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As paredes brancas do corredor comprido, deixavam tudo ainda pior. Dentre os muitos sentimentos que Taehyung já havia experimentado, sem sombra de dúvidas, perder alguém era o mais devastador. Por vezes, pensava-se em desistir de seu grande sonho, pensava se seria capaz de ser um grande enfermeiro um dia, ou se continuaria sofrendo pelos corredores do grandioso hospital de Eunpyeong.
O jaleco branco tocava o chão de modo desajeitado, enquanto as costas encostadas na parede davam sustentação para o corpo grande do enfermeiro de cabelos escuros. As mãos grandes tratavam de secar as lágrimas que insistiam em cair cada vez mais, com o coração destroçado, Taehyung desejava que seu plantão acabasse logo.
O barulho conhecido da máquina de café se fez presente, até que Taehyung criou coragem para ver quem era. Diante de si, uma de suas inspirações, Min Yoongi, um médico cirurgião. O mais temido e respeitado por todos ali. Antes que Taehyung pudesse levantar para ajustar a postura e tentar se recompor, viu o corpo esguio direcionando-se para perto de si.
As mãos grandes carregavam dois grandes copos de café, restava saber qual o tipo. Assim que o corpo pequeno, porém imponente parou à sua frente, Taehyung poderia jurar que ouviria um esporro. Porém, diferente disso, um dos copos de café foram oferecidos a si.
— Não sabia qual era seu preferido, então peguei esse, espero que seja bom.
Com as mãos um tanto frias, o enfermeiro tratou de secar as lágrimas e colocar-se em pé. A tarefa que parecia tão difícil antes, agora já havia sido cumprida. Ainda com os olhos um pouco inchados pelas lágrimas recentes, Taehyung observou o médico à sua frente, encontrando um sorriso reconfortante no rosto que antes parecia tão frio.
Em um movimento rápido, porém cauteloso, o enfermeiro de olhos escuros pegou o café que lhe havia sido oferecido, agradecendo silenciosamente em seguida.
— Enfermeiro Kim, eu gostaria de te mostrar um lugar, está fora de plantão? — Apesar do leve estranhamento que a pergunta causou no enfermeiro, este não deixou que fosse perceptível seu nervosismo.
— Preciso retornar em trinta minutos.
— Prometo não demorar mais que isso.
Agora com um sorriso maior no rosto, Yoongi passou a se mover em direção ao grande elevador que aquela área possuía para melhor locomoção, seguido de Taehyung.
A ala grandiosa na qual trabalhava, era a área cirúrgica. O hospital que havia sido fundado há muito tempo, carregava uma história nas costas, que contava sempre com a excelência de seus profissionais, um deles, era Min Yoongi.
Ainda muito jovem, Yoongi viu seu pai ser vítima de um acidente de trabalho que lhe causou grandes ferimentos, pior que isso, foi ver seu amado pai não resistir aos ferimentos. Decidido a ajudar outras pessoas a não passarem pelo seu trauma, Yoongi tornou-se médico cirurgião no hospital que anos atrás havia recebido seu amado pai de braços abertos.
Apesar de não ter sucesso cem por cento das vezes, o médico Min dava tudo de si na sala de cirurgia. Fazia sempre o possível e o impossível. Gostava de pensar que as noites em claro que passou estudando, não haviam sido desperdiçadas. No início da carreira, sentia-se absurdamente exausto de tudo e todos ali. Hoje em dia, trata o hospital como um local de paz.
Sua vida girava em torno do seu sonho, tornar-se o maior cirurgião de todo o continente, sempre ajudando o maior número possível de pessoas. Bom, era como pensava há um ano , quando uma distração mais que especial, chegou ao hospital.
O enfermeiro de cabelos escuros e olhos inocentes, havia chamado sua atenção desde o primeiro instante naquela ala. Depois de alguns meses observando o rapaz de longe, finalmente teve a oportunidade de trabalhar com o enfermeiro alto que tanto lhe chamava atenção. Foi então que percebeu que diferentemente da áurea alegre e calma que Taehyung esbanjava, quando tratava-se de trabalho, os olhos inocentes tornavam-se atentos e cautelosos a tudo.
Mesmo que fosse difícil assumir, Min Yoongi admirava o enfermeiro com cada célula de seu corpo.
