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Não conte nada ao papai

— Jennie Kim
(8 de março de 1995 - 30 dias antes)








"Nossas crianças estão morrendo! O demônio está à espreita! Crianças estão matando, crianças estão em perigo!"

Jennie encarou, entediada, a pregação ininterrupta do pai na televisão. Alguém na casa havia gravado o culto em cima da fita de um filme do Arnold Schwarzenegger, e às vezes, alguma frase do Exterminador do Futuro se sobrepunha aos sermões semanais.

— Seu pai tem sábias palavras — disse a senhora, trazendo-lhe uma caneca com alguma mistura de leite com algo doce demais, "crianças" ela poderia pensar, "gostam de coisas doces".

Jennie odiava "coisas doces" e odiava como Huimang Hill gostava de chamá-los de "crianças". Todos tinham dezessete ou dezoito anos, já fizeram coisas que os pais com certeza fizeram quando eram jovens, mas a palavra maldita ainda os faziam ter que se encaixar no conceito, se tornavam adolescentes inconsequentes, maiores de idade só na identidade, irresponsáveis por categoria.

— Dona Louise, eu não quero incomodar, mas Rosé vai demorar? — Jennie tentou dizer docemente, arregalando os olhos para soar infantil. — Quer dizer... ela me pediu para vir...

— Não se preocupe, querida. Tome o seu cappuccino, Rosé está chegando do culto de jovens agora mesmo. — A senhora bagunçou os cabelos de Jennie.

Odiava que mexessem nos seus cabelos, pois era uma luta mantê-los minimamente comportados. Na maior parte do tempo, pareciam ter vida própria e ali, estavam recém lavados. Jennie passou a manhã toda ocupando seu tempo com eles para chegar exatamente no horário marcado por Rosé, mas, quando o ponteiro do relógio marcou nove horas, já estava devidamente vestida mesmo que Rosé chegasse do culto de jovens às onze horas.

Jennie apertou a caneca com mais força, os nódulos dos dedos estavam pálidos. Ela se sentou em uma das cadeiras da cozinha branca, como tudo naquela casa: branco, branco e grande demais para uma família tão pequena. As paredes eram velhas, camadas e mais camadas de tinta até chegar aquele branco, como Rosé e a mãe. Elas fizeram tanto esforço para parecerem perfeitas que soavam falsas, prestes a quebrar se alguém puxar a casquinha.

A aparência era a única passível de preocupação em Huimang Hill.

A senhora tinha os cabelos ruivos em rolinhos na cabeça, um vestidinho bem passado coberto por um avental e sorria para Jennie ao tirar o bolo do forno. As mães daquela cidade eram xerocadas também, pois se mudasse a cor do cabelo daquela senhora poderia chamá-la de "mamãe."

Jennie levou os olhos à porta, Rosé havia chegado com as bochechas coradas pela caminhada da igreja até a casa.

— Mamãe, obrigada por receber Jennie! — Ela saltitou até a senhora, dando-lhe um beijo nas bochechas flácidas. A saia voava pelo vento fresco e os botões da camisa estavam com algumas casas abertas, o pano amassado e mal enfiado dentro da saia poderia explicar o pequeno atraso de Rosé.

Jennie quis vomitar.

— Que tal conversarmos lá em cima? — propôs.

Não esperou uma resposta dela, apenas largou a caneca intocável na mesa e seguiu para as escadas.

Jennie nunca pisou lá e não esperava o fazer tão cedo, mas sabia cada canto daquela casa, pois como as mães, as casas de alvenaria eram do mesmo molde: corredor estreito e três quartos no segundo andar. A suíte costumava ser dos pais, o segundo quarto do primogênito — já que era o mais espaçoso e com vista para a entrada principal —, o resto, dependendo da família, era repositório de materiais desnecessários ou o quarto do segundo filho. Na casa de Jennie, eram guardados santinhos, cadeiras da igreja e roupas do irmão morto.

O clima havia se dissolvido, Rosé não sorria mais e, assim que entraram no quarto, a porta foi fechada com brusquidão. Jennie observou rapidamente o cômodo, a estante de livros, a penteadeira e a cama bem arrumada, todos os móveis brancos, e se sentou na cama de propósito, só para desforra-la.

