar por aqui, Ava. — Jimin falou e eu parei de olhar para o meu pulso pra dar atenção a ele.
Eu precisava extrair o máximo de informação deste lugar.
— Esse aqui é o primeiro céu, guardiões novatos chegam nele pelo elevador do Jorge depois de encarnarem cinco vezes como almas boas. — Ele falou com o queixo pra cima, como se fosse dono de toda a verdade.
— Guardiões novatos? Almas boas? — Eu não estava entendendo porcaria nenhuma.
Jimin revirou os olhos e coçou a cabeça, jogando seus cabelos pra trás tal como ele fez na arena agora pouco.
— Beleza, você morou na terra como cinco pessoas diferentes antes de vir pra cá, não sei se foi uma alma ruim antes dessas, mas por cinco reencarnações seguidas você foi uma boa pessoa na Terra. Quando isso acontece e você morre, você não reencarna, você é mandada direto pra cá pro Círculo pelo elevador do Jorge pra trabalhar com a gente.
Ahh, agora as coisas estavam começando a fazer sentido.
— E eu vim trabalhar exatamente em que? — Perguntei, Jimin estufou o peito antes de falar.
— Você veio trabalhar como anjo da guarda, mas não fale isso perto dos outros, chamar de anjo da guarda é careta, aqui nós nos autodenominamos guardiões. — Balancei a cabeça mostrando que entendi, era muito bizarro escutar isso, mas eu sou mente aberta, então iria apenas absorver tudo e tentar compreender o sentido da minha existência nesse novo plano.
— Okay, e como esse trabalho funciona? — Jimin me puxou de leve pelo braço e nós voltamos a caminhar.
— Foi isso que eu vim te explicar aqui no primeiro céu. Quando você se lembra de seu nome e de como morreu, Jorge libera você do elevador para ir pra filas, ao chegar no posto, um de nossos Oráculos designa você para um guardião sênior que está desocupado, depois ele lhe dá uma pulseira neon como essa que você está usando. Você passará um ano fazendo suas missões comigo, após isso você é promovida como sênior e recebe seu próprio guardião novato pra cuidar dele, então sua pulseira muda para uma como esta que estou usando.
Ele levantou o antebraço, mostrando a pulseira amarela neon que estava em seu pulso esquerdo. Então a pulseira branca é de novatos e a amarela é de sêniors, talvez a pulseira azul de Kara tenha alguma coisa a ver com seu papel de instrutora.
— Todos os dias nós recebemos dez missões para fazer na terra, elas nos são designadas pelos Oráculos naqueles postos bem ali. — Jimin me girou e apontou para uns postos tal como os primeiros da catraca, um pouco mais longe de onde nós estávamos os anões rolavam na bola de cristal pra cima e pra baixo com diversos papéis nas mãos, talvez esse fosse o trabalho deles. Pelo que Jimin disse, aqui eles são chamados de Oráculos. — Pelo senso comum, o que você acha que os anjos da guarda fazem? — Ele me perguntou.
— Protegem os seres humanos? — Foi um palpite bem bosta, mas acredito que todo mundo pensa nisso quando ouve sobre anjos da guarda.
— Exatamente! Nós guardiões somos responsáveis por impedir que um humano morra. Os Oráculos recebem a visão do dia de milhares de humanos, então eles nos mostram aonde cada um está e como ele vai morrer, nosso trabalho é impedir isso.
— E se algum deles acabar morrendo mesmo assim?
— Então nós temos que trazer a alma dele para o círculo para que possa reencarnar, mas isso eu explico com detalhes depois. Aqueles postos que mostrei pra você é onde nós recebemos nossas missões, esse é basicamente o trabalho que temos aqui. — Jimin segurou na minha mão dessa vez e me puxou, empolgado. — Vamos para o segundo céu de novo pra eu continuar com o nosso tour!
Entramos no elevador com o Katsu outra vez e voltamos para o segundo céu, aonde ocorriam as batalhas. Nós dois andamos pelas vias principais enquanto eu olhava fascinada para os movimentos dos outros guardiões com seus instrumentos de luta.
— O segundo céu é a área de treinamento. — Jimin retomou sua explicação. — Como sempre existe um pau no cú pra ferrar com o nosso trabalho, nós temos que aprender a lutar pra nos defender.