Assim que adentraram o elevador, Yoongi providenciou para que ambos fossem diretamente para o último andar do grandioso hospital. Por mais que Taehyung tivesse estranhado, estava concentrado no seu café. Até que a voz aveludada se fez presente.
— Dia difícil, enfermeiro Kim?
O sorriso surgiu inconscientemente, diferente do que todos no hospital comentavam, Yoongi parecia ser acima de tudo, muito gentil. Todas as vezes que Taehyung tinha lhe defendido de comentários maldosos, mesmo sem o conhecer, tinham valido a pena.
— É minha primeira perda de paciente...
Yoongi desejou poder abraçar Taehyung e lhe dizer que coisas assim aconteciam o tempo todo, mas sentiu medo e preferiu confortá-lo com palavras, entretanto, antes que pudesse dizer alguma coisa, as portas metálicas se abriram, revelando o terraço
— Viemos para o terraço...?
— É um bom lugar, você vai gostar.
Yoongi sorria pequeno enquanto segurava em uma das mãos o café quente. O enfermeiro ao seu lado o seguiu quando viu o corpo magro deixando o elevador. Dali de cima, conseguiam ver grande parte da lotada Seul. Desde os pequenos prédios até a movimentação das grandes construções.
O vento gélido tocava a pele de Yoongi que sentia-se revigorado com a sensação tão conhecida.
— Quando eu perdi meu primeiro paciente, achei que meu mundo tinha acabado, — Começou Yoongi. — quase desisti de seguir a carreira que tanto sonhei. Me senti um completo fracassado.
Taehyung olhou de relance a face pálida de Yoongi, que observava atentamente a cidade. Não sabia se era por nunca terem se falado antes sem ser nas salas de cirurgia, mas havia percebido que o cirurgião possuía uma beleza inconfundível.
— Como fez 'pra esquecer?
Após dar um gole na bebida ainda quente, Yoongi respondeu paciente.
— A verdade, é que não se esquece. A morte é complexa demais para ser esquecida, você deve apenas se acostumar com ela. De forma que não te machuque. — Os olhos atentos encaravam Taehyung que possuía pequenas lágrimas nos olhos. — Acredite enfermeiro Kim, chorar não vai adiantar. Não é errado chorar, mas infelizmente, não vai mudar nada.
Um vento frio se fez presente, chamando atenção de ambos, que mesmo com roupas quentes, encolheram seus troncos suavemente. Ambos encontravam-se próximos ao parapeito que circulava a grande área do terraço.
Min Yoongi sempre viu a morte como um acontecimento corriqueiro. Assim como o nascimento de uma criança. Assim como milhares de crianças nascem por dia, milhares de outras pessoas morrem. E mesmo sendo um médico cirurgião há anos, não conseguia trazer ninguém de volta à vida. E se não conseguia reviver ninguém, por quê chorar?
Desde que não pôde trazer seu amado pai de volta a vida, chorando por dias seguidos, Yoongi prometeu a si mesmo que nunca mais choraria pela morte de ninguém, pois não valia a pena.
O Kim observava um prédio luminoso que chamava atenção no meio de tantos outros quando começou a falar.
— Ela se chamava Kang Hyejin. Tinha doze anos e uma porção de sonhos para viver, queria ser uma grande cozinheira, isso, se a leucemia não tivesse acabado com tudo. — Uma lágrima solitária deixou os olhos do enfermeiro. — Mesmo não acreditando nos meus sonhos, eu fiz ela acreditar nos sonhos dela.
— Eu sinto muito. Você é uma ótima pessoa, Kim.
Mesmo que surpreso, Taehyung não tirou os olhos do prédio iluminado que observava. Estava anestesiado demais para agradecer por elogios repentinos, lembraria de fazer isso depois.
— Você disse que não acredita nos seus sonhos, mas quais são eles?
— O topo do mundo.
Após ouvir certas palavras, o loiro virou-se na direção do enfermeiro, observando-o com atenção. Talvez a possibilidade que seus amigos tivessem levantado há algum tempo, sobre o temido cirurgião estar suprindo sentimentos pelo enfermeiro, não parecesse tão absurda agora.
— Como quer alcançar uma coisa que já tem?
Desta vez, até surpreso demais, Taehyung virou-se para Yoongi, que por sua vez, bebericava o café em uma das mãos, com os olhos grudados aos do Kim.
— Como é?
