21. I've got scars even though they can't always be seen
"Eu tenho cicatrizes, mesmo que nem sempre elas possam ser vistas"
- One Direction (If I could fly)
sexta-feira, 12h24min
Era aula de Estudo sobre a Psicologia Infantil e o professor Jung estava a frente da turma finalizando os tópicos da última matéria dada em sala. Sohye, apesar de estar com cabeça fervilhando com um monte de outras coisas, se viu interessada no assunto. Ela sabia que a formação dela não a capacitava para resolver aquilo sozinha, mas os tempos de estudos fazia conseguir interpretar alguns comportamentos atípicos nas crianças. E com crianças, ela também se referia a Yuna.
Por mais que para a maioria das pessoas o ocorrido com a menina parecesse só uma pirraça ou a famosa "fase", Sohye analisou as anotações que fez das falas do professor. Os tópicos falando sobre pesadelos, dificuldade em disciplinas e comportamento agressivo, a fez querer dar um pouco mais de atenção ao assunto. Ela não se lembrava de Yuna ter passado por aquelas coisas antes, então de certa forma os novos acontecimentos se tornaram um alerta para Sohye. E com isso, acabou embarcando nos próprios pensamentos. Para a Kim, ainda era difícil separar o papel de tia e o de futura pedagoga, mas ela acreditava que era o dever dela levantar o tema na próxima reunião de professores, já que além de Yuna, outras crianças poderiam estar passando por aquilo também.
Quando o professor anunciou o fim da aula, ela juntou as coisas rapidamente e esperou os amigos se ajeitaram também. Aquela era a aula que Jungkook, Jimin e Hoseok também estavam, e os três na fileira de trás pareciam bem mais interessados em conversar sobre a matéria do que juntarem os materiais para ir para o almoço. Ela sorriu carinhosa ao observar a cena, porque sabia o quanto aquilo era complicado para o amigo. Sohye ficou feliz por vê-lo se sentindo confortável para conversar com pessoas além dela e Gaeul e não aparentar estar tão nervoso ou preocupado demais com o que falar. Se distraiu por alguns minutos pensando o quanto a presença dos novos integrantes no grupo, antes trio, estavam fazendo bem não só para ela, como para os dois. Ela se surpreendeu quando Gaeul virou o próprio celular na direção dela, a tela em um postagem do Instagram.
— O Tae que postou? — ela perguntou segurando o celular da amiga nas mãos, observando a selfie que os dois tinham tirado juntos no dia da festa na escola. Ela de Branca de Neve e ele com as orelhas de urso, ainda no lugar. Gaeul sorriu assentindo — Eu não vi... — ela comentou, sorrindo meio boba, fazendo a amiga rolar os olhos e rir da cara dela.
— Não viu porque parece uma mulher das cavernas e não usa internet. Ele postou no domingo a noite, mas como você não comentou nada, imaginei que não tivesse visto. — Gaeul não perdeu a chance de zoar ela — Meu Deus, Sohye! Para de ficar sorrindo desse jeito, parece que você tem algum problema — ela tomou o celular da amiga e riu do bico que ela fez com os lábios.
— Ok, ok, parei. — Sohye falou e abraçou a Park que riu, voltando a atenção ao celular.
— Que isso, Kim Sohye? Carência? — Sohye fez careta para a amiga e se levantou, a fazendo fazer o mesmo enquanto ainda ria. Elas se uniram aos outros três, e seguiram juntos até o restaurante da faculdade para almoçar já que logo cada um seguiria para um caminho diferente.
16h35min
Ainda na escola, Sohye deixou Yuna sentada na cadeira do corredor jogando algum joguinho em seu celular e entrou na sala da diretora. A mulher a olhou com um sorriso educado e pediu que ela se sentasse enquanto terminava de digitar alguma coisa no computador. Ali Kim Sohye ficou esperando por quase 20 minutos.
Sohye não tinha intimidade com ela como tinha com Yejin, e se sentiu meio intrometida de ter tomado a decisão de ir direto a ela. Ela nem era contratada da escola, estava apenas fazendo um estágio. Era uma relação estritamente profissional e a maioria das coisas que ela tinha que resolver da faculdade, Yejin cuidava de levar até Choi caso fosse necessário. Porém, quando a Kim comentou com a professora de sua turma sobre o que a incomodava naquele dia, Yejin avisou que talvez devesse ela mesmo falar. Explicou a Sohye que já tinha comentado sobre as crianças precisarem de mais atenção psicológica ali e a diretora desconversou, dizendo que não havia tanta necessidade daquilo e que ela estava exagerando porque eram apenas crianças. Sohye sentiu vontade de insistir no assunto, mesmo que aquilo lhe resultasse em uma reclamação da diretora para o seu orientador na faculdade. Ao menos ela esperava que caso acontecesse, o senhor Jung entendesse a posição dela, já que era formado em Psicologia e havia sido exatamente a aula dele que lhe abriu os olhos.
A escola era ótima, mas educação infantil não se tratava apenas de infraestrutura e em transformar as crianças em robôs capazes de decorar fórmulas desde novas. Sohye acreditava que o ambiente escolar deveria ser a extensão do quintal de casa, a inserção da criança em uma nova sociedade, que não fosse a familiar. Era uma nova fase de aprendizado que era tão importante quanto a primeira. O lado emocional deveria ser tão trabalhado quanto o desenvolvimento físico, e Sohye e Yejin chegaram a decisão que talvez se outras pessoas comentassem o mesmo, a mulher mudasse de ideia e entendesse que o lado humano também deveria receber atenção.
17h35min
Sohye caminhava pela calçada de casa a passos firmes, equilibrando a própria mochila nas costas, a mochilinha de Yuna em uma das mãos e a própria menina no outro braço. A sobrinha tinha passado boa parte do intervalo sentada em um banco do pátio observando as outras crianças brincarem e mesmo com as tentativas de Daeho de a chamar para se juntar a eles, nem mesmo o melhor amigo tinha a feito mudar de ideia.
A mais velha abriu o portão de casa com dificuldade e suspirou cansada quando parou no hall de entrada. Elas não tinham saído no mesmo horário que Gaeul e consequentemente também não encontraram com Kim Taehyung naquele final de tarde. A decisão resultou em Kim Sohye estressada com a resposta nada interessada que recebeu da diretora da escola e nela carregando a criança durante o caminho todo com mais um monte de sacolas sem ninguém para ajudar.
Quando ela fez menção de colocar a sobrinha no sofá, ela envolveu um dos bracinhos ao redor do pescoço de Sohye a impedindo.
— Ei, o que foi? — Sohye perguntou. Yuna negou com a cabeça ainda escondida no ombro da tia. — Tudo bem, Yuyu — A Kim murmurou e se sentou no sofá, a garota se encolheu mais ainda em seu colo.
