Best of me
Assim que abriu os olhos Greta percebeu que não tinha sonhado. Acordou no pequeno sofá de dois lugares com a cabeça latejando e a lembrança agridoce de que um idol tinha passado por ali, sentado naquele mesmo sofá e servido de travesseiro para ela durante sua bebedeira. Fechou os olhos com vergonha, mas isso trouxe a memória da segunda parte da conversa, onde ele dizia que gostava dela. "Quero te conhecer. Porque gosto de você. Não precisa ter mais explicação que isso. "
De fato, quais outras explicações ela esperava que ele desse? Existe explicação para gostar de alguém assim? Passou as mãos no rosto, soltando um suspiro alto. O que faria agora? Num único dia tinha tido um quase encontro com Min Su e ouvido uma declaração de Yoongi. Tinha brigado com Micha e bebido até esquecer disso.
Soltou outro suspiro e sentou-se num único movimento, dando de cara com Micha sentada numa cadeira à mesa da cozinha. Estava com os olhos inchados, já de uniforme e tomando o próprio café da manhã. Greta sentiu-se a pior mãe do mundo. Olhou para a filha ao se sentar do outro lado da mesa pequena, insegura se deveria agir como se nada tivesse acontecido ou se revivia a conversa da noite anterior. Nunca tinham brigado daquele jeito, muito menos recebido alguém tão famoso logo em seguida. Estavam pisando em solo novo e nenhuma das duas sabia como agir.
— Tem café fresco na cafeteira. — Micha murmurou encarando a própria torrada. — Mais fresco do que o que fez de madrugada, no caso. — completou levantando os olhos para Greta. Estavam vermelhos, mas secos.
Para ganhar tempo, Greta foi até o armário, pegou sua xícara de dia das mães e a encheu de café quase até a boca. Sentia que o dia seria longo e a dose normal de cafeína não seria o suficiente para diminuir a dor de cabeça e a vergonha que sentia.
— Era ele, não era? — perguntou Micha quando ela se sentou de novo. Ainda não olhava para a mãe, mas Greta considerou que o fato dela estar conversando significava que estava quase tudo bem. Quase. — Ontem a noite...
— Era.
— E ele disse que gostava da senhora.
"Senhora". Não estava tudo bem ainda. Greta soltou um suspiro e apoiou a cabeça numa das mãos, afundando-a nas tranças e fechando os olhos.
— Disse. Ele disse isso. — respondeu ainda sem saber como reagir a tudo o que havia acontecido na noite anterior.
— E você? — agora Micha a olhava direta e duramente. Parecia julgar cada gesto dela, desde o levar da xícara aos lábios até as mãos nervosas indo da xícara para o cabelo e de volta para a xícara.
— O que tem eu?
— Gosta dele ou do Seboso?
Greta não queria, mas acabou dando uma risadinha ao ouvir o apelido que a filha tinha dado para Min Su. Tentou esconder com o café, mas tinha certeza que a menina tinha percebido, porque de repente a expressão séria havia amenizado muito.
— Não importa de quem eu gosto, filha. — respondeu com um sorriso sem humor. — Não vai acontecer com nenhum deles.
— Por que não? Não tem vontade de namorar de novo?
— Minhas vontades são o que menos importa nesse momento, filha. — respondeu dando um gole no café. Tinha caído na ilusão de que podia namorar, conhecer um homem, talvez recomeçar. Mas não queria ver isso impactando negativamente na vida de Micha. Na verdade, não sabia se queria saber como seria isso. Estava confortável sendo só as duas, se davam bem, se amavam, se entendiam até mesmo por pensamento, por que mudar isso agora? Por que incluir uma terceira pessoa num relacionamento que já era perfeito? Tinha medo de como isso afetaria a vida dela para sempre e ela definitivamente não se perdoaria nunca por isso.
— Eu... Eu sinto muito pelo que disse ontem, mãe. — falou a menina desviando o olhar e cutucando uma pele levantada das unhas das mãos. "Mãe". Não era mais "senhora".
— Eu sei.
— Eu gosto do Suga, mãe. Não conheço o Seboso.
— Ele se chama Min Su.
— Min Seboso. Não gosto dele. — respondeu.
Greta ficou em silêncio, esperando o resto. Sabia que Micha tinha passado a noite se preparando para aquela conversa, por isso estava com os olhos vermelhos e inchados. Provavelmente tinha chorado muito antes e depois de Yoongi ir embora, mas não tinha tido coragem de pedir desculpas antes.
— E se ele... — a menina parou e puxou o ar, tentando controlar as lágrimas. — E se ele não me quiser? E se ele te pedir para me mandar para a casa da vovó? E se você não me quiser mais? — a cada pergunta ela puxava o ar com força, segurando os soluços, porque as lágrimas vieram independente da força que fizesse. Greta se levantou e correu abraçar a filha, agachada ao lado da cadeira e a apertando nos braços enquanto ela chorava como a criança que era.
— Isso nunca vai acontecer, Pequena. Nunca. — murmurou passando a mão de leve nos cabelos longos, consolando-a. — Eu não existo sem você, Micha.
Sentiu as mãos da filha segurando algumas tranças, os braços apertados ao redor de si, retribuindo o abraço e se pendurando ali, como um filhote indefeso. Micha agora soluçava sem conseguir dizer nada, finalmente desabafando todo o sofrimento que havia acumulado desde a primeira noite quando Greta tinha contado sobre seu encontro com o cliente famoso, que agora sabiam ser Suga. Deixou a menina chorar a vontade, sempre consolando-a.
— O único amor que cabe na minha vida é o que eu sinto por você, Pequena. Não tem ninguém nesse mundo que vá mudar isso. Não tem Suga, não tem BTS, não tem Seboso. Ninguém nunca vai ser capaz de me fazer desistir de você, ok? — falou desfazendo o abraço e encarando o rosto inchado da filha quando ela soltou um riso triste ao ouví-la se referir a Min Su como Seboso.
— Mas e se você ficar sozinha...?
— Nunca vou ficar sozinha. Eu tenho você. — limpou os olhos da filha gentilmente, tirando o cabelo do caminho e sorrindo. — Nunca vou deixar ninguém ficar entre nós duas, entendeu? Eu nunca, nunca, nunca vou amar ninguém do jeito que eu amo você, filha. Ta bom?
— Uhm. — concordou a menina limpando o rosto com um dos braços, o corpinho ainda balançando com os soluços que dava vez ou outra.
— Quer faltar à escola hoje? — Greta perguntou em tom conspiratório. Ainda teria que trabalhar, mas podia se dar ao luxo de perder a aula na faculdade e passar pelo menos a manhã com Micha. Mas a menina negou com a cabeça, ainda limpando o rosto. — Comer brigadeiro e assistir televisão? Se quiser, eu deixo.
— Não. Eu vou.
— Tem certeza?
— Tenho... eu... — hesitou. — Posso contar que conheci o Suga para as minhas amigas? — perguntou insegura. Greta sorriu. Era por isso que ela queria ir então. Suga tinha deixado um autógrafo diretamente para ela antes de voltar para Seul porque achou que tinha ficado devendo depois do encontro deles em frente à loja de conveniência. Essa era outra das inúmeras coisas surreais que haviam acontecido. Antes de saírem para conversarem do lado de fora do prédio, ele havia feito questão de se aproximar de Micha, garantir que se tivesse alguma chance, nunca magoaria Greta. A brasileira sentia as borboletas ganhando vida sempre que lembrava disso, dele dizendo que gostava dela e que ia tentar essa chance. Que Micha não precisava se preocupar.
— Pode. Mas não pode contar que foi aqui. Ou o que ele disse. — argumentou. — Se alguém souber que ele veio até a sua casa nenhum de nós terá paz. E isso o inclui. Sabe disso, não sabe? Não vai ser legal ver ele ser assediado pelos jornalistas e paparazzi e sasaengs e todo tipo de loucura que a fama traz. Sem contar que vão nos perseguir mais do que nunca pelo mesmo motivo.
— Eu sei. Ele também é um ser humano e merece respeito. Eu sei. Você já me ensinou isso.
— Isso.
Greta a abraçou apertado, querendo que Micha e ela tivessem uma vida melhor, mais simples, onde não precisassem fugir de nada nem de ninguém. Onde ela pudesse se achar merecedora de amar de novo.
— Vou dizer que você percebeu que era ele no outro dia. Elas não precisam saber que foi ontem. — justificou a menina sem necessidade.
— Eu te amo, Micha. Sabe disso, não sabe?
— Eu sei. — a menina apertou os braços de novo ao redor do pescoço da mãe. — Eu não me importo que namore, mamãe. Quero que seja feliz.
— Mas só se for o Suga. — completou Greta lendo o pensamento da filha.
— É. — concordou se afastando e sorrindo.
— E se eu me apaixonar pelo... pelo, sei lá, RM, por exemplo?
— Você nem sabe quem é ele, para começo de conversa. Não vai reconhecer mesmo que ele viesse com o Suga. — respondeu a menina torcendo o nariz. Greta riu alto, jogando a cabeça para trás. — Mesmo assim, melhor ele que o Seboso. — completou. Greta riu de novo.
— Esqueceu que eu fui ao show? Agora eu sei quem é quem.
— Duvido. Demorou para entender que o Seboso não era o Suga. — teimou Micha.
— Ok, ok. Você venceu. Nada de namorados.
— Não foi o que eu disse.
— Certo. Está pronta? Acho que posso te levar à escola hoje. Que tal? Pelo menos isso, hein? — ela se levantou e sorriu. A dor de cabeça tinha passado, assim como o peso em seu coração por ter brigado com Micha.
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Nota da autora: espero que tenham gostado. Boa leitura <3
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