9. I wanna tell you I love your way
"Eu quero te dizer que amo o seu jeito"
- Peter Frampton (Baby, I love your way)
22h20min
Já faziam alguns minutos desde que Taehyung tinha apresentado a última música e ainda não havia voltado para a mesa em que os amigos estavam. Jimin explicou aos outros três que era normal e que ele sempre demorava um pouquinho para resolver algumas coisas.
Sohye se assustou quando o celular começou a vibrar e tocar alto dentro do bolso interno de sua jaqueta. Pegou o aparelho e pedindo licença aos amigos, foi o atender fora do bar. Ultrapassando a porta do lugar, leu "Kim" na tela e se sentiu confusa. Olhou para os lados, desviando das pessoas na calçada, mas não o encontrou.
— Alô? — atendeu e se afastou da entrada deixando o barulho para trás. Um vento um pouco mais frio passou por ela e Sohye se encolheu, um pouco arrependida de ter escolhido vestido e não calças compridas e quentinhas. — Oi? — chamou mais uma vez e antes que começasse a se desesperar com a falta de resposta do outro lado, ela viu a silhueta do menino parado um pouco mais para frente na calçada do outro lado da rua.
Encostado ao muro, a alça da case do violão apoiada sobre um dos ombros e um dos pés apoiado na parede enquanto com o telefone na orelha a encarava com um sorriso nos lábios. Sohye revirou os olhos enquanto desligava o seu e o menino riu do outro lado da rua. Se fosse outra pessoa ela provavelmente xingaria e daria as costas voltando para dentro do bar, mas tinha algo na singularidade de Taehyung que a fazia achar aquilo bonitinho.
Caminhou até a faixa de pedestre esperando o sinal fechar para os carros e observou Kim guardar o celular no bolso da calça, colocando suas mãos nos bolsos do casaco depois. Ela fez o mesmo, com a ideia de se aquecer dentro da jaqueta de couro. Sohye se sentiu a própria Yuna se balançando para frente e para trás esperando o sinal fechar e assim que o bonequinho verde indicou que ela poderia ir até o outro lado, caminhou devagar, encarando as próprias botas.
— O que foi isso? — perguntou parando na frente de Taehyung que ainda sorria a observando.
— O que? — ficou sem graça por alguns segundos achando que ela falava da música, mas logo entendeu que era do telefonema — Ah, foi o único jeito que arrumei de te fazer sair de lá — deu de ombros com as mãos ainda dentro dos bolsos. Sohye riu sem graça e olhou para um dos lados, porque imaginou que ela deveria ser tão previsível ao ponto de Taehyung já ter notado que ela não sairia de lá porque ficaria envergonhada. Ele mordeu o lábio inferior também desviando o olhar.
Sohye nunca tinha se encaixado no grupo de pessoa que ficava sem graça ou que não conseguia encarar alguém por muito tempo nos olhos, mas com aquele garoto que parecia ter saído de alguma pintura delicada de Renoir, ela se sentia só um rabisquinho de lápis de cor feito por alguma criança. Não, não do jeito ruim, até porque mesmo os riscos feitos por uma criança tinha sentimentos e certo aprendizado, mas sim porque do jeito que ele vibrava, parecia ter tanto para compartilhar com ela e com o resto do mundo. E aquilo a deixava curiosa e com vontade de conhecê-lo ainda mais.
E talvez ela não fizesse ideia, mas agora que Taehyung estava tendo a chance de a olhar mais de perto e com calma, o rapaz notou que a menina tinha algumas características que não eram tão comuns assim na Coreia, e enquanto a observava se perguntava se ela tinha alguma descendência ocidental. Os olhos, diferentes de pretos ou castanhos escuros, eram de um marrom mais aberto quase mel, com algumas áreas que pareciam ser esverdeadas. E a observando delicadamente ele só conseguia se lembrar dos olhos profundos e instigantes de Vênus, pintados por Botticelli. Os cabelos eram alguns tons mais claros que o da maioria das pessoas ali e Taehyung percebeu também que Sohye tinha várias marquinhas clarinhas de sardas no alto das bochechas e do nariz.
— Não sabia que gostava de boybands — Sohye disse com um sorriso brincalhão nos lábios só para saber o que ele diria, até porque já tinha sido entregue mais cedo pelos amigos. Agora era ele quem tinha sido pego no flagra.
