Uma nova amizade
- Kim? Está tudo bem?
Por que raios eu havia atendido? Por que raios eu havia ligado!? Burra, impulsiva e incontrolável.
- Eu... Liguei errado. Foi mal Nicholas.
Meu dedo já estava no ícone de desligar quando sua voz me alcançou mais uma vez.
- Acabei de chegar em casa, tinha esquecido o celular. Foi mal não ter atendido antes.
- Já falei que foi engano. - Minha voz não soou tão ríspida quanto desejei que soasse.
- Kim, escute, já faz mais de duas semanas que não vou ao Carl's, ou que não aposto. Dessa vez é pra valer.
Os três anos em que passei com Nick, foram incríveis, memoráveis, mágicos. Ele era o namorado mais gentil, engraçado e prestativo da Face da Terra. Um dos motivos pelos quais me apaixonei por ele, era o fato de Nicholas ser um garoto sonhador. Amávamos deitar juntos na grama e imaginar nosso futuro. Tudo já estava previamente planejado, porque Nick sempre pensava em tudo!
Teríamos uma vida agradável e feliz, ele conseguiria uma promoção na empresa farmacêutica, na qual trabalhava, eu cursaria literatura na faculdade comunitária, e logo, alguma editora me encontraria. Faríamos parte da classe média estadunidense, em uma casa californiana comum, com um carro supereconômico, e filhos carinhosos. E talvez adotassemos um cachorro.
E então o conto de fadas acabou. Nick não conseguiu a promoção. A empresa na qual trabalhava beirava à falência e precisou desligar mais de oitenta funcionários, ele estava entre o número de exonerados.
Na época, lembro de ter dado apoio para que seguisesse em frente e procurasse um novo emprego, mas nada o agradava. Ele queria uma posição alta, que não era compatível com seu currículo. Foi então que começaram os jogos de azar.
Um jogo vez ou outra, depois toda semana, e aí saiu do controle. Ele ficava ansioso como um dependente químico, passava mais tempo no bar assistindo à corridas de cavalo do que em casa, e por causa do ambiente passou a beber com frequência. Furava na maiorias dos nossos compromissos e quase não nos víamos mais, e toda vez que o repreendida, era a mesma ladainha de "Estou sentindo que vai dar certo agora. Darei a você, a vida que merece", e não adiantava o quanto eu dissesse que a única coisa que queria era sua companhia. Nick não era mais o meu Nick.
Quando ele perdia, ficava arrasado. Dizia que não ia mais jogar, que tinha aprendido a lição. Tentava se redimir com rosas e chocolates. Eu ingênua, acreditava, o acolhia, segurava sua mão ao passo que dizia "tudo vai ficar bem".
Até o dia em que chegara no meu portão falando que finalmente havia conseguido um emprego. Todos ficamos exultantes de felicidade. Abri mão das nossas atividades de final de semana porque ele trabalhava de quarta à domingo. As coisas estavam caminhando bem naquele período. Nicholas tinha retomado os trilhos e podíamos voltar a sonhar.
E então, no dia 6 de dezembro, decidi fazer uma surpresa, em comemoração aos nossos três anos de namoro. O esperei do lado de fora da Phamaton Max, empresa de suplementos vitaminicos, na qual Nick dissera que estava trabalhando. Me sentei na calçada com uma cesta recheada de queijos, bolos e o vinho mais caro que já me dei o luxo de comprar. Esperei por cerca de uma hora, pensando que ele pudesse ter precisado ficar até depois do horário, por alguma razão, mas quando se passaram mais quarenta minutos, e todas as luzes do prédio se apagaram, deixando o estacionamento quase vazio e a rua deserta, resolvi ir até a recepção.
Encontrei o balconista trancando o salão, e com o olhar mais cansado do mundo, ele me disse que nenhum Nicholas Thorne jamais havia chegado a entrar ali.
- Kim? Ainda está na linha? - Pisquei algumas vezes, tentando me recordar onde havíamos parado na conversa.
Ah, ele estava me dizendo que não andava apostando.
- Que bom que está recuperando o controle, Nicholas.
- Sei que pisei na bola com você.Sinto muito mesmo, mas não pode simplesmente apagar tudo o que vivemos!
Apertei os olhos com força. Essa bola já estava furada fazia tempo.
- Nicholas, já falamos sobre isso.
- Não exatamente. Você, da forma mais infantil possível, me bloqueou em todas as redes sociais, se recusou a ter uma conversa civilizada e logo depois se mudou para outro estado sem se sequer dar tchau.
