Capítulo 14: Tulipa branca
"Tulipa branca: perdão." — GreenMe
《 Hyejoo 》
Depois daquele dia, quando eu e Sooyoung nos encontramos, nada de anormal aconteceu, com nenhuma das duas. Tudo parecia ser pacífico, tão calmo quanto podia, mas sabíamos que não era assim. Ou pelo menos, não continuaria a ser, tenho que ser realista agora, quais as chances de nos darmos bem, depois que tudo passar?
Olhei ao redor e vi a mesma coisa das outras vezes: Muitas árvores. Não sei o que esperava ver de diferente se continuava no mesmo tipo de lugar, apenas me movimentando por ele. Se bem que era isso que eu sempre fazia, seguia olhando os lugares que eu frequentava esperando algo incomum neles, como o início de uma obra, ou alguma loja, prédio, até mesmo uma casa, alguma coisa que seja nova para mim, mas nada parecia ter alguma transformação, mesmo que as pessoas mudassem.
Posso até me sentir bem ali, não era completamente ruim, mas mesmo assim minha mente seguia voltando para como tudo foi antes. Isso irá mudar, nada vai ser como um dia eu já fui acostumada, pensar nisso é tão destrutivo que estava começando a pensar em desistir, simplesmente me sentar ali e pedir para Sooyoung continuar a procura pela saída sozinha. Um pouco egoísta talvez, mas algo dentro de mim implorava, suplicando para que eu seguisse andando. Sinto que não posso fazer isso, ela pode morrer. Poderia ser isso que chamavam de amor ao próximo? Uma pontinha de esperança aparecia para mim, como a chama de uma vela na escuridão profunda.
As perguntas que estava me fazendo preenchiam pouco o vazio que sinto, ele estava presente até mesmo nas minhas memórias mais antigas. Antes eu imaginava ter alguma importância na vida das pessoas, mas com o passar do tempo, descobri não ser nada além de apenas uma presença um pouco mais incômoda do que algumas outras. Já me cansei de pensar que sou apenas isso, mas se não fosse, minha madrasta não teria encerrado meu caso por vontade própria, nem ter feito uma expressão que demonstrava alívio enquanto o fazia.
— Você está bem? —Sooyoung falou enquanto segurava minha mão, me guiando entre árvores e plantas. — Ficou quieta demais desde a última noite, algo aconteceu?
— Você estava presente o tempo todo, viu que nada aconteceu. — Logo tive vontade de recolher minhas palavras que foram ditas com tamanha grosseria diante da bondade de Soo Young de se preocupar comigo. — Desculpe.
— Não precisa. — O toque da mão dela se tornou mais firme. — Algo começou a te torturar em seus pensamentos? Foi isso que queria dizer.
Eu tentei dizer que nada estava me incomodando, apenas para que ela não se preocupasse sem motivo algum comigo, mas senti que eu poderia falar com Sooyoung. Ela me passava uma confiança, uma sensação boa.
— Nada. — Eu disse, contrariando completamente meus pensamentos anteriores.
— Se não quer falar, tudo bem. — Sooyoung diz se virando para me olhar. — Eu não tiro a sua razão.
— Talvez um dia... — Falei enquanto pensava se eu deveria ou não dizer para ela. — É, quem sabe um dia eu falo...
— Não é bom guardar sentimentos para si mesmo. Seja bom ou ruim, desde que não magoe ninguém, sempre é bom desabafar um pouco.
— Disse a lésbica não assumida. — Falei dando risada.
— Pegou pesado, hein? — Ela ri junto, levando na brincadeira. — É diferente, posso ser agredida por uma pessoa da minha família, mesmo não morando com ela. Mas eu nunca irei, de forma alguma, levantar a mão para você. — Ela disse séria, andando do meu lado agora.
— Isso é verdade? Quero dizer, sobre a agressão... — Pergunto ficando preocupada com a mulher na minha frente. Ela já teria passado por isso antes?
— Por quais motivos eu mentiria sobre algo tão sério? — Ela disse com a voz um pouco arrastada e cansada.
