Cuando uma rosa sangra | 23
Porque eu estou começando a pensar
Que, na verdade, eu nunca tive você
Você não está na escuridão
Mas, longe da luz
─ Nilu, Are you with me
C a p í t u l o v i n t e e t r ê s
“Cuando uma rosa sangra”
Madrid, Espanha
8 anos atrás
Eleanor mantilha como segredo a tristeza desconhecida em seu coração.
Todos os dias convivia com várias pessoas, conversava e as observava como se os traços em seus rosto fossem uma pintura na qual ela tinha que descobrir a história, a sensação da solidão parecia tão acolhedora.
Ouviu atentamente as conversas do primeiro andar, vozes masculinas predominavam em conversas animadas sobre negócios, a garotinha não compreendia o que era engraçado para que aqueles homens falassem com tanta empolgação. Sabia que deveria está na cama, passava do horário de dormir, mas simplesmente não conseguia manter a concentração, temia decepcionar seus pais se não estudasse mais, havia a insegurança, principalmente quando o único olhar que seus progenitores lhe dirigiram era quando citavam o casamento.
Seu pai disse que ela era madura para uma criança de doze anos, contudo, a menina pensava diferente
Ela estava escondida sobre as escadas na tentativa de ouvir algo sobre seu matrimônio.
Eleanor não era uma mercadoria.
Entretanto, sentia que todos a enxergavam assim, os olhares de pena, as aulas extracurriculares e os jantares com filhas de sócios eram comuns em sua rotina. Mesmo sendo uma família invejável, tinha a convicção que tudo era apenas paras as câmeras.
“O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.”
Recordou instantaneamente da sua aula de literatura, a citação de Shakespeare marcada em seus cadernos e guardada como inspiração para seus desenhos, a destruição imaculada em cada respiração e o medo predominante com o amanhã. A garota havia visto demônios reais e a personificação deles era familiar, manipuladora e simplesmente nociva.
Conhecia tão bem os demônios que lidava perfeitamente com o peso do castigo deles, enxergava a face mascarada por um amor superficial, retidas em ensinamentos rígidos e escondidas na sujeira de um quarto minúsculo sem a presença de janelas, paredes escuras, poeira espalhada e um armário pequeno que virou seu maior temor.
Quando segredos e mentiras arruinaram a vida feliz que a menina tinha.
Quando as lembranças boas que possuía com seu pai aos poucos se dispersaram todas as vezes que analisava os hematomas em seu corpo, as mãos cobertas por curativos e os braços com marcas do aperto de seus dedos.
Eleanor via a família que amava desmoronar a cada dia.
Encolheu seu corpo na escuridão da escada, abraçando os joelhos, a camisola de mangas longas cobria a última punição, ela havia errado ao não se comportar como uma herdeira Davis, havia errado ao demonstrar sentimentos.
As punições não eram regulares, mas a garota temia cada uma delas. Seu progenitor dizia que aquilo era para seu bem e que era um ensinamento para não comentar mais erros.
Seja uma boa garota e não fique presa no seu pior medo.
Seja uma boa garota e haja com gentileza.
Seja uma boa garota e perdoe seu pai, seu dever é honrar o sobrenome da família.
Seja uma boa menina e esconda seus machucados, porque estava errada.
Apenas seja boa, porque foi criada para ser assim.
Estava sendo ensinada a ser a esposa perfeita, a herdeira exemplar, assinando uma sentenças de liberdade limitada.
─ O que faz aqui, Eleanor? ─ vociferou sua mãe a observando com as sobrancelhas franzidas.
A garotinha ergueu seu rosto assustado para a figura da mais velha, a fita vermelha presa entre seus cachos esvoaçantes foi amassada por seus dedos, mexeu ansiosa os pés com pantufas de coelhos.
─ Boa noite, mamá. ─ se apressou em abrir um sorriso doce, sua mãe amava quando ela fazia isso.
Helena se abaixou em sua direção e logo um cheiro doce, mas não enjoativo preencheu o espaço, a jovem apreciava a delicadeza que sua mãe possuía, os gestos sempre graciosos, a voz em tom calmo e sereno, os olhos contendo um brilho de gentileza. Eleanor a admirava, desejava quando crescer ser como ela, mesmo que não entendesse a razão pela qual seus pais estavam juntos.
Por que alguém tão boa quanto sua mãe estava com ele?
Por que seu pai estava aos poucos se tornando como os monstros dos contos de fadas?