— Na verdade eu não conheço muito — ele assumiu e ela notou que um certo rubor apareceu em seu rosto —, acabei encontrando essa música e achei legal a letra — deu de ombros como se não fosse nada demais. Sohye assentiu. — Você gosta? — Taehyung perguntou, se fazendo de desentendido, mantendo o olhar focado do outro lado da rua e ajeitando a case cheia de adesivos no ombro. As chances de que a música fosse para ela tinha caído quantos porcentos com essa pergunta?
— Uhum — ela assentiu novamente e se balançou para frente e para trás —, antes eu acompanhava mais, mas tive uma decepção grande quando os meninos da 1D se separaram e decidi que não ia sofrer mais por grupo nenhum. — Sohye impensadamente transformou os lábios em um bico e Taehyung riu — Ah não, não ri. É sério! — o garoto achou graça da expressão de indignada que ela fez, com direito a por as mãos na cintura, porque era idêntica a de Jimin quando ele reclamava que não aguentava mais o amigo repetindo a mesma música do grupo pela décima vez. — Você não é um desses caras que julga antes de conhecer o som, né? — ela perguntou, já com medo de se decepcionar com Taehyung e um pouquinho ofendida com o pensamento. Ele negou, o sorriso ainda em seu rosto.
— Não estou rindo por isso. É que o Jiminie faz a mesma coisa quando alguém fala deles. Não é mesmo o meu som, mas acho eles bons no que fazem — ele disse e ajeitou o cabelo que caía na frente dos olhos.
— Entendi — Sohye assentiu compreendendo o que ele queria dizer e ficou feliz dele ser sincero e ao mesmo tempo não a criticar por um gosto musical. O silêncio se instaurou entre eles e Taehyung foi quem o quebrou.
— Quer andar? — perguntou apontando para onde a rua continuava. Ela olhou na direção e viu que o lugar que estavam também já dava sinais da chegada do outono porque as folhas das árvores se transformavam de tons de verdes para amarelo e laranja como os tons que o céu ganhava durante o pôr do sol.
— Eu não sei — falou sem graça —, é que eu falei para o pessoal que só ia atender o telefone — respondeu. Taehyung pegou o próprio celular no bolso e desbloqueou a tela, digitando alguma coisa.
— Pronto, avisei ao Jungkook que você está comigo — Sohye ficou o encarando sem saber o que falar, já imaginando a tortura que seria no dia seguinte se o amigo abrisse a boca para Gaeul — Fiz muita merda? — Taehyung perguntou sem graça e fazendo careta. Sohye negou com a cabeça e sorriu como quem dizia para ele que estava tudo bem. Ela poderia lidar com as perguntas da amiga no dia seguinte.
— Vamos? — ela indicou com a cabeça a rua que tinha uma pequena ladeira para descerem.
Ele se desencostou do muro e os dois passaram a caminhar lado a lado, seguindo a direção da calçada. Aquele era o centro de Incheon, e sendo sábado a noite, as ruas estavam tomadas por pessoas da idade deles que pareciam ir a festas e aos famosos bares da região. Pessoas de todos os tipos, já que aquela temporada costumava atrair vários turistas de vários lugares do mundo. Sohye notou que Taehyung observava as pessoas naquela rua com uma expressão que ela não soube se deveria chamar de empatia ou de curiosidade. Ele pegou o celular no bolso delicadamente e passou a tirar fotos das coisas que o chamava atenção: as pessoas, as arquiteturas do local e até mesmo o cachorrinho que passou distraído por ali.
E então o observando, Sohye percebeu que ele não era como algumas outras pessoas que postavam fotos apenas para manter redes sociais ativas. Taehyung parecia tirar fotos porque gostava de registrar histórias e cenários. Histórias que sem que ele precisasse fazer muito esforço para procurar, passavam por ele e por onde estivesse no momento. Chegou aquela conclusão porque havia uma história por detrás do momento em que um casal se viu e correu um até o outro embaixo das árvores alaranjadas e outra nas três amigas que riam e caminhavam de braços dados.
Ela sorriu com si mesma, olhando para frente percebendo a primeira coisa que ela e Taehyung, talvez tivessem em comum: o gosto de observar as pessoas e suas histórias. Sohye fechou os olhos e respirou fundo o ar que começava a se tornar mais frio que na estação anterior.