A respiração de Sohye acelerou e ao sentir as mãos tremerem, as fechou apertando as unhas nas palmas. Ela queria gritar de tão estressada que estava com aquela situação, mas, ao mesmo tempo, não sabia mais de onde tirar forças. Sohye teve vontade de chorar também, mas prendeu o choro, porque não queria fazer aquilo na frente da menina.
Era uma droga ver a criança daquele jeito enquanto se lembrava da voz da senhora Choi a dizendo que ela, Sohye, deveria aprender a diferenciar a posição dela como membro da família e a de professora. Ela ficou sem palavras para retrucar quando a mulher lhe sorriu e disse que até poderia pedir para a professora de Yuna prestar mais atenção nas crianças durante a aula, mas que a garota não deveria ter tratamento diferente só porque a tia trabalhava ali. Acrescentou que não era papel da escola se intrometer em problemas que deveriam ser tratados pela família e que quem deveria se preocupar com a menina era Song Sunhee e Kim Seokjin, não ela que era somente tia. Quando achou que não ouviria mais nada, a mulher completou dizendo que seria bom Sohye aprender logo a separar as coisas se quisesse continuar o estágio e terminá-lo com boas indicações dela.
Sorriu irritada consigo mesmo ao lembrar do sorriso com ar de deboche, que recebeu. Do que valia aquele discurso que ela ouviu e ainda ouvia na faculdade, de que o papel do pedagogo era justamente ajudar no desenvolvimento saudável da criança? Não era sobre a sobrinha ter tratamento diferenciado porque ela trabalhava ali, era sobre ela, como aluna da escola, também ter o direito de ter atenção como todas as outras crianças também deveriam ter.
Sohye sabia que a criação de Yuna não dizia respeito a ela, mas se ela tinha a oportunidade de ver a situação pelos dois lados, por que não poderia os alertar? Era mais aceitável que ela ficasse calada sobre aquilo, então? Sabia o quanto Seokjin se esforçava e o quanto Sunhee se culpava por não conseguir estar tão presente quanto queria na vida da filha, mas sabia também que Yuna talvez precisasse de uma atenção que só um especialista poderia dar. Sohye supôs que seria mais coerente a escola conversar com os dois sobre aquilo e que quanto mais rápido aquilo fosse resolvido, melhor as coisas voltariam ao habitual.
Com certo custo, ela conseguiu convencer a sobrinha a tomar banho e assim que o irmão chegou em casa e seguiu até a cozinha para preparar o jantar, a menina foi atrás dele, dando a Sohye um tempo de descanso.
•
Embaixo da água quente, Kim Sohye massageou os próprios ombros lavando o resquício de sabonete que ainda havia ali. Ela se sentia péssima, porque não conseguia ver sentido em se dedicar tanto a profissão se no final teria que dividir o cargo com pessoas que pensavam como a diretora Choi. Ela não queria ignorar nenhuma parte dos 5 anos dedicados ao estudo da Pedagogia, não queria jogar todas as aulas de Psicologia e de Desenvolvimento Infantil no lixo e repetir o discurso de que não era papel da escola se envolver naquelas questões. Claro que era papel da escola alertar os pais se percebessem que havia algum comportamento atípico na criança! Aquilo não se tratava apenas de "não se meter em assunto familiar", era sobre a saúde mental da próxima geração.
Ela foi até o quarto e enquanto passava o creme hidratante no rosto, encarou o próprio reflexo em frente ao espelho. O cansaço da semana, resultantes de noites mal dormidas e esforço excessivo, voltavam a tomar conta do rosto de Sohye e ela, que antes ficava assustada com o pensamento sobre terminar a faculdade e ter que se acostumar com uma nova rotina, começava a se perguntar como seria quando ela enfim terminasse o curso. Se deitou na cama e fechou os olhos, sentindo o corpo todo dolorido, cogitou a possibilidade de tomar um analgésico, ou algum chá. Mas nem precisou, porque logo foi vencida pelo cansaço e pegou no sono.
Sohye abriu os olhos um tempo depois, quando sentiu o celular vibrar ao seu lado na cama. Ela se endireitou e o pegou vendo que haviam mensagens de Gaeul perguntando sobre como tinha sido o tal encontro com a diretora. Diretora essa que a Park não ia muito com a cara, então as mensagens da amiga não eram frases tão bonitas de se repetir.
Sohye, que sempre tentava apaziguar as reclamações dela em relação a chefe, não mediu palavras no áudio de quase 5 minutos reclamando da mulher. Ela precisava desabafar com alguém e não tinha ninguém melhor para falar sobre aquele assunto, do que Gaeul.
Deixou o aparelho de lado e se encolheu na cama, encarando a parede contrária. Esperar até mais tarde para falar com a diretora da escola tinha mexido um pouco com a organização do resto do seu dia, e por mais que ela tivesse planejado tentar estudar um pouco mais, o cansaço falou mais alto. O corpo pedia para que ela ficasse mais um tempo deitada ali, sem fazer nada, e sem conseguir ir contra aquele pedido, assim o fez.
Fechou os olhos e respirou fundo, tentando esquecer um pouco de todos os problemas daquele dia. Tentou se concentrar apenas no silêncio do seu quarto, mas o cérebro insistiu em continuar com todas aquelas perguntas e em como ela deveria lidar com elas. Sohye ouviu o celular vibrar mais uma vez e acreditou que era a amiga a respondendo, mas logo pegou o aparelho e viu "Kim" escrito na tela. Ela sorriu lembrando da foto que Gaeul tinha lhe mostrado e atendeu a ligação.
— Soso? — ela escutou ele chamar do outro lado e sorriu mais uma vez. Parecia que tinha um século que não ouvia a voz do garoto e ela fechou os olhos rapidinho, aproveitando a sensação.
— Oi, Tae — ela respondeu, mordendo os lábios inferiores depois. O coração bateu acelerado, mas daquela vez foi diferente e ela sabia que era por felicidade ao ouvir a voz do rapaz e não por desespero ou estresse. Taehyung sorriu do outro lado da ligação, ficando mais tranquilo dela ter atendido.
— Me atrapalhei todo hoje, não consegui nem mandar mensagem. — ele explicou, meio sem graça, ajeitando os óculos.
— Está tudo bem, não se preocupa. Eu iria te ligar, mas acabei me enrolando também — ela se ajeitou abraçando um travesseiro, fechando os olhos — E você? Como foi seu dia?
— Guiar grupos de crianças é muito mais complicado, mas eu consegui dar meu jeito e ninguém quebrou nada. — eles riram. — Você está chateada com o que rolou segunda na frente da cafeteria? — ele perguntou meio do nada, fazendo Sohye sorrir ao se lembrar.
— O que rolou na frente da cafeteria? — ela perguntou se fazendo de boba. Taehyung reclamou e ela riu — Não estou chateada, Tae. Nunca imaginei um pedido assim, mas gostei — ela sorriu. Na verdade, não tinha imaginado que existiria um pedido formal, já que tinham provas suficientes de que estavam juntos. Mas aquele era Taehyung: ele parecia não cansar de a surpreender.