─ Querida, não devia estar na cama? ─ questionou acariciando a cabeça da mais nova, as íris azuis transmitiam compreensão.
A garota mordeu seus lábios, encarando o chão, sentiu quando o toque suave da mulher erguia seu corpo do chão, colocando-a em pé.
─ Estava sem sono.
Disse simplesmente e a expressão de Helena se acendeu em diversão.
Caminharam pelo largo corredor até chegarem na porta do quarto da garota, seus pés tentavam acompanhar o ritmo vagaroso e elegante que sua mãe possuía.
─ Prontinho, está no seu quarto e tente dormir ─ segurou a pequena mão da menina em comparação a sua
─ Imagine um mundo só seu, onde os dias são infinitos.
Helena penteou com os dedos uma mecha de cabelo da filha, depositando um beijo em sua testa, desejando-lhe uma boa noite.
─ Mamá. ─ a chamou de repente, segurando a barra do vestido da mulher.
─ Sim, bebê? ─ Helena a examinou com atenção, procurando algum problema enquanto aguardava uma resposta.
─ A senhora é feliz com o papai? ─ se condenou pela pergunta, porque conseguia ver a resposta em seu olhar.
A face de sua mãe tinha marcas visíveis de exaustão, rugas discretas na testa e perto da boca, apesar da aparência jovial e corpo curvilíneo. Os cabelos loiros brilhantes eram motivos de elogio e as joias que estavam em todas as ocasiões transmitiam um ar sofisticado.
─ A felicidade é uma ilusão, hija mia ─ comentou ela, ─ Em um casamento, o amor deixa de ser a prioridade.
Antes que pudesse controlar suas falas, a curiosidade já havia sido despertada.
─ A senhora não ama o papai? Meu casamento será igual ao de vocês?
Seu coração se apertava na medida que a profundidade de um sentimento angustiante aumentava a cada noite que passava.
Helena fixou sua concentração no rosto da filha, puxando-a para seus braços em ato de conforto. A postura tensa de sua mãe se aliviou quando seus dedos trêmulos agarraram o tecido quase o amassando.
─ Não espere a felicidade onde já nasceu a desgraça, Eleanor. ─ começou e a menina sentiu a melancolia dominar a voz da mulher conforme ela falava.
Contanto sua mãe falava, sua imaginação tomava conta junto da história.
Os detalhes consistiam em uma rosa que aos poucos foi esquecida. A morte da rosa nascida de um solo ruim, mesmo com tentativas que a flor não murchasse, o fim já era previsível.
Em um jardim de rosas murchas, divididas pela sua cor. Vermelhas significavam paixão, a intensidade ardente e as brancas representavam a eternidade e o que existe de mais singelo e ingênuo.
Todos sempre admiravam as belas flores, optando por somente olhá-las em silêncio, as brancas foram as primeiras a morrerem e as vermelhas duraram poucos dias.
Ninguém nunca havia compreendido o motivo da morte das flores e principalmente porquê as rosas vermelhas viveram mais.
Em solos danosos não há vida.
Em solos letais não existia amor que completasse a infertilidade das terras.
Rosas vermelhas eram ligadas a temas como o fogo.
Chamas passageiras que nunca permaneciam por muito tempo.
Rosas brancas partiram com a perda da inocência.
Foram as palavras de sua mãe, não sabia se havia compreendido todas, porém, tinha quase certeza que era sobre eles.
Sobre sua família.
Demorou para que percebesse o real sentido daquela conversa e o impacto de seus palavras.
─ É uma história triste.
Helena ergueu os cantos dos lábios em um sorriso que não chegava aos olhos.
─ É a realidade, querida ─ seus ombros caíram ─ Assim como foi a minha quando me casei.
─ A senhora também foi pagamento de uma dívida?
Uma expressão dura tomou conta da face de Helena, abriu a boca diversas vezes, porém nenhum som foi emitido.
─ Não ─ murmurou atordoada
─ Nossas famílias decidiram se juntar para mais lucro, por isso nos casarmos.
A mulher afastou seu corpo da garota, segurando seus ombros em um aperto firme.
─ Agora durma, Eleanor, e não conte sobre essa conversa com ninguém, está bem?
A jovem garotinha assentiu.
─ Estou orgulhosa de você, ángel, tem apenas doze anos e já tão madura. ─ agarrou o rosto da criança com cuidado, acariciando suas bochechas suavemente.
Eleanor fechou os olhos, não sendo capaz de dizer a verdade a sua mãe.