— Você gosta do outono? — ela ouviu o rapaz ao seu lado perguntar, já com o celular guardado e as mãos novamente dentro dos bolsos do casaco. Ela abriu os olhos e o olhou.
— Uhum — respondeu sincera. Sohye se perguntou se ele chegou àquela conclusão a observando, ou se falou apenas para puxar assunto. Ela queria acreditar que tinha sido pela primeira opção.
— Tem um lugar aqui perto que acho que você vai gostar — ele parou de andar e ela fez o mesmo, o encarando sem entender —, quer ir? — Taehyung perguntou e Sohye instantaneamente assentiu. Ela não sabia de onde estava saindo aquelas ações imprudentes que com toda certeza ela não faria em qualquer outro momento. E olha que ela só tinha tomado 2 ou 3 copos de cerveja. Bem, talvez 4.
Mas nada daquilo importava, a não ser o fato de que ela sentiu Taehyung segurar sua mão dentro de seu bolso, e a tirando de lá, começou a guiar a menina para fora da calçada, passando os dois a caminhar na grama a frente de algumas construções que ela sequer sabia do que eram.
Quando eles pararam a frente de uma cerca de tela trançada, ela se perguntou o que estava passando pela cabeça dele já que observou o menino contar de 1 ao 5 e parar na divisória 6 da cerca. Ele se abaixou na altura do chão e mexeu em algo, e soltando a tela daquela abertura a suspendeu esperando Sohye passar, mas ela ficou o encarando sem acreditar no que via.
— Você quer invadir uma propriedade privada? — ela falou incrédula e o menino a olhou como quem não entendia — Não vou fazer isso.
— Nós não vamos invadir nada, Sohye. Não é bem uma propriedade privada porque quem cuida é o governo e nós que pagamos os impostos, mas — ele parou e sorriu a olhando —, só demora demais para dar a volta e passar pelo portão do outro lado — Sohye o encarou parado com os braços levantados segurando a tela para que ela passasse por baixo —, Jimin que me mostrou isso tem alguns anos, dá direto para o parque central da cidade e não vamos precisar dar toda a volta no quarteirão. Se nós corrermos dá para pegar alguma pojangmacha* aberta — ele sorriu feliz se imaginando comprando um hotteok — e eu 'to com fome — foi a vez dele fazer bico com os lábios. Sohye relutou, mas sorriu de leve quando notou que ele não estava mal intencionado e que tudo o que o garoto estava era realmente só fome.
Se abaixou ultrapassando a cerca, se sentindo em um misto de idiotice com a liberdade imprudente da adolescência, e esperou o menino fazer o mesmo, ajeitando a passagem secreta depois. Eles desceram a pequena inclinação se apoiando um no outro e logo estavam na parte mais baixa. Taehyung segurou em sua mão, de novo, e eles correram até a parte central do parque com ele a guiando mais uma vez. Ela estranhou aquela proximidade inesperada, mas não poderia dizer que não gostou de sentir a mão dele na sua. Estava quentinha e era em parte macia. Mas não de um todo, já que seus dedos eram tomados por alguns calos que ela julgou terem sido resultados de muito tempo tocando violão.
Sohye tinha nascido e morado a vida inteira naquela cidade e ela se perguntava como que nunca tinha visitado aquele parque. Encarou o lugar quase que fazendo um 360º com o corpo observando cada árvore e cada iluminação bonita dali. Haviam decorações para todos os lados e ela se perguntou se já estavam se preparando para o Chuseok* que acontecia no final daquele mês.
Tinham várias pessoas caminhando por ali e a maioria pareciam tão encantadas quanto ela. Alguns turistas tiravam fotos, haviam casais andando de mãos dadas e vários grupos de amigos parados em frente as barraquinhas de comida. Logo ela percebeu que o menino com ela tinha se aproximado dos lugares com comida e ela o acompanhou. Depois de pedirem hotteok para comer, sentaram-se em um banquinho perto dali. Sohye mal se lembrava do gosto daquelas panquecas e aquilo a fez lembrar de quando era criança e os pais levavam ela e o irmão para comer em barraquinhas de rua, próxima a casa deles. Estranhamente a lembrança não a deixou triste e sim com um certo calorzinho bom dentro do peito.
Ela observou Taehyung dar uma mordida em seu lanche e observar todo o lugar com os olhos interessados em cada cantinho dali, como ela havia acabado de fazer instantes antes. Ele parecia uma criança feliz naquele momento e Sohye sequer conseguia ficar triste com a repentina lembrança que teve de quando sua vida parecia ser bem mais tranquila ao lado dos pais.
