Capítulo Quatro - Banofee pie
Naquele dia Harry foi com Louis deixar Alec, Matthew e Diana e depois foram na creche de Alice. Louis o tinha apresentado aos professores e assinado os termos nas diretorias, para que ele pudesse buscar as crianças quando necessário. Harry percebeu que nas listas só tinha os nomes de Louis, Charlotte e três amigos de Louis. Não tinha mais o nome da mãe das crianças e nem de ninguém mais da família.
Eles foram no Dodge de Louis, porque era o "carro de carregar a tropa" de acordo com o próprio Louis. Depois de deixaram as crianças na escola, Louis dirigiu para a Universidade, mostrando o melhor caminho para Harry, quando ele também tivesse que ir.
Enquanto Louis foi para seu escritório, Harry foi para a reitoria, entregar alguns documentos que faltava e receber o plano de aula. Ele sabia que tinha tido muita sorte por ter conseguido uma vaga remanescente e estava muito agradecido por estar ali, de frente com A.J. Davis, um dos maiores estudiosos de arte e cultura atualmente. Ele era coordenador do curso de Artes e Culturas Internacionais de UCLA, o programa de pesquisas dele era inacreditável e Harry se sentir muito agradecido por estar lá.
Mas, naquele momento, ele ficava pensando que queria ter ido com Louis conhecer o escritório dele... "Meu Deus", Harry revirou os olhos para si mesmo, ele tinha se tornado uma pessoa patética.
Depois de entregar os documentos, Professor Davis pediu que um dos alunos assistentes mostrasse o prédio onde Harry estudaria. Durante passeio, Harry mal conseguia prestar atenção no que o outro garoto estava falando, porque o seu celular vibrava no seu bolso sem parar.
- Sábado vai ter uma festa, todos os alunos do departamento vão, seria muito legal se você fosse, ia poder conhecer o pessoal – o garoto falou pegando no braço de Harry.
- Esse final de semana eu não posso – Harry respondeu pegando o seu celular para ver o que tinha acontecido para ter tantas notificações assim.
- Por que? – o menino fez biquinho – Você acabou de chegar na cidade, não tem como já ter programas para esse final de semana inteiro.
- Sábado eu vou no jogo da liga infantil de beisebol e domingo eu prometi levar as crianças no Museu de Cera Madame Tussauds, depois se tiver tempo vamos no cinema, então realmente não vai dar – Louis tinha o seguido e curtido vinte fotos suas? O que estava acontecendo?
- Você tem crianças? – o outro perguntou chocado.
- Sim, quatro – Harry respondeu distraído.
O que ele deveria fazer? Seguir Louis de volta? Curtir suas fotos? Comentar alguma coisa engraçada? Harry queria se bater, eles MORAVAM juntos e ele estava com medo se seguir o Louis em uma rede social?
"Dane-se" ele pensou, seguiu Louis, bloqueou o seu celular e guardou no bolso.
- Oi, eu sou a Dua, Você é o Harry, né? – uma garota se apresentou a ele – O professor Davis me avisou que você vinha, vamos ser colegas na pesquisa.
- Olá – o cacheado sorriu e apertou a mão da garota, ela parecia ser bem legal.
- George, eu termino de apresentar o prédio para o Harry, aproveito e já adianto um pouco da pesquisa para ele – ela dispensou educadamente o outro garoto, que foi embora, mesmo contrariado – Ele deu em cima de você, não é?
- Acho que sim, eu não prestei muita atenção no que ele estava falando.
- Tudo bem – ela riu – mas se acostume, você é a novidade por aqui, jovem britânico, vai ter um monte de gente te enchendo o saco.
- Por que? – ele perguntou não gostando daquilo.
- Todo mundo ama o sotaque britânico, então sempre que aparece alguém com esse sotaque por aqui, é isso. E essa universidade pode ser gigante, mas o que mais tem é gente fofoqueira e a história do novo aluno vindo direto do London College of Fashion já se espalhou por aí.
- Mas logo isso passa, né? – ele perguntou preocupado.
- Olha, não sei, nós temos pessoas de todos lugares, mas sabem como as pessoas tem tara por sotaque britânico. Os Professores Payne, Horan e Tomlinson que o digam – Dua deu de ombros e Harry ficou muito interessado no assunto.
- Quem?