— Você ficou quieta logo depois... — ele comentou, pressionando os lábios em uma linha. Ela se sentiu sem jeito, não achou que ele havia percebido a mudança de humor. O garoto só não sabia da confusão que estava a cabeça dela e Sohye também não sabia como explicar.
— Não foi por isso, Tae. Não se preocupa, não é nada com você. — ela suspirou baixinho. Conversar com ele era sempre tão leve, então não queria quebrar a energia com os problemas que a incomodavam — Estou com saudades. Amanhã você não trabalha, não é? — ela mudou de assunto e ele confirmou a informação — Podemos nos ver?
— Podemos. Mas não vai poder ser aqui em casa. Jimin já me deu a ordem de despejo — ele reclamou, fazendo drama.
— Por quê? Vocês brigaram? — Sohye perguntou um pouco surpresa.
— Ele decretou que amanhã o apartamento é só dele. — Sohye não precisava estar perto para saber a cara exagerada que ele fazia e sorriu. — Chamou Jungkook para jogar videogame e aparentemente eu não posso estar em casa na hora. Ele não veio para casa no dia que você estava aqui porque não quis, eu hein — ela riu com a reclamação do garoto.
— Amor, não acho que a questão seja o fato de jogar videogame, sabe? — Sohye falou risonha, deitando de barriga pra cima — Eu até entendo o porquê de Jimin não querer você aí. Eu fiquei sem graça quando dei de cara com ele, o Kookie vai ficar mega nervoso se te ver por perto também.
— Amor? — Taehyung perguntou, ignorando o resto da frase da menina, meio surpreso, mas sorrindo. Sohye abriu os olhos repentinamente e encarou o teto, sentindo as bochechas esquentarem com o que tinha falado. — Soso? — ele chamou depois da menina ficar em silêncio.
— Arg — ela resmungou, enfiando o rosto no travesseiro. Taehyung riu do outro lado, imaginando a cena.
— Estou lisonjeado de ser chamado assim por você — ele falou, fazendo graça.
— Chato — Sohye resmungou. — Preciso desligar, tá? Vou tentar adiantar algumas coisas aqui para ficar livre amanhã. — explicou.
— Tudo bem, mas descansa também, Soso. Nos vemos amanhã. — ele se despediu.
A Kim levou algum tempo, sentada na cama, encarando as paredes, ainda sem coragem de se levantar e seguir até o outro andar da casa. Quando conseguiu, desceu da cama e saiu do quarto, decidida a acabar logo com aquilo.
Eram quase 20h quando ela guardou a vassoura no armário da lavanderia e pegou as últimas roupas limpas da secadora, as organizando em uma pilha para levar ao quarto do irmão. A porta estava entreaberta e de longe o viu sentado à frente do computador, com Yuna no colo rindo de alguma coisa que viu na tela. Ela moveu a mão para chamar atenção dele e assim que ele olhou, apontou para a pilha de roupas dobradas.
— Hm, oi, pode deixar aí — ele falou, meio atrapalhado e olhando para os lados. Sohye o encarou, sem entender muito bem, mas era Jin, nem sempre ela entendia o que o irmão fazia.
— Vou colocar em cima da cama, ok? — ela sussurrou, não querendo atrapalhar o tempo dele com a filha. Ele assentiu, voltando a olhar para a tela, piscando os olhos rapidamente, aparentando estar nervoso. Ele procurou o fone de ouvido pela mesa, para o conectar no computador, mas não o encontrou. Tentou desligar a câmera, mas bendita foi a hora que ele aceitou mover o teclado de lugar para Yuna colocar o coala de pelúcia na frente do monitor.
— Tia Soso, você estava dormindo? — ela ouviu a sobrinha perguntar, enquanto colocava as roupas sobre a cama. Jin fez careta, olhando da tela do computador para a irmã, sem saber o que fazer.
— Só cochilei, Yuyu — ela respondeu carinhosa, seguindo para a saída do quarto rapidamente.
— Sohye? — a Kim teve o nome chamado por alguém do outro lado da chamada de video. Ela parou de andar, olhando por impulso na direção do som. Sentiu o corpo inteiro gelar ao ver a mulher no monitor de computador a olhando com expectativa.
Com os cabelos mais curtos, na altura dos ombros, e os cachos mais controlados do que ela se lembrava, mas com os mesmos olhos castanhos esverdeados que Sohye via toda vez que se olhava no espelho.
Sim, era ela.
Era Haydée.
sábado
Sohye rolou na cama a noite inteira, e mesmo quando o sol se posicionou no alto do céu, a mulher ainda não tinha pregado os olhos. Ela, que acreditou que enfim conseguiria descansar da semana conturbada, tinha a terminado de forma ainda mais conturbada do que poderia esperar.
Ela se levantou e foi até uma das prateleiras do quarto. Embaixo de alguns livros havia uma caixa, e de dentro dela, tirou o porta retrato que há alguns anos teve lugar fixo em sua mesa de cabeceira. Sohye se sentou no chão, próxima à cama e encarou a foto. Durante muito tempo supôs que não derramaria mais nenhuma lágrima pela mãe, mas quase se engasgou com o próprio choro durante a última madrugada e agora lá estava ela novamente as sentindo sair e rolar por suas bochechas.
Encarou o papel com a mulher de roupas coloridas e sorriso apaixonante, abraçando a menininha em seu colo com a mesma expressão que a dela. A garota tinha os cabelos castanhos claros repartidos em maria chiquinhas e tinha a mãozinha enrolando uma das mechas longas do cabelo da mãe. Sohye era mais parecida com o pai, mas ninguém, nem ela mesma, poderia negar que os olhos e o sorriso eram iguais ao de Haydée.
Ela tinha passado todos aqueles anos se negando a acreditar que sentia falta da mãe, acreditando que estava melhor daquela maneira, mas no momento em que a viu no monitor, foi como se toda a crença tivesse desmoronado e virado pó. Naquele instante, aceitou que sentia falta das conversas descontraídas e da alegria que a mulher parecia causar em qualquer lugar em que estivesse. Sentia falta das tardes de domingo em que eles passavam juntos, sentia falta das conversas que fluíam naturalmente como se fossem melhores amigas da mesma idade e não mãe e filha com anos de diferença entre elas.
Por mais que tivesse virado o rosto e saído do quarto do irmão, ter jantando com ele e a sobrinha fingindo que nada tinha acontecido, quando deu boa noite e encostou a porta do quarto, Sohye desandou a chorar. Ela queria contar para mãe sobre a faculdade, queria pedir conselhos sobre a situação com Yuna e reclamar do pouco caso da diretora da escola. Queria contar de Kim Taehyung e do quanto o queria por perto porque o rapaz a fazia bem. Ela sentia falta de poder correr para o colo da mãe quando as coisas não saiam como ela tinha planejado, e sentia falta também de compartilhar quando elas davam certo.