Andávamos pela floresta, ainda iluminada pela luz do sol que aquecia nossa pele quando não estávamos passando por uma árvore que dava mais sombra em comparação com algumas outras. Já sentia meu corpo um pouco pesado, mas imaginei que fosse apenas pelos tantos pensamentos que eu tinha, que não me davam a melhor visão sobre mim mesma.
— Qual foi a melhor coisa que você já fez? — Perguntei para Sooyoung.
— Sair da aula de balé. — Ela diz soltando minha mão. — Hoje eu vejo que se não tivesse saído, seria muito diferente delas. — Ela aponta para a roupa que vestia. — Este visual não é o mais usado por mim, no meu dia a dia.
— Você não gostava das aulas?
— Elas eram chatas. — Sooyoung diz rindo, enquanto pega minha mão de novo. — Não são meu estilo. Mas e você?
Pensei um pouco, mas nada chegava até mim como a melhor coisa. Eu não queria deixá-la esperando tanto, odiava fazer isso, sempre me perguntava se enquanto aguardavam as pessoas aguardavam a minha resposta, elas pensavam: "Que garota indecisa! Ela não pode simplesmente falar qualquer coisa?". Desisto de pensar em coisas que não trarão resposta alguma.
— Eu seguia muito as regras do meu pai e da minha madrasta. — Falei enquanto as lembranças de inúmeras broncas que já levei por algo simples chegavam como uma grande onda. Eu seria uma surfista que nunca teria se equilibrado em uma prancha. — Mas acho que até foi bom, posso ter me livrado de muitas coisas piores do que sermões.
— Já saiu com suas amigas para alguma balada? — Eu fiz que não com a cabeça. — Beijos na boca? — Fiz que sim. — Pelo menos isso...
Eu dou uma gargalhada fraca. Ela parecia ser do tipo que gostava de estar fora de casa, ou com muita gente ao redor, tinha muito jeito com isso. Imagino muito Sooyoung em uma balada, junto de seus amigos, se divertindo e tentando levar diversão para seus acompanhantes.
— Já fiz tanta coisa, Hyejoo! Fiquei até envergonhada. — Começou a rir.
— Nem precisava. — Ela nem sabe que se não fosse as várias regras do meu pai e da minha madrasta, eu faria tantas coisas quanto ela.
Minha meia-irmã sempre foi muito colaborativa. Tentava me defender enquanto eu recebia os sermões, muitas vezes já me ajudou a esconder algumas coisas deles para que não me metesse em encrenca. Eu ainda não acredito que ela estava imobilizada em uma maca de hospital da última vez que a vi, mesmo sendo uma lembrança um pouco melhor do que a outra versão, a que ela estava no chão com sangue saindo de sua cabeça.
Eu continuei com vontade de desistir. Já estava exausta de andar e não chegar em lugar nenhum, sem um destino definido depois de encontrar o local que mais anseio encontrar desde o início. A esperança, ou algo muito parecido, aumentava como um incêndio intenso, as chamas consumiam meu coração, mas gosto desta sensação, sendo a mais quente e incomum que eu já poderia ter sentido durante minha vida.
Quase desisti, em meus pensamentos eu já estava soltando a mão que segurava firme a minha. Até sentir meu corpo colidir com o de Soo Young, ela parou de andar.
— A saída... — Ela diz baixo. — Encontramos a saída, Hyejoo! — Sooyoung me abraça. — Vem! — Ela pega a minha mão e começamos a correr até o lugar mais esperado dos últimos dias.
Saímos de lá e era possível ver uma casa, bem longe. Seguimos andando até ver a casa mais de perto, parecia estar abandonada pela bagunça que tinha. Eu senti como se já soubesse o que deveria fazer ali e chegar até o centro da cidade, então segurei novamente a mão de Sooyoung enquanto a guiava entre o lugar.
Uma brisa fraca balançava meu cabelo e fazia cócegas na minha pele, algo bom e suave, poderia sentir aquilo por bastante tempo, era tranquilizante o suficiente para que me renovasse um pouco. Eu sentia que talvez, apenas talvez, minha vida mudasse para melhor agora. Apenas espero que não seja como antes, quando procuro fazer mudanças em coisas desnecessárias.