— Não sente aí e passe essa... doença para mim — ralhou Rosé.

— Gostar de garotas não é uma doença — rebateu ela.

Rosé levantou uma sobrancelha.

— Seu pai diz o contrário.

— Estamos aqui para reproduzir o sermão do meu pai? Eu sei ele melhor do que você — respondeu no mesmo tom.

Rosé estreitou os olhos e abriu a boca, depois a fechou e se forçou a engolir a resposta. Ela caminhou até a penteadeira e pegou uma caixinha de bailarina. Não parecia estar com pressa ou fingia não estar. Jennie não cairia nesse joguinho de novo, esperaria o tempo que fosse preciso.

Rosé tirou da caixinha duas cartelas de remédios e tomou os comprimidos a seco.

— Quantos desses precisa por dia para não surtar de vez? — indagou Jennie, zombeteira.

Por incrível que pareça, não havia deboche quando ela resolveu responder:

— Muitos. — Rosé encarou as cartelas e permaneceu com uma nas mãos. — Esse me ajuda a dormir, se quiser...

Ela deixou a frase no ar "Se quiser..." Jennie semicerrou os olhos, levantando-se.

— Como sabe que eu tenho dificuldades para dormir?

— Todo mundo nessa cidade tem dificuldades para dormir — retrucou Rosé.

Jennie semicerrou os olhos. Rosé era boa naquilo, em encarnar papéis. A luz do sol fazia os cabelos brilharem como chamas, as bochechas estavam coradas, o batom rosa borrado nas extremidades dos lábios e as sardinhas salpicadas no nariz, tudo singelo e natural demais, gostável. Jennie quase acreditou na bondade dela.

— Um comprimido basta para mim e acho que para você também. — Rosé fechou as mãos de Jennie na cartela de remédios, não aceitando uma possível recusa.

Era estranho presenciar aquela versão de Rosé, vê-la oferecer algo de bom grado, ainda mais aquela cartela de remédios. Era como se Jennie estivesse presenciando um lapso de bondade da ruivinha, como se ela não fosse cobrar um preço alto demais por aqueles comprimidos, no futuro. Infelizmente, conviveu tempo demais com Rosé para saber que ela nunca fazia uma boa ação sem um interesse oculto.

— O que acontece se você tomar mais de um? — perguntou Jennie.

Rosé levantou as sobrancelhas, evidenciando o quão óbvia aquela pergunta era, mas não achava a filha do pastor merecedora de tantas palavras.

— Está me dando uma arma, sabia? — acrescentou Jennie, ácida.

— O que? Vai me matar? Me dopar até a morte?

Lá estava a Rosé novamente, maldosa. Jennie guardou os comprimidos no bolso e caminhou para a cama. Ficar perto de Rosé havia sido intenso demais.

— Não sou uma assassina, mas obrigada, de qualquer forma — respondeu, tensa.

A expressão de Rosé tomou um ar vitorioso, era uma característica inerente a Park. Desde criança ela era arrogante, mimada e tornava tudo uma competição sobre si, fazendo todos orbitarem à sua volta. A rixa entre as duas se devia, principalmente, a isso e a mais outros milhares de motivos. Jennie não estava disposta a aceitar as imposições de Rosé, já Rosé não conseguia entender porque Jennie não se sentia afetada por sua presença.

Rosé tirou algo diferente da caixinha de bailarina dessa vez, uma pulseirinha de ouro.

— Agora, vamos ao nosso trato — disse ela, sorrindo.


⟡ ⟡ ⟡


Jennie quase voltou para trás, o enjoo subiu pela garganta e o ar era difícil de respirar. Continha toda a podridão do pântano crescendo nas árvores, se arrastando pelo mangue e tampando qualquer resquício do sol. Lisa tirou a chave da ignição e, com um respirar fundo, saiu do carro.

— Por que ela nos quer aqui?

Jennie tampou o nariz com os cabelos e a acompanhou.

— Não faço a mínima ideia, apenas vamos cumprir o combinado e torcer para que ela nos dê as fotos.

— Acha que podemos confiar em Rosé? — perguntou Lisa.