A força a acordando para contar a verdade, a razão pela qual sua figura se tornava mais retraída e seu comportamento fiel ao que esperavam dela.
Mesmo sabendo que iria perder, relatar sobre o que aconteciam quando ninguém olhava parecia certo, mas as sentenças severas de Santiago afirmando que ela era a culpada, o silêncio dos funcionários e os olhares fáceis de entender.
“Sinto pena dela, coitada.”
“Uma criança precisa ser disciplinada apropriadamente.”
“Ela pediu por isso, deveria conhecer seu lugar.”
Seria o início de uma tempestade que não estava preparada.
E voltar os terror das lembranças foi seu erro, lágrimas se iniciaram contando as maçãs de seu rosto ganhavam um ruborização forte. Não importava para onde ela olhasse, estava sozinha num quartinho escuro, pedindo desesperadamente com as mãos feridas, as panturrilhas pálidas, estavam despojadas de linhas vermelhas.
Sob nome de educação, ele a disciplinava severamente, a parte de trás das pernas possuíam linhas azuis escondidas abaixo das novas linhas vermelhas, e as linhas amarelas escondidas ainda mais abaixo delas, estavam entrelaçados como uma teia de aranha.
Suas pernas machucadas em uma dor dilacerante, consequência dos golpes do régua de madeira.
Estava sozinha e sem ninguém, aumentando a culpa por ser tão fraca, por não conseguir destruir a imagem do herói em sua mente, pela imagem de um sonho sendo despedaçado toda vez que cometia algum equívoco.
O choro começou a causar soluços, contando abraçava fortemente o corpo de sua mãe.
Estava presa no medo.
Na fragilidade de sua mente.
─ Não chore, pequena ─ Helena murmurou angustiada, acolhendo o pequeno corpo com o seu ─ Eu estou aqui com você.
─ Por que não posso me casar com quem eu amo assim como nos livros? Por que ninguém nunca pergunta minha opinião para nada?
O choro intensificou-se e a menina não aguentava mais guardar aquelas emoções dentro de si, poderia ser seu fim, entretanto, pelo menos estava sendo sincera.
─ Eu sinto muito, bebê ─ clamou atordoada, lágrimas formando no canto de seus olhos ─ Realmente lamento por você ter que passar por tudo isso.
Naquela noite a pequena garota não dormiu.
Naquela noite a realidade que a esperava parecia ainda mais cruel.
Naquela noite, Eleanor aprendeu que havia perdido seu direito de escolha assim que nasceu como a primogênita dos Davis.
• • •
Madrid, 2018
Dever.
Eleanor sempre tentava não decepcionar ninguém, porque esperavam o melhor dela. Era pela honra que tudo deveria sair conforme os planejados, mas a frustração existia consumindo cada célula de seu corpo. A sensação crescia e a deixava louca, não precisava de grandes explicações, somente sabia que uma hora acabaria explodindo, e não gostaria que isso acontecesse...
Uma boneca, era assim que a viam? Sem visão ou sem voz?
Ela queria apenas mandar todos irem ao inferno e que não causasse perturbação ao seu juízo.
─ Porra, Eleanor! Você tá me escutando? ─ Alejandro grunhiu, a despertando dos devaneios.
Haviam saído mais cedo da mansão, apesar de querer muito conversar com sua mãe, deixou com que Lorenzo a levasse para provar suas roupas de casamento. Só não imaginava que seu irmão iria se intrometer e estaria a quase duas horas tentando decidir o que comprar.
A morena parou de ouvi-lo na primeira meia hora.
─ Não. ─ suspirou, levando uma taça de champagne aos lábios.
Estava meio deitada, sua cabeça latejando intensamente e só a poucos minutos estava na mesma folha do catálogo de vestidos de noiva. Estavam em uma sala privada, onde se encontram peças exclusivas de mais para qualquer um ver. Era um lugar requintado, com paredes cobertas por peônias brancas, sofás off-white chiques e um ambiente belo.
─ Alejandro, deixe sua irmã em paz ─ Lorenzo exclamou, chamando sua atenção ─ Eleanor, pode vim aqui?
─ Ei!, ela estava comigo primeiro ─ o mais novo reclamou ─ Qual terno vocês preferem?
Ambos reviraram os olhos com a pergunta do rapaz e o ignoraram, Alejandro tornou a voltar para os ternos, enquanto uma das vendedoras vai até os dois, os chamando para o provador.
─ Jesus, vocês são inúteis – o moreno exclamou ─ Eu deveria ter trazido o Marcos...