- Da forma mais infantil possível? Você está de brincadeira?! - A fúria de mil sóis me consumia naquele momento. - Conversamos tudo o que tinha para conversar no dia em que descobri sua mentira! O que você queria? Que eu engolisse sua história de "Fiz tudo isso para não te preocupar"? - A última frase foi dita em uma tentativa humilhante de imitar a voz de Nicholas.
- Entendo que esteja com raiva, mas podemos consertar as coisas...
- Não, não, não. Fui muito paciente. Te perdoei mais vezes do que conseguiria contar nos dedos, não aja como se eu lhe devesse outra chance.
Ouvi seu suspiro pesado do outro lado da linha, e limpei furiosamente as lágrimas que começavam a escorrer pelo meu rosto.
- E por quê me ligou, afinal? Não acredito que tenha sido apenas para ouvir minha voz. - Ha-ha.
Eu estava sendo tão idiota quanto ele, fingindo que o celular havia discado seu número dentro do meu bolso.
- Sendo sincera... - meu tom abaixou algumas oitavas. - Precisava conversar com alguém, e não tinha pra quem ligar.
- É a Cissy? - Revirei os olhos ao ouvir o apelido que ele dera à Cibelly assim que se conheceram.
- É. - Deitei minha cabeça na corrente do balanço, os olhos fechados. - Ela está piorando rápido demais.
- Escute, tudo vai ficar bem, e se não ficar, passarei por isso com você. Juntos.
Ignorei o aperto em meu coração ao ouvir ele dizer juntos.
- Não vai ficar tudo bem.
A dor arrancou um soluço do meu peito, e então contei tudo a ele, sobre a mudança, meu novo emprego, como as pessoas em NY eram diferentes e como o frio iria acabar congelando meus dedos em algum momento. Contei em riqueza de detalhes - omitindo as partes que envolviam Richard, é claro - como aquele dia havia se desenrolado. O celular esquecido no trabalho, minha vizinha correndo ao meu encontro, meu rosto batendo contra o concreto da calçada, o hospital cor de creme passando como um borrão, e Cibelly tão pálida quanto uma folha de papel, o banho quente que tomei quando cheguei em casa, o medo e minha vontade de gritar, de conversar com alguém, de falar especificamente com ele.
Nicholas ouviu todo o drama sem interromper ou julgar minha falta de modos. Até conseguia imaginá-lo assentindo do outro lado da linha.
- Nenhum doador compatível? - Perguntou, assim que parei de falar. Balancei a cabeça em negativa, como se pudesse me ver. Meu silêncio foi uma confirmação. - Como sua mãe está?
- Arrasada. - Soltei o ar com força. - Você sabe como ela é...
- Sei. Você é exatamente igual a ela. - Notei que ele escolhia cautelosamente as palavras. - Kimberlly, você passou por mais coisas do que qualquer pessoa julgaria justo, me sinto péssimo por fazer parte dessa conta, mas escute, você é a mulher mais forte que conheço.
- Nicholas...
- Você não passava de uma adolescente quando se colocou no lugar do seu pai dentro de casa. Cuidou da sua mãe, levou Cibelly à escola todas as manhãs, trabalhou em tempo integral em uma lanchonete meia boca de esquina, e atravessou o país de coração partido em busca de esperança. - Fez uma pausa para tomar ar. - Você poderia simplesmente ter decidido não fazer nada disso, mas fez, porque se importa com as pessoas que ama. Você poderia ter chutado a minha bunda na primeira oportunidade, mas não fez isso, porque acreditava que eu pudesse ser bom. Então não duvide, nem por um segundo da sua força.
Dessa vez não impedi que as lágrimas escorressem. Eu havia feito tudo aquilo porque era tola, ou porque ninguém mais teria feito. Não tinha nada a ver com força, mas poderia, pelo menos por um segundo, não deixar que a culpa pesasse em meus ombros. Por um segundo, acreditar que era real.
- Você é bom, Nicholas. - Acabei falando. - Só seguiu um caminho ruim.
- Segui o pior caminho possível. O caminho que me levou pra longe de você. - Conseguia visualizar perfeitamente sua expressão torturada, os olhos castanhos tristes, a boca contorcida em uma linha fina e rígida.
- Gostaria de verdade, que tivesse dado certo entre a gente. - Quase sussurrei. Estava de guarda baixa, não podia evitar. Queria me alinhar à seu peito e chorar até o sol nascer.
- Gostaria de não estar sentindo tanta dor agora... - Confidenciou baixinho.
Ficamos em silêncio, pelo que se pareceram minutos, horas, dias. Os dois ali na linha, ouvindo os sons de nossas respirações e o fungar de nossos narizes, fazendo companhia um ao outro, enquanto desejávamos que tudo tivesse sido diferente.
Voltei para casa. Me joguei na cama, e apaguei.