Talvez aquela tenha sido a primeira vez que ela parou para observar Kim Taehyung com calma. Os cabelos escuros e levemente ondulados pareciam bagunçados, mas ao mesmo tempo organizados. O nariz arrebitado e pequeno o fazia ter aquele ar de quem sabia exatamente o que estava fazendo. O maxilar era bem marcado, mas sem exageros e as bochechas pareciam mais cheinhas ainda enquanto ele mastigava, e ela as elegeu como a parte física dele que ela mais gostava. Ela gostou também da assimetria que havia entre a argola na orelha esquerda e o brinco pendente na direita e pensou no quanto aquela contraposição poderia representar algo na personalidade de Taehyung.
Sohye deu mais uma mordida no lanche em que ela segurava e voltou a olhar o ambiente ao redor deles. Ela não tinha passado por nenhuma situação traumática dentro dos relacionamentos que teve, mas o medo de se envolver com outra pessoa vinha justamente porque sabia que namoros costumam mexer muito com os sentimentos dos envolvidos e ela não sabia lidar com mudanças. O sentimento de ter que dividir a vida e os momentos dela com outra pessoa a apavorava um pouco, e ela sentia que se desse mais um passo na direção do que estava começando a sentir com aquele garoto, não teria mais volta.
Era egoísmo? Talvez sim. Mas Sohye tinha visto a vida da mãe virar de cabeça para baixo com a perda do pai e ela viu também que o fato dela o amar, tinha a feito abrir mão de muitas coisas inclusive largar todos os planos em Marselha para se mudar para aquela cidadezinha na Coreia do Sul. E Sohye não queria fazer aquilo com a vida dela.
Ela tinha aprendido com a vida que deveria ser a sua prioridade. Tinha que cuidar do seu futuro, da sua vontade de fazer o Intercâmbio que vinha juntando dinheiro há mais de 3 anos, cuidar da sua vontade de fazer a diferença na vida daquelas crianças que seriam a geração responsável por mudar o mundo, e tinha que cuidar dela mesma antes de fazer qualquer uma dessas coisas. E bem, aquilo já era muito e ter que cuidar ainda de um relacionamento agora só iria a deixar atrapalhada.
— Já conhecia aqui? — Taehyung perguntou, dobrando o papelzinho meio sujo de recheio doce. Sohye negou com o rosto dando uma última mordida em seu hotteok.
— Eu quase não saio de casa — ela disse e sua voz se transformou em um tom desapontado no meio da frase. Taehyung notou aquilo.
— Por que não gosta ou por que está sempre ocupada? — ele ajeitou a case do violão sobre o colo e encostou as costas no encosto do banco de madeira.
— Eu sei lá — ela resmungou, porque realmente não sabia —, acho que alguma coisa entre essas duas — ele assentiu, mudando o olhar do rosto da menina para um rapaz que tentava dar uma mordida no próprio lanche, mas o cachorro na guia em que segurava o puxava.
— E o que você faz quando está ocupada? — perguntou, mas antes que ela respondesse qualquer coisa — E que não tenha a ver com a faculdade ou com trabalho — completou e sorriu a olhando fazer careta. Sohye não conseguia pensar em nada, porque não se lembrava de algum momento em que não estava ocupada gastando seu tempo com trabalhos e responsabilidades.
— Eu não faço nada de interessante, para falar a verdade — ela disse fazendo bico e encarando as outras pessoas ao redor. Se Taehyung parasse qualquer um deles ali, possivelmente teria muito mais assunto do que com ela. Sohye começou a se achar chata demais.
— Let it be, let it be, there will be an answer, let it be ... — Taehyung cantarolou baixinho, citando os Beatles.
— Era a favorita do meu pai — Sohye respondeu e Taehyung a olhou prestando atenção — Ele cantava tanto essa música dentro de casa que meio que se tornou o mantra dele — comentou.
— Imagino que ele é muito importante para você — ela assentiu e sorriu fraco, sentiu os olhos começarem a marejar e encarou as próprias mãos. Pelo jeito ela não iria superar tão cedo o vazio que sentia sempre que se lembrava do pai. Só não queria parecer patética na frente de alguém que tinha acabado de conhecer — Ah, não queria te deixar mal.