— Nem um pouco, mas é melhor fazer o que ela manda — respondeu Jennie.

Lisa pisou firme, andando até o lago. Jennie também não estava feliz com o que foi imposto a elas, mas era isso ou pagar para ver, e conhecia Rosé tempo o suficiente para saber que não era bom quando ela não conseguia o que queria.

Era a primeira vez que via o pântano ao vivo, antes disso, só tinha sido por fotos, contos e pela imaginação. Quando criança, temia os monstros que nadavam pela água suja, mas o pai nunca deixou que ela fosse — e não que Jennie cumprisse as regras do pastor —, mas o pântano não possuía nada atrativo que a fizesse ter vontade de perder tempo e se sujar de barro para ver o lixo que a cidade escondia, para ver isso, era só frequentar os cultos aos domingos.

Lisa emprestou a Jennie um par de botas de borracha e, mesmo assim, era complicado andar no meio do chão lamacento. A jaqueta jeans que usava também era um empréstimo da tailandesa, tentava fixar o cheiro em sua mente ao invés do fedido do local.

— E então, o que precisamos fazer com essa pulseira? — Lisa parou no meio do lamaçal, entupida de mangue até metade da bota.

Ao redor delas, as árvores baixas sacolejavam. Jennie rodou nos calcanhares — ou tentou.

— Segundo Rosé, jogar no lago.

Lisa levantou a pulseirinha até os olhos, observando cada cota brilhante que havia na pequena cordinha de ouro.

— Essa garota é maluca... — sussurrou ela.

No meio do pequeno uivar das árvores, o som de um carro cantando pneu na lama chegou até elas. As garotas se viraram, esperando o que quer que fosse aparecer naquele local, e demorou um tempo até o carro de polícia chegar.

Não faziam nada de errado, frequentar o pântano até onde Jennie sabia, não era um crime, mas soltou as mãos de Lisa.

O delegado Min saiu do carro e tentou se mostrar ameno ao cheiro, mas não conseguiu e soltou um palavrão.

— Por que o pântano é tão atrativo para vocês, crianças? — A voz dele era mais aguda que o normal.

— Para o senhor também, já que está aqui — rebateu Lisa.

— A forasteira tem uma língua afiada... — ele riu, caminhando até elas. As botas de borracha deslizavam na lama com uma maestria invejável.

— Meu nome é Lisa, caso o senhor não saiba... — lembrou ela.

— Certo, Lisa. — Ele riu de novo.

Nenhuma delas esboçou qualquer reação, por esse motivo, o delegado fez uma careta e levou sua atenção a Jennie.

— O que faz aqui, mocinha?

— Andando — respondeu Jennie.

O delegado franziu o cenho e apontou para a pulseira, na mão de Lisa.

— Com um objeto roubado?

Jennie arregalou os olhos e fitou Lisa, que também estampava a mesma expressão.

— O quê? — Elas perguntaram em uníssono.

— Rosé abriu um boletim de ocorrência pelo roubo de uma pulseira... e admito, foi muita coincidência pegar vocês aqui, tentando dar um fim nela — disse o delegado.

— Mais coincidência ainda você chegar no mesmo momento, certo? — Lisa não tinha freios na língua e isso fazia Jennie querer beijá-la ali mesmo, mas se lembrou que a filha da prostituta não tinha nada a perder respondendo o delegado, a garota do pastor tinha muito.

O homem bufou, coçando o nariz com o indicador.

— Vocês estão me dizendo que roubaram a pulseira?

— Isso é o senhor que está dizendo! — respondeu Lisa.

— ... Porra, porra, porra... — Jennie cochichou, raivosa.

Esteve na casa de Rosé e quase sentiu pena dela, quase foi indolente o suficiente e boba, pensando que era apenas vir, cumprir com o que foi mandado e depois tudo ficaria bem. Sua mente gritava: "O que você esperava? É Rosé! Essa é a natureza dela!" Rosé estava ciente que se Jennie fosse fixada na polícia pelo roubo da pulseira não poderia entrar na faculdade ano que vem, seria a vergonha da família, da igreja, da cidade, teria que ficar, porque não havia opções para ir, e teria o mesmo destino de todas as mães daquele maldito lugar.