Quando conseguiu se acalmar, secou as bochechas com as costas das mãos e pegou o celular. Pela hora, Jin já deveria ter saído para trabalhar há bastante tempo e Yuna já deveria estar na casa de Sunhee há mais tempo ainda. Ela respirou fundo e se levantou. Queria ter conseguido terminar as atividades das crianças para a próxima semana no dia anterior, depois do jantar, mas se viu completamente sem condição de fazer aquilo depois do que aconteceu.
Sohye caminhou devagar até o banheiro e ao lavar o rosto, o encarou no espelho. Os olhos inchados e vermelhos deixavam claro que ela tinha chorado a noite inteira, e torceu para que aquilo tivesse sumido até a hora de Taehyung chegar. Não queria preocupar o garoto com problemas que estavam mal resolvidos antes mesmo deles se conhecerem. Ela voltou ao quarto, pegou o notebook e a sacola com os papéis coloridos indo para a sala de estar. Sentou-se na mesa de centro e começou a ver o que tinha de atividade para preparar para a semana seguinte.
•
A Kim passava hidratante no rosto em frente ao espelho, preocupada se ele ainda estava inchado o suficiente para alguém notar. Quando ouviu a campainha de casa tocar, foi até a janela do quarto e arregalou os olhos ao ver Taehyung parado no portão. Ela tirou a toalha dos ombros e a largou sobre a cômoda. Tentou ajeitar o cabelo mais uma vez, enquanto descia as escadas apressadamente. Sohye calçou os primeiros sapatos que viu no hall e logo estava no portão da frente o destrancando.
O dia estava mais quente que os anteriores e ela não estranhou ao ver o namorado parado ali com roupas casuais e boné para trás, mexendo no celular. Mesmo que tenha estranhado o fato dela mesma se referir a Taehyung como namorado, talvez pela primeira vez. Ele sorriu ao vê-la, mas fez cara de confuso e se aproximou levando a mão a bochecha dela e espalhando um pouco de creme que ainda tinha ali. Sohye rolou os olhos e ele sorriu a olhando de novo.
— Tudo bem? — Taehyung perguntou. Ela forçou um sorriso e assentiu. — Mesmo? — ele insistiu e ela balançou a cabeça mais duas vezes e o abraçou. Taehyung achou aquilo fofo e a abraçou de volta. Ele tinha notado que os olhos dela estavam meio inchados, parecendo ter chorado, mas ficou sem jeito de perguntar sobre.
— Pensei que viria de metrô e demoraria mais tempo para chegar. — Sohye resmungou contra o peito dele.
— Eu moro do outro lado da cidade, se viesse de metrô chegaria amanhã, Sohye — ele brincou de volta a fazendo rir.
— Pelo menos eu terminaria de arrumar — ela fez careta para ele e o puxou para dentro, fechando o portão depois.
— Seu irmão está em casa? — ele perguntou, o olhar apreensivo. Sohye balançou a cabeça negativamente.
— Você namora comigo ou com o meu irmão? — ela o encarou, fingindo estar sem paciência.
— Então eu posso escolher? — Taehyung arregalou os olhos. Sohye abriu a boca sem esperar aquilo.
— Ah, então você quer escolher? Ok, fica a vontade! — ela levantou as mãos fingindo desistir e ele sorriu a abraçando pela cintura.
— Seu irmão é incrível, porém meu coração foi roubado por outra Kim. — ele se justificou, falando baixinho, e Sohye o olhou prendendo o riso.
— Nossa Taehyung, que brega — ela o provocou. Ele riu.
— Você achou brega, amor? — ele retrucou, trazendo de volta o assunto do dia anterior. Sohye desmoronou da banca de durona e sorriu envergonhada. Ela lhe deu um soquinho de leve no braço. — Ganhei? — ele perguntou e ela rolou os olhos, sentindo as bochechas esquentarem. Taehyung colocou uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e ela sorriu o olhando. Era como se constantemente ela se apaixonasse mais um pouco por ele toda vez que se olhavam nos olhos tão de pertinho.
Apesar do sentimento bom daquele momento, foi como se um sinal lá de dentro, apitasse e a fizesse se questionar se Taehyung não seria só mais uma pessoa que a encheria de memórias boas e depois iria embora as largando sozinha com elas. Sohye não queria criar expectativas altas demais, mas ela estava se vendo tão envolvida com a presença dele em sua vida, que a preocupação começou a aparecer. Ela tinha histórico de complicar as coisas e se perguntou se toda a dificuldade de confiar nas pessoas, resultaria nela mesma transformando o que eles sentiam em só mais algum tópico de sua rotina, só mais alguma coisa que com o tempo ela repetiria no automático e não daria a devida importância.
Ele sorriu e fez carinho nas costas da mão dela, o que a fez morder os lábios inferiores e olhar o quão eram diferentes, mas o quanto elas pareciam tão seguras uma na outra. Sohye teve a impressão que talvez ele tivesse entendido que ali estava ela, mais uma vez, pensando demais no futuro.
Do outro lado, Taehyung queria poder a dizer que o máximo que eles poderiam fazer sobre, era não permitir que o que estavam vivendo juntos se tornasse só mais alguma coisa passageira na vida dos dois. Queria que Sohye se permitisse viver aquele momento e não ficasse criando teorias com o que ainda estava para acontecer e não tinha como planejar. Ele sabia que é pensando no futuro, que o presente se torna passado sem nem perceber.
Ele, que nunca era bom com palavras preferiu não arriscar se utilizar delas para demonstrar o quanto ter Sohye em seu presente, estava se tornando especial para ele. Deu um beijinho na ponta do nariz dela o que a fez rir com o gesto. Sohye se colocou na ponta dos pés, encostando a mão no ombro dele para se equilibrar, encostou os lábios nos dele e Taehyung a abraçou pela cintura, aprofundando o beijo, também sentindo o próprio coração bater forte no peito. Não era nada como querer que durasse para sempre, talvez até fossem novos demais para pensar daquela maneira, mas o clichê "que seja infinito enquanto dure", parecia se encaixar melhor na história dos dois.
Sohye arrastou o garoto para dentro da casa, o puxando até seu quarto. O ambiente era novo para Taehyung e ele por pouco não travou na porta, se lembrando da conversa com Seokjin. A famosa conversa que Sohye se perguntava quando era que o namorado iria deixar de lado e entender que era só brincadeira do irmão. Ela foi até a toalha que tinha largado por ali e a pegou, falando para ele ficar à vontade e que ela logo voltava. Enquanto Sohye desceu as escadas, ele se sentou na cama e observou o quarto dela, sorrindo com ele mesmo, ao perceber que as paredes eram amarelas. A cor que o fazia se lembrar da garota, por conta de toda a energia que ela parecia ter, mesmo quando estava cansada. Ele olhou a escrivaninha organizada, que ele não fazia ideia que vivia bagunçada boa parte do tempo e só estava daquele jeito por conta da presença dele, as prateleiras repletas de livros que pegavam uma parede de uma ponta a outra e a parede para giz, tomada de desenhos e frases escritas nela. Ele teve vontade de desenhar ali também, mas se conteve, porque poderia ser sem educação o fazer sem a presença da dona do quarto.