- Eles não são do nosso departamento, infelizmente. O professor Payne é de Ciências Políticas, ele dá aula de Politica Europeia, algo assim. O Professor Horan é de Musicologia, ele dá aula de história da música e tem uma pesquisa sobre o impacto da música na vida das pessoas. Já o professor Tomlinson é de Literatura, ele dá aula de literatura inglesa e estudo da língua. Como dá para encaixar as aulas dele em várias grades, sempre tem briga para conseguir vaga na aula dele, as turmas dele são bem disputadas.
- As pessoas parecem que gostam dele, né? – Harry perguntou com uma pontada de incomodo.
- Sim, ele é muito legal e a aula é dinâmica. Eu estudei ano passado com ele e usou Crepúsculo para ensinar todos os arquétipos da literatura clássica – a garota riu – ele fez a gente encenar, eu fui a Alice.
- Que legal – nunca que Harry iria imaginar que Louis já tinha lido Crepúsculo!
- Ele é maravilhoso, fora que é lindo o povo surta com ele. Existe a eterna discussão se o Professor Tomlinson fica melhor de terno ou com calça jeans e camiseta.
"Sem camiseta", Harry pensou, mas achou melhor ficar quieto.
- O Tomlinson é o favorito de todo mundo?
- Na verdade meio que não tem um favorito, é um consenso que esses três são o sonho de consumo de todo mundo. Acontece que é muito difícil conseguir adaptar nossa grade para conseguir ser apto para ter aula com o Payne, com o professor Horan é um pouco mais fácil, mas ele fica mais na área prática. Já com o Tomlinson é mais fácil ser apto, mas tem que entrar na lista de espera. Alias, se eu fosse você, já ia na secretaria e entrava na lista de espera para o semestre que vem – ela aconselhou – Pode parecer exagero, mas depois que você conhecer Louis Tomlinson, você vai me entender.
Harry sorriu amarelo, ele já entendia muito bem.
Depois que saiu da universidade, Harry passou comprar alguns materiais que usaria nas suas aulas, apesar de ter muita coisa, ele não pode trazer tudo, então a maior parte ficou no quarto do apartamento que estava dividindo com sua irmã em Londres.
Ele estava o tempo trocando mensagens com sua mãe e irmã, até tinha feito uma vídeo chamada com as duas antes de dormir. Sua mãe ficava dizendo o tempo todo dizendo que já estava com saudades, que queria que tudo desse certo, que estava torcendo por Harry e que se qualquer coisa acontecesse, era para ele avisar na hora, que ela o ajudaria. Já Gemma só queria saber se Louis era tão bonito quanto nas fotos.
Louis e ele não tinham conversado o dia inteiro, exceto por uma mensagem que o mais velho tinha lhe mandado dizendo que ia chegar um pouco mais tarde. Harry achou muito atencioso da parte dele o avisar.
Harry ainda não tinha entendido como Louis tinha conseguido manter uma casa funcionando, quatro filhos saudáveis, contas em dia e aulas tão adoradas. Se fosse ele, com certeza teria passado metade do tempo sentado no chão chorando. Quatro filhos? Isso já é de enlouquecer alguém normalmente, imagina sozinho!
- Olá, vim buscar Alice Tomlinson – ele informou a ajudante da professora de creche, que conferiu o nome de Harry na lista e foi buscar a bebê.
- Com licença, sou a nova orientadora da creche – uma mulher se apresentou para ele – você é o responsável pela pequena Alice, não é? – mas Harry não precisou responder, porque assim que lhe foi entregado a bebê, Alice sorria para Harry e já colocou suas mãozinhas no cabelo dele.
- Você ama ficar puxando meu cabelo, não é? – ele esfregou seu nariz no pequeno nariz de botão menina, que riu para ele.
- Sei que você deve estar ocupado, eu só quero informar que estamos enviando um folheto com alguns exercícios para fazerem em casa que vão estimular Alice a engatinhar. Ela ainda não engatinha, mas isso é normal, tem bebês que até pulam essa fase. Os exercícios são um estímulo para ela começar a se movimentar, mas pode ficar sossegado que o desenvolvimento dela está normal, ok?
- Certo, eu vou fazer com ela em casa, tenho certeza que os irmãos dela vão me ajudar, logo logo a senhorita aqui vai estar correndo por aí, não é? – Harry fez cocegas na pequena, que riu de novo.
- É tão bom ver pais, mesmo que tão novos, empenhados no desenvolvimento das crianças – ela desabafou, mas Harry não pode corrigi-la, porque ela precisou atender outro pai.