A face pálida de Yoongi acabou por ficar levemente corada com a pergunta. Talvez estivesse sendo intrometido ou grosso demais. Mas agora, já não poderia parar sem dar respostas ao colega de trabalho.
— Você já está no topo do mundo, Kim. Quando você passa a sentir as dores do outro, como se fossem suas, você já se tornou um vencedor. — Após mais um pequeno gole, Yoongi continuou. — Existem pessoas que jamais chegarão ao topo do mundo, porque só acreditam nas próprias dores. Mas quando eu te vi chorando naquele corredor, eu soube que você já havia chegado ao topo.
— E quanto as minhas ambições?
— Bom, elas seguem sendo as mesmas e você pode conquistá-las mesmo já tendo conquistado o topo do mundo.
Um silêncio confortável se fez presente, os olhares frios se distanciaram, voltando novamente para a iluminação noturna impecável de Seul.
— Então ter empatia é chegar ao topo do mundo?
Um sorriso pequeno apareceu no rosto iluminado do cirurgião. Sentia-se feliz, Taehyung havia entendido tudo.
— Exatamente. Se você tem empatia suficiente para se colocar no lugar do outro e pensar por ele e nele, então, ninguém mais estará melhor que você. — Respondeu cauteloso. — Pode parecer conversa fiada, mas faz total sentido.
Ambos estavam em silêncio enquanto o vento dizia por si só. O inverno estava prestes a chegar na capital. Dali de cima, de um dos pontos mais altos da cidade, pouquíssimas coisas eram audíveis. Algumas normais, como ambulâncias chegando ao pronto atendimento e carros passando sem limite de velocidade nas ruas vazias da cidade. Algo audível o suficiente, eram os dentes de Taehyung, que batiam-se freneticamente pelo frio.
As mãos grandes estavam em torno do copo de papel que armazenava o líquido quente, enquanto o jaleco tentava dar conta do frio. A pele naturalmente clara, parecia porcelana. Yoongi, fazendo jus a audição aguçada que precisava ter, notou o desconforto do enfermeiro.
— Vamos entrar? Está chegando a madrugada, as temperaturas vão cair logo. — Disse Yoongi, olhando de relance para o enfermeiro.
— Eu gosto dessa brisa, doutor. Faz bem 'pra alma.
Um pequeno sorriso cresceu nos lábios de Taehyung.
— É realmente bom , mas pode ser péssimo para os pulmões, já pensou nisso? Não acho que um atestado seja uma boa idéia para um enfermeiro nesse momento, né?
Uma pequena risada foi ouvida, Yoongi e Taehyung estavam se divertindo, afinal. Eram estranhos fora do hospital, poucas eram as vezes que haviam conversado. Ambos se conheciam, mas sequer tinham o número um do outro. No entanto, como se não houvesse sequer um pequeno bloqueio, o Kim foi direto em perguntar de forma cautelosa.
— Você é casado, Min?
O cirurgião quase queimou a língua com o café, isso se não tivesse ficado paralisado com a pergunta. O quão direto aquele enfermeiro era? Por Deus.
— Não, ainda não encontrei ninguém por quem eu tenha me apaixonado. — Estava calmo, mas, não faria mal devolver a pergunta. — E você Kim, é casado?
Como não podiam usar nenhum tipo de adereços ou acessórios dentro do hospital, era complicado descobrir o estado civil de cada um ali sem uma aliança.
— Não, ainda não encontrei ninguém que tenha correspondido minha paixão.
— E pretende? — Por algum motivo, até então desconhecido, de repente a conversa pareceu íntima. — Digo, pretende se casar algum dia?
— Depende. Se a pessoa for apaixonada por mim, o sentimento for recíproco e essa pessoa souber respeitar minha profissão, não tem porque não me casar. E você, Min?
Yoongi gostou da resposta, por mais que estivesse prestando atenção no fato de Taehyung não usar nenhum tipo de pronome, será mesmo que teria chance algum dia?
Para que não restassem dúvidas, Yoongi decidiu apostar alto. Alto até demais.
— Se um dia eu encontrar o homem da minha vida, farei de tudo para me casar com ele. Espero que seja assim como você disse, recíproco.
Assim que terminou de falar, sentiu os olhos de Taehyung caírem sobre si. Não demorou muito até que o enfermeiro tornasse verbal sua surpresa.
— Homem da sua vida? Doutor...