Sem paciência, a garota retrucou sarcástica.
─ Sim, você deveria. ─ concordou.
Alejandro mostrou o dedo do meio, antes de voltar para sua busca. Era engraçado vê-lo assim, com o jantar em sua casa e após o soco da garota desconhecida no bar, o garoto estava tentando provar a si mesmo que ainda possuía seu charme.
O moreno podia ser bem exigentes as vezes.
─ Obrigada por me salvar das loucuras do meu irmão.– Eleanor respondeu, balançando a cabeça. Ela suspirou e deixou que o loiro a guiar-se para uma área mais restrita. As funcionárias os encaravam admirados, o jeito cuidadoso com que se portavam era graças a presença dos herdeiros.
O casal de ouro, como a mídia insistia em nomeá-los. O peso de carregar a honrar das riquezas de seus descendentes era esse, os Davis e os García se fundindo em um só graças ao matrimonial de seus filhos.
Cumprir seus deveres.
Lorenzo e Eleanor foram criados para continuar o mesmo destino de seus familiares.
─ Seu desespero dava pena. ─ o homem sorriu de lado, os lábios unidos enquanto bagunçava os fios na cabeça da noiva
─ Com licença, pode nos mostrar o modelo escolhido?
A vendedora assentiu de forma educada.
─ Senhorita Davis, por favor me acompanhe até o provador.
─ Estarei esperando você aqui. ─ seu noivo murmurou, passando os polegares pelas bochechas dela antes de pousar um beijo singelos em sua testa.
Durante o ato podia ouvir os suspiros encantados com a cena, uma risada baixa tomou conta de si quando aquilo parecia tão apaixonado aos de fora. Eleanor reprimiu os lábios e saiu da sala, enquanto tentava manter a aparência apaixonada, olhou mais uma vez para Lorenzo, que acenou em sua direção num gesto que podia relaxar. A jovem sabia que o loiro só iria pegar seu terno quando a visse entrar no vestuário, por isso caminhou apresada pela loja.
Com agilidade a funcionária a levou para o provador.
Lorenzo ainda sorria quando a morena se distanciou, no entanto, sua expressão logo se desfez para o ar melancólicos que estava acostumado.
Talvez fosse pela proximidade do casamento e saber que aquilo era real, ou pela insistência em continuar aguardando o reconhecimento de seu pai.
Lorenzo mais uma vez falhou, fracassou com o medo de perder a atenção de Mendes García, e em fugir do passado que tanto o atormentava quando observava as notas do piano.
Partindo sua mente repetidas vezes.
• • •
─ Está linda, senhorita. ─ a vendedora exclamou parecendo encantada.
As outras duas atendentes que a acompanham concordaram em feições animadas.
Eleanor girou os calcanhares, um vinco se formando entre suas sobrancelhas. Seus dedos acariciaram o tecido liso com cautela, a renda bordada delicada e detalhes florais adornavam o vestido, etéreo, de tule, com um corpete sem alças em formato de coração e mangas transparentes. Estilo romântico e boho.
As íris âmbar observaram atentamente cada parte, memorizando sua imagem no grande espelho, ela já havia visto o rascunho do vestido, afinal a estilista foi a mando de Mendes García tirar suas medidas, segundo ele sua nora merecia o melhor.
Girou o corpo para que a pudesse observar mais, sentiu sua voz sumir a medida que enxergava seu reflexo. Estava entorpecida, sua alma estava atada a espessa névoa que cobria os sentidos. Permaneceu por um longo tempo perdendo-se na realidade, era como se estivesse sendo uma boneca, facilmente manipulável e fatalmente maravilhada com a sua figura vestida de noiva. Pressionou os olhos e levou as mãos a garganta, sentido suas cordas vocais perderem as palavras.
Era belo e mentiroso.
Magnífico e doloroso.
─ Eres perfecta, mi hermosa.
A voz calma do noivo a fez notar sua presença, os olhos azuis de Lorenzo se sobressaíram em seu semblante quieto.
O loiro ofereceu a mão em sua direção e naquele momento tudo parecia mortal demais.
Lorenzo foi o primeiro homem que confiou sem ser da família, acompanhavam o crescimento um do outro, eram grandes amigos e posteriormente, se tornaram prometidos, não tão diferentes como costumavam ser, mas tão amargos com seus compromissos. Ele assistia filmes dos anos 2000 sem reclamar da repetidas vezes que viam, revia "De repente 30" todas as vezes que a garota o persuadia a ficar com ela.