Taehyung encarou o guarda-roupas e engoliu seco. Se lembrou do que Yuna havia falado, sobre o tal segredo que havia ali e empurrou os óculos para perto dos olhos. Se sentou melhor na cama, tentando desviar o assunto dos pensamentos, e os olhos bateram no porta retrato deitado sobre a mesa de cabeceira. Ele olhou curioso para a foto, já que a menina parecia muito com Yuna, mas os cabelos pareciam um tom mais claro que a da garotinha. Sohye ultrapassou a porta no mesmo instante, com um pacote de jujubas na mão. Ela sentou-se ao seu lado mastigando e direcionou a embalagem a ele, o oferecendo o doce também.
— Doce faz mal para os dentes, tia Sohye — Taehyung falou, mas aceitou. — No sábado passado eu era um deles, e hoje olha o que eu estou fazendo — ele segurou um dos ursinhos coloridos na frente do rosto e a fez rir. — Você adora isso, não é? — perguntou observando ela comer o doce feliz da vida, como se fosse uma criança.
— Culpa do Jin — ela justificou. — Desde criança que ele me dá isso quando eu fico mal ou muito preocupada com alguma coisa — Sohye falou. Jogou mais uma jujuba na boca para disfarçar quando notou que tinha falado demais e Taehyung fingiu não perceber. — Na verdade, eu como isso toda hora. É um péssimo hábito alimentar, eu sei.
— Eu pensei que eu estava doido, já que toda vez que nós nos beijamos eu sinto gosto de tutti-frutti — Sohye gargalhou alto com a cara que ele fez.
— Meu beijo tem gosto de frutas, é? — fechou os olhos fazendo bico e Taehyung a olhou sorrindo, antes de puxar o pacote do doce da mão dela e se jogar na cama por cima dele. — Ah não, me devolve! — Sohye reclamou, deitando por cima dele tentando pegar.
— O que eu ganho em troca? — ele se virou para ela, enquanto a garota se sentava para o olhar.
— Nada, porque é meu — ele arqueou a sobrancelha, surpreso com a resposta. Ela tentou pegar o doce e ele escondeu embaixo dele. — Você ganha a minha gratidão — ela tentou e ele fez careta se sentando, encostando na cabeceira da cama.
— Minha moeda são beijos, Sohye, não gratidão — ele tirou o boné e o colocou sobre a mesinha ali do lado. A Kim abriu a boca chocada, voltando a gargalhar.
— Que absurdo, Taehyung!
— Eu sou o próprio absurdo — ele arqueou uma das sobrancelhas e ajeitou os cabelos com as mãos, a expressão de convencido. Ela se aproximou rapidamente, lhe deu um beijo na bochecha e o olhou com expectativa.
— Você não especificou como queria o beijo. — ela falou, quando ele continuou a encarar sem mudar a feição. Bateu palmas e fez barulhinhos esquisitos, quando o garoto se deu por vencido e lhe devolveu o doce. Ele riu com o gesto, porque aquilo o fez se lembrar da sobrinha dela quando ganhou o livro de colorir.
— Eu não sei se você parece a Yuyu, ou se ela que é uma versão menor sua. — Sohye lhe deu língua. — Inclusive, é ela? — ele apontou para a foto na cabeceira. Sohye olhou na direção e por segundos ficou sem saber o que falar. Acabou murchando um pouquinho ao notar que esqueceu de colocar o objeto no lugar.
— Você achou parecida com a Yuna? — ele balançou a cabeça — Sou eu. — ela sorriu fraquinho. Taehyung abriu a boca em surpresa, olhando dela para a fotografia. — Meu cabelo escureceu bastante, mas o dela é ainda mais escuro, não sei porque você confundiu. — ela tentou falar em um tom brincalhão, mas tinha perdido a vibe. Ela deixou o pacote de doces de lado e se deitou ao seu lado, levantando o braço do garoto e se aconchegando ali. Taehyung pegou a foto na mão para olhar mais de perto.
— O seu olho é mais claro também — ele comentou, analisando melhor às duas pessoas ali. — É a sua mãe? — virou a foto para Sohye. Ela resmungou um "uhum", preocupada de desabafar de novo na frente dele. Taehyung continuou olhando a fotografia em silêncio, se lembrando que assim que conheceu Sohye, notou que ela tinha algumas características físicas que, mesmo discretas, indicavam que a garota tinha alguma descendência de fora da Coreia. Enquanto isso, Sohye fechou os olhos e apertou os lábios. Respirou fundo e o abraçou com mais força, quando percebeu que não demoraria muito para que voltasse a chorar. — Ela... — ele iniciou a pergunta, meio sem jeito, e ela o interrompeu sabendo que ele provavelmente estava se sentindo envergonhado de tocar no assunto.
— Não, Tae. Ela está bem. — ela adivinhou a pergunta, a voz começando a embargar. Os dois já estavam juntos há algum tempo, e Taehyung e Haydée nunca tinham se esbarrado desde que eles se conheceram, então era normal que um dia ou outro ele perguntasse sobre. — Do outro lado do mundo, mas bem. — ela forçou um sorriso, encarando a mulher da foto. Sohye sentiu as lágrimas encherem os olhos ao se lembrar da noite anterior. Kim Sohye odiava chorar, mas odiava mais ainda chorar na frente dos outros. Droga, Sohye!
— Desculpa, Soso. Eu não sabia que isso iria te deixar mal. — ele colocou a foto na mesa de cabeceira com pressa, se virando para a namorada. Taehyung passou os dedos compridos na bochecha da menina, secando as lágrimas, mas logo elas estavam molhadas de novo, já que Sohye não conseguiu mais prender o choro. Ela tentou desviar o rosto para longe do olhar dele, e soluçou. — Amor, o que foi? — perguntou, ficando mais preocupado ainda. Ela negou com a cabeça.
Taehyung a puxou para perto, fazendo carinho nas costas dela enquanto Sohye escondeu o rosto no peito dele. Ele nunca tinha a visto chorar, e a garota soluçava tão alto que ele ficou sem saber o que fazer. Se sentiu meio idiota de ter perguntado sobre a foto. Mesmo que ele não tivesse como saber que ela teria aquela reação já que eles nunca tinham conversado sobre, mas foi no mínimo distraído ao não parar para pensar. Se Sohye nunca tinha comentado nada mais específico sobre a mãe e ela estava viva, provavelmente havia alguma história por trás daquele silêncio. Ele decidiu não falar mais nada por enquanto, acreditando que o melhor no momento era deixar Sohye se livrar da angústia por meio do choro. O que ele podia fazer era deixar claro para a garota que ela podia contar com os braços dele ao redor caso ela precisasse de apoio.
— Eu não sou essa pessoa tão legal que você pensa que eu sou — ela resmungou, depois de algum tempo, ainda sem se afastar dele.