— Sim, o homem da minha vida. — Respondeu Yoongi por cima da fala do Kim, virando-se até ele para visualizar melhor a situação. — Ninguém sabe ainda e não pretendo contar. Não tenho amigos no hospital.
— Por um pequeno momento me senti ofendido, mas, já que a minha empatia é maior que a surpresa, eu queria saber se você quer almoçar comigo amanhã?
Yoongi estava estático novamente. O que era aquilo? Taehyung só prestou atenção no fato de que ele não tinha amigos no hospital? Não iria questionar sua vida pessoal? Céus, era o que todos gostariam de fazer. Mas antes que o Kim mudasse de ideia, precisou pensar em algo rápido.
— Ah, eu adoraria, mas os seus colegas não vão com a minha cara e falam de mim durante o café da manhã, não é?
— Eles falam sim de você. — Respondeu simples, sem surpreender Yoongi. — E é justamente por falarem de você, que não são meus amigos.
Os olhos pequenos do cirurgião se arregalaram no mesmíssimo momento em que ouviu o Kim.
— Como?
— Ah, bom, eles falam demais da sua vida, fizeram até apostas 'pra tentar saber com quem você era casado. Eu prefiro ficar longe, não estudei durante anos para fazer suposições sobre outras pessoas. Taehyung tomou um ar antes de continuar. — Além do mais, sua vida não deveria ser pauta de conversa alguma enquanto existem centenas de internações severas na nossa ala.
Yoongi estava embasbacado. Sempre havia enxergado no Kim um potencial enorme de carinho pela profissão, mas sentia-se surpreso de repente. Sabia que Taehyung também era alvo de comentários entre os demais médicos daquela ala, principalmente pela aparência, mas mesmo assim, isso era o detalhe mais simples do perfeito conjunto da obra que Taehyung era.
Surpreso e encantado, Yoongi não poderia dar outra resposta.
— Eu posso almoçar com você amanhã, mas, como seu plantão deve acabar junto com o meu, que tal um jantar de fim de turno amanhã à noite?
Taehyung sorriu grande e quadrado enquanto olhava para o médico. De fato, sentia-se inspirado ao ver aquele profissional tão completo à sua frente.
— Claro, eu adoraria! — O sorriso quadrado se fez presente no rosto pálido, que ganhava uma cor rosada agora, pelos olhares nada discretos do cirurgião. — Eu espero mesmo que você goste da comida da cantina, pelo menos da nossa , porque a de vocês eu sei que tem comida a mais.
Uma risada gostosa foi ouvida, ambos estavam rindo do comentário, era realmente verdade, mas afinal, Yoongi não poderia imaginar.
— Nosso tempo está acabando, Kim. Nos vemos amanhã? — Perguntou em meio ao sorriso bobo.
— Se você continuar me chamando de Kim, não. Mas se me chamar de Taehyung, com certeza. — Os olhos de Yoongi brilhavam intensamente, enquanto tentava esconder o sorriso bobo, afinal, o enfermeiro lhe causava novas sensações.
Ambos passaram a caminhar lado a lado, em direção ao elevador, para finalmente voltarem aos seus turnos finais.
Enquanto mantinham um silêncio agradável, Taehyung deu o último gole no café que bebia.
— Aliás, esse café é o melhor que já provei, você tem bom gosto, Yoon.
Apesar da surpresa pelo apelido, o cirurgião sentia-se genuinamente feliz.
Havia feito muitas escolhas em sua vida, mas com certeza a melhor de todas, foi ter chamado Taehyung para passarem o intervalo juntos. Com o peito aquecido e vendo as portas do elevador se abrirem, Yoongi respondeu simples:
— Amanhã vamos a um restaurante novo que eu conheci essa semana, espero que se surpreenda com o meu bom gosto, Tae.
—💉—
Voltei! MSF foi uma obra que escrevi há um tempinho já, porém só liberei ela agora, estava com saudades de postat algo tão fofo e romântico! Porém, não se animem, logo eu volto com uma chamada de lágrimas pra vocês!
Muito obrigada por todo apoio e carinho de todos vocês, recentemente todas as bebês vêm crescendo muito. Isso tudo graças a vocês, então muito obrigada mesmo! Obrigada gatinha, 4lgodaoDoc3 pela capa perfeita e a linda da dejunmars pela betagem impecável!🥰
Até mais, bebês! Não esqueçam de usar máscara e álcool em gel, se cuidem! Amo vocês; 💜
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