— Quem é que atrapalha nosso trabalho? — Perguntei pensando em mil motivos pra precisar lutar, nenhum deles fazia sentido algum.
— Os demônios, seres que moram na terceira dimensão, o Submundo. Khaos não faz um trabalho muito bom governando eles, então os vagabundos vão pra terra esperar alguém morrer pra se alimentar da alma dessa pessoa. Se nós conseguirmos fazer com que os dez humanos do dia sobrevivam, vai ser raro darmos de cara com um demônio, mas parece que eles têm um radar para almas soltas, seu um humano morrer, eles aparecem em segundos, é aí que temos que lutar com eles pra trazer a alma sã e salva de volta para o Círculo.
— É complicado demais lutar com um demônio? - Perguntei curiosa, Jimin bufou.
— Complicado é pouco, vários guardiões já morreram lutando com alguns, morreram de verdade, se eles sugarem sua essência você já era, puff!! Deixa de existir.
— Que medo.
— É pra isso, minha querida, que existe o segundo céu, é pra garantir que você não morra caso encontre um demônio. O aço que nós usamos é feito especialmente pra causar danos naquela carne podre deles, você só precisa saber manuseá-lo. — Ele desembainhou sua espada e me entregou, ela parecia ser bem afiada, e era leve na mão, com prática qualquer um poderia se tornar uma máquina de matar.
— Como você é meu mentor então creio que também me ensinará a lutar. — Comentei.
— Com certeza! Não se preocupe Ava, você será incrível, vai superar o seu mestre.
— Você já encarou algum demônio? — Jimin sorriu, pegando a espada de volta.
— Diversos. Já estou há vários anos no Círculo, vi muita coisa. — Ele guardou a espada e me puxou de volta para o elevador. — Hora de conhecer o terceiro céu.
Cumprimentamos o Katsu de novo ao voltar para o elevador dele, o chimpanzé apertou o botão do terceiro céu muito antes de Jimin sequer falar algo, parece que ele já sabia o que estávamos indo fazer.
O elevador deu um estalo e se lançou para cima, esperei pacientemente até que a porta abrisse.
Aquilo era muito bizarro.
— O que vai acontecer depois que eu conhecer todos os céus? — Será que eu começaria a trabalhar já hoje? Como diabos é que se salva alguém?
— Eu vou te levar pra o alojamento dos guardiões, você vai passar um ano me acompanhando nas minhas missões, como já cumpri todas as de hoje, amanhã você começa. — A porta do elevador abriu e nós saímos.
— Bem vinda ao terceiro céu. Urruull! — Jimin deu dois pulinhos e depois saiu andando todo divertido. Apressei meu passo pra acompanha-lo.
Aquele andar era bem diferente dos outros dois, as ruas eram feitas de ouro puro, tão puro que eu podia ver meu reflexo nelas, havia praças bonitas com diversas árvores frutíferas onde vários guardiões conversavam e sorriam juntos, diferente do segundo céu, esse daqui esbanjava vida.
Ele realmente refletia a visão de paraíso que aprendíamos na Terra.
— Esse andar é lindo! — Não pude me abster de comentar, Jimin sorriu e segurou minha mão, me puxando rumo a uma das muitas árvores que estavam ali por perto. Esse cara gosta de um contato físico, hein?
— Você precisa provar A.P.E.S.T.E., se algum demônio te der uma surra na Terra, ela te deixa renovada em segundos apenas com uma mordida. — Jimin arrancou um fruto laranja da árvore mais próxima de onde nós estávamos, ela era bem alta e tinha uma folhagem bem verdinha e grossa, depois de dar uma mordida generosa ele estendeu pra mim.
Não parecia nem um pouco com qualquer fruta que eu já tinha visto
— O nome desse bagulho é A peste? — Girei a fruta laranjinha na mão e pensei seriamente em não comer só por causa do nome bizarro.
— Mais respeito com a frutinha, e não é A peste. É A Pequena, Espirituosa e Suculenta Toranja Eterna! Prova vai, você vai adorar o gosto. — Jimin empurrou minha mão para que eu mordesse a fruta estranha enquanto ele ainda mastigava o pedaço que havia pegado agora pouco.