— Não é mesmo, você me deve uma camiseta nova — ele brincou mostrando a camiseta molhada de lágrimas e ela sorriu fraquinho. — Você não quer mesmo conversar sobre isso, Sohye? — ele perguntou, pela última vez. Se ela não quisesse mesmo falar, ele não insistiria mais porque imaginava o quão era complicado alguém te pressionar sobre um assunto tão delicado. Colocou o cabelo da garota atrás da orelha mais uma vez.
— Eu não acho que você precisa se incomodar com essas coisas, Tae — falou baixinho, envergonhada.
— Sohye, já te disse várias outras vezes e vou repetir enquanto for necessário. — ele manteve a mão sobre uma das bochechas dela e a olhou nos olhos — Eu estou aqui, porque eu quero. Eu gosto e me importo com você. Aceita isso, por favor? — ele praticamente implorou. Ela fungou mais uma vez. — Você ajuda todo mundo, porque não pode se permitir ser ajudada também? — ele perguntou a encarando. Ela respirou fundo, desviando o olhar do rosto do namorado.
— Eu acho que eu tentei arrumar a bagunça de todo mundo e esqueci de cuidar da minha própria. — falou baixinho, mas o suficiente para ele ouvir. Sohye se sentiu fraca ao falar aquilo. Taehyung continuou a olhando, a esperando — Eu não sei se estou pronta para te explicar tudo o que aconteceu, porque falar disso ainda me dói muito — ela parou por alguns segundos tomando coragem de continuar. — Sabe quando tudo parece estar dando errado, uma coisa atrás da outra, mas você precisa tomar decisões do mesmo jeito, porque o mundo não para de girar para te esperar se sentir melhor? — ele concordou, a olhando com carinho. — Isso aconteceu comigo há uns anos e hoje eu acho que naquele momento eu tomei a decisão errada. Apesar de me incomodar agora, não sei mais como consertar isso. — ela desabafou. — Tem 7 anos que eu não falo com ela, Tae. Pensei que estava bem lidando com essa distância, mas nesses últimos dias eu não sei o que houve eu só consigo pensar se ainda existe alguma forma de ajeitar isso. — ela suspirou.
— Você sente falta dela? — Taehyung perguntou, no mesmo tom que ela estava falando. Sohye apertou os lábios com força e assentiu, sentindo os olhos transbordarem mais uma vez, o sentimento de fraqueza lhe atingindo com tudo. — Já tentou falar com ela? — ela balançou a cabeça, negando. — Por quê?
— Orgulho, birra, medo... eu não sei — contou, secando as próprias lágrimas. — Eu só não sei como voltar a falar, não dá para fingir que nada aconteceu nesse tempo todo. Eu não sei mais quem ela é. Não sei se ainda quer falar comigo e nem consigo imaginar como vai ser, caso queira.
— Não tem como adivinhar isso, Sohye. Não dá para planejar essas coisas — ele mexeu em uma das ondas que se formavam no cabelo dela. — Ela não tentou falar com você nenhuma vez nesses anos? — o rapaz perguntou com cuidado, não querendo parecer intrometido demais.
— Tentou — ela sorriu triste. — Várias vezes, mas eu não quis falar com ela em nenhuma delas, então eu acho que ela simplesmente desistiu de tentar. E eu a entendo ter desistido.
— Ou ela percebeu que era melhor esperar o seu tempo, Sohye — Taehyung falou, segurando a mão dela e fazendo carinho na palma com o próprio polegar. — Eu não sei o que aconteceu para vocês pararem de se falar, mas eu sei o que é se afastar de alguém que você considera importante — ele confessou à namorada. — Meu pai sempre foi o meu herói, e eu nunca imaginei que ele fosse ficar tão chateado comigo ao ponto de sair dos lugares quando eu chego ou me ignorar e me deixar falando sozinho — ele pareceu desanimado. — Acho que eu nunca chorei tanto na minha vida, como quando eu vi o olhar de decepção dele e sabia que eu era o motivo. — ele sentiu os olhos arderem. — Mesmo assim, insisti em tentar falar mais uma vez, porque achei que talvez conseguisse o fazer mudar de ideia. Mas nenhum dos dois colocou o orgulho de lado e as coisas só pioraram — ele sorriu fraco para ela, dessa vez foi Sohye quem secou as lágrimas que desceram no rosto do rapaz. — Eu percebi que às vezes não adianta teimar em falar com alguém que não está disposto a te ouvir naquele momento, Kim Sohye. E com isso, achei melhor esperar ele me procurar quando quisesse. Porque não adiantava eu estar interessado em resolver a situação se ele também não estivesse — ela o observou, com o olhar atencioso.
— E ele te procurou? — perguntou curiosa.
— Não — ele riu, passando as mãos nas bochechas, nada surpreso por também estar chorando. — Mas eu acredito que em algum momento a ficha dele vai cair, assim como a minha caiu — Taehyung tirou os óculos, passou a mão nos olhos e os colocou novamente no local. — A sua pode ter levado 7 anos, mas você também percebeu que não dava para continuar desse jeito — ela concordou, o entendendo. — Pode ser que sua mãe tenha entendido que era melhor te esperar perceber isso sozinha, como eu pensei em relação ao meu pai. Ou não. Não sei. Eu espero que tenha, pelo menos... — ele falou fazendo cara de confuso e arrancando um risinho da namorada. Ele a beijou na bochecha. — Eu sei que você tem a Gaeul e o Jungkook e talvez tenha mais intimidade com eles para falar disso, mas se por algum motivo você se sentir à vontade para conversar comigo, pode ter certeza que eu vou estar aqui para te ouvir. — ela balançou a cabeça, aceitando o ombro dele para chorar quando precisasse. Sohye respirou fundo e manteve os pulmões cheios de ar por alguns segundos, tentando assimilar o que ele tinha dito. Realmente era possível que Haydée tivesse chegado àquela conclusão, senão ela não iria ter a chamado daquela forma quando a viu pela video chamada, na noite anterior.
— Obrigada, Tae — ela falou baixinho, sorrindo um pouquinho mais animada. Ela queria o agradecer de um jeito melhor, mas não conseguia pensar em nada para o dizer e só o abraçou forte, enfiando o rosto no pescoço dele e respirando do perfume do Kim.
— Fui tentar te ajudar e acabei chorando mais do que você. — ele sussurrou, a abraçando de volta, beijando-lhe os cabelos. Ela afastou o rosto para o olhar e balançou a cabeça. — Eu sei, você chorou bem mais. Não tem nem comparação. — ele brincou a tirando mais um sorriso.