O despertador tocou arruinando meu sono, praguejei baixinho ao perceber que era a terceira vez que tocava. Como era possível eu ter dormido tanto ao ponto de não ouvir a porcaria do despertador? Bufei, me sentando na cama ainda grogue de sono.
Teria que fazer mágica se quisesse ir ao hospital e ainda chegar à tempo no hotel.
Coloquei em uma bolsa de viagem tudo o que Cibelly poderia precisar: celular, escova de dentes, folhas de papel, estojo de lápis, fones de ouvido, pares de roupas, algumas meias, um gorro, e um exemplar surrado de O Diário da Princesa Vol.1, que provavelmente ela já havia decorado de tanto reler.
Em seguida entrei dentro da primeira peça de roupa que encontrei no armário, puxei o cabelo em um rabo de cavalo torto e corri para porta a fim de pedir um táxi, ignorando completamente o fato de estar de barriga vazia.
Para minha sorte dona Lourdes estava na porta, se preparando para sair.
- Bom dia Dona Flora.
Ela sorriu enquanto ajeitava a cesta de chocolates no braço.
- Olá, querida! Como vai? - Acenou, pousando a cesta no antebraço.
- Estou bem, obrigada.
Ela era uma senhora bonitinha, de cabelos pintados e óculos que destacavam o rosto enrugado.
- Minha nossa, o seu rosto ficou bem feio mesmo. Ainda bem que o seu amigo chegou a tempo - colocou a mão no coração. - Eu não estava conseguindo erguê-la, e não queria deixá-la caída no meio da rua enquanto subia e discava o número da emergência. Ele foi muito educado e atencioso - lavantou as sobrancelhas sugestivamente.
Educado e atencioso?
- Ah, Richard não é meu amigo. - Automaticamente levei a mão ao rosto. Estava dolorido.
- Hm... - Me lançou um sorriso malicioso. - Claro que não é. Ele não é o tipo de homem que se pode chamar de amigo. - Soltou uma risadinha como se dissesse "você sabe do que estou falando."
Para uma senhora aparentemente tão meiga, Lourdes estava bem assanhadinha. Pigarreei, e sua atenção se voltou para a bolsa em minhas mãos.
- A pequena Cibelly não volta pra casa hoje?
- Provavelmente não. Vou levar algumas coisinhas pra ela. - Levantei a bolsa.
Sua expressão pareceu confusa.
- E ainda pretende ir trabalhar?
Assenti. O que me fez lembrar que estava perdendo um tempo considerável conversando com ela.
- Ah não - falou - Vai se atrasar - Eu sabia disso - Faça assim, aquele ali é meu carro - Apontou para um automóvel enferrujado. Eu não conhecia muitos nomes de carros, além do meu finado Ford Verona. - Deixo você no trabalho, e passo no hospital. Posso fazer companhia a sua mãe até a abertura do Shopping Center.
Ponderei. Talvez não fosse uma ideia ruim. De toda forma, não teria tempo de conversar com minha mãe. Poderia ir direto para o hospital após meu expediente. Olhei para a senhora com a cesta de chocolates pendurada no braço esperando minha resposta com um sorriso aberto.
- Ficaria imensamente agradecida.
Como combinado, dona Flora me deixou em frente ao hotel, e seguiu para o hospital. Liguei para minha mãe informando sobre a mudança de planos, e ao que parecia Cibelly estava melhor. Graças aos Céus!
O sr.Mcjake se encontrava postado na portaria, com seu smolking preto de risca e luvas brancas. Parecia um mágico, ou um pinguim...
- Está dois minutos atrasada, srta. Drayton - Falou torcendo o nariz pra mim.
Olhei os ponteiros em meu punho. Pontual.
- O seu relógio está dois minutos adiantado.
As narinas se inflamaram, e fez um gesto impaciente com a mão enluvada, para que eu passasse.
- Só... Suma da minha frente!
Com todo prazer...
Entrando no vestiário dos funcionários, me deparei com uma mulher baixinha, que travava uma batalha com os botões nas costas do uniforme do PGHotel.
- Botón de mierda estúpido! - murmurou em espanhol. Quando notou que havia mais alguém no vestiário, deu de ombros pra mim. - Sabe, detesto esse uniforme, justamente... - tentou alcançar novamente o botão. Sem sucesso - Por causa disso!
Mesmo falando minha língua muito bem, seu sotaque ainda era carregado.
- Quer uma mãozinha? - Perguntei com cautela.
Os olhos cor de chocolate se reviraram em uma clara, e divertida expressão de "óbvio!".
- Pensei que não iria se oferecer!
Atravessei o cômodo, colocando os três primeiros botões devidamente em suas casas.
- Prontinho! - Sorri para o trabalho concluído.
- Gracias! - A mulher de cabelos de ébano então, começou a me observar da cabeça aos pés. - Nova aqui?
- Tanto no trabalho como na cidade.
Ela deixou escapar um "caramba".
- E veio de onde? - a voz emitia um misto de curiosidade e admiração. - Não, não. Deixe-me adivinhar... - Me analisou minuciosamente. - Arizona?
Minha pele bronzeada com certeza revelava que eu vinha de um lugar ensolarado.
- Califórnia. - Respondi, e seu rosto se iluminou instantaneamente. - São Francisco, mais precisamente.
Me sobressaltei, com seu grito eufórico. As palmas se juntaram na frente do peito, quando exclamou :
- Ay. Dios. Mio! - Destacou cada palavra - Você conheceu la puente?
Meu espanhol estava enferrujado, por isso refleti por alguns segundos antes de responder.
- A Golden Gate? - Assentiu, ainda com aquela animação crescente - Conheci sim. - Confirmei rindo de sua reação exagerada.
- Fala sério! En minha opinión la puente estaria incluída como a octava maravilha do universo! Es tan linda!
Será que finalmente havia encontrado uma pessoa divertida? Minhas esperanças já estavam se esvaindo.
- Não é nada deeeeemais - Prolonguei modestamente as vogais, ainda com um sorriso nos lábios.
Ela me encarou com os olhos semicerrados de um felino.
- Está insinuando que meus sonhos no son nada demais?
- Não, não disse isso. - Falei na defensiva. - Quer dizer, a Golden Gate, nem se compara ao Big Ben, por exemplo, ou à Estátua da liberdade!
- Qual a graça de um relógio com números estranhos? E qual a utilidade de uma estátua?
Respondi automaticamente :
- Não são números estranhos! Você não aprendeu algarismos romanos na escola? E a estátua é simbólica! Simboliza a liberdade... de alguma coisa.
Temendo ter parecido grosseira e espantar uma das únicas pessoa aparentemente legais que já havia cruzado comigo durante todas aquelas semanas, abri a boca para me desculpar, a mulher, no entanto, foi mais rápida.
- Todo bien, perdoarei sua grande e tola opinión. A propósito, sou Martina Perez.
Só então parei para prestar um pouco mais de atenção em Martina. Ela era bons centímetros mais baixa que eu, cabelos pretos, caindo na nuca em um corte chanel, olhos castanho escuros, nariz e boca que destacavam a pele clara. Sua família toda deveria ser espanhola, uma vez que seus traços eram tão marcantes.
- Um prazer conhecê-la! - Tentei imitar sua animação - Meu nome é Kimberlly Drayton, me chame de Kim.
Estendi a mão e acabei sendo pega de surpresa quando ela me puxou para um abraço.
- Uou... - Soltei uma risada.
- É assim que se cumprimenta um espanhol, chica.
Martina me contou que morava nos Estados Unidos há dez anos, desde que se casara com um americano, "un hombre caliente", haviam sido suas palavras. Estavam tentando engravidar no momento, por isso ela achou que seria uma boa ideia, procurar um emprego e ter uma renda extra.
Logo após ela me questionar se eu tinha um namorado violento, - Por causa do maldito hematoma no rosto - me passou seu número de telefone caso precisasse sair um pouco. De acordo com Martina, "parece que no tienes amigos". Fiquei me perguntando se era assim tão evidente o quanto eu andava solitária ultimamente, mas mesmo assim, anotei seu número, e nos despedimos com beijinhos na bochecha.
Ao chegar à recepção fui saudada por Sarah e seus sorrisos maternos.
- Finalmente seu check-list está pronto, Kimberlly.
Segurei o papel analisando a lista.
Segunda feira |
(992)
988
985
Terça feira |
(992)
987
990
Quarta feira \
974
996
(992)
Me virei para Sarah, o pânico tomando conta do meu rosto.
- Eu estou escalada para o 992 em todos os dias da semana?
A recepcionista pegou delicadamente o papel de minhas mãos e deu uma olhada.
- Sim, querida. De segunda à sexta. Até o próximo escalonamento, que acontecerá em... - Digitou algo no teclado e em seguida virou o visor do computador em minha direção. Um calendário digital apareceu. - Setembro.
Seis meses. Definitivamente o universo me odiava. Me odiava com muita força.
- Não tem como mudar? - Talvez eu estivesse agindo como uma criança mimada, mas Richard e eu já tínhamos tido encontros esquisitos demais para arriscar que aquilo continuasse a acontecer.
Sarah juntou as sobrancelhas parecendo confusa e preocupada.
- Algum problema?
- Deixa pra lá. - Respondi rapidamente, forçando um sorriso.
Sim. O universo estava me pregando uma linda peça.
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