— A pequena suculenta toranja espirituosa? Isso não parece uma toranja, e que diabo de nome é esse? — Ele revirou os olhos e tomou a fruta da minha mão, dando outra mordida.
— Você não é digna de comer, está fazendo piada com a minha frutinha desde cedo. Ninguém consegue aprender todo o nome poderoso de A Pequena, Espirituosa e Suculenta Toranja Eterna, então abreviamos para A.P.E.S.T.E., mais respeito.
Puxei a fruta das mãos de Jimin e dei uma mordida antes que eu desistisse, então minha língua se envolveu de um sabor tão doce e delicioso que tive vontade de subir na árvore e comer todas as frutas disponíveis.
O nome daquele projeto de toranja era uma merda, mas o gosto era simplesmente esplêndido.
— Nossa, que delícia! — Não pude deixar de elogiar aquela fruta maravilhosa, mesmo que eu a tivesse chamado de bagulho alguns segundos atrás.
— Sei que você adorou, todos adoram A.P.E.S.T.E. — Jimin tirou outra da árvore e me entregou, depois continuamos nosso tour pelo terceiro céu.
Em uma parte da rua de ouro um imenso arco se abria pra dar entrada a um espaço totalmente diferente de onde estávamos, quando passamos pelo arco com a placa "Depósito de almas" eu pude ver vários postes com luminárias que pareciam pequenas versões das bolas de cristais que os Oráculos andavam em cima.
Já assistiu "Divertidamente"? Sabe aquele tubo em que você coloca a memória e ela é sugada sei lá pra onde? Tinha vários parecidos com esse naquele lugar, alguns guardiões estavam por ali colocando pequenas esferas brilhantes dentro desses tubos, cutuquei Jimin pra perguntar o que significava tudo aquilo.
— Esse é o lugar onde depositamos as almas para a reencarnação, são humanos que não fomos capazes de salvar da morte, mas conseguimos trazer suas almas em segurança de volta para o Círculo. Nós a colocamos dentro de um desses tubos e a alma é enviada de volta para a Terra, pra renascer em alguma criança.
— Hey, Jimin! Você já não tinha fechado sua cota de hoje? O que faz aqui? — Um rapaz ruivo cheio de sardas chegou perto de onde eu estava com Jimin, ele parecia já ser adulto, mas as sardas o deixavam com aparência de 15 anos.
— Devon! Já cumpri meu trabalho de hoje, mas ganhei uma aluna nova então estou mostrando o Círculo pra ela e esclarecendo como as coisas funcionam. — Jimin apontou pra mim enquanto falava, o tal de Devon me olhou de cima a baixo e depois estendeu a mão pra mim.
— Meu nome é Devon, já fui aluno do Jimin, qual o seu? — Devon usava uma pulseira amarela, me faz pensar em quanto tempo mais ou menos Jimin está aqui como guardião.
— Me chamo Ava, cheguei hoje no Círculo. — Aceitei sua mão e o cumprimentei.
— Bem vinda, Ava! Você ganhou o melhor tutor deste lugar, eu não seria quem sou hoje sem o Jimin. — Jimin parecia inabalável com sua pose descontraída de sempre, mas eu conseguia perceber um pouco do seu constrangimento com os elogios.
— É a única coisa que escuto por aqui, o quão Park Jimin é um bom guardião e o quanto sou sortuda por ter ele como mentor. — Devon sorriu.
— Todos eles estão certos. E aí, quer entregar uma alma pra reencarnação comigo? A sensação é viciante. — Olhei pra Jimin esperando que ele me explicasse o que Devon estava querendo dizer, mas ele apenas deu com a mão.
— Pode ir com ele, Ava. Estou olhando daqui.
Devon abriu a bolsa tira colo que ele estava usando e pegou uma esfera brilhante de lá de dentro, depois a colocou em minhas mãos.
— Consegui salvar essa alma hoje, coloque ali dentro pra ela reencarnar.
Fiz o que Devon falou e coloquei a esfera dentro de um dos tubos que eu estava observando agora pouco, assim que ela foi sugada, milhares de imagens se passaram por minha mente, diversas pessoas diferentes em momentos felizes aqueceram meu coração de uma forma absurda.