Ele era seu amigo, não sabia como, muito menos o motivo. Antes achava que seriam inimigos ou desconhecidos, contudo, o garoto ainda permanecia ao seu lado.
A jovem considerava fácil se apaixonar por Lorenzo, sua boa aparência destacando as covinhas, o comportamento sempre gentil e humilde, uma boa condição financeira e especialmente seu talento ao tocar piano. Entretanto, durante os anos ao seu lado seu coração nunca sequer bateu fortemente para ele e sabia que era recíproco.
Eleanor havia sido ensinada que o amor era uma fraqueza e dispensável aos humanos. Havia aprendido que tal sentimento nunca deveria ser em primeiro lugar e que ele era a causa da destruição de um império, no seu mundo apenas cumprir com as expectativas sem esperar nada era considerado certo.
Foi formada para dar apoio ao marido, mas não receber seu amor.
Foi criada para seguir as regras e nunca desobedecê-las.
Todavia, o interior revoltado já havia quebrado os limites, desejando algo a mais do esperado.
Eleanor queria ter se apaixonado por seu noivo.
Ela lembrou‐se seus pais. Os olhos verdes frios de seu pai que guardam profundo desprezo e os olhos azuis secos de sua mãe que pareciam desistir da vida.
Não queria compartilhar o mesmo futuro que eles.
Almejava se encolher e voltar para seu estúdio, passar o dia trancada no quarto, sobre a tranquilidade de suas telas, sobre as memórias das flores favoritas da mãe. Queria chorar nas fotos deixada pelos irmãos, onde sorriam ao seu lado, felizes. Sonhava em tocar os relevos deixados pelas canetas no mapa mundial, marcadas pela esperança que algum dia pudesse visitar aqueles lugares gravados em vermelho.
Seus olhos ardiam tanto com aquela sensações sufocante. Abriu um pequeno sorriso que disfarçava bem seu incômodo. A jovem cerrou os punhos e caminhou em passos lentos ao loiro, era difícil lidar com a dor que aprisionava seus sentimentos sem poder expressar toda aflição, 1..2..3..4..contava mentalmente, inalando o ar e o soltando aos poucos.
Por que aquilo havia acontecido com ela? Por quê? O que fez de tão ruim para ser tratada como um mercadoria?
Tinha certeza que estava pagando por um karma de alguma vida passada, ou pior talvez se não tentasse se convencer que era pela futilidade de querer a aprovação dos pais, que havia trazido a até seu destino.
─ Digo o mesmo, belo chico.
Exclamou segurando seu mão, observando pelo espelho a imagem dos dois perfeitamente de acordo com seus papéis.
• • •
O dia havia passado rápido, algumas nuvens escuras cobriam o céu, o sol se deitava no horizonte e sua luz poente brilhava através das majestosas janelas. A sombra da tarde iluminava seu estúdio.
Estantes de madeira abrigavam diversos livros, uma luminária perto da poltrona de couro, um de seus lugares preferidos. Telas cobertas por panos e rascunhos espalhados pelo chão, o abrigo que sentia pertencer unicamente a ela.
Eleanor examinou em volta a bagunça que havia deixado, passou a mão inquieta no cabelo, voltando seu olhar para a pintura que a noites a atormentava.
Ela não deveria estar ali.
Sequer devia permanecer pendurada em um cavalete, como se estivesse esperando para ser contemplada.
Suspirou frustrada, não demorou muito para suas feições derem boas vindas ao mal humor, pois notou que a conversa com Helena iria ser adiada novamente, a mulher permanecido imersa na estufa e só autorizava funcionários a entrarem com assuntos de extrema importância.
A morena inspirou pelas narinas e amaldiçoou o tempo e sua falta de inspiração.
Maldição! Poderia ter pintado qualquer coisa, mas por que foi justamente Kim?
─ Maninha linda do meu coração você não vai acreditar no que consegui... ─ a voz animada de Alejandro a fez entrar em desespero.
Se ele visse o quadro e tirasse conclusões precipitadas? Seu irmão podia ser lento em alguns assuntos, mas quando se tratava de festas ou pessoas, ele se assemelhava a um especialista.
Estava tão focada na pintura que não ouviu seus passos?
Rapidamente segurou a pintura e a colocou junto com as outras, colocando um pano fino branco por cima, escondendo-a do olhar curioso de seu irmão.
─ O que estava fazendo para ter essa cara tão apavorada? ─ questionou no tom tranquilo que usava com os irmãos quando desconfiava de algo. Todavia, sua irmã não o respondeu, escondendo o rosto corado de seus enfoques indiscretos.