A viagem até a escola dos mais velhos era curta, cerca de sete minutos. Harry entrou com Alice no colo, que estava muito entretida em brincar com seu colar. Ele notou que estava recebendo alguns olhares, mas não estava entendendo o porquê.
- Harry – Diana gritou quando o viu. A menina veio correndo até ele, seu boné estava virado para trás e suas calças sujas de grama – Hoje foi dia de parque!
- Percebi – ele riu – o que você fez, ficou rolando na grama?
- Não seja bobo – ela riu.
- Vamos logo, temos que ir buscar seus irmãos e passar no mercado, vou fazer sobremesa hoje e temos que comprar os ingredientes.
- Sobremesa! – ela gritou e saiu pulando, para pegar sua mochila.
- Oi, eu sou a professora da Diana – uma moça sorriu para ele – então você é o famoso Harry, o motivo da Diana sorrir o dia todo?
- Acho que sim – ele estendeu a mão que não segurava Alice.
- Eu não sei o que você fez com essa menina, mas ela estava muito alegre hoje, então continuem assim – a professora era muito agradável e sorridente – Ah, meus parabéns, Diana contou que vocês estão morando juntos, fico feliz por vocês.
- Obrigado – ele respondeu sem entender, mas tinha que passar nas salas de Alec e Matthew – sua professora é simpática.
- Sim, menos quando a gente faz bagunça, aí ela grita com a gente e deixa a gente de castigo – Diana deu de ombros – e ela também não gosta quando eu chuto a cara dos meninos.
- Por que você chuta a cara dos meninos?
- Porque eles são chatos e merecem – ela respondeu como se aquilo fosse óbvio.
- Não sei se posso discordar – ele ponderou.
- Hazz – Matthew gritou, ele estava na porta esperando por ele e correu para abraça-lo – eu estava preocupado que você não viesse.
- Mas eu falei que vinha. Escuta – Harry se ajoelhou para ficar da altura do menino, com uma mão ele mantinha Alice em seu colo e a outra ele colocou no ombro de Matt, para mostrar como estava falando sério – se eu te prometer algo, eu vou cumprir. Mesmo que um dia aconteça um imprevisto e eu não possa vir ou eu me atrase, eu vou te avisar.
- Você nunca vai ir embora sem avisar, né? – ele perguntou com os olhos brilhando.
- Matt, eu estou pensando seriamente em sequestrar vocês, quando eu precisar ir para casa – Harry disse solene e Matthew sorriu – que tal, no ano que vem, você vai ir comigo na Semana da Moda da Inglaterra?
- Sim! – o menino gritou e abraçou Harry, quem não gostou foi Alice, que empurrou o irmão, afinal ele estava a atrapalhando na sua tarefa de babar o máximo possível na correntinha Harry.
- Agora vamos logo – Harry disse ficando de pé.
- Vocês demoraram – Alec falou quando eles chegaram perto.
- Alec, adivinha! A gente vai para a Inglaterra! – Diana falou pulando. No mesmo instante Alec olhou para Harry alarmado.
- Ano que vem – Harry a corrigiu – se o pai de vocês deixar, prometi levar seus irmãos na Semana da Moda inglesa.
- Ele ME convidou, a Diana que se intrometeu – Matthew disse com os braços cruzados e Diana mostrou a língua para ele.
- Bom passeio – Alec debochou – eu que não vou.
- Não mesmo? – Harry falou se fingindo de distraído – Que pena, porque muitas estrelas da música vão ver os desfiles.
- Sério? – Alec perguntou e Harry concordou. Foi um pouco engraçado a ver a luta interna do garoto, ele ainda estava tentando se fazer indiferente e gostava de fingir que não se importava com nada, mas claramente não era assim – ok, eu posso ir com vocês.
Harry sorriu, as crianças eram tão simples. Matthew e Diana já faziam planos para uma coisa que possivelmente aconteceria no ano seguinte. Não era mentira, Harry realmente poderia ir e leva-los. Ele tinha ido nas duas últimas e levado sua mãe e irmã, mas em nenhum momento as crianças questionaram se aquilo era possível ou pensaram na possibilidade de Louis não permitir.
- Mais compras? – Alec fez careta quando chegaram no mercado.
- Hazz, compra um chocolate para mim? – Diana pediu.
- Quero sorvete! – Matthew falou.
- Meu Deus, vocês são iguais o pai de vocês – Harry os provocou, colocando o bebe conforto de Alice dentro do carrinho de compras.
- Eu não sou – Alec falou arrebitando o nariz de botão, igual do pai.