Fiquei renovada com essa sensação.
Olhei para Devon com um sorriso no rosto.
— Impressionante não é? Você assiste o momento mais feliz de cada vida que aquela alma teve, é a sua recompensa por a ter salvado.
— Espero sentir isso mais vezes. — Falei para Devon, ele sorriu e eu voltei pra perto do Jimin.
— O que achou da experiência? — Jimin me encarava em expectativa, eu também não tinha como falar mal daquele lugar, acredito que o terceiro céu será o meu preferido de agora em diante.
— A experiência é incrível. — Fiquei olhando pra Jimin sorridente enquanto o torpor de entregar aquela alma ainda estava circulando em minhas veias.
— Eu poderia ficar aqui pra sempre, mas está na hora de te mostrar o quarto céu. — Olhei para todas as almas que iam embora pelos tubos para suas próximas reencarnações, espero vir bastante por aqui.
— Você não vai gostar muito do quarto céu, Ava. Desejo de coração que essa seja a única vez que você precise ir pra lá. — Devon acenou de longe, fazendo esse último comentário enquanto ia embora, virei pra Jimin um pouco confusa.
— O que tem no quarto céu?
— O cemitério das almas. Não é um lugar muito agradável, mas você precisa conhecer. — Saímos juntos do lugar aonde se deposita as almas e voltamos pelas ruas de ouro observando vários guardiões comendo A.P.E.S.T.E entre amigos.
Quando estávamos perto do elevador, dois guardiões chegaram no terceiro céu correndo, ou melhor...
Um deles corria com o outro no colo.
— Ele está sem um braço? — Perguntei com os olhos arregalados enquanto observava o guardião com a pulseira amarela levar o outro de pulseira branca e sem braço até a árvore mais próxima.
— Eles devem ter encontrado algum demônio na missão, não se preocupe, o braço dele vai crescer de novo assim que comer.
Eu já disse que esse lugar é bizarro?
Jimin entrou no elevador e segurou a porta pra mim enquanto esperava eu assistir o guardião sem braço comer A.P.E.S.T.E., assim que ele deu uma mordida o seu braço começou a se regenerar, então parei de dar atenção aquilo e entrei no elevador.
— Cemitério de almas agora, guardião? Há! — Katsu perguntou já apertando o botão do quarto céu.
— Sim Katsu, mas eu espero não me demorar por lá, acho que ninguém gosta de passar no quarto céu. — Jimin se apoiou no mármore do elevador e começou a arrumar o cabelo enquanto o observava no seu reflexo.
— Todos os que pedem pra eu os levar para o quarto céu sempre entram no elevador com a cara abatida, Há! Acho que perder uma alma não faz bem pra ninguém. Há! — Katsu coçou a bunda peluda depois que parou de falar, em outro momento eu soltaria uma risada por causa do quanto aquilo era estranho, mas o clima de conhecer o quarto céu e o motivo de ninguém gostar de ir lá me fez ficar na minha.
— Não vamos demorar, Katsu. Vou só explicar a ela como funciona e nós voltamos, odeio esse lugar. — A porta do elevador abriu e eu percebi o clima do quarto céu só de pisar nele.
O chão era um misto de nuvens e névoa assim como o primeiro e o segundo céu, mas a aparência daquele lugar era cinza, obscura, e ao invés de ser quentinho como nos outros andares, senti frio ao caminhar por ali.
— Quando algum demônio suga a energia vital de uma alma, ela fica cinza. Se perdermos uma alma no nosso serviço, temos que trazer a esfera pra cá, ela nunca mais vai reencarnar em nenhum corpo humano porque a alma deixou de existir, ela literalmente morreu.
Não existiam árvores, ou chão de ouro, ou guardiões felizes. Apenas uns poucos estavam lá, praticamente todos com a fisionomia abatida, assim como Katsu havia comentado no elevador. Duas guardiãs passaram por nós enxugando lágrimas dos olhos, elas estavam indo para o elevador com Katsu pra sair dali, quando chegamos em um arco semelhante ao que existe no terceiro céu Jimin olhou pra mim.