— É, fui eu — confessou Lisa.

Jennie levantou o olhar, aturdida, e encarou a tailandesa. Lisa balançava a pulseira entre os dedos.

— Eu queria vender, já que Rosé tem tantas... achei que não notaria o sumiço dessa.

— Não faça isso, por favor... — implorou Jennie em um sussurro gritado, mas Lisa fingiu não ouvir. Ela estava tomando a culpa para si, como se fosse seu destino ser o que os outros pensavam que fosse: a "sem futuro", que terminaria vendendo sexo no trailer, igual a mãe. — Lisa, é isso que Rosé quer...

— Já era de se esperar. — Intrometeu o delegado, ele caminhou com as algemas em punho. — Nossa cidade não é bagunça, não, menina...

— Delegado Min! Por favor... — Jennie ouvia a própria voz, desesperada e teimosa, enquanto Lisa era algemada, ao seu lado. — O meu pai vai esclarecer tudo, eu prometo!

O delegado apontou o dedo acusatório para Jennie.

— Ela confessou, foi pega em flagrante, criança! Tem sorte que não vou metê-la nisso, por respeito ao Pastor!

— Prostitutas não ganham o respeito do senhor também? Minha mãe vai ficar bem triste comigo presa... — Lisa riu, caminhando de bom grado até a viatura, junto ao delegado.

Jennie queria gritar, falar a verdade, dizer que Lisa não havia roubado nada, que elas estavam sendo chantageadas por Rosé, mas seria a palavra da filha rebelde do pastor contra a bela e recatada Rosé, que fazia caridade aos domingos, cantava na igreja e tinha as melhores notas. Seria a verdade sendo revelada, que traía o namorado com uma garota, e isso era um fardo grande demais para se levar naquela cidade, onde tudo era motivo para te pregarem em uma cruz.

Jennie deixaria Lisa ser presa para livrar a sua pele, pois era covarde demais para lutar contra e, no fim, talvez Lisa soubesse disso.

— Não faça nada de cabeça quente, Ruby! — gritou ela, com o delegado empurrando-a para o banco de trás da viatura.

Quando eles se foram, o pântano era igual aos seus medos de infância.


⟡ ⟡ ⟡


— Não dá, garota. Fico feliz que alguém se importe com Lisa, mas nem se eu dormir com o presidente consigo o dinheiro para a fiança tão rápido assim. — A senhora disse, colocando mais um pouco de vinho barato no copo de Jennie. Era um daqueles copos de molho de tomate que na sua casa servia para plantar suculentas.

Jennie gostava dali, do trailer onde Lisa morava, era o mais próximo de autenticidade que aquela cidade jamais teve, os papéis de parede mofados, o sofá cheio de gatos, as roupas estendidas em um varal improvisado. Elas tinham a rodovia como vista principal e o cheiro de borracha de caminhão tomava conta da sala.

Lawan era bonita, apesar do tempo não ter sido bom, ela tinha cabelos descoloridos, olhos grandes e a boca carnuda. Era como se ela fosse uma versão mais velha da filha, que havia sofrido demais e a esperava andar com as próprias pernas para morrer em paz.

Jennie tomou todo o vinho de uma só vez, recusando o cigarro ruim que Lawan a ofereceu. O jantar foi muito bom e a quantidade de palavrões que poderia falar sem ser xingada também.

— Ela realmente fez...? Roubou? — Lawan tinha um olhar pesaroso. — Lisa nunca roubou na vida... passamos dificuldade, mas não a esse ponto.

Jennie respirou fundo, focando em um ponto inespecífico do prato à sua frente.

— Não foi ela, Dona Lawan.

— Só Lawan, querida.

— Tudo bem, Lawan.

Ela sorriu.

— Lisa tem sorte de ter você, sabia? — E repousou as mãos grossas em cima das de Jennie, em um carinho materno.

Lawan sabia guardar segredos.



⟡ ⟡ ⟡



A casa de Kai sempre foi uma atração à parte. O casarão se estendia por boa parte do tamanho já diminuto da cidade e mais da metade dos funcionários que trabalhavam lá — empregados, cozinheiros e jardineiros — provinham de um município ao lado, pobre e feio, onde a mão de obra barata era a única solução. Ah, eles não ligavam para pessoas que não nasceram nas redondezas! Fora dos canteiros nobres e das casas de alvenaria. O prefeito continuaria lá, escravizando aquela gente para que as rosas continuassem floridas e a carne bem temperada.