- Alec, você é mais parecido – Harry riu. Ele entregou a lista de compras para Matthew, que disse que seria seu "assistente", mesmo que ele ainda estivesse aprendendo ler e demorasse muito para conseguir ler cada item, sorte que Harry sabia muito bem o que tinha que comprar.
- Como assim? – Alec insistiu no assunto.
- A aparência de vocês é quase idêntica – Harry falou pegando uma garrafa de shoyu – o jeito de se vestir é parecido e vocês sempre estão reclamando.
- Claro que não!
- Estão sim – Diana riu – o tempo todo.
- Isso é ridículo – Alec revirou os olhos.
- Viu? – sua irmã apontou para ele e riu de novo.
- Mas isso é uma coisa boa – Harry falou – você é parecido com seu pai em tudo, inclusive nas partes boas. Se pai é um cara muito legal, então você devia se sentir orgulhoso.
Alec não falou mais nada, apenas ficou pensativo e respondeu quando era perguntado.
- Não mesmo – Matt repetiu.
- Vai sim – Harry falou de novo, supervisionando o trabalho de Diana em mexer os ingredientes.
- Hazz, sem chances de você conseguir fazer o meu pai comer brócolis – Alec riu e Harry se sentiu muito orgulhoso por ter deixado o menino tão confortável, que estava usando o seu apelido.
- Quer apostar? – o cacheado o desafiou.
- O que você quiser – Alec disse petulante na certeza que Louis Tomlinson nunca comeria aqueles brócolis.
- Vocês também vão entrar nessa? – Harry perguntou para os Tomlinson's mais novos.
- Sinto muito Hazz, mas não tem chances, nem a tia Lottie consegue – Matt falou pesaroso, como se sentisse muito por Harry estar se iludindo.
- Ok – Harry concordou – se eu conseguir fazer o pai de vocês comer os brócolis vocês vão me ajudar com os fazeres da casa por três meses. Estou falando de serviço completo, brinquedos guardados, lavar a roupa, arrumar a cozinha, varrer o chão e etc.
- E se ganharmos? – Alec o desafiou.
- Serei o escravo de vocês pelo mesmo tempo.
- Nós temos um acordo – Alec sorriu maldosamente.
- Eu não sei não – Diana falou desconfiada.
- Di, não tem chances do Hazz ganhar, ele não conhece nosso pai. Você sabe que ele sempre finge que come os vegetais e dá um jeito de jogar fora.
- É verdade – Matt concordou com o irmão mais velho.
- Tá bom – Diana falou convencida.
- Que bom que já temos nosso acordo, agora vão tomar banho – Harry falou empurrando as crianças da cozinha – Quem tiver dever de casa, traga aqui para fazermos.
- Estou com preguiça – Diana falou se jogando no chão, sendo arrastada pelo chão pelo mais velho – eu não consigo andar.
- Sem banho, sem sobremesa – Harry falou e Diana levantou bem rápido.
As crianças estavam no andar de cima, além do banho, estavam organizando o material escolar. Harry deixou a carne marinando no tempero e estava fazendo a sobremesa, como era o primeiro jantar que faria para a família Tomlinson, resolveu fazer alguma coisa que dominasse, nada melhor que uma receita da sua mãe.
Eddie:
Como estão as coisas aí?
Harry:
Bem, acho que já me adaptei a família
Eddie:
E o filho mais velho que você disse que te odiava?
Harry:
Não é que ele me odeia, só estava mais desconfiado, mas acho que estou conseguindo conquista-lo
Eddie:
E o pai? Vai conquistar quando?
Harry:
Você conversou com a Gemma, né?
Eddie:
Talvez...
Harry:
Vocês são dois pervertidos!
Não sei porque ainda me dou trabalho de contar as coisas para vocês!
Eddie:
Já acabou o drama?
Quero os detalhes!
Harry:
Não tem detalhe nenhum!
Eddie:
Tudo bem, assim que a nova tour acabar, eu vou direto aí conhecer a "sua nova família"
Harry:
E como que eu explico uma estrela da música vindo me visitar?
Eddie:
Você não falou de mim? Estou magoado, o que é isso? Você tem vergonha de mim?
Depois de tantos e tantos anos de amizade, você tem vergonha de mim?
É porque eu sou ruivo, não é?
EU NÃO ESCOLHI SER RUIVO!
Harry:
Quem está fazendo drama agora?