─ Não lembro de ter chamado seu nome três vezes para está aqui. ─ ralhou feliz por sua voz não vacilar.
─ Poxa hermanita, não posso sentir saudades da minha irmã preferida?
O moreno exclamou colocando a mão no peito dramaticamente.
─ Fala logo ou procuro outro parceiro para fazer skin care ao invés de você.
Eleanor se pôs de costas para o homem, escondendo o sorriso triunfante ao mudar de assunto tão rapidamente.
Escutou o suspiro exacerbado atrás dela, contente pela conquista.
─ Nosso pai pediu para avisar que amanhã algumas pessoas responsáveis pela organização da festa irão vir, ele espera que você tome a frente de tudo.
Assentiu brevemente, sabendo que aquilo era mais forma do pai garantir que ela ainda soubesse sua posição. Entretanto, não pôde deixar de perguntar.
─ E a mamãe? Não é ela que devia cuidar disso?
O silêncio prolongado dele respondeu seu questionamento. Ainda que poucos segundos depois o timbre rouco do rapaz se fez presente.
─ Você sabe o estado dela...
A garota não pode segurar sua língua e antes que pudesse raciocinar, as palavras escapuliram.
─ Meio morta e meio viva ao mesmo tempo?
Sabendo que aquilo fora demasiado indelicado, virou-se para o irmão. Observando o modo como seus punhos estavam cerrados, guardou a expressão magoada como lembrete que precisava conter suas falas.
Alejandro era o mais ligado a mãe, desde pequeno era ela que o acalmava e entendia seus impulsos nervosos, a mais velha não o condenava por fugir do controle, ela mostrara que ele era alguém importante, uma pessoa amada. Ao contrário do pai, que o devia como uma aberração que precisava ser mudada.
Imediatamente, a garota se aproximou colocando a mão sobre o ombro do rapaz.
─ Sinto muito...
─ Tudo bem, não é uma mentira mesmo – o moreno a interrompeu
─ Preciso ir, acho que aquele terno não valorizou bem a minha beleza, necessito de algumas doses de álcool para poder aguentar o clima amoroso dessa humilde residência.
Percebendo que ele voltou a sua personalidade usual, a jovem riu balançando a cabeça em negação.
─ Posso ir? Acho que também preciso sair um pouco, se ficar aqui aguentando o papai por mais um minuto, sinto que vou enlouquecer.
─ Era só o que me faltava. Converti minha irmã em uma alcoólatra ambulante ─ o homem riu rolando os olhos ─ Onde quer ir? Tem uma inauguração de uma boate hoje a noite.
Eleanor encarou os pés, sentido o rosto esquentar, seria estranho demais voltar aquele bar?
Pareceria obcecada demais naquele cantor problemático?
Até entregou sua fita de cabelo para ele.
Sem coragem de olhá-lo, desviou seu foco para a bagunça de papéis e lápis de cor.
─ Gostei mais daquele bar que fomos antes, o ambiente é agradável.
Alejandro abriu uma risada sarcástica, passando a língua entre os lábios.
─ Posso te deixar lá ─ abrindo um sorriso malicioso sussurrou ─ E maninha seja lá o que chamou sua atenção devia aproveitar.
Antes que pudesse retrucar o rapaz deixou seu estúdio, fazendo uma dança animada que ela julgou ser de alegria por sua reclusa irmã mais velha está finalmente se divertindo.
A garota fechou e abriu as pálpebras, andando em círculos pelo o espaço, arrancou o lençol do quadro encarando seu maior desafio.
Ele não deveria permanecer em seus pensamentos.
Kim era uma sombria alma cuja a curiosidade pelas trevas Eleanor se perdia.
Soltando o ar pela boca, fincou os unhas sobre as mãos, desejando não de aprender do que faria aquela noite.
Seria a primeira vez e última.
Necessitava de doses de álcool e se irritar com um cantor problemático antes que o fim chegasse.
Antes que a derradeira oportunidade de ser livre partisse.
✒
Maratona 2/3
Gostaram do capítulo?
O que acharam desse capítulo? Do passado da Eleanor?
Sei que esses dois capítulos foram o puro sofrimento, mas relaxem porque no próximo finalmente os refrescos estarão entre nós.
Me digam como está sendo a experiência de ler LIYE após tanto tempo, ainda lembram da história?
Deixe seu voto e comente para motivar essa autora sumida ❤
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