Kai seguiria o mesmo destino do pai, porque apesar de ser uma democracia no papel, a realidade era que aquela família estava no poder desde da separação das Coreias. Eles fundaram aquela cidade e morreriam com ela.

Jennie não queria ter o mesmo futuro e Kai sabia exatamente o que a namorada pensava a respeito de toda aquela riqueza. Pela expressão que Jennie recebia dele: as sobrancelhas grossas juntas, o maxilar trincado e os dedos batucando na mesa, concluiu que o namorado estava desconfiado. Kai fechou o roupão, o corpo molhado pelo banho de piscina recente, que não o impedia de andar pela casa deixando poças d'água pelo caminho. As empregadas limpavam com orgulho por fazerem tudo do agrado do "senhorzinho."

Os olhos castanhos dele a fitaram com uma intensidade incomoda.

— Você gosta mesmo dela. — Kai tentou sorrir, mas não chegou aos olhos. — Para vir até aqui, me pedir dinheiro...

— O problema não é o dinheiro — rebateu Jennie, impaciente.

— Mas você nunca aceitou o meu dinheiro — lembrou ele.

Jennie bateu a palma na mesa de mogno.

— Eu não sabia que isso te incomodava tanto!

Ela queria ser mais incisiva, pois era evidente, pela confusão mental que transparecia na respiração rápida, nas roupas amassadas e no suor, que não tinha tempo para discutir o que Kai achava que aquele relacionamento era. Jennie queria tranquilizá-lo dizendo que, mesmo que dormisse com todas as garotas daquela cidade, ainda estava presa a ele.

Precisava aproveitar todos os anos até se casar e se tornar a primeira dama, se preocupando apenas com eventos da prefeitura, "Encontros de mães de Huimang Hill" enquanto dormia ao lado dele esperando que a morte fosse mais atrativa que aquele casamento.

— Não me incomoda. — Os dedos de Kai pararam de batucar na madeira e a sala ficou silenciosa. O eco das falas ressoavam pelas paredes. — Papai está na capital, chega na segunda, peço a ele o dinheiro.

— Eu preciso do dinheiro agora, não segunda — retrucou Jennie.

Kai passou as mãos pelos cabelos.

— Ela não pode esperar?

Jennie bufou, incrédula.

— Ela não está numa colônia de férias... — Os passos que os distanciavam diminuíram. Jennie precisou levantar a cabeça para encarar os olhos de Kai. — Não está na porra do castelo do papai comendo croissant e tomando banho de piscina porque... aliás, seu pai ama o trailer onde ela mora e ama mais ainda a buceta da mãe dela. Lisa está presa por um crime que ela não cometeu, Kai.

Ele mordeu os lábios, tenso.

— Você fala como se eu não gostasse dela, como se não me preocupasse tanto quanto você...

— Não é como eu. Nunca vai ser como eu. — Ela o interrompeu, entredentes.

Eles estavam tão próximos que os pingos d'água dos cabelos dele a acertavam, o calor natural que Kai exalava parecia puxá-la como um imã, mas Jennie resistiu.

— Ah, qual é... — Os dedos dele subiram, frios e molhados, pelo braço dela. — Não vai dividir o brinquedo comigo, Ruby?

— Vai se foder — respondeu Jennie, raivosa.

Ela segurou uma torrente de xingamentos e lhe deu as costas. A cada passo era um alívio, um respirar fundo, um peso a menos nos ombros, e antes de cruzar a porta, se virou para vê-lo. Kai ainda estava parado no mesmo lugar, a expressão em um misto de sentimentos indescritíveis.

— E não me chame de Ruby — avisou ela, saindo da sala.



⟡ ⟡ ⟡



Jennie bateu as mãos no volante algumas centenas de vezes, as lágrimas quentes escorriam pelas suas bochechas. Lawan não tinha dinheiro suficiente para a fiança da filha, Kai era um babaca e Lisa dormiria na cadeia. Ela passou o resto da tarde tentando não se lembrar da causadora daquilo tudo, mas agora era em vão, suas mãos tremiam de ódio, fantasiava puxar os cabelos de Rosé e acabar com aquele rostinho bonito arrastando-o no asfalto.