Eddie:
Tenho que ir agora, mas voltaremos a essa conversa em breve
Eu já peguei o seu novo endereço com a Gemma, você não tem como escapar de mim
MUAHAHUAHUAHUAHUAHUA
Harry:
Já te disse para parar de tentar fazer uma risada maléfica
Eddie:
:P
Harry revirou os olhos, seu amigo era louco. Ele tirou a massa da torta do forno e começou a montá-la, ele já tinha lido e relido todas as informações sobre os membros da família Tomlinson e nenhum tinha alergia a nenhum dos ingredientes das coisas que estava fazendo, então achava que tudo iria bem.
Mas será que ele deveria ter consultado Louis sobre o cardápio? E se eles odiassem tudo o que ele fez? Ele queria muito causar uma boa impressão.
- Hazz você viu meu... o que você está fazendo? – Harry se virou a tempo de ver a expressão tranquila de Alec se transformar em uma expressão de raiva.
- Banofee pie – o cacheado respondeu confuso.
- O que?
- É uma torta inglesa de banana e ...
- Eu sei o que é – o menino o cortou bruscamente – Por que você está fazendo isso?
- Para sobremesa, Alec o que está acontecendo? – Harry respondeu colocando a torta na geladeira.
- Eu sabia! Você está fingindo desde que chegou, sendo esse cara legal e perfeito! O que você quer? Conquistar a gente para ir embora depois? Você quer o meu pai? O que é? – Alec estava irritado e vociferava as perguntas.
- Alec, se acalma – Harry falou devagar, tentando entender o a situação – você me entendeu errado, eu só estou fazendo uma torta doce.
- Claro que está – o menino falou sarcástico – por coincidência é a mesma torta que minha avó fazia quando a visitávamos. Que ela sempre fazia quando a gente estava triste e dizia que ia ajudar a fazer a gente se sentir melhor. É só coincidência, né?
Então Harry entendeu, Lottie tinha contado que sua mãe tinha falecido há dois anos, culpa de uma leucemia, e que Alec era muito apegado a ela. Foi depois do falecimento da avó que ele foi se fechando, logo após ele perdeu uma tia e a mãe o abandonou.
Harry quis se parabenizar pela sorte, o menino não tinha verbalizado sua dor em nenhum momento nos últimos anos, mas agora estava. Justo quando Harry estava sozinho e nem sabia da história do que realmente tinha acontecido.
- Você não vai tomar o lugar da minha mãe!
- Alec, eu não quero tomar o lugar da sua mãe.
- Ué, mas não está fazendo igual ela? Prometendo coisas, iludindo a gente, para depois ir embora?
O cacheado passou as mãos pelo rosto em desespero. Respira Harry, respira!
- A receita é da minha mãe – ele falou mais calmo – sua família e a minha são britânicas e esse é um doce muito comum na Inglaterra. Eu só quis agradar vocês, não sabia que a sua avó também fazia, foi só coincidência.
- Eu não acredito em você – o menino cruzou os braços.
- Você quer que eu ligue para a minha mãe? – Harry falou compreensivo – Ela vai te falar de como ela sempre fazia essa torta quando eu era criança e depois vai adorar te contar histórias constrangedoras minhas.
Eles ficaram se encarando por um momento, Harry consegui ver nos olhos de Alec toda a dor e confusão que ele sentia. Ele sabia como era aquilo, já tinha passado por isso. Sabia como era desesperador precisar de ajuda, mas não conseguir pedir e ficar preso dentro de si, remoendo sentimentos ruins.
- Eu sei como você está se sentindo – ele falou e Alec ficou ainda mais bravo.
- Você não sabe de nada!
- Eu tinha seis anos - Harry disse suspirando – era mais novo que você quando meu pai saiu de casa, ele também não se despediu de mim.
- Você está mentindo!
- Não estou, eu sei como você se sente rejeitado, esquecido, como se não fosse digno de amor. Lembro da dor e como fiquei esperando que ele voltasse por semanas, até perceber que ele nunca ia voltar. Eu falava para as pessoas que estava tudo bem, que eu não me importava, mas aquilo doía muito. Ele também não telefonou ou mandou mensagem, era como se ele só tivesse esquecido que eu existia.
- E o que aconteceu depois?
- Foi uma época bem difícil, porque quando meu pai nos abandonou, minha mãe não conseguiu pagar o aluguel, tivemos que abandonar Manchester e voltar para Holmes, uma cidade bem pequena, que ela nasceu. Tudo foi muito complicado, mas ficamos bem, porque minha mãe nos amava tanto, que fez tudo o que pode por nós, assim como seu pai faz por você.
- Você está dizendo que devo ficar feliz com tudo isso? - o menino perguntou debochado.
- Não, estou dizendo que você deveria ficar agradecido por ter um pai que te ama tanto, que faria de tudo pela felicidade. Eu não vou mentir para você, essa dor é uma merda e vai ficar aí por muito tempo, mas ou você aprende a lidar com ela, ou ela te destrói.
- O problema não é esse – Alec falou e seus olhos estavam se enchendo de lágrimas – ninguém me entende!
- Vou te fazer uma pergunta sincera e você me responde se quiser, ok? – Harry disse e o menino concordou – Você se sente culpado, porque sente mais falta da sua avó do que da sua mãe?
Alec ficou paralisado, apenas encarando Harry. A reação dele já dizia o que o mais velho queria dizer. O cacheado puxou o menino para um abraço apertado. De primeira Alec não abraçou de volta, mas logo ele estava retribuindo o abraço e, um pouco depois, os dois estavam sentados no chão da cozinha, enquanto o menino chorava.
- Eu também perdi uma pessoa que eu amava para o câncer – Harry falou suspirando, ele estava com o queixo apoiado na cabeça de Alec, que estava com o rosto escondido no seu peito – meu padrasto, Robin.
- O que aconteceu? – o menino perguntou com a voz abafada.
- Quando minha mãe voltou a trabalhar, ela conheceu o Robin – o cacheado afagava as costas do mais novo – um tempo depois eles começaram a namorar e eu o odiei. Ficava colocando defeito e atrapalhava qualquer tentativa dele de se aproximar, mas ele nunca desistia. Um dia eu dei uma chance, obrigado pela minha irmã, e descobri que ele era um cara muito legal.
- E depois?
- Ele me deu primeiro conjunto semi profissional de desenho e meu primeiro violão. Ele me apoiou em tudo, me levava nos jogos de futebol e sempre torcia para, mesmo eu sendo péssimo – Alec riu baixo – me ensinou um monte de coisas, me ajudou com deveres, foi em todas as minhas apresentações, até assistia Project Runway comigo, mesmo não entendendo nada. Quando meu pai biológico reapareceu querendo voltar a ter contato comigo e com minha irmã, Robin que levava e buscava a gente e ainda ficava de olho o tempo todo. Quando eu entrei faculdade de moda, ele comemorou comigo.
- Quando ele morreu?
- Três anos atrás, dois meses depois de eu me formar na universidade, ele me disse que foi uma honra conseguir ir na minha formatura. Ele já estava lutando contra o câncer a mais de um ano.
- Sinto muito – Alec sussurrou.
- Não sinta, eu ainda sinto a dor da saudade, mas ele me amou tanto e foi tão importante para mim, que não posso desrespeitar sua memória não fazendo o máximo que eu posso para ser feliz.
- Eu não sou tão forte quanto você.
- Você é só uma criança, você não precisa ser forte, você precisa ser amparado – Harry levantou o rosto de Alec para que eles se olhassem – Sei que a dor é forte e ela nunca vai ir embora, mas um dia ela vai amenizar.
- E o que eu faço agora?
- Você precisa falar da sua dor, guardar sentimentos principalmente os ruins, não ajuda.
- Mas eu não consigo falar, eu já tentei, eu sempre travo.
- Tem muitos jeitos de contar alguma coisa, como por exemplo, escrever uma música. Quando Robin morreu, eu também não conseguia falar, então eu escrevi uma música e isso me ajudou a desabafar, foi muito importante.
- Você pode cantar para mim? – Alec pediu receoso e Harry sorriu de canto.
- Claro.
Brooklyn saw me, empty at the news
There's no water inside this swimming pool
Almost over, had enough from you
And I've been praying, I never did before
Understand I'm talking to the walls
I've been praying ever since New York
Um tempo depois Louis chegou em casa e encontrou Matt e Diana sentados no chão do lado de fora da cozinha. Matt fez sinal de silêncio com o dedo e indicou a cozinha. La dentro Harry e Alec também estavam no chão, seu filho estava com os olhos vermelhos e inchados, mas ambos sorriam cantando uma música que Louis não conhecia.
Brooklyn me viu, vazio com as notícias
Não há água dentro desta piscina
Quase no fim, já tive o bastante de você
E eu tenho orado, eu nunca fiz isso antes
Entenda que eu estou falando com as paredes
Eu tenho orado desde Nova Iorque
Bạn đang đọc truyện trên: Truyen247.Pro