— Nah, não deixou — ela secou as duas lágrimas que desceu sem que pudesse controlar — Só é muito esquisito para mim como uma pessoa um dia está do seu lado e no outro ela simplesmente não está mais. — Taehyung assentiu — Acho que ele ia gostar de você — ela comentou, encostando as costas no encosto do banco, assim como o menino, e esticou as pernas para frente.
— Sério? — Taehyung perguntou um pouco entusiasmado com o pensamento, o que fez Sohye deixar um sorriso escapar enquanto assentiu. Por poucos segundos ela imaginou os dois conversando por horas sobre música e sobre arte. — Como ele era? — Taehyung perguntou, e ouvir o verbo no passado nem doeu tanto daquela vez em Sohye.
— Qual seu favorito nos Beatles? — ela arriscou e sem pensar muito o rapaz respondeu que não saberia escolher. — É, ele ia gostar de você. — Sohye chegou a sua conclusão com a resposta e Taehyung desejou ter tido a chance de conhecer o pai dela. — Ele ficava mega irritado quando eu dizia que o Paul era meu favorito — ela sorriu, o olhar parado em nada físico —, Sr. Kim sempre dizia que uma banda é formada por todos os integrantes e que eu não devia ter um favorito. E aí minha mãe aparecia sabe-se lá da onde e começava a dissertar sobre não ter nada de errado em ter um favorito se você soubesse valorizar todos os membros igualmente. E aí ele retrucava dizendo que o que ela falou não fazia sentido e eles começavam a ter discussões sobre bandas que eles gostavam e não gostavam e no final eu e o meu irmão só riamos escondidos dos dois e da cara emburrada que ficavam. Não durava muito tempo, mas era o suficiente para ver que eles se amavam muito e que passavam por cima de qualquer desentendimento, por menor que fosse. — sorriu sozinha lembrando. Ela não fazia ideia porque estava despejando aquilo tudo em Taehyung assim tão do nada, mas talvez seja porque ninguém nunca tenha tido coragem o suficiente para tocar no assunto com medo da reação que Sohye teria. Ela e o pai eram como unha e carne e com a morte dele, a menina sentia como se tivesse perdido uma parte muito grande dela.
— Ele devia ser uma pessoa incrível — Taehyung comentou e Sohye assentiu sorrindo, os olhos começando a marejar de novo — Você não me respondeu o que gosta de fazer — Taehyung mudou para o assunto anterior na tentativa de não deixar a menina triste e Sohye tentou pensar em alguma coisa que poderia dizer para sanar a curiosidade dele.
— Eu gosto de ouvir música — ela disse e o outro assentiu —, e gosto de ler livros ouvindo música. Ah, e de assistir desenhos animados. — ela completou se sentindo a pessoa mais ridícula do mundo, porque queria fazer alguma coisa interessante e que pudesse compartilhar com Taehyung naquele momento. Mal ela sabia que ele gostava demais daquelas coisas simples, simplesmente porque era ela quem as fazia.
— Que tipo de música você ouve? — ele perguntou.
— Qualquer uma — deu de ombros — Se eu gostar da letra ou do ritmo, eu ouço qualquer coisa — completou.
— E o que você gosta de ler? Artigos científicos? — ele fez graça e ela riu e negou.
— Histórias. Qualquer tipo de histórias, na verdade. Eu só gosto de imaginar que dentro dos livros é muito mais fácil de se resolver as coisas ou de se criar um mundo do jeito que você quer, ao contrário da vida aqui fora. — ela respondeu encarando as próprias mãos sobre o colo sem graça porque sabia que o olhar de Taehyung estava sobre ela. Ela percebeu também que desde que tinha começado a faculdade que não tinha mais pegado em livros que não fossem acadêmicos, e aquilo a fez decidir que iria mudar aquilo assim que chegasse em casa.
Antes que ela perguntasse de volta alguma coisa, o celular do rapaz tocou e ele precisou o atender. Ela o esperou responder a pessoa do outro lado da chamada e desligar logo depois.
— Acho que a gente vai precisar ir agora, senão nós dois perdemos nossas caronas para casa. — ele fez careta se levantando e ela fez o mesmo, ajeitando o vestido logo depois.
Caminharam enrolando mais do que deveriam porque sabiam os dois que não queriam sair dali. Taehyung ainda tinha um monte de perguntas para fazer para Sohye e ela por sua vez queria observá-lo um pouco mais. Eles subiram a inclinação até a cerca e Sohye sequer sentiu medo de que fossem pegos daquela vez. Depois de Taehyung ajustar a tela, eles caminharam em silêncio pela calçada. A menina sentiu falta da mão comprida de Taehyung envolvendo seus dedos, mas não moveu nenhum músculo sequer para repetir a ação e tudo o que fez foi suspirar e manter as suas dentro dos bolsos, que agora pareciam frios, da jaqueta. O rapaz por sua vez tinha uma das mãos paralisada segurando a corda da case do violão e a outra já tinha ajeitado os óculos mais vezes do que necessário, tentando prestar atenção no caminho até o estacionamento.
Taehyung já tinha se envolvido com outras pessoas durante o tempo em Incheon, foram poucas, mas tinha se envolvido sim. Apesar disso elas não passaram de ficadas que duraram apenas uma noite já que toda vez que ele abria a boca para falar alguma coisa a pessoa o olhava com cara de interrogação, não entendendo uma vírgula do que ele falava. Ele não se lembrava de nenhuma outra pessoa que tinha causado curiosidade nele da forma que aquela garota estava causando e logo ele, Kim Taehyung, que gostava de falar pelos cotovelos, estava mais encantado em ouvir a menina falar sobre ela mesma do que com vontade de iniciar um monólogo sobre a vida dele e de como fracassou em ter uma tartaruga e ser um rockstar. Ele até queria abrir a torneirinha de asneiras e fazer algumas perguntas, mas para que metade daquelas dúvidas fossem sanadas e ele pudesse entender o que se passava na cabeça dela, talvez precisasse falar demais e aquilo poderia a assustar e a afastar.
E Taehyung já tinha entendido que a última coisa que queria era que Kim Sohye se afastasse dele.
Eles chegaram ao estacionamento em silêncio e Taehyung foi o primeiro a ver o carro de Yoongi, já com os amigos dentro. Sohye levou algum tempo para achar onde Jungkook tinha estacionado o dele e só encontrou porque Gaeul bateu na buzina repetidas vezes para que ela os encontrasse. Ela pressionou os lábios também envergonhada com a amiga, mas principalmente por saber que ela e o Kim estavam sendo observados por 5 pares de olhos que deveriam estar bem atentos a tudo o que os dois parados entre os poucos veículos ali, fizessem.
— Obrigada por me levar no parque — falou e depois sorriu fazendo com que os olhos ficassem fechadinhos. Taehyung sorriu de volta.
— Prometo que nosso próximo encontro vai ser melhor que esse — Dessa vez o barulho ouvido veio do carro marsala mais próximo e atrás do vidro da janela, um Yoongi batia na buzina com cara de cansado enquanto Hoseok no banco do passageiro tentava arrancar as mãos do namorado do volante para que ele não atrapalhasse.
— Okay — foi o que ela respondeu porque nada melhor veio na cabeça naquele momento.
Sohye indicou o carro de Jungkook com uma das mão e ele assentiu concordando. A menina sorriu em resposta a ele e se virou caminhando devagar em direção aos amigos, desistindo e correndo na metade do caminho até lá. Parando em frente ao carro, antes de abrir a porta ela se virou para o garoto e percebeu que ele tinha a esperado chegar até ali para só então abrir o carro de Yoongi. Em um movimento cuidadoso ele entregou o violão a Jimin no banco de trás e antes de entrar voltou o olhar para a menina que a pouco estava ao seu lado. Ela sorriu e deu um tchauzinho com a mão o que fez Taehyung fazer o mesmo. Sohye abriu a porta e se sentou no banco para passageiros sendo recebida por olhares e barulhinhos esquisitos vindo dos amigos no banco da frente.
Ela não se importou com os dois. Estava mais preocupada com as batidas descompassadas em seu peito, essas que ela não sabia se eram devido a corrida até o veículo ou a algum sentimento novo que começava a surgir ali.
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Pojangmacha: é um pequeno local de tendas que pode ser sobre rodas ou uma banca de rua na Coréia do Sul que vende uma variedade de comidas populares.
Chuseok: originalmente conhecido como Hangawi, é um festival de colheita e um feriado de três dias na Coreia, celebrado no 15º dia do 8º mês do calendário lunar. Como muitos outros festivais de colheita, acontece por volta do equinócio de outono.
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