— Aqui o enterro das almas funciona semelhante a reencarnação, você coloca a esfera no tubo e ela é sugada até o final deste céu, aonde todas as almas mortas ficam empilhadas em uma pira. Ao contrário do terceiro céu, quando você entrega a sua alma aqui, você sente todos os piores momentos de todas as vidas que aquela alma viveu, é o preço a pagar por a ter perdido, por isso quase todos que vem aqui saem chorando.
— Por isso que Devon disse que desejava que eu nunca precisasse mais vir aqui? — Jimin assentiu.
— Até hoje não existiu um guardião que se livrou do quarto céu, em algum momento do trabalho você acaba vacilando e perdendo uma alma, ninguém escapa deste lugar.
Calafrios passaram por meu corpo e eu tremi, inconscientemente segurei no braço de Jimin e me encolhi.
— Vamos embora? — Jimin balançou a cabeça fazendo que sim diversas vezes.
— Com certeza! O quinto céu é mais divertido.
Voltamos ao elevador e Katsu nos levou até o quinto céu, limpei uma lágrima rebelde de meus olhos, o cemitério das almas me afetou mesmo que indiretamente.
Neste andar o chão era totalmente feito de mármore, como as paredes do elevador. Muitos guardiões andavam por ali, diversos espelhos do tamanho de portas estavam posicionados um ao lado do outro no extremo esquerdo do ambiente, eram tantos que eu não conseguia ver o fim deles.
Os guardiões que ali estavam colocaram uma espécie de cartão em uma abertura do lado do espelho, o cartão foi sugado e logo em seguida uma névoa roxa tomou conta do reflexo, eles pularam pra dentro da névoa e em segundos o espelho voltou ao normal, cristalino como antes.
— Aqueles são os portais para a Terra, nós recebemos nossas dez missões no primeiro céu junto com aquele cartão. — Jimin apontou para um guardião que passava perto de nós com o cartão do qual ele estava falando na mão. — Colocamos o cartão na abertura do espelho e ele se transforma em um portal, a partir do momento que pulamos somos enviados para o exato lugar onde o humano que devemos salvar está. Ao cumprir a primeira missão, devemos mergulhar em algum lugar com água pra ir pra próxima, é assim até chegarmos à décima.
— E quando terminamos as missões? — Perguntei sem olhar pra Jimin, eu estava observando os guardiões entrando nos portais.
— Quando terminamos a última missão nós somos enviados para o elevador do Jorge, ele nos deixa no primeiro céu. Se não salvamos alguém da morte nós levamos a alma para o terceiro céu, se perdemos alguém para os demônios nós levamos a esfera vazia para o quarto, e o ciclo se repete.
Não respondi, apenas observei os guardiões daquele andar entrando em seus respectivos portais, o trabalho de anjo da guarda era, em si, bem interessante, mas uma eternidade vivendo apenas nisso me parece meio monótono.
— Teremos que trabalhar como guardiões pelo resto da nossa existência? — Perguntei para Jimin, ainda olhando para os portais.
— Após cem anos de serviço você é liberado pra reencarnar em algum ser humano e voltar pra o ciclo de cinco reencarnações, mas você perde toda a memória do Círculo, mesmo que volte pra cá de novo, será como sua primeira vez. — Park respondeu minha pergunta perfeitamente, assim como eles estava fazendo desde o começo. Eu não sabia se ele me olhava enquanto falava algo, eu não conseguia encara-lo, em parte pelo constrangimento inicial e a outra parte era por causa daquele lugar, o Círculo era tão bizarro e ao mesmo tempo incrível que eu não conseguia desviar o olhar de cada detalhe que emoldurava a paisagem de cada andar.
De cada céu.
— E se eu não quiser voltar pra Terra? — Dessa vez eu me forcei a encara-lo, seus olhos violetas sumiam quando ele sorria. Era fofo.
— Se não quiser você pode ficar aqui como voluntária, nesse caso sua pulseira vai ser trocada pra cor específica de seu trabalho aqui. — Ele sacudiu o pulso mostrando sua pulseira outra vez.
— Então quer dizer que quem passa mais de cem anos aqui não usa mais a pulseira amarela? — Jimin tocou em meu ombro e apontou para o elevador, me incitando a caminhar.
— Se você quiser continuar trabalhando como guardiã então sua pulseira permanece amarela, mas depois de cem anos você tem a liberdade de trabalhar em outra área. Lembra da Kara? — A imagem da mulher de cabelos curtos que conheci no segundo céu veio em minha mente, a da pulseira azul.
— Lembro sim.
— Kara está aqui há muito tempo, depois que ela cumpriu os cem anos a garota escolheu trabalhar como instrutora no segundo céu, ela é magnifica com as armas, ronda uma história no Círculo de que ela já matou mais de duzentos mil demônios.
— É muito demônio. — Jimin voltou a sorrir pra mim antes de apertar o botão do elevador.
— É sim.
Katsu nos convidou para entrar e apertou o botão do sexto céu, Jimin jogou os cabelos pra trás e se escorou na parede do elevador enquanto olhava pra mim.
— Nosso tour está pra acabar, todos podem visitar o sexto céu, mas quase ninguém passa da porta.
— Por quê? Acho que essa foi a palavra que mais repeti durante o dia inteiro.
— Vou te explicar agora. — As portas do elevador abriram e a primeira coisa que vi no sexto céu foi o chão de nuvens comum nos outros, mas aqui tinha uma leve diferença.
Nas histórias infantis, a porta para o céu (heaven) é um portão enorme feito de ouro com uma guarita do lado aonde todos se apresentam pra ver se são dignos de entrar. Apesar de a noção de céu dos humanos não ser nada parecida com o que eu estou conhecendo agora, esse andar se equiparava perfeitamente a essas histórias infantis.
Tinha um portão grande e gradeado todo feito de ouro, mas neste caso, a guarita do lado do portão não existe. É apenas aquele monumento brilhante, grande e glamoroso ansiando pra que alguém entre por ele.
— Existem aqueles que completam cem anos e são transferidos pra cá, esse é o andar das missões especiais, os guardiões daqui usam pulseiras roxas, eles são responsáveis pelo equilíbrio entre as três dimensões, qualquer assunto urgente que envolva demônios, humanos e até guardiões, são eles que resolvem. Investigações? É com eles. Crianças desaparecidas? É com eles. Eles são os CSI do Círculo. Morro de vontade de trabalhar aqui. — Jimin encarava aquele portão como se suas grades fossem seu sonho palpável, era nítido o extremo fascínio que ele tinha por aquele lugar.
— Você virá trabalhar aqui quando completar seus cem anos? — Perguntei com a certeza de que a resposta seria sim, mais pra puxar assunto do que outra coisa, mas o que ele me disse em seguida me surpreendeu.
— Como se fosse fácil, já completei meus cem anos, mas pra trabalhar aqui você precisa receber uma carta do sétimo céu solicitando suas habilidades como guardião neste setor, é por isso que continuo treinando e trabalhando como um. Kara recebeu a carta, entrei em um duelo com ela quando descobri que a garota recusou, eu mataria uma horda inteira de demônios sozinho só pra ser convidado pelo próprio Rei pra trabalhar aqui.
— Você tem quantos anos aqui no Círculo? — Perguntei quase segurando meu queixo pra ele não cair.
— Não acho sensato responder sua pergunta, mas posso te dizer a idade que morri, é a que meu corpo sustenta até hoje. — Resolvi não insistir, eu teria muito tempo pra descobrir isso depois.
— Então com que idade você morreu? — Ele segurou minha mão e me puxou de volta para o elevador de novo.
— Morri com vinte e dois anos, e você? — Não precisei pensar muito, apesar de eu só me dar conta disto agora.
— Morri com vinte.
Entramos no elevador novamente com Katsu nos recepcionando, pensei que Jimin nos levaria para o sétimo céu, mas ele fez Katsu apertar no botão do terceiro.
— Ei, por que não vamos mais subir? — Não foi Jimin que me respondeu.
— O sétimo céu é o lugar onde o Rei mora. Há! Só pode subir pra lá quem ele convida. Há! O Rei me avisa pra liberar o guardião pra subir, se o rei não me avisar eu não subo. Há! — Katsu coçou a bunda e voltou a se sentar em seu banquinho ao lado do painel de andares do elevador.