Conseguimos chegar até o centro da cidade, como eu imaginava que aconteceria. Andamos até a loja de conveniência mais próxima, onde tinha um relógio e poderíamos tentar descobrir em qual dia estávamos. Agora sabemos que hoje é dia dezoito de fevereiro, faltavam apenas horas e nosso destino está muito mais incerto, estamos nas mãos de pessoas desconhecidas, podem fazer o que quiserem conosco.
— Nós podemos pegar um metrô e seguir até a minha casa andando. Nesse horário o metrô que eu pego não fica muito cheio. — Sooyoung disse olhando para mim. — Lá não tem muita coisa para fazermos, na verdade, mas vamos descansar um pouco.
O metrô que pegamos realmente estava vazio, com a exceção de algumas poucas pessoas espalhadas pelo espaço. Foi uma viagem consideravelmente tranquila, pois conseguimos ficar sentadas todo o tempo. Sooyoung me contava sobre coisas que ela fazia antes, como as baladas que foi, os amigos, momentos românticos entre ela e Vivi. Só de ouvir me sentia como a convivesse com ambas desde sempre, era uma ótima sensação.
Saindo do metrô, foi uma caminhada bem curta, ou longa e eu apenas não prestei atenção. A casa dela era um tanto pequena, diferente da minha, que abrigava quatro pessoas e sobrava espaço para qualquer visita que quisesse ficar mais de poucas horas, mas era aconchegante e confortável. Consegui esquecer parcialmente das minhas preocupações ouvindo as risadas e palavras de Sooyoung, eram sinceras o suficiente para que eu acreditasse em cada uma, isso é bom.
— Eles são legais, juro! — Ela disse rindo enquanto se deitava no sofá.
— Um monte de meninos bêbados que trocam de namorada como bebem bebidas alcoólicas não me passa a melhor das impressões. — Digo com os braços cruzados.
— Vocês não iriam se dar bem. Eles dariam em cima de você, igual fizeram com Vivi. — Falou e revirou os olhos.
— Você está com ciúmes. — Cantarolei na intenção de irritá-la, que apenas me jogou uma almofada. — Como vocês se conheceram?
Os olhos dela cintilavam como inúmeras estrelas. Era isso que o amor fazia com as pessoas? Ele nos faz virarmos bobas apaixonadas? Eu quero sentir isso, ao menos uma vez, antes da morte chegar para mim.
— Jiwoo nos apresentou. Fomos em uma balada, nós duas dançamos e bem, fiquei interessada nela ao ponto de sentir amor.
— Isso parece incrível. — Eu digo sorrindo.
— Não foi muito quando um dos meus amigos flertou com ela. — Ela falou cruzando os braços. — Mas valeu a pena, foi a primeira vez que ele foi rejeitado daquele jeito.
Eu gostaria de ter feito algo melhor do que passar o dia ouvindo o que Sooyoung dizia, não que fosse tão desinteressante ao ponto de me fazer ter vontade de deixá-la falando sozinha, era bem legal saber das vivências dela, apenas não tenho nada de interessante da minha vida que merece ser compartilhado. É o clássico modo de viver de pessoas com pais rigorosos, sem nada que fugisse daquilo, o Mobius foi a única variação estranha que tive nos últimos meses e me fez reparar o quanto eu achava chato tudo isso. O que eu poderia fazer agora? Condenar o jeito que fui criada vai adiantar algo? Devo me contentar com o que eu tinha por mais que não fosse meu maior desejo.
Pude ouvir um barulho de tiro muito perto durante a noite, foi quando reparamos que aquilo chegava ao fim. A minha última visão que pude raciocinar era Sooyoung com a mão no peito, consegui sentir o peso do corpo dela em cima do meu e um líquido pegajoso escorrer, mesmo que por apenas alguns curtos segundos.
TO BE CONTINUED
Os capítulos do último dia no Mobius acabaram, podemos dizer que as únicas mortas foram: Vivi, Hyunjin, Haseul e Soo Young.
Estamos entrando na reta final! Faltam apenas três capítulos. Juro, não imaginei que conseguiria terminar essa fanfic de um jeito que não me decepcionasse, mas acredito que eu conseguirei extrapolar minhas expectativas. Podem me contar das expectativas, teorias ou dúvidas de vocês, agora é a hora.
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