Mas a esperança era a última a morrer e tentaria só mais uma vez, uma última tentativa, até de fato dirigir para a casa de Rosé e findar a sua pouca reputação com socos pelo rosto dela.

O carro do pastor estava parado na garagem, ele era a última esperança, Jennie iria apelar para Deus. Ela respirou fundo e repassou o discurso mais uma vez na sua mente, diria ao pai que Lisa se converteria a cristandade se fosse solta, que faria propaganda da igreja, arrecadaria mais fiéis, mais pessoas que o olhariam como se ele fosse benevolente e solidário, tirando a forasteira de lá, do "mundo" e a trazendo para o lado bom, dando a outra face. Era isso que Ele ensinava, certo?

Jennie saiu do carro, caminhando a passos rápidos pelo quintal, fechou os botões da jaqueta jeans e inspirou o cheiro de Lisa pela última vez, ganhando um pouco mais de coragem para entrar em casa.

Abriu a porta e parou no batente. A visão da sala foi o suficiente para extinguir os resquícios de sua esperança.

Desolada no sofá da sala, sua mãe chorava, os ombros subindo e descendo pelo choro incessante e as mãos cobrindo o rosto, mas as lágrimas já molhavam o vestido florido. O pai estava de pé no meio da sala, com a pose que usava quando as coisas iam mal, bem mal, passando as mãos pelo bigode ralo e os cabelos brilhando gel refletidos pela luminária. A terceira ocupante da sala era a catástrofe vermelha de vestido tubinho, consolando a sua mãe com afagos nas costas.

Os cabelos ruivos de Rosé estavam presos em um coque delicado e o rosto retorcido em tristeza fingida a encarava intensamente, como se Jennie tivesse cometido os piores pecados. Não precisou de uma observação minuciosa para entender que sim, havia cometido um pecado, um que não teria perdão.

As fotos em cima da mesa evidenciaram isso: Jennie e Lisa nuas no carro, no mato, no intervalo das aulas.

Nenhum dos pensamentos anteriores parecia ser relevante ali. Não havia problema maior do que os jogados na mesa a vista de todos: seu corpo nu se atracando com o de outra garota. A bile subiu pela garganta e Jennie segurou porcamente na maçaneta, para não vomitar o que comeu no almoço. O suor era rápido e já descia pela testa, tomando conta das mãos, do pescoço e potente o suficiente para tornar a sua visão turva, cheia de pontinhos disformes e de rostos desfocados. Ela estava ferrada. Jennie estava muito ferrada.

— Por que, criança? — A mãe não a encarou, não conseguia, soluçava, as mãos firmes em Rosé. — Foi por causa da Amber? Foi para testar a nossa fé em Deus?

Ela não dizia isso para a filha ou para qualquer um da sala, dizia para Deus. Os olhos estavam na direção do teto, como se perguntasse a Ele por que tanta desgraça assolava a sua família tradicional e devota.

Jennie deu um passo para dentro da sala, em direção ao pastor.

— Pai, eu posso... explicar.

Não, ela não podia, as lágrimas já estavam lá, descendo pelas suas bochechas sem autorização. A bofetada que ganhou quase as fizeram voltar. Ela mordeu a língua, o sabor do sangue preenchia a boca e, por longos minutos, o ouvido esquerdo só captava o vácuo da palma do pastor.

— Não é a mim que você tem que explicar, Jennie, é pra Deus! Como Amber teve que fazer pessoalmente!

Jennie queria ser corajosa o suficiente para dizer que Amber não gostava de ser chamado assim, no feminino, mas era um absurdo uma garota "querer ser garoto" naquela cidade. Seria uma vergonha se o povo descobrisse que aquela anomalia havia assolado a família do pastor. O mais benevolente dos homens havia procriado filhas desajustadas demais.

Ela queria corrigi-lo, pois o pai sempre dizia que o irmão queimava no inferno, que ele havia feito o filho queimar, então como Amber estaria explicando seus pecados a Deus?