— Quem é o Rei? — Perguntei diretamente para Jimin.
— O Rei é quem governa todo o Círculo, nosso superior supremo daqui, assim como Khaos é o superior supremo do Submundo.
— E quem governa a Terra? — Katsu abafou uma risada, fingi não me importar, a culpar não é minha se eu sou ignorante, cheguei agora, pô.
— A Terra não tem um governante, Khaos sente o desejo de ter a Terra pra si, mas ele mal consegue governar seus próprios demônios. O Rei acredita que a Terra está bem do jeito que está agora, ele apenas garante que nada de ruim aconteça com os que moram nela, é o nosso trabalho.
O elevador se abriu no terceiro céu e eu sorri ao voltar para aquele lugar tão lindo.
— Vamos para o alojamento, vou te mostrar seu quarto.
— Nós podemos dormir? — Perguntei enquanto olhava ao redor novamente, perfeita definição de céu.
— Vai ficar admirada de tão cansados que podemos ficar depois de uma missão na Terra.
Caminhamos pelas ruas douradas no sentido contrário ao do local aonde se deposita as almas para a reencarnação, não haviam muitos guardiões por ali, apenas o horizonte infinito e a rua aonde estávamos, até que começou a ficar visível a estrutura de um edifício hiper alto, quanto mais eu me aproximava mais eu me admirava com a altura daquilo, por mais que olhássemos para cima, era praticamente impossível enxergar o último andar.
As paredes são feitas do mármore mais puro, a porta principal ultrapassava os quatro metros de altura, assim que pisamos no assoalho eu senti uma paz tão grande que meu corpo começou a ficar leve, Jimin percebeu e sorriu.
— Esse é o efeito mágico do nosso alojamento, nos faz ficar calmos e sonolentos e recupera toda a nossa energia pra estarmos fortes e plenos no dia seguinte, assim nossos deveres como guardiões serão cumpridos da melhor forma possível.
— Eu já tenho um quarto? — Jimin passou a mão no cabelo novamente e depois me puxou pra dentro
— Vamos descobrir agora. — Logo na entrada do edifício tem uma recepção bonitinha, Jimin parou bem na frente comigo e bateu palmas, então uma pomba branca voou por cima de nós e pousou bem no balcão.
Confesso que levei um sustinho básico.
— Bem vindos ao Hotel Guardião Gradeado, aonde sua preguiça fica presa e você sai revigorado. — A pomba olhou para Jimin e depois olhou pra mim. — Trouxe uma guardiã nova, Jiminutivo? — Jimin cruzou os braços com um bico.
— Eu já falei pra você não me chamar assim! — Segurei minha risada pra que ela não saísse, Jiminutivo era um bom apelido.
— Mas você é pequeno! — A pomba falou exagerada, então outra passou voando por perto e pousou do lado dela.
— Já falei pra você não atazanar o menino Jimin, Pombriela! — A pomba que acabou de chegar ralhou com a que nos recebeu.
— Gosto do Jiminutivo, Pombriana. Não estou o atazanando! — Não sei se pombos podem revirar os olhos, mas ela revirou.
— Vai arranjar o que fazer, eu tomo conta deles. — Pombriana enxotou Pombriela com as asas e depois se virou pra nós.
— Desculpem os modos de minha irmã, qual o seu nome, querida? - Olhei para a pomba e engoli em seco antes de responder.
— Meu nome é Ava. — Lugar bizarro com anões, chimpanzés e pombas bizarras.
— Você é a nova aluna do menino Jimin! — Ela voou por cima de nossa cabeça afoita. — Levo você para o seu quarto, amanhã já pode começar a trabalhar. Me siga! Me siga! — Então a pomba saiu voando. Olhei para Jimin sem saber o que fazer.
— Pode ir descansar e digerir tudo o que aprendeu hoje, bem cedo eu passo no seu quarto para irmos à sua primeira missão como guardiã. — Ele tocou de leve em meu braço e depois piscou pra mim.
Senti um arrepio em meu corpo, mas o ignorei, então apenas balancei a cabeça e me despedi de Jimin com um aceno, depois segui Pombriana.
Entramos em um elevador, dessa vez sem chimpanzés. Pombriana digitou o número 1270 no telão do elevador e então esperei por uma subida infinita, até que o elevador parou no andar 1270.