Sohye o olhou com carinho por algum tempo, depois levou mão com cuidado até seu rosto, deslizando os dedos por ele. Ele fechou os olhos e sorriu, sentindo o toque delicado dela explorando cada centímetro de seu rosto. A Kim, que não acreditava em destino, olhava para o garoto e começava a se questionar sobre suas crenças. Ter Taehyung naquele momento parecia ser algo muito fascinante para não ter sido predestinado a acontecer. Ela parou o movimento, posicionando sua mão na lateral do rosto dele e ele abriu os olhos para a olhar. Se inclinou para perto dela, e a segurou pela bochecha gentilmente, a beijando suavemente nos lábios. Sohye sorriu antes de retribuir o beijo. Ela sentiu a dúvida de como seria o futuro, se desfazer em uma, duas, três palavras. Três palavras que queria conseguir proferir a ele, mas talvez ainda não estivesse pronta para as dizer em voz alta.
Tinha conseguido explicar ao garoto que não estava completamente bem, mas que eram por outros motivos e não por algo que ele fez. Estava mais tranquila de ter o feito, sem se aprofundar no assunto ao ponto dela se sentir pior. Conversar com Taehyung a fez perceber que ela também tinha uma parcela de culpa naquela história, e aceita-la era melhor que fingir ser inocente, sabendo que não era.
Não ter falado sobre o pai, a fez analisar a situação de maneira mais lógica, já que pensar sobre a partida dele a deixava completamente sem chão. Coisa que ela sabia que se falasse com Jungkook ou com Jin, não iria acontecer, porque eles viram e viveram o momento e não adiantaria ela tentar esconder parte alguma. Gaeul, que não estava em sua vida naquela época, provavelmente ficaria preocupada e a encheria de perguntas. Sohye acabaria falando tudo, porque ela não conseguia camuflar nada para a melhor amiga.
Não era que ela confiasse mais em um ou outro, mas sim porque tinha relações diferentes com cada um deles. Talvez o fato dele ser novo ali, a fez se sentir mais tranquila de omitir, por enquanto, alguns tópicos da história que ela mesma ainda não estava preparada para lidar. Estava tudo bem ela não querer compartilhar certas coisas com ele ainda. O momento chegaria e Sohye não precisava se precipitar para aquilo. Eles teriam outras oportunidades para conversar mais sobre e Sohye se sentiu bem por ter começado a se abrir com ele. Pelo menos aquela sensação de estar escondendo algo, passaria, e seria menos um problema para ela ter que gastar energia pensando.
Eles ficaram um tempo deitados em silêncio, ainda abraçados um no outro com Taehyung mexendo no cabelo da garota enquanto sussurrava algumas músicas. Até cantou algumas com ele e ria sempre que ele tentava um jeito de enfiar o nome dela, nas letras, resultando em estrofes que não combinavam em nada. Ela se aconchegou mais ainda no abraço dele quando Taehyung a beijou no alto da cabeça e eles decidiram aproveitar aquele tempo um com o outro.
Depois de algum tempo ali, Sohye se sentou, encostando as costas na cabeceira da cama. Pegou o celular, se lembrando da foto que eles tiraram no dia da festa. A mesma que Gaeul a mostrou no dia anterior. Ela sentiu o garoto se ajeitar ao seu lado, deitando a cabeça em seu colo, também observando a foto. Ela bateu o dedo na tela curtindo a postagem.
— A Ga me mostrou ontem — ela o olhou e sorriu. — Estou lisonjeada por ser primeiro rosto aqui — ele sorriu, feliz por ver que ela parecia melhor. — Você não gosta de fotografar pessoas? — ela perguntou confusa, ao observar as fotos de paisagens e construções no perfil dele, mais uma vez. Taehyung abriu a boca para responder, mas pareceu um pouquinho incomodado ou sem saber o que falar. Sohye percebeu. — Tudo bem, não precisa falar. — fez carinho no ombro dele e ele ajeitou os óculos, sem jeito.
— Não é nada de mais — ele falou, o sorriso envergonhado. — Me incomoda não saber se consegui capturar o sentimento da pessoa no momento em que tirei a foto. Pode ser exagerado, mas o medo de alguém olhar e interpretar o sentimento errado me incomoda. — Sohye o olhou curiosa, pensando o quanto a maneira dele enxergar as coisas, parecia tão única. Ela só tirava foto e pronto.
— Não é exagerado, Tae. É o seu jeitinho de enxergar fotografia. — mexeu no cabelo dele — Eu não sei nada sobre isso, mas na minha humilde opinião — Taehyung a olhou curioso —, acho que você consegue sim capturar o sentimento. Ninguém pode duvidar que estávamos felizes aqui — ela comentou, olhando para tela do celular.
— Eu sei — concordou. — Pela primeira vez não me importei com o que poderiam interpretar dela. Não me importa o que vão achar e sim o que nós realmente sentimos aí. — ele explicou. Sohye sorriu meio boba.
— Droga — ela resmungou voltando a o abraçar — Você é muito fofo. — Taehyung riu, quando Sohye encostou o rosto no cabelo dele.
— Ei, você está melhor? — ele perguntou, se sentando. Sohye concordou e deixou escapar o sorriso favorito de Taehyung. De olhos quase fechados e bochechas salientes. Ela realmente estava melhor e os créditos iam para ele daquela vez.
19h35min
— Isso é uma cabeça de cachorro? — Sohye observou Taehyung cortar os papéis coloridos. Eles estavam sentados na sala de estar, o celular do rapaz em algum vídeo que ensinava a fazer Origami. Ela queria ensinar as crianças a fazer as dobraduras mais fáceis na próxima semana e tinha decidido praticar algumas antes de fazer na sala. Ele quis tentar, porém, Taehyung já tinha feito mais de 10 animais e não parecia satisfeito com nenhum deles. Aquilo estava levando um tempão e Sohye já estava impaciente.
— Sohye, você não está entendendo a ideia que o artista quer passar. — ele falou, ainda concentrado no papel. Ela encarou o papel amarelo que ele mexia e tentou enxergar um cachorro ali. Sem sucesso, sorriu ajeitando o cabelo dele por baixo do boné. Continuou o encarando, esperando que Taehyung a olhasse de volta, mas ele pareceu não notar. Sohye bufou e o abraçou, encostando o rosto nas costas dele.
— Estou morrendo de saudades de você, será que você pode terminar isso aí depois? — ela resmungou inquieta, o beijando no pescoço.
— Nós estamos na sala da sua casa, Sohye — ele falou, olhando para a moça no vídeo ensinando como dobrar uma das pernas da girafa que ele fazia. Pois é, não era um cachorro.
— E só tem nós dois aqui — ela o abraçou mais forte. Taehyung quase suspirou, mesmo que logo depois tenha fingido que não.
— Você quer me colocar em um problemão, não é? — ele sussurrou, meio rindo. — Se seu irmão nos pega aqui, ele me bate igual massa de bolo — falou.
— Ele não vai chegar agora — Sohye o beijou no maxilar. — Podemos ir para o meu quarto...
— Kim Sohye... — ele resmungou.
— Kim Taehyung... — ela arqueou a sobrancelha, como quem o perguntava se tinha ido longe demais. — Você não quer?