— Pastor Tobias, talvez tudo tenha o seu propósito... — Rosé lamentou o infortúnio com os olhos cheios d'água. — Ruby é uma boa garota, apesar dos erros...

Jennie maneou a cabeça, incrédula, e foi até Rosé. Não poderia deixar de lado o que tanto queria fazer o dia todo, lá estava ela, se deliciando com o que tinha causado.

— Quero definir o que "boa" significa pra você! — exclamou Jennie. Doía saber que, não importava quantos favores fizesse a ela, Rosé teria contado de toda forma, teria arrumado um jeito de manter Lisa presa. — Seu vício em remédios não é bom... as mentiras que você conta até parecerem verdades! A forma como manda e desmanda em Jisoo, como se ela fosse a sua puta ou...

— Não se volte contra a única pessoa que está do seu lado! — O pastor esbravejou, a voz indolente preenchendo a sala. Ele se enfiou no meio de Jennie e Rosé.— A garota dos Park só quer o seu bem!

Jennie apontou o indicador para o rosto do pai.

— Você prega tanto sobre demônios e está defendendo uma aqui agora, na sua sala! — Mais uma bofetada, o barulho do tapa ecoou no silêncio. — Ela é o reflexo dessa cidade imunda! Está me ouvindo?! Não tinha nada de errado com o meu irmão e não tem nada de errado comigo!

Tobias a agarrou pelos braços.

— Já chega, Jennie!

— Você matou o seu próprio filho! — gritou ela, acima da advertência do pai.

O pastor a balançou mais forte, mas Jennie não se deixou abalar e prosseguiu:

— Você e a mãe que vão queimar na porra do inferno!

Ele balançou o corpo dela loucamente para frente e para trás. Era o mesmo método que usava na igreja com as pessoas possuídas por demônios. Jennie era uma marionete nas mãos dele, com a cabeça balançando, sem controle. Ele só a soltou quando percebeu que um dos braços da filha se tornou mais mole que o outro, e um fio de saliva misturado a sangue sujava as bochechas de Jennie.

— Você, como a sua irmã, precisa aprender sobre os ensinamentos de Deus, lá no Retiro! Eles sabem o que fazer com você!

Jennie conseguiu esboçar um sorriso fraco como resposta, a cabeça zunindo. O Retiro. Nada mais que uma prisão para depravados sexuais. Pessoas que iam contra os ensinamentos da bíblia paravam lá, recebiam castigos, passavam pela cura-gay e, se fossem fortes o suficiente, voltavam com vida. Amber não foi forte o suficiente. Receberam o corpo dele de volta "com uma passagem direto para o céu", estava escrito na carta. Uma celebração grande de como Amber lutou contra os pecados, mas que, infelizmente, eles haviam sido mais fortes.

O Retiro o matou.

Morrer lá virou coisa de família.

— Fique forte, filha, Kai vai te esperar!

— Quero que Kai se foda, mamãe! — respondeu Jennie, sendo arrastada para longe.

A mãe e Rosé os acompanharam, mantendo uma distância segura. Rosé não esboçava nenhuma reação, as lágrimas falsas já haviam secado e apenas uma no olho direito permanecia, mas não chegava a manchar a maquiagem.

— Torça para que eu volte morta, Rosé... — O pai a apertou com mais força, apressando o passo. — Se eu voltar viva, você morre! — O sangue escorria pela boca de Jennie. — Se eu voltar viva eu te mato! Está me ouvindo? Eu quero que toda essa cidade desgraçada escute! EU TE MATO!

Jennie esperneou até o carro. A dor saia em forma de berros, saliva misturada a fios de cabelos, angústia e medo. O pastor a empurrou para o banco de trás e trancou a porta, partindo rapidamente para que ninguém ouvisse a filha endemoniada a urrar injúrias contra a santa da cidade.

Jennie olhou para trás, o carro já em movimento, e só conseguiu ver Rosé estampando um sorriso satisfeito nos lábios.

Jennie retribuiu a despedida.

Seria forte por Rosé, enfrentaria tudo que o Retiro faria consigo. Seria forte o suficiente para voltar e cumprir com o que prometeu.

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