Saímos de dentro do elevador e eu me virei para Pombriana.
— Quantos andares o hotel tem? — Ela bateu as asas ao meu redor enquanto me respondia.
— Os andares são infinitos, quanto mais os guardiões chegam, mais andares se formam. — Pombriana voou mais pra frente e parou na frente de uma porta com uma placa escrita: 1270-C — Esse aqui é o seu quarto, querida. Pode descansar, o menino Jimin virá aqui amanhã.
Acenei e segurei a maçaneta da porta para entrar, mas uma dúvida me segurou e fez eu olhar para Pombriana novamente antes de ela entrar no elevador.
— Você pode me dizer qual o quarto do Jimin? — Pombos podem sorrir? Eu juro que ela sorriu.
— Andar 102, quarto A. Mas não se preocupe em procura-lo, ele virá até você. — Pombriana entrou no elevador e foi embora, então eu girei a maçaneta de meu quarto.
Ele era um misto de branco e roxo, janelas com cortinas de seda e uma cama de casal com lençóis e cobertores brancos cheirosinhos, eu poderia fazer piada dizendo que estou no céu, mas na real eu estou mesmo.
Do lado da cama tem uma escrivaninha, em cima dela estava um aparelho que muito me parece com um tablet, o peguei em minhas mãos e passei o dedo na tela.
Ela se acendeu.
"Bem vindo ao Círculo, por favor digite o seu nome e o nome de seu mentor."
Escrevi o nome "Ava" na linha de cima e o nome "Park Jimin" na linha de baixo, então uma página nova ficou carregando e após isso a tela de tarefas apareceu.
Meu nome estava em cima junto com a minha foto e a data de hoje, mostrando meu primeiro dia no Círculo, em baixo de tudo tinha uma planilha dividida com quatro colunas: Sucessos, reencarnações, fracassos e demônios. Fiz uma nota mental pra perguntar a Jimin o que isso tudo significa.
O que me lembrou do número do andar dele, a pomba disse que cada vez que um guardião chega o hotel veia mais quartos automaticamente, Jimin mora no andar 102, eu estou no 1270. Será que ele é tão antigo assim aqui no Círculo? A ponto de estar em um andar tão baixo assim?
Limpei minha mente e me deitei na cama macia, não sei muito bem o que me espera nessa missão de salvar vidas, mas pelo menos se eu fizer alguma besteira a culpa não vai ser minha.
Apaguei logo em seguida, Jimin estava certo, esse lugar é projetado pra te fazer dormir.
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𝕃𝕖𝕚𝕥𝕠𝕣 𝕗𝕒𝕟𝕥𝕒𝕤𝕞𝕒, 𝕖𝕦 𝕤𝕠𝕦 𝕠 𝕞𝕖𝕝𝕙𝕠𝕣 𝕘𝕦𝕒𝕣𝕕𝕚ã𝕠 𝕕𝕠 ℂí𝕣𝕔𝕦𝕝𝕠, 𝕔𝕠𝕟𝕤𝕚𝕘𝕠 𝕧𝕖𝕣 𝕧𝕠𝕔ê 𝕡𝕠𝕣 𝕒𝕢𝕦𝕚. 𝔸𝕡𝕒𝕣𝕖ç𝕒 𝕡𝕒𝕣𝕒 𝕠𝕤 𝕠𝕦𝕥𝕣𝕠𝕤, 𝕤𝕖 𝕕𝕖𝕚𝕩𝕒𝕣 𝕤𝕖𝕣 𝕧𝕚𝕤𝕥𝕠 é 𝕚𝕞𝕡𝕠𝕣𝕥𝕒𝕟𝕥𝕖 𝕡𝕒𝕣𝕒 𝕠 𝕖𝕟𝕘𝕒𝕛𝕒𝕞𝕖𝕟𝕥𝕠 𝕕𝕒 𝕞𝕚𝕟𝕙𝕒 𝕙𝕚𝕤𝕥ó𝕣𝕚𝕒. ⭐
𝔹𝕖𝕚𝕛𝕠𝕤 𝕕𝕠 𝕁𝕚𝕞𝕚𝕟!
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