— Claro que eu quero — ele riu meio atrapalhado. Com o consentimento, a garota enfiou a mão embaixo da camiseta dele — Sohye...
— O quê? — perguntou. Subiu as mãos da barriga para o peitoral, o que o fez fechar os olhos e falar alguma coisa sem sentido. Ela sorriu ao ver o efeito que causava no garoto. Eles ouviram o barulho do portão sendo aberto.
— Sohye, pelo amor, tem alguém chegando — ele falou, preocupado. Ao ouvirem a porta da casa ser aberta, Taehyung arregalou os olhos — Solta, solta — ele cutucou o braço dela e a garota deu um último beijinho na bochecha dele antes de desfazer o abraço. Sohye não conseguiu disfarçar o riso ao ver o desespero do namorado e ele a olhou de cara feia.
— Jin? — ela chamou, ouvindo o irmão, que já subia as escadas para o outro andar, voltar. Taehyung a encarou como quem perguntava o que ela estava fazendo.
— 'To atrasado. Depois falo com vocês. Oi, Taeyeon! — ele falou colocando o rosto na entrada da sala rapidamente, voltando logo depois a subir as escadas com pressa.
— Ele ainda não sabe meu nome? — Taehyung perguntou fazendo careta.
— Ele chamou a Gaeul de Goeun por quase 2 anos, não é pessoal. Você ainda vai ser Taeyeon por um bom tempo, é melhor se acostumar. — explicou. Ele assentiu, depois se concentrando na própria respiração descompensado. Sohye riu ao ver namorado respirar atrapalhado. — 'Tá tudo bem, aí? — ela provocou. Taehyung a olhou descrente.
— Não vou nem responder isso, ok? — ele sussurrou, depois de ter certeza que Jin não estava mais por perto.
— Ok. — ela sussurrou de volta se aproximando lentamente dele, enquanto mordia os lábios. Ele olhou nervoso em direção as escadas e desviou de Sohye voltando a mexer nos papéis da mesa. Ela riu se juntando a ele depois.
•
— Você vai dormir aqui hoje, Taeyeon? — Jin perguntou, aparecendo na sala já arrumado para sair, fechando uma corrente no pulso. Taehyung e Sohye ainda dobravam os papéis coloridos e se viraram para o olhar.
— Vai — Sohye respondeu antes que o namorado abrisse a boca, querendo ver qual seria a reação de Seokjin. Taehyung a olhou de cara feia, com medo do que Jin falaria. Os dois ficaram chocados quando ele apenas apertou o ombro do garoto e fez sinal de positivo com a outra mão. Para fechar com chave de ouro, só faltou ele soltar um "fighting!", mas ao invés disso, seguiu até o hall.
— Sohye, chega aqui! — gritou a irmã do outro cômodo. Ela fez careta já imaginando que lá vinha coisa e o seguiu. — Tem comida na geladeira, não vai inventar de botar fogo na cozinha, ok? O seguro da casa não cobre irmãs mais novas que não sabem cozinhar — ela revirou os olhos.
— Ok, Jinnie. Não vou tentar cozinhar hoje. — ele fez sinal de positivo com as duas mãos. — Tem notícias da Yuyu? — Sohye perguntou, mudando de assunto. Ele assentiu.
— Ela levou a lição para fazer com a Sunhee. Ela disse que quer ficar responsável por isso, já que eu a ajudo durante a semana. — Sohye assentiu. Jin olhou o celular, checando a hora. — Ok, eu preciso ir. Vocês dois têm camisinha, aí? — ele perguntou do nada, ainda falando alto.
— Jin? — Sohye gritou e ele a olhou como se não tivesse falado nada de mais.
— O quê? — ele pareceu indignado. — Eu sou seu irmão mais velho, respeita que eu vivi 10 anos a mais que você. Eu já lia livros quando você ainda estava nas fraldas... — ele falou alto, como se fizesse de propósito para que Taehyung ouvisse da sala. Ele apertou o nariz dela com o indicador e o dedo médio e Sohye o empurrou. Jin riu e colocou a carteira no bolso do blazer.
— Para de gritar, que saco! — ela resmungou o empurrando porta afora. Ele riu mais com o desespero da irmã.
— Eu estou preocupado com você, não posso? — ele bagunçou o cabelo dela, parecendo empolgado. Sohye o olhou e sorriu, parando para perceber a mudança de humor do irmão.
— Vai encontrar o Namjoon? — ele não conseguiu disfarçar o sorriso.
— Está muito na cara? — ele perguntou.
— Está escrito na sua testa com letras em neon, Jinnie. — a irmã riu. Eles ouviram um carro buzinar em frente a casa. Sohye abriu a boca surpresa. — Ele veio te buscar em casa? — Jin assentiu, meio bobo. Sohye voltou a o empurrar para fora, o apressando para sair. Ele continuou tentando passar mais recomendações para a irmã. — Meu Deus Seokjin, eu sei!
— Sério, se cuidem se vocês forem fazer alguma coisa — ele parou na frente dela, falando mais baixo. Ela retrucou a mesma coisa para ele. — Sh, não fala isso alto que o Nam pode ouvir.
— Ah! Mas você berrar a mesma coisa perto do meu namorado, tudo bem, não é? — ele a encarou sem expressão.
— Namorado? 'To sabendo disso não — ele provocou e ela lhe deu língua — Provavelmente eu não volto hoje. Mas qualquer coisa me liga que eu volto correndo e dou um chute na bunda dele. — ele apontou para a casa e ela riu do irmão, recebendo um beijinho na testa. Sohye olhou na direção do carro e viu Namjoon acenar para ela de dentro do veículo. Ela nem conseguiu retribuir o cumprimento, e riu sem graça quando o irmão antes de entrar no carro, se virou e mandou um beijo para ela, da forma exagerada que ele sempre fazia quando estava feliz. Viu Namjoon rir também.
Ela observou o carro seguir pela rua e virar em uma das esquinas. Sorriu sozinha com a sensação de que as coisas estavam se resolvendo gradualmente. Cada uma no seu tempo e na velocidade adequada. E ela nem tinha precisado renunciar a própria felicidade, já que apesar de tudo, no momento, Sohye também se sentia feliz.
<#>
Oi ♥ Tudo bem?
A atualização não saiu no final de semana, porque ainda estou voltando a me acostumar com o ritmo das postagens de novo. Vou tentar manter um capítulo por semana, mas ainda sem dia certinho, ok? Aos poucos consigo, haha
Hoje é aniversário de 10 anos da 1D (pausa para imaginar Sohye e Jimin pulando de mãos dadas!), e apesar do capítulo com essa música como nome já estar planejado, caiu dele ser liberado hoje (graças a plataforma não me deixar postar ele antes). Mas como Jiminie diz em Serendipity: tudo isso não é uma coincidência haha
E aí, o que acham que vai rolar nos próximos capítulos, hein?
Eu amo o Taehyung e a Soso, é isto.
Se cuidem, tá?
Beijinhos, Polly ♥
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro