Um pote de biscoitos e o Sr. Grian
—Este é meu blog
e eu sou Van Gogh
______________________________________
Olá.
Sim, eu mudei o nome do blog. Mas enfim, hoje eu começo definitivamente a narrar esta coisa e me preparar para me livrar deste fardo.
Vou cortar essa de "acordei às cinco horas da manhã, e fui fazer minha higiene matinal". Vamos começar com a infância. Sim, infância.
Voltando para anos atrás, a história na infância de Jennie.
Ela sempre foi uma menina reclusa, mas isso não quer dizer que não fosse um tsunami, destruindo tudo por onde passava. Uma menininha normal, um pequeno terror. Mesmo assim, passou por 5 primaveras, desde que tomou consciência sobre sua situação, sozinha. Infelizmente era uma criança com pensamentos um tanto maduros demais para sua idade. Não houvera sequer uma vez em que fora mimada, ou até mesmo egoísta, a ponto de exigir a atenção que era de seu direito receber.
Chegamos então em um dia ensolarado e entediante. Naquele dia, Jennie com seus seis anos de idade estava sentada na porta que levava para o quintal da casa. Havia quebrado um vaso de flores antigo de sua mãe, presente de sua avó, e a partir disto, estava de castigo. Como uma boa criança birrenta que era, tentou fugir de sua penalidade diversas vezes, até que desistiu, era cansativo demais fugir de sua mãe, mas ela levou biscoitos junto, afinal, não aceitaria um castigo de graça. Podia não ser mimada ou egoísta, mas não era boba, sabia criar oportunidades.
Saboreava seus biscoitos de chocolate disfarçadamente, em sua pose mais triste e fingida. Até seus ouvidos captarem barulhos irritantes vindos da casa ao lado, algo como caixas sendo movidas, móveis também. Porém seu biscoito estava mais atrativo no momento.
Só naquele momento.
No momento seguinte, notou marias-chiquinhas amorenadas balançarem por sobre a cerca. Ficou observando, esperando algum movimento. Logo surgiu uma testa, sobrancelhas e em seguida, duas grandes esferas castanhas, brilhantes e curiosas lhe encarando.
—Quem é essa bisbilhoteira? — murmurou com a boca cheia.
Então como num surto de coragem, a menina do outro lado apoiou seus braços sobre a cerca e depois de muito lhe encarar, deitou o rosto sobre eles.
— Sabe o valor de uma escama de um dragão? — a questão lhe fora tão sem sentido, que Jennie ao menos cogitou responder, apenas continuou saboreando de seus biscoitos. — Pois eu te conto. Valem muito. É o que mantem um dragão protegido por fora, e mesmo que eles sejam tão grandes, e cuspam fogo, eles ainda ficam vulneráveis demais sem suas escamas. Consegue imaginar um valor por uma escama agora?
A menina estranha tagarelava, mas em algum momento entre um "eu te conto" e um "Valem muito", Jennie parou e dar atenção para aquela conversa estranha, passando a observar suas sapatilhas lustradas, brilhantes.
— Ei menina do biscoito, por que ta sozinha aqui fora? — Jogou seus bracinhos esticados para o lado do terreno da casa de Jennie, mostrando que agarrava pela pata um tigre de pelúcia.
— Estou de castigo— respondeu simples, enfiando um biscoito inteiro na boca.
— Ééé? Que pena. Aprontou o que? — A garotinha tagarela deitou a bochecha gordinha sobre a madeira da cerca, balançando seu tigre de pelúcia de um lado para o outro, até que sem querer o soltou — Ah não, Senhor Grian! — seu olhar correu para Jennie com esperança, porém logo murchou ao notar que ela nem estava olhando.
Por um momento ela sumiu, e Jennie suspirou, achando que estava livre. Porém logo as maria-chiquinhas apareceram novamente, com un rosto sério e olhar determinado, como se estivesse prestes a realizar uma missão muito importante. Apoiou um dos pés na madeira que ficava na horizontal na cerca, e jogou a outra perna por cima da cerca, com muita calma, trouxe a outra perna junto ao corpo, e com um pulinho se viu no terreno da casa de Jennie, intacta. Correu em direção à pelúcia e a abraçou com força.
Diante desta cena Jennie apenas revirou os olhos, mas não havia como negar que havia arregalado os olhos por um momento ao notar o que a outra fazia.
— Por quê está de castigo aqui fora e não lá dentro? — Agarrada ao seu tigre de pelúcia, a menina que até agora Jennie não sabia o nome se pronunciou, lhe olhando fixamente.
— Mamãe mandou ficar aqui fora.
— Vai chover, vai ficar quanto tempo aqui fora?
— Até ela dizer que eu posso entrar — Jennie continuou comendo seus biscoitos. Não sabia por qual motivo estava respondendo a menina tagarela, mas não havia nada melhor para fazer no momento. — Queria estar desenhando, droga de vaso que tinha que estar logo na minha frente — Resmungou enquanto pegava mais um biscoito do pote para botar na boca.
— Por quê não entra então? Se quer desenhar é só voltar para dentro e se sua mãe perguntar é só dizer que estava frio aqui fora. — A menina tinha se aproximado, e agora estava com o rosto apoiado sobre os bracinhos cruzados na pequena varanda onde Jennie estava sentada.
— Mamãe está ocupada agora, prefiro ficar aqui fora do que entrar lá —Seu rosto se franziu em nojo, e a menina com as chiquinhas decidiu deixar passar, não queria falar sobre a mãe dos outros.
— Senhor Grian concorda comigo sobre você entrar lá e voltar trazendo suas coisas para desenhar. Aliás, como é seu nome, menina dos biscoitos?
— Prefiro ficar aqui e meu nome é Jennie.
— Não vai perguntar meu nome?
— Não preciso.
— Meu nome é Lalisa, é bom te conhecer menina dos biscoitos — Aquele sorriso fez Jennie querer desenhar. Parecia sua expressão quando conseguia um cachorro-quente por não ser "inconveniente" com sua mãe.
— Ta, tanto faz — resmungou notando que seus biscoitos acabaram. Colocou o pote ao lado e focou-se em observar o som que a madeira fazia junto ao balançar de seus pés.
— O que você acha dos pássaros? — Tenho que dizer, essa pergunta naquele momento parecia boba para uma Jennie de seis anos compreender, mas Lalisa tinha visões diferentes. Me assombra notar o quão na frente seus pensamentos estavam, assim como o quão presa em uma caixa imaginária ela estava.
— Qual é? Vai me perguntar qual a diferença entre uma escrivaninha e um corvo agora? — Jennie desdenhou, não conhecia Lalisa, ela era estranha, e estava fazendo uma cara muito séria perguntanto sobre algo "banal". Agarrou seu pote de biscoitos vazio, e começou a passar os dedos sobre os farelos e então levá-los rapidamemte em direção à boca para não perder nada — Pássaros são bonitos, e tem um canto bonito também. Mas não vejo nada de especial neles. São chatos, só fazem isso praticamente.
— Nós seres humanos também somos chatos então, só nascemos, crescemos, temos filinhos e morremos — A garotinha se virou depois de posicionar seu tigre de pelúcia apoiado no corrimão, apoiando as costas na varanda deitou a cabeça para trás, olhando Jennie de soslaio. — Eu queria voar, parece legal, eles parecem felizes voando, você não acha, menina dos biscoitos?
— Talvez — respondeu meio abafado pelos dedos estarem na boca.
— Talvez se eu fosse um tigre, forte e assustador, eu conseguiria correr por aí bem longe. Seria legal também, não acha? Algo tipo ROARRRRR — se virou em direção de Jennie franzindo o cenho e posicionando as mãos como se fossem garras.
Foi uma péssima imitação, e é claro que Jennie não iria guardar isso para si, mesmo depois de levar alguns segundos para cair a ficha de que Lalisa havia sim feito aquilo — o que era pra ser isso? Um pato engasgado? — O rosto antes divertido de Lalisa se contorceu em descrença e Jennie acabou por gargalhar como resposta. Mas então a garotinha de chiquinhas fez uma expressão de que aprontaria algo e Jennie calou-se imediatamente enquanto se afastava, deixando seu pote quase limpo ao lado, ao passo que Lalisa se aproximava com a mesma posição de sua imitação de tigre.
— Talvez agora eu consiga fazer melhor, te aconselho a correr agora enquanto estou te avisando — Lalisa gargalhou ao que Jennie saiu em disparada pelo quintal, logo correndo atrás dela e "rugindo". — Você tem cosquinhas? Se tiver, já era! — Gritou em meio aos risos misturados de ambas.
Em uma curva mal calculada de Jennie, Lalisa a agarrou pelo cotovelo a derrubando na grama e uma sessão de cócegas se iniciou. O riso saía solto, já não se importavam se haviam se conhecido há uns trinta minutos. Eram apenas duas crianças que seriam vizinhas, desfrutando da inocência e diversão da infância.
—Para! Para! Por favor — Jennie ofegava em meio aos risos —minha barriga já está doendo, por favor p-para, ai ai ai — continuou rindo, cessando lentamente enquanto Lalisa se jogava também rindo levemente ao seu lado.
— Eu estou vendo um hipopotamo escovando os dentes — a mais baixa de maria-chiquinhas apontou para o céu.
— O quê? — um sorriso leve e cansado tomava lugar no semblante de Jennie, mesmo que confusa, havia entendido nesse meio tempo, o quão aleatória a outra conseguia ser.
— Lá, olha. Consegue ver?
— Estou vendo um jacaré com a língua para fora e não um hipopótamo escovando os dentes — soltou um riso curto.
— Aquela do lado do HI-PO-PÓ-TA-MO, e não do jacaré — fez uma voz estranha ao pronunciar "jacaré", desdenhando — só pra deixar claro mesmo, sabe? — sorriu ao notar a face indignada de Jennie — aquela do lado parece um sorvete.
— Tem sorvete no congelador — Jennie pensou em voz alta — mamãe não vai me deixar pegar hoje, ela disse que é para o papai — revirou os olhos.
— Eu tenho um montão assim, ó — esticou os braços de forma exagerada — de sorvete lá em casa, minha mãe disse que é para "comemorar" a mudança — fez as aspas com os dedos. — amanhã eu trago um pote para comermos enquanto conversamos.
— Ta querendo pular a cerca aqui de casa de novo?
— Talvez —Imitou a voz de Jennie, da forma como ela havia pronunciado há momentos atrás.
Preciso assumir que, esses momentos entre elas, mesmo que parececem tão bobos e insignificantes para elas, até quando cresceram, foram momentos marcantes.
Eu acho o incrível, do meu jeito claro, o modo como uma cativou a outra sem ao menos perceber. As entrelinhas diziam muito. Mas é óbvio que para crianças, não passava de tagarelice.
Eu sou apenas alguém narrando isso, sob o nome fictício de Van Gogh, estou numa posição ridícula fazendo isso, eu poderia estar vivendo minha vida, mas muito pelo contrario, estou narrando o momento onde tudo começou, o famoso "começo de um sonho", "deu tudo errado".
Esse dia em especial, é muito importante. Eu tinha meu ponto de vista, mas consigo ver muito além agora. E eu precisava passar isso adiante. Podem me chamar de covarde, a pessoa que está fugindo de resolver as coisas por si própria.
Eu não sou Jennie. Eu não sou Lalisa.
Eu sinto culpa, e eu preciso me livrar disso.
É isso por hoje. Não me importo se leu ate o final ou não. Se você que está lendo se importa com isso ou não.
Este é meu blog e eu sou Van Goh, bem vindo(a), para a minha narração. Dane-se se estou falando isso "meio" tarde demais. Como eu disse, "este é meu blog".
Até breve.
______________________________________
Publicado por Van Gogh Star
Dia 10 de